Vejo
tudo centésimos de segundos antes de acontecer
E saio
de dentro de mim para me defender
Mas fico
imóvel, parada num tempo que não quero ver
Retiro
tudo de mim para fora da cena
E olho
para dentro dela, de fora, como num teatro de marionetas
Fecho
os sentimentos e as emoções no local mais escondido em mim, congelada na peça
E olho
para dentro dela, de fora, o mais friamente que consigo
Gravo
toda a acção de todos os actos que se seguirem
E revivo tudo
já de fora, segundos, minutos, semanas às vezes, depois da peça sair de cena
E sinto
todas as emoções numa espiral que mais ninguém vê
E demoro
muito tempo a encontrar a saída para dentro de mim
E desisto
de explicar esta complexa trama que bordo em torno de mim
Assusto-me
quando deixo escapar os milésimos de segundo de segurança
E não consigo sair
de mim, e deixar de sentir, e virar as costas, e defender-me a tempo
E então absorvo
todo o guião como barro girando que se vai moldando pelas mãos do artesão
E então salto
para outros filmes qual Alice caindo noutra dimensão
E então não controlo
a realidade que vivo, porque no palco um labirinto de espelhos faz-me perder de mim
E então assusto-me
com esta montagem desordenada que, tantas vezes, ultrapassa o que, na verdade, se passa nesses milésimos de segundo
Vivo
todas as cenas de uma só vez
Re.ajo
de acordo com o tamanho dos moinhos que rodam dentro de mim
E sinto
todas as emoções numa espiral que mais ninguém vê
E demoro
muito tempo a encontrar a saída para dentro de mim
E desisto
de explicar esta complexa trama que bordo em torno de mim
Liliana Lima
sexta-feira, agosto 25, 2017
gAIvotas
Lá fora as gaivotas choram, ou riem (não lhes consigo distinguir a narrativa)
O mar ao fundo do fundo de todos os barulhos da noite, conta-me histórias de embalar
Mas desde cedo que não é com histórias que lá vou e o sono, acordado, diz-me que já é de madrugada
Antigamente era comum ficar em conversa com a lua
Espreitar-lhe o quarto e sentir-lhe o humor
Sentava-me ao pé da janela, sempre tive as escrivaninhas encostadas a uma janela
E escrevia com a cumplicidade silenciosa do luar
A noite sempre se mostrou mais próxima de mim, da minha essência, da minha verdade
#Uma moto ruidosa rasga a tranquilidade desta noite tão clara e os cães acordam assustados, sobressaltando os donos e vizinhos#
Mais tarde chegaram os filhos e, quem sabe, os anos e os médicos com as suas milagrosas teorias, diagnósticos e penitências
E fui como que obrigada a esquecer a noite e abraçar os dias e as suas longas horas claras
Quanto à lua, não deixei de lhe espreitar o quarto e dizer olá mas, no fundo, como que a abandonei
Hoje em dia já consigo escrever em plena praia ou até no meio do mais barulhento recreio
Nos cadernos, de capa preta, rabiscados, com setas, anotações e até flores secas
Ou num simples guardanapo que depois guardo bem dobrado na carteira
Ou cada vez mais, no teclado dum qualquer equipamento electrónico
#A passagem dum grupo animado e bem audível pelas ruas em volta, diz que a madrugada não tarda a acabar#
No entanto lá fora ainda as gaivotas que riem chorando, ou choram rindo
Mas ao fundo do fundo de todos os barulhos desta noite, deixo de ouvir os búzios contando histórias do mar
Tu dormes
Acho
Não te consigo chegar para me certificar
E, talvez, te queira assim, imaginando
A dormir
Para que eu possa velar o teu sono
Daqui, deste lado da noite
Levanto-me e vou à varanda, que não dá para o Tejo, que deixei lá atrás
E espreito a lua para lhe dizer desta minha noite tão clara
Não lhe encontro o quarto, era crescente, muito no início
Imagino-a então contigo, aninhada, a salpicar de estrelas os teu sonhos
#O barulho do carro do lixo e os vizinhos de cima na sua casa-de-banho, trazem-me de volta aqui, a esta folha de papel onde, na verdade, nada conto#
Lá fora as gaivotas já não cantam
E o céu, muito devagar vai deixando antever que, como sempre "amanhã será outro dia"
Volto para dentro num arrepio e olho sem grande intetesse para a cama, aberta, à minha espera
Resignada, abro a gaveta de cima da mesa-de-cabeceira e tiro um smarti com a promessa duma noite tranquila
Tomo o segundo da noite em deixo-me enganar pelas promessas que me faz
Tu dormes
Acho
Não tenho como saber
Antes de me deitar, olho para a fresta aberta da janela
E peço ao luar que te entregue o meu beijo
Recebeste?!
