sexta-feira, agosto 26, 2016

a.QU.í

Não estou aqui
Também não estou aí 

Estou algures entre o agora e o sonho
Entre o que espero e o que receio 

Não estou aqui 
Espero por ti 
Para te perguntar por mim

Espero encontrar-te no que escrevo para saber que me vês 

Não estou aqui 
Quero-te aí 
E quero que me queiras aqui

Quero perceber que te falta o que de mim se perdeu, à procura de ti

Não estou aqui 
Também não estou aí 
Vagueio pelos dias numa ausência presente que me afasta do que (não) vivo sem ti

Liliana 



sexta-feira, agosto 19, 2016

Pedi.Do

Como te dizer do imenso mar de vida que nos separa? 
Como te explicar do tanto que uma só palavra diz? 
Como te falar do peso do desconhecido embrulhado no silêncio? 
Como te contar deste aperto no estômago que não me deixa dormir? 
Como te pedir que me entendas se nas minhas palavras me perdes? 
Como esperar que me respondas se não me consegues ler? 
E no entanto
eu digo
eu explico 
eu falo
eu conto 
eu espero 
não sei se cheguei a pedir 

Liliana


segunda-feira, agosto 15, 2016

Pra ia

Escorre-me a areia por entre os dedos ao sabor do vento 
E no entanto podia jurar que ainda agora a tua mão na minha

O Sol consome todo o horizonte com o virar da ampulheta 
São corpos recortados no prateado intenso que invadem a praia 
Figuras indistintas que não consigo nomear 

Semi-cerro os olhos doridos com a força da luz para te procurar 
E no entanto ainda agora podia jurar que te estava a abraçar 

Liliana Lima 


domingo, agosto 14, 2016

branco E preto

Ela não sabia se os camaleões conseguiam vestir-se de todas as cores. Ela queria ser capaz de se tornar no arco-íris sem esborratar a sua cor, única e verdadeira. 

Uma noite de Lua cheia, em que o Luar apagava as estrelas com a sua luz branca e toda a vida lhe parecia fugazes diferenças entre cinzas claros e escuros, o peso das horas pediu um novo vestido, não verde nem rosa, não roxo ou vermelho, mas preto, branco e preto apenas. 

Procurou no baú do guarda-roupa dos muitos teatros levados a cena em tantos palcos quantos a vida aplaudiu, ou correu o pano mesmo antes do final. Nos fatos e vestidos, por estrear pendurados por tons, ou espalhados e já gastos em muitos monólogos, nenhum branco e preto. 

Sem camuflagem, não conseguia entrar sem ser vista. Sem conseguir vestir-se das cores da noite, não conseguiria estar sem estar, olhar sem sentir, falar sem contradizer. 

Ela não sabia em quantas cores conseguiam os camaleões camuflar-se. Ela apenas queria ser capaz de vestir a cor certa para passar por entre o peso das horas num mundo a preto e branco. 

Liliana Lima 


sábado, agosto 13, 2016

sOU eu

Não é tua esta sombra que assombra o meu dia, meu amor.
Não é tua.
Guardo em mim a caixa de Pandora que abro a cada nascer do Sol. E dela tiro a ponta dos fios coloridos de algodão com que teço as teias por onde filtro as imagens do dia. 

Não é teu este medo que eleva as ondas do meu mar, meu amor.
Não é teu.
Todas as noites de Lua nova rasgo o lençol com que não nos tapamos e coso uma nova vela com que, repetidamente, tento navegar até "lá para os lados do oriente".

Não é teu este mapa rasgado onde me perco, meu amor.
Não é teu.
Acredito na estrada de tijolos amarelos que me levará de regresso a casa. Mas nem sempre a consigo encontrar nas encruzilhadas da vida.

Não é teu este poema que diz o que não diz, meu amor.
Não é teu.
Desenho as palavras com que construo uma narrativa em caracol, que gira em roda de si própria fazendo-me perder e reencontrar numa tempestade de sentidos.

Não és tu, meu amor.
Sou eu.


Liliana


quarta-feira, agosto 03, 2016

LiBerDaDe

Procuro o caminho desenhado na areia por um puzzle de quadrados de madeira, pintada dum azul que denuncia os muitos Verões que por eles já passaram em busca do mar.



Descalço-me e, em vez de seguir pelos quadrados, decido recortar eu própria um carreiro. Quantas vezes me perdi por não construir uma nova estrada para mim.

Avanço por entre o mato, contornando os arbustos e descobrindo outros trilhos rasgados, antes de mim, na areia. Ando sem medos nem receios e desaguo no limiar da falésia.

