sábado, dezembro 26, 2015

cinema

Sim, sei como o filme vai acabar. Não o soube imediatamente quando comprei o bilhete e entrei na sala, escura, já com o genérico no grande ecrã. Mas assim que encontrei o meu lugar e me sentei, vi o desfecho atrás do grande plano sobre o meu sentir.

Sim, é verdade que me encostei (encosto) no sofá projectando as cenas de cada capítulo, esperando que desse lado não me digas "corta" de cada vez que te levantas e me dizes adeus. Vou guardando as películas dos dias claros dentro duma lua sempre cheia, para nas noites escuras, iluminar os meus sonhos.

Sim, eu sei que os arco-íris que me transportam para lá da acção fazem parte duma realidade cinéfila pouco fiel à realidade. Reconheço os elementos cénicos no outro lado do espelho e até percebo o guarda-roupa que condiz com os sapatinhos vermelhos. 

Mas é nesse filme que sinto o descompassar do palpitar do coração e o calor húmido das imagens sugeridas e até mesmo o amargo de boca que, às vezes, se prolonga até à próxima sessão. 

É nele que sou e me dou em todas as sequências e sequelas. E é nele que escolho actuar. E, sei que, nele não se vive só de ilusão. 

Mas, sim, sei como o filme vai acabar. 


Liliana


domingo, dezembro 13, 2015

DIZ-me

Diz-me, porque me manténs aqui, encostada à palma da tua mão que pensava aberta e afinal sangra a cada toque da minha pele?
Diz-me, porque me deixas deitar-me ao teu lado todas as noites que achava de luar e afinal  sem nenhuma lua, nem nova, a iluminar o teu lado da cama?
Diz-me, porque me permites esta proximidade tão nossa se afinal, não estás aqui estando, sentado ao meu lado?
Diz-me, porque me manténs inteira no abraço que me dás, pensava, enroscado em mim e afinal com o corpo tenso, dorido à força de, não estando estar?
Diz-me, porque me dizes de ti sabendo que de mim ponho tudo o que tenho, pensando que te apoiando e afinal apenas mais um peso no pesar das horas?
Diz-me, porque me sorris quando olho para os teus olhos que sempre me pareceram tão meigos, e afinal numa fuga?
Diz-me, porque deixas que o meu corpo no teu se dilua no que achava um tango a dois, se afinal uma viagem disfarçada com os fantasmas com que, afinal danças?

Diz-me, porquê dizer-me que sangras sem luar, não estando no passar das horas, mas sim numa fuga, num disfarce?

Liliana 


quinta-feira, dezembro 10, 2015

pRoMeSsA