terça-feira, junho 21, 2016

quero-TE

Sabes? 
Estou cansada
de sentir
de pensar,
de ter medo
("até de ter medo")

Sabes?
Já não consigo
continuar a andar
agarrada aos móveis 
para não cair

Sabes?
Não quero fixar
o olhar no retrovisor
travar a todo o instante
parar a cada curva

Sabes?
Quero novas palavras
de mãos dadas
e sorriso aberto

Sabes?
Acho que já posso sair 
pelos campos dourados,
contar papoilas
e semear cantos

Sabes?
Apetece-me sentir
e não questionar,
poder viver 
e não pensar

Sabes?
Quero-te


Liliana



sexta-feira, junho 10, 2016

Espera...

Hoje não quero esperar por ti
pelo teu beijo quente 
que humedece o meu corpo

Hoje não quero esperar pelos teus olhos 
que me despem
e me deitam na cama 

Hoje não quero esperar pelas tuas mãos 
que me desenham os seios 
descem as costas
e envolvem o ventre

Hoje não quero esperar por ti 
que abras a porta 
e feches a luz
para nos vermos melhor 

Hoje 
Quero 
Ser
Em
Ti 


Liliana Lima 


noVelos

Enrolando o novelo com as horas vazias do absurdo emaranhado de linhas da alma

Bordando o lenço com que a mão acena no cais a cada despedida que corta o rumo da gaivota

Embalando o vazio tão cheio de palavras cosidas em cima umas das outras para abafar as que não se querem dizer 

Alinhavando o alvoroço interno que tropeça no cais e se faz cascata abrupta rompendo as veias e queimando a pele

Retrocedendo os pontos para voltar à rota inicial antes das "chuvas de Maio fechando o Verão" 

Enrolando o novelo com os sonhos pintados outra e outra e outra vez porque o Sol sempre nasce quando a Lua se deita


Liliana Lima 


segunda-feira, junho 06, 2016

Lou.Cura

Olho através do espelho redondo com uma pega trabalhada em prata e procuro a minha loucura dentro dum chapéu. Os ponteiros lembram-me que as horas fogem de mim e saio com o miúdo pela mão, saltitando pelo jardim de relógio em punho. 

As minhas lutas jogam-se num tabuleiro de xadrez interno, onde as regras seguem as vontades voláteis duma rainha que, em mim, grita tão alto que quase deixo de ouvir o mundo fora do espelho. 

Sento-me comigo, numa dimensão multi-temporal, e bebo chá com as loucuras passadas enquanto invento novos chapéus para as que estão por vir. 

Sei há muito que o impossível é a desculpa que nos contamos, embrulhada num bolinho que nos faz diminuir, ao mesmo tempo que nos enroscamos num canto duma toca onde na verdade acabamos por cair.

O lado de lá(?) espelha o teu sorriso tranquilo, de quem nunca sentiu o cheiro da cola com que se faz um chapéu. Serás capaz de te sentar nesta mesa coberta de toda a loucura que, à hora do chá, se senta comigo? 

Apareço e esfumo-me à força das verdades que, de sorriso esvoassante, atiro ao ar em forma de borboletas azuis. Será que me sentes, enrolada no teu pescoço, sussurrando que o caminho que escolhes é indiferente enquanto não souberes para onde queres ir? Conseguirás dar-me a mão e acompanhar-me nesta aventura de loucuras guardadas em castelos de cartas?

O lado de lá(?) espelha os chapéus que guardo em cima do roupeiro. Nunca saio com eles, mas teimo em coleccioná-los, embrulhados em papel de seda ou fechados em caixas redondas de cartão. 

No lado de fora da janela voa uma borboleta azul e o relógio canta que são horas de sair. Guardo as cartas na caixa de madeira com um coração vermelho, apago o cachimbo que envolve de fumo a mesa do chá e desapareço por entre a loucura dos dias.

Olho através do espelho redondo com uma pega trabalhada em prata e vejo-te aproximar de chapéu na cabeça.

Liliana



sábado, junho 04, 2016

eCo

Quando o tempo pára 
no eco duma palavra 
nascida
em silêncio.

E se deixa ficar num flashback 
de memórias
recortadas 
que se sucedem ao ritmo 
do tempo... 
que parou.

Quando olhas em volta e tudo 
o que sabias 
deixou
de ser.

À tua volta apenas 
o eco recortado 
do silêncio 
em que, tens certeza, nasceu
a palavra.

Liliana