Em baixo apenas as escarpas amarelas da arriba fóssil que se desfazem em areia que descolora até, branca, entrar no mar. E o céu, azul, este forte e vivo, que mergulha no mar e não deixa encontrar a linha do horizonte.

Aqui, no cimo da falésia, onde finco os pés na terra e abro os braços ao vento, sou livre. Não trago o peso dos dias nem os ecos das noites.

Aqui, no alto da arriba, sou. Apenas eu. Estou. Apenas o momento. Sinto. Apenas o vento. Saboreio. Apenas a maresia. Vejo. Apenas o mar. Quero. Apenas tudo!



Olho para trás e vejo o caminho de madeira, pintada de azul há muitos Verões, e o trilho que acabei de abrir.

Inspiro fundo e desço as muitas escadas cravadas na areia. Aqui em baixo não há tempo nem espaço, faço parte da praia e a praia sou eu.



Procuro um caminho marcado na areia em busca do amanhã. O mar balança e numa onda dançada diz-me, sorrindo, que tenho em mim todos os caminhos do mundo…



Liliana Lima

AMAnhã

Tenho uma urgência de viver que faz o meu tempo rolar como um cometa que rasga os ceus e, mais cedo ou mais tarde, embate na velocidade cruzeiro das tuas palavras. Vivo em aparente agitação, na verdade apenas a vontade de me/te dizer, saber, sentir, partilhar.

Tenho uma urgência de me dar que me atira sobre a areia ou recolhe de volta para o mar, conforme os teus olhos me vêm a mim, ou através de mim diluida numa maré baixa onde não estás. 

Tenho uma urgência em amar que me leva a bater-te à porta com tudo o que tenho, o bom e o mau, o bonito e o feio. Deitar-me nas tuas mãos e esperar que me saibas acolher.

Tenho uma urgência em dizer-me, ser em palavras, nas minhas palavras tão longe e tão perto das tuas, que por vezes pareço estrangeira. Eu que pensava a língua do amor universal e no entanto esta diversidade de sentires e quereres que urge entender.

Tenho uma urgência no estar, partilhar o espaço e as ideias e o banal de cada dia. Navego neste barco que não consigo parar e que segue a com corrente do meu tempo e a força dos ventos em que me dou e, na verdade, (sei-o tão bem) acaba sempre por zarpar antes do teu.


Esta urgência de mim choca com a velocidade cruzeiro de ti. Estudo o mapa e procuro os pontos cardeais da vida.

Quem sabe amanhã nos reencontremos num mundo só nosso "que pula e avança como bola colorida ente as mãos de uma criança"? 


Liliana







terça-feira, agosto 02, 2016

emBaLo

Diz-me como adormecer sem o teu corpo enlaçado no meu... Como deitar a cabeça nesta almofada fria depois da minha, ao teu lado, ter arrumado? 

Diz-me como embalar este silêncio que na noite ecoa se nele não sinto o teu respirar... Como desmontar os medos, que me espreitam da janela, se não oiço a tua voz para me acalmar? 

Diz-me como adormecer sem o teu beijo  de boas noites que o meu acorda... Como acalmar o meu corpo vazio sem o calor do teu? 

Diz-me, como encontrar o sonho sem te saber no meu?... 

Liliana 


segunda-feira, agosto 01, 2016

AlemTejo

Despes-me pétala a pétala, deitando o caule sobre as planícies douradas no final de mais um dia de Verão.

Tapo-me com as espigas que ondulam ao passar da tua aragem.  Aqui e ali as papoilas nascem e pintalgam o horizonte de vermelho. São o meu desejo que desponta nas curvas recortadas pelos acobreados que inundam o céu.

Ao fundo o teu vento entra por entre as searas e ceifa os campos, deixando um sulco de terra húmida que rasga os caminhos e penetra nos vales.

As papoilas soltam as pétalas vermelhas que esvoaçam e dançam com o vento que arrepia as searas desnudadas ao luar.

Sou caule e planície, e espero-te em cada espiga para aprisionar o teu vento, atrasar a ceifa e te fazer terra onde, semeada por ti, renasço.

O fim do dia agita os pássaros que voam em círculos e enchem o espaço com o seu chilrear. É nesse voo que, depois do Sol se esconder por completo e a Lua olhar o ondular dos campos húmidos e despenteados, nos encontramos, finalmente.

Com muito cuidado apanho as pétalas que espalhaste e entrego-te as espigas em que me deitei.

A Lua sorri enquanto todo o Alentejo adormece no silêncio prateado do nosso acordar.



Liliana Lima