Liliana Lima
O mar ao fundo do fundo de todos os barulhos da noite, conta-me histórias de embalar
Mas desde cedo que não é com histórias que lá vou e o sono, acordado, diz-me que já é de madrugada
Antigamente era comum ficar em conversa com a lua
Espreitar-lhe o quarto e sentir-lhe o humor
Sentava-me ao pé da janela, sempre tive as escrivaninhas encostadas a uma janela
E escrevia com a cumplicidade silenciosa do luar
A noite sempre se mostrou mais próxima de mim, da minha essência, da minha verdade
#Uma moto ruidosa rasga a tranquilidade desta noite tão clara e os cães acordam assustados, sobressaltando os donos e vizinhos#
Mais tarde chegaram os filhos e, quem sabe, os anos e os médicos com as suas milagrosas teorias, diagnósticos e penitências
E fui como que obrigada a esquecer a noite e abraçar os dias e as suas longas horas claras
Quanto à lua, não deixei de lhe espreitar o quarto e dizer olá mas, no fundo, como que a abandonei
Hoje em dia já consigo escrever em plena praia ou até no meio do mais barulhento recreio
Nos cadernos, de capa preta, rabiscados, com setas, anotações e até flores secas
Ou num simples guardanapo que depois guardo bem dobrado na carteira
Ou cada vez mais, no teclado dum qualquer equipamento electrónico
#A passagem dum grupo animado e bem audível pelas ruas em volta, diz que a madrugada não tarda a acabar#
No entanto lá fora ainda as gaivotas que riem chorando, ou choram rindo
Mas ao fundo do fundo de todos os barulhos desta noite, deixo de ouvir os búzios contando histórias do mar
Tu dormes
Acho
Não te consigo chegar para me certificar
E, talvez, te queira assim, imaginando
A dormir
Para que eu possa velar o teu sono
Daqui, deste lado da noite
Levanto-me e vou à varanda, que não dá para o Tejo, que deixei lá atrás
E espreito a lua para lhe dizer desta minha noite tão clara
Não lhe encontro o quarto, era crescente, muito no início
Imagino-a então contigo, aninhada, a salpicar de estrelas os teu sonhos
#O barulho do carro do lixo e os vizinhos de cima na sua casa-de-banho, trazem-me de volta aqui, a esta folha de papel onde, na verdade, nada conto#
Lá fora as gaivotas já não cantam
E o céu, muito devagar vai deixando antever que, como sempre "amanhã será outro dia"
Volto para dentro num arrepio e olho sem grande intetesse para a cama, aberta, à minha espera
Resignada, abro a gaveta de cima da mesa-de-cabeceira e tiro um smarti com a promessa duma noite tranquila
Tomo o segundo da noite em deixo-me enganar pelas promessas que me faz
Tu dormes
Acho
Não tenho como saber
Antes de me deitar, olho para a fresta aberta da janela
E peço ao luar que te entregue o meu beijo
Recebeste?!
Liliana Lima
quarta-feira, agosto 23, 2017
as VELHAS da praia
Sei que voltas. Mas ainda agora saíste e já algo de nós ficou. Um nó, uma rede, que caiu no porão com o embate das tuas malas.
Sei que voltas. Mas os minutos estendem-se para além das horas. E lá fora podia jurar que "as velhas da praia" a gritar... Mas, "São loucas! São loucas?"
Sei que voltas. Mas dói esta presença ausente que me faz esperar junto à janela desta lua que me/te ilumina como que numa promessa velada.
Sei que voltas. Mas não posso continuar a pedir às gaivotas que me guardem, "perfeito, o meu coração".
Sei que voltas. Mas tenho de me proteger, e ainda que 'tudo em meu redor me diga que estás sempre comigo', não te vejo, não te oiço, não te sei.
Sei que voltas. Mas quem és quando aqui não estás, não é quem por cá se instalou de pedra e cal 'dentro do meu coração'.
Sei que voltas. Mas pergunto ao luar como se volta depois deste afastar.
Sei que voltas. Mas sei também da surpresa, da interrogação, da não compreensão. E sei o quanto marcam a ferro e fogo o fundo do meu coração.
Sei que voltas. Sei até que já tentaste encurtar o caminho desenhado por ti a lápis azul no mapa astral dos planetas e constelações.
