"Tem uns olhos bonitos."
A sala de repente em silêncio e todos os movimentos suspensos no tempo.
"Estará a falar comigo?"
A dúvida em surdina e a minha cara a aquecer.
"Tem uns olhos bonitos."
A rapariga, até ali invisível e camuflada no restaurante, a aparecer, a fazer-se ouvir.
"Obrigada."
A voz embargada, escondida no vermelho da cara e na surpresa da afirmação.
E os movimentos que se apressam a recuperar o tempo.
E a banalidade da frase a instalar-se no rápido avanço do assunto de conversa.
Ainda o calor, a dúvida e a surpresa em surdina.
E eu de repente invisível, camuflada na banalidade da conversa que me ignora.
E a noite, branca, que acaba longe do restaurante e da rapariga e de ti.
"Tem uns olhos bonitos."
E a lembrança de outras noites a acordar, quando as frases ainda estavam vivas e os meus olhos eram dois faróis que te iluminavam.
Liliana
sábado, novembro 26, 2016
terça-feira, novembro 22, 2016
fALTA
Faz falta alguém que nos faça falta
Não que a ausência nos imobilize
Mas que seja notada a falta de quem nos faz, falta
quando o sol brilha dentro e fora de nós,
quando precisamos de colo,
quando a vida nos tráz à memória um filme,
quando a lua imponente nos sorri,
quando nos sentimos mais pequenos que a sombra do meio-dia,
quando vemos um arco-íris,
quando sentimos o mar inteiro escorrer pelos olhos,
quando sentimos o coração bater descompassado,
quando chegamos ao fundo de mais um copo,
quando o livro que lemos parece escrito para nós,
quando não queremos ver ninguém,
quando encontramos uma papoila no campo,
quando perdemos a esperança,
quando nos deitamos para dormir,
quando sentimos fugir o chão,
quando cantamos todas as canções que se atropelam no decorrer do dia-a-dia,
quando o corpo quente pede o toque de outra pele,
quando as noites teimam em passar brancas,
quando alimentamos a utopia com a força dos sonhos.
E quando queremos tudo, menos sentir falta de alguém...
Liliana Lima
Não que a ausência nos imobilize
Mas que seja notada a falta de quem nos faz, falta
quando o sol brilha dentro e fora de nós,
quando precisamos de colo,
quando a vida nos tráz à memória um filme,
quando a lua imponente nos sorri,
quando nos sentimos mais pequenos que a sombra do meio-dia,
quando vemos um arco-íris,
quando sentimos o mar inteiro escorrer pelos olhos,
quando sentimos o coração bater descompassado,
quando chegamos ao fundo de mais um copo,
quando o livro que lemos parece escrito para nós,
quando não queremos ver ninguém,
quando encontramos uma papoila no campo,
quando perdemos a esperança,
quando nos deitamos para dormir,
quando sentimos fugir o chão,
quando cantamos todas as canções que se atropelam no decorrer do dia-a-dia,
quando o corpo quente pede o toque de outra pele,
quando as noites teimam em passar brancas,
quando alimentamos a utopia com a força dos sonhos.
E quando queremos tudo, menos sentir falta de alguém...
Liliana Lima
sábado, novembro 12, 2016
verdade.iro
Sim, é negro o meu céu
É curto e apertado o espaço onde me penso
São muitas e confusas as linhas em que sinto
Sim, é íngreme o meu chão
São frágeis e finas as camadas que visto
É amarga a água que jorra de mim
Sim, é quente o Sol que me aquece
São verdes os campos que sonho
São puros os sorrisos que acendo
Sim, são estranhas as ideias que construo
São poderosas as palavras que me espreitam
É verdadeiro cada momento que vivo
Sim, é doce a água que de mim jorra
São fortes as camadas que me protegem
São muitas e confusas as estradas que percorro
Sim, é cruel o tempo que passa
São instáveis as casas que habito
É sempre longe, o amanhã
Sim, são amarelos os tijolos que colecciono
São vermelhos os sapatos com que danço
É verdadeiro cada momento que vivo
Liliana Lima
É curto e apertado o espaço onde me penso
São muitas e confusas as linhas em que sinto
Sim, é íngreme o meu chão
São frágeis e finas as camadas que visto
É amarga a água que jorra de mim
Sim, é quente o Sol que me aquece
São verdes os campos que sonho
São puros os sorrisos que acendo
Sim, são estranhas as ideias que construo
São poderosas as palavras que me espreitam
É verdadeiro cada momento que vivo
Sim, é doce a água que de mim jorra
São fortes as camadas que me protegem
São muitas e confusas as estradas que percorro
Sim, é cruel o tempo que passa
São instáveis as casas que habito
É sempre longe, o amanhã
Sim, são amarelos os tijolos que colecciono
São vermelhos os sapatos com que danço
É verdadeiro cada momento que vivo
Liliana Lima
sábado, novembro 05, 2016
Chão
De quando te foge o chão, e o pé descalço bate no asfalto
De quando estendes a mão à procura da calma que não volta na palma vazia
De quando te foge o chão, e as paredes rodam à tua volta como slides envelhecidos e desconexos
De quando os gritos te assustam e te ferem, num loop de memórias escondidas debaixo do tapete
De quando o silêncio te invade, como a maré que revolve a areia e desenterra as conchas e arranca as algas
De quando o calor que te falta enregela a cama e arrefece os lençóis e te esvazia as emoções
De quando te foge o chão e os fantasmas, fechados nas arcas, se soltam numa dança de bruxas
De quando te sentes afundar em ti, e por momentos te perdes no poço onde moram os medos
De quando precisas duma palavra, abraço, duma palavra, mão, duma palavra, carinho , e te falta a voz para as pedires
De quando te foge o chão e, de repente escuro, de repente longe, de repente só, não o consegues agarrar
De quando te foge a paz, e "num segundo se envolam muitos anos"(*).
Liliana Lima
De quando estendes a mão à procura da calma que não volta na palma vazia
De quando te foge o chão, e as paredes rodam à tua volta como slides envelhecidos e desconexos
De quando os gritos te assustam e te ferem, num loop de memórias escondidas debaixo do tapete
De quando o silêncio te invade, como a maré que revolve a areia e desenterra as conchas e arranca as algas
De quando o calor que te falta enregela a cama e arrefece os lençóis e te esvazia as emoções
De quando te foge o chão e os fantasmas, fechados nas arcas, se soltam numa dança de bruxas
De quando te sentes afundar em ti, e por momentos te perdes no poço onde moram os medos
De quando precisas duma palavra, abraço, duma palavra, mão, duma palavra, carinho , e te falta a voz para as pedires
De quando te foge o chão e, de repente escuro, de repente longe, de repente só, não o consegues agarrar
De quando te foge a paz, e "num segundo se envolam muitos anos"(*).
Liliana Lima
" E por vezes”
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos
David Mourão-Ferreira
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