sexta-feira, fevereiro 26, 2016

qUaNdO

Quando de repente o pano opaco se desvia e o silêncio se estende na cama, agora, vazia
Quando afinal o espelho reflecte a verdade dos dias e as palavras, abafadas, se mostram vazias
Quando de repente o caminho se mostra igual ao que sempre tememos, e numa lágrima salgada nos escondemos
Quando afinal na mesma pedra de sempre tropeçamos e nos lençóis frios nos deitamos
Quando de repente o omisso se insinua e a confiança, receosa, recua
Quando afinal tudo o que queremos é que a tempestade acabe e o coração, no peito, acalme

Quando já nada mais conta, os sonhos, por definição livres, acordam e fazem-nos recomeçar


Liliana


terça-feira, fevereiro 16, 2016

BOrBOleta

Voo por cima de sonhos secretos que acordam histórias infindáveis onde as palavras nunca são suficientes.  

Voo por cima do tempo que se estende tão para lá da nossa permanência, tudo tornando possível. 

Voo por cima da alma que se rasga em fogo e (sobre)vive no insossego das minhas mãos. 

Voo por sobre a morte. 
Voo por sobre a loucura. 
Voo por sobre mim... 

Liliana 


segunda-feira, fevereiro 15, 2016

SINto

Sinto
Tanto. 
Sempre demais. 

Amo
Com todas as forças. 
Entregando-me em corpo
e desafiando a razão 
para além do tempo. 

Sangro
Desatinando os sentidos. 
Rasgando o colo quente
que precipita a mágoa 
e transborda em dor. 

Sinto. 
Tanto. 
Sempre demais... 

Liliana 


sexta-feira, fevereiro 12, 2016

TEMpo

-Tenho saudades tuas. 
Dizia ela quase em surdina, com o telemóvel encaixado entre o ouvido e a almofada. 
Dizia-o muitas vezes, mas nunca da boca para fora. Sempre que o dizia sentia-o, mas não o chegava a dizer todas as vezes que o sentia. 
Do outro lado da linha, um calmo:
-Ainda não passou assim tanto tempo, meu amor. 
Era claro para ela, que ele lhe respondia com toda a tranquilidade e carinho de quem não teme que o chão abata de um dia para o outro. Mas, habituada aos absurdos da vida, cada dia que passava pesava-lhe no corpo, prendia-lhe os movimentos e toldava-lhe o sentir. 
No entanto, apenas um:
-Pois, tens razão. 
Que caia no silêncio da almofada e ecoava pela cama, dele, e a imediata percepção da mágoa, dela. 
Ela sabia que nunca o tempo que passavam afastados seria assim, tão penoso, para ele. E ele também. E, ele sabia também que esse era, talvez, o motivo que mais pesava no tempo que corria do lado dela. 
E por isso um atenuar, um encerrar sem deixar pousar as palavras nos lençóis, de cada um:
-Cada pessoa vive o tempo de forma diferente, intrínseca. A noção de muito ou pouco tempo é dúbia e muito questionável. 
Mas de lá já uma voz ligeiramente embargada e de cá já um travo amargo na boca. 
E, nenhum a querer pisar o chão, o tal que ela tão bem sabia que a qualquer momento podia desabar. Nenhum a querer sentir os absurdos da vida, das vidas dos dois e de cada um. Nenhum a saber como embalar aquele fantasma que toda a conversa, de almofada para almofada que diariamente trocavam antes de dormir, absorvia. 

O tempo, esse, passava imune aos medos, às mágoas e às certezas dos dois e, num silêncio ensurdecedor, forçava a despedida. Do lado dela, sentida. Do lado dele, perdido. 

Entre uma cama e outra, um mundo de vivências diferentes, um oceano de experiências díspares, uma ilha de tempo comum que os unia e que, de duas maneiras, os ajudava a passar o tempo que não era deles. 

"Descansa. Bjnh"
"Noite tranquila. Bjnhs"


Liliana Lima 

quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Saber.às?!

Do silêncio que grita, 
do esforço, 
da inquietação, 
do aperto
Da mordaça fria, 
do esforço, 
da inquietação, 
do aperto
Da distância sombria, 
do esforço, 
da inquietação, 
do aperto 
Da ausência que me agita, 
do esforço, 
da inquietação, 
do aperto 

Liliana Lima