Sei que voltaste.
Mas como aquecer o vazio se "acordei tremendo deitada na areia"?
Sei que voltaste.
"Como sempre, como antes". Como se o tempo aqui tivesse congelado à espera do teu olá.
Sei que voltaste.
E foi no momento em que pegaste nas malas que me apercebi que quem fica não tem uma redoma onde pára os ponteiros e abafa os sentimentos.
Sei que voltaste.
Diz-me, então, que faço eu agora com a bagagem que nestas noites carreguei?...
Liliana Lima
Sei que voltas. Mas os minutos estendem-se para além das horas. E lá fora podia jurar que "as velhas da praia" a gritar... Mas, "São loucas! São loucas?"
Sei que voltas. Mas dói esta presença ausente que me faz esperar junto à janela desta lua que me/te ilumina como que numa promessa velada.
Sei que voltas. Mas não posso continuar a pedir às gaivotas que me guardem, "perfeito, o meu coração".
Sei que voltas. Mas tenho de me proteger, e ainda que 'tudo em meu redor me diga que estás sempre comigo', não te vejo, não te oiço, não te sei.
Sei que voltas. Mas quem és quando aqui não estás, não é quem por cá se instalou de pedra e cal 'dentro do meu coração'.
Sei que voltas. Mas pergunto ao luar como se volta depois deste afastar.
Sei que voltas. Mas sei também da surpresa, da interrogação, da não compreensão. E sei o quanto marcam a ferro e fogo o fundo do meu coração.
Sei que voltas. Sei até que já tentaste encurtar o caminho desenhado por ti a lápis azul no mapa astral dos planetas e constelações.
Sei que voltaste.
Mas como aquecer o vazio se "acordei tremendo deitada na areia"?
Sei que voltaste.
"Como sempre, como antes". Como se o tempo aqui tivesse congelado à espera do teu olá.
Sei que voltaste.
E foi no momento em que pegaste nas malas que me apercebi que quem fica não tem uma redoma onde pára os ponteiros e abafa os sentimentos.
Sei que voltaste.
Diz-me, então, que faço eu agora com a bagagem que nestas noites carreguei?...
Liliana Lima
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sábado, agosto 19, 2017
INQUIETAção
Das horas que não passam
E da espera
Dos cenários imaginados
E da espera
Das razões que não explicam
E da espera
Da ausência habitada pela vontade
E da espera
Das certezas que se perdem nas horas
E da espera
Da saudade que nunca se cala
E da espera
Do silêncio onde se escrevem os medos
E da espera
Da palavra que não é dita
E da espera
Do mar que não traz a mensagem
E da espera
Da inquietação
E da espera
Liliana Lima
E da espera
Dos cenários imaginados
E da espera
Das razões que não explicam
E da espera
Da ausência habitada pela vontade
E da espera
Das certezas que se perdem nas horas
E da espera
Da saudade que nunca se cala
E da espera
Do silêncio onde se escrevem os medos
E da espera
Da palavra que não é dita
E da espera
Do mar que não traz a mensagem
E da espera
Da inquietação
E da espera
Liliana Lima
quinta-feira, agosto 17, 2017
admirável mundo NOVO
- Olhos-nos-olhos
Disse ela, assim, tão só, sem mais nada, nem mesmo pontuação, através do teclado do
telefone.
Ela que escrevia tanto, escrevia tudo, o que sentia e como sentia, que descodificava as
figuras de estilo só para ter certeza que era entendida. Dando-se em escrita, como afinal sempre sonhara dar-se. Deixava cair, com grande estrondo, a mensagem. Sem
enquadramento nem explicação.
Ele já a conhecia tão bem! Sabia-lhe o estado de alma às primeiras letras. Ouvia as
entrelinhas, mesmo as que não conseguia interpretar. Saboreava-lhe o humor algo
apimentado. Sentia-lhe a inquietação a subir em flexa. E dispensava explicações ou
esclarecimentos. Lia-a em cada palavra, que sabia ter sido prepositada e muitas vezes
inusitadamente escolhida, para aquela posição naquela frase.
Ele em silêncio sem ter certeza de como a ler. Ele, desta vez, à espera do resto, dos verbos que nem existiam, dos adjectivos, um ponto de interrogação, exclamação, um ponto apenas.
Eles que desde há tanto tempo gastavam as palavras sem nunca as desperdiçar pela rua. Eles que já eram nós. Um nós nascido e criado numa narrativa que era muito mais do que a soma das de cada um. Eles à espera, em silêncio, do ecoar morno a que as suas palavras os habituaram.
Ele pega no telefone e arrisca,
- Olhos-nos-olhos?
E recebe de volta um simples e singelo,
- Sim.
Num segundo um oceano de imagens, construídas por expressões e figuras de estilo, percorreu todo o corpo dele. Recortes dela projectados dentro de si. Do quanto escreveram até a conhecer ao ponto de a saber saborear, intuir, antecipar, alegrar e até entristecer, palavra-a-palavra.
Mas “olhos-nos-olhos” as palavras ganham outras dimensões, vestem-se de outros
significados. E ele sentia-se bem assim. Gostava dela assim. Desejava-a assim. Nesta
narrativa partilhada, em que cada um se escrevia tão mais profundamente do que em qualquer vulgar relação dependente dos sentidos. Aliás, quanto mais olhava para o ecran do telefone, mais certeza tinha que não queria pôr em risco os riscos com que a escrita a desenhara no seu imaginário.
Não, eles que em narrativa se tornaram nós, não precisavam dos olhos para se ver. Esta narrativa escrita ao longo dos anos, e já lá iam quase quatro, estava muito além do estar. Porque o sentir, esse, vivia intinsecamente em cada palavra que se escreviam.
Decidiu, por fim, quebrar o silêncio gélido que os separava, com um simples e singelo,
-Não!
segunda-feira, agosto 07, 2017
PeRtO
Olho-te de tão longe...
Sinto-te em cada palavra
Vejo-te em cada letra
Oiço-te em cada espaço
Olho-te de tão longe,
De repente tão perto nesta singela frase
"Também gosto de ti"
E a lua, cheia, que ilumina a distância
A trazer-me o silêncio da suspresa repetida
A cada vez que te leio
Olho-te, assim, de tão longe
Nas palavras que cheiram a ti
Nas frases a que me agarro para chegar aí
Onde me dizes que gostas de mim
Olho-te daqui, onde
A lua te traz em tudo o que escreves
A distância encurta e ilumina o sorriso
E a surpresa se repete e ecoa na noite
Olho-te de tão longe
E sei-te tão perto...
Liliana
Sinto-te em cada palavra
Vejo-te em cada letra
Oiço-te em cada espaço
Olho-te de tão longe,
De repente tão perto nesta singela frase
"Também gosto de ti"
E a lua, cheia, que ilumina a distância
A trazer-me o silêncio da suspresa repetida
A cada vez que te leio
Olho-te, assim, de tão longe
Nas palavras que cheiram a ti
Nas frases a que me agarro para chegar aí
Onde me dizes que gostas de mim
Olho-te daqui, onde
A lua te traz em tudo o que escreves
A distância encurta e ilumina o sorriso
E a surpresa se repete e ecoa na noite
Olho-te de tão longe
E sei-te tão perto...
Liliana
sexta-feira, agosto 04, 2017
bARULHO
O medo.
Que entra por baixo da porta e invade todo o espaço.
Que me asfixia e não me deixa pensar.
O silêncio.
E tanto barulho dentro de mim que não consigo calar.
Um vazio que enche todas as certezas.
A dúvida.
Que cresce no vazio e no silêncio da omissão.
E se estende por todo o espaço e me assusta.
Sempre tive medo do silêncio.
Sempre fugi do vazio.
Sempre me deixei vencer pela dúvida.
Sempre me obriguei a adivinhar.
E sempre me perdi neste imenso barulho que nunca se cala.
O medo da omissão.
O barulho.
O silêncio que grita.
O barulho.
O vazio do espaço.
O barulho.
A certeza da dúvida.
O barulho.
O barulho ensurdecedor que ecoa em mim e não me deixa pensar.
Liliana
Que entra por baixo da porta e invade todo o espaço.
Que me asfixia e não me deixa pensar.
O silêncio.
E tanto barulho dentro de mim que não consigo calar.
Um vazio que enche todas as certezas.
A dúvida.
Que cresce no vazio e no silêncio da omissão.
E se estende por todo o espaço e me assusta.
Sempre tive medo do silêncio.
Sempre fugi do vazio.
Sempre me deixei vencer pela dúvida.
Sempre me obriguei a adivinhar.
E sempre me perdi neste imenso barulho que nunca se cala.
O medo da omissão.
O barulho.
O silêncio que grita.
O barulho.
O vazio do espaço.
O barulho.
A certeza da dúvida.
O barulho.
O barulho ensurdecedor que ecoa em mim e não me deixa pensar.
Liliana
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