quinta-feira, março 31, 2016

FanTasMas

Olho em volta, o espaço aberto parece encolher a cada suspiro meu. 

Não estou aqui e não me encontro na outra margem. 
As palavras ecoam no barulho dos carros que param nos sinais, tropeçam nas vozes que falam em segundo plano, escondem-se nas nuvens que brincam no céu azul e mergulham no ondular das águas que se espreguiçam no Tejo.

Estás ao meu lado, deveras. 
Sinto-o quando me tocas as mãos ao de leve para reforçares o que me dizes. Sei-o porque os meus olhos se encontram nos teus e se reveêm no teu carinho. Percebo-o mesmo quando não te mostro o mar que guardo dentro do peito.

Procuro uma ponte para fora de mim, mas a miragem desvanece-se com o vento.
Quanto mais me tento despir das sombras que arrasto, mais me fecho nesta concha que nunca me abandona.

Entro no jardim fechado na e da cidade. 
Aqui sou múltipla, nunca estou só e nem me é permitido sonhá-lo. Procuro-me em cada silhueta, mas perco-me em todas as faces.

Regresso a ti e, em surdina, pergunto por mim.
As palavras esfumam-se por entre os meus medos e espalham-se pelos fantasmas que acordo.

Olho em volta, o espaço aberto em roda de nós parece encolher a cada suspiro meu.

Liliana





"às vezes é no meio de tanta gente, que descubro afinal aquili que sou"
Maria Guinot

quarta-feira, março 16, 2016

conCHA

A minha concha tem paredes feitas de giz. Brancas como a cal, pintam-me as mãos quando as tento afastar.

A minha concha tem paredes de vidro. Levo-a comigo onde quer que vá e, escondo-me nelas sempre que o vento norte me arrepia. 

Boneca de loiça a dançar a valsa que eu própria canto. É dentro do búzio que me protejo dos barcos fantasma que, "a noite, ao seu costume transfigura". 

Desenho vestidos madrepérola cosidos nas abas da minha concha. Enfeito-me com eles e mergulho num cenário colorido à força dos sonhos que guardo na palma da mão. 

Oculto a concha até de mim, escondo-a quando sorrio e abafo-a sempre que falo. Se não te mostro que a tenho é porque nem eu a vejo ao espelho. 

Vou-me enrolando nas margens em caracol e quando me encontro é bem no fundo do coração que estou. Espreito a cada alvorada mas recolho-me ao nascer do Sol. 

A minha concha é feita de recortes dos dias que se dizem nossos. Colo-os na parede que me rodeia e embalo-me com as ondas do mar. 

A minha concha tem paredes feitas de nuvens. Voo no branco-cinzento da sua forma desenhada sobre os azuis do céu primaveril. Afago os verdes das copas das árvores que se reflectem nos meus olhos e, nua de medos, acordo nos castanho-esverdeado dos teus. 

Liliana 





sábado, março 12, 2016

histórias...

Sabes dos cheiros que se escondem atrás de uma árvore e brincam com os nossos sentidos, num desabrochar de sensações que acordam lembranças? Tenho uma no meu jardim. Sorri-me quando passo por ela e pisca-me o olho, divertida, quando me toca em odor. 

Sabes dos cheiros dos livros, que se mostram ao virar das páginas e, imprevistos, nos fazem entrar na história, do livro mesmo? E num só segundo tocamos o último dia que nele estivemos? Tenho umas dezenas ali na estante. Uns têm histórias outros não. Mas muitos são os que, numa só página, me levam para junto de quem comigo partilhou as palavras, que novamente leio. 

Sabes dos cheiros, matreiros, que nos assaltam aqui e ali e num segundo nos atiram até à nossa infância? O café de mistura acabado de fazer, de repente pela minha avó, na cozinha ao fundo do corredor, ou as torradas ao lanche com o meu avô... Acontece-me de quando em vez e sem aviso prévio, ir num turbilhão de emoções até uma memória perdida no tempo. 

Sabes dos cheiros escondidos nos mais comuns gestos do dia-a-dia, que subtilmente me tocam e assim, numa imagem sensorial, me levam até ti? Acabei de tropeçar num agora mesmo. Podia jurar que neste momento ao teu lado, enroscada em ti, envolta pelos teus braços, inundada no nosso odor. 

Sabes dos cheiros?... Têm mil histórias para contar. 


Liliana 


domingo, março 06, 2016

tornEIRA

Não abras a torneira que estou a suster a água dentro do peito. 
Não acendas a luz que o espelho olha fixamente para os olhos que não mostro a ninguém para esquecer que os tenho.
Não respondas que falo somente para me ouvir, pintando a verdade de aguarelas que escorrem pelo ralo e não tarda se juntam ao rio.
Não me dês a mão que ela só sabe amparar, e nunca foi amparada.

Que sabor amargo é este que se me cola à garganta e se recusa a ser diluído, pelos mil argumentos, que junto no guarda-joias para os dias de tempestade?

Que tremor é este que me impede até de falar, me embarga a voz e me aperta o peito?

Que tontura dança em mim, rodopiando os meus pensamentos, em volta da sala, do quarto, até mesmo da cama?

Que mágoa é esta que abre rachas mais antigas que o nascer dos tempos, e se confunde com as dores de ontem e multiplica as de hoje?

Que solidão é esta que se senta ao meu lado, por muito que me confortem em abraços ocos do calor de quem sabe ler as entrelinhas?

Que vazio é este que me consome, e devora cada nova alvorada?

Abre a torneira que me afogo na água que trago no peito...
Acende a luz que preciso encontrar no espelho os olhos que a ninguém mostro...
Responde-me que preciso ouvir a verdade para além da que pinto com aguarelas no rio...
Dá-me a mão, devagar, como quem é amparado, para que não perceba que é a tua que me ampara...

Liliana


quinta-feira, março 03, 2016

Chuva

Deixo cair uma pinga de chuva em cima do cetim rosa que coso em forma de envelope, onde penso guardar o meu livro.
Nos ouvidos dizem-me "why worry.. and all the rest is by the way". É de noite e a paz que não consigo agarradar, espalha-se pelos quartos dos miúdos e espelha-se nas suas respirações.  É tão bom conseguir deitar a cabeça na almofada e ir, sem fantasmas, nem medos, nem inquietações. 
Arrumo-me na escrivaninha antiga de madeira escura e volto para os tecidos e as agulhas e as linhas coloridas. Sinto um arrepio dentro do corpo, nos ossos, nos músculos. O frio que sinto por dentro consegue tomar conta de todo o quarto. 
E mais um gota de chuva que molha o cetim rosa. Largo as agulhas e procuro o calor de alguém que não está. 
Visto tão profundamente as personagens que crio, que já ninguém me reconhece. 
A lua, indiferente a mim e à chuva que vai manchando os tecidos, diz-me que estou presa à minha máscara. E nos ouvidos "anoiteceu no neu olhar de feiticeira de estrela do mar". 
Não consigo ir deitar-me e não me interessa já a bolsa para o livro. 
Não, aqui onde estou, não está ninguém e provavelmente ninguém cá chega. 
Deixo cair uma pinga de chuva na mão e encosto a cabeça na escrivaninha antiga de madeira escura. 
Está frio, cá dentro. 
Estou só, cá fora. 

Liliana