segunda-feira, abril 25, 2016

ser-TE

Queria ser-te a paz, apagar as inquietações em que tropeças. Ser água cristalina para em ti lavar os fantasmas que te acordam de madrugada. 

Queria ser-te o silêncio e calar as lágrimas em que te afogas. Pegar num regador azul claro e, com elas, inundar os medos que te doem no corpo. 

Queria ser-te o tempo que te falta a cada dia que passas a correr por entre as horas, sempre escassas. 

Queria ser-te a certeza que não tens de ti e para ti. Conseguir dizer-te das papoilas que abrem ao luar. E contar-te dos campos onde nascem os sorrisos. 

Queria-te a paz, o silêncio, o tempo e a certeza. 


Liliana Lima 


sexta-feira, abril 22, 2016

SErei

Serei ilha tranquila dentro da minha imensa inquietação 
e saberei conter o maremoto dos dias

Serei monte erguido no meio do mar revolto
e poderás em mim descansar por momentos 

Serei vulcão vivo onde vibra o ancestral desejo
e saberei acender em ti uma breve chama da vontade 

Serei areia macia da cor da paz ao luar estendida
e poderás em mim te enroscar

Serei ilha perdida no oceano das horas 
e poderás comigo adormecer ao relento

Liliana 


terça-feira, abril 19, 2016

corREDOR

Há uma caixa de madeira trabalhada, na gaveta do armário de canto, do quarto ao fundo do corredor. 

Há as palavras e os pontos de exclamação e as reticências e até mesmo as dúvidas, em papeis coloridos feitos rolinhos, em forma de mensagens. 

Há a entrada, quieta, e uma casa inteira aparentemente despida, que brinca às escondidas com os fantasmas que lá vivem. 

Há uma caixa de madeira trabalhada no quarto ao fundo do corredor, onde guardas as memórias dos fantasmas que não deixas sair. 

Liliana Lima 



domingo, abril 17, 2016

paLAVRAS

Dói-me o que trago para te dizer
aperta-se-me a garganta enquanto te canto a canção que embrulhei para te aninhar

Dói-me o que trago para te dar 
queima-me este embrulho que abro minuto - a - minuto para ti

Dói-me o que trago para te entregar 
foge-me este balão que solto no ar para que voes sem mim

Dói-me esta certeza que trago para partilhar 
este saber que recuso mas que se me cola à pele num vestido que, afinal, não é meu

Dói-me! 
Ah! Dói-me esta palavra que tenho de soletrar para que possas voar

Dói-me! 
Ah! Doem-me estas asas
que guardo num frasco de vidro e me gritam para ir, ir ter contigo 

Dói-me! 

Dói-me saber-te quase tão bem como a mim 
e sentir que te doem as palavras que trazes sem me dizer

Liliana 


sábado, abril 16, 2016

se me SEM TE

Se acordasse sem te trazer do sonho
Se me olhasse sem a tua sombra 
Se corresse sem a tua força 
Se amasse sem o ter ser
Se me aquecesse sem o teu suor
Se me vestisse sem a tua cor
Se me encantasse sem os teus olhos
Se sorrisse sem a tua voz
Se cantasse sem o teu assobio
Se lesse sem a tua mão 
Se contasse sem os teus dedos
Se me deitasse sem o teu corpo
Se adormecesse sem o teu respirar
Se te sonhasse sem estar acordada

Liliana 


terça-feira, abril 12, 2016

caMinHo

Chega-te a mim e olha o rio comigo. Vês-nos ali, reflectidos nos espelhos reluzentes que o Sol ilumina? O que nós andámos para aqui chegar!
Ainda ontem um sorriso tímido, atrevido, uma palavra mais ousada entre outras tantas tão contidas, cuidadosas. 
Deste conta que aqui chegámos?

Chega-te a mim e dá-me mão, essa mão onde já cabe, perfeito, o meu coração. Espreita comigo pelo buraco da fechadura dos medos. Vês como fomos, um a um, embrulhando os meus na certeza de que o Sol sempre nasce, mesmo depois da mais escura noite de Lua nova? Como vamos desmontando os teus, sempre calados, velados ou disfarçados de falsas certezas?
Ainda ontem um quarto escuro onde as sombras, soltas de cada menino, saltavam à corda com as inseguranças de cada manhã. 
Percebeste que já aqui estamos?

Chega-te a mim e embrulha-me num abraço, daqueles onde me consigo enroscar longe de tudo e de todos menos de nós. Sentes como nos aproximámos muito para lá dos corpos que sempre se souberam um do outro? Como nos apendemos a ler e a reconhecer um no outro sem pudor de nos despirmos depois dos corpos nús, húmidos e amachucados?
Conheces o mapa que nos trouxe até aqui?

Chega-te a mim e olha o meu  rio, ouve a minha cidade e lê a minha Lua.
Sabes de onde viémos e onde estamos?
(não te preocupes com para onde vamos, isso só saberemos depois de aqui vivermos)

Liliana


sábado, abril 02, 2016

KikO

Procuro debaixo dos lençóis, onde te enfiaste mais uma vez para "aquecer", os dias - tantos -  que a aritmética me diz que passaram desde a hora agitada em que te tiraram de dentro de mim. 
Mas, juro, não os encontro. 

Persigo, na cama onde te deito já a dormir, o rasto dos anos - tantos - que as fotografias dos teus primeiros minutos de vida me asseguram já somas. 
Mas, juro, não os descubro. 

Aconchego o teu corpo roliço, e antes de puxar os cobertores, descalço os teus pés miúdos. Sempre identifiquei os bebés pela forma arredondada dos pés que, com o correr do tempo se moldam ao andar. 
Mas, com um pézito em cada mão, juro, apenas vejo o bebé que, afinal há nove anos (já não) és... 

Liliana Lima