segunda-feira, abril 10, 2017

GAveTA

Vivemos numa gaveta cada vez mais delimitada. Reservada. Supostamente aberta mas a cada dia mais fechada. Apertada.


Lá dentro, a sós, a música toca sempre certa no rádio que canta tudo o que não vivemos enquanto avisa que a cidade, adormecida, está pronta para nós. 



Cá fora, fora do tempo e da música e da gaveta, com a cidade acordada, trocamos palavras invisíveis sobre sentimentos amordaçados. Cada vez mais limitados às paredes desta gaveta feita cama.



Cá dentro, nesta cama-gaveta cumpre-se a coreografia perfeita, de tantas vezes dançada. O ar é quente e os corpos dão-se sem pudores ou receios. 



Mas sempre que pela fresta aberta entra a luz lá de fora, todo o espaço se preenche com os fantasmas e as feridas e os receios que tingem os silêncios, cortam as horas e consomem o ar.


Estamos numa gaveta cada vez mais delimitada. Eu finjo que não sinto. Tu finges que não sabes. 

Liliana Lima


domingo, abril 02, 2017

manter PERTO

Afasto(-me) depois de tantos ameaços gritados no espaço vazio que separa as palavras que (te) continuo a dizer 

Afasto(-te) em cada silêncio que continuas a fazer ecoar dentro do meu ser

Afasto(-me) das palavras que já não consigo encaixar no fundo do meu reflexo nas águas 

Afasto(-te) com medo das letras que unes e me ofereces em palavras ditas com uma incerteza que se me crava na pele

Afasto(-nos) de todo meu querer, o meu sentir, a mimha vontade, que antes repetia para nos aproximar, mas que hoje retraio com medo de tudo o que não me dizes

Afasto(-nos) das palavras amor, carinho, olhos, mãos, corpo... com receio das palavras fantasma, ainda, quase, acho, não sei

Afasto(-me), porque me parece ser a única forma de me manter perto


Liliana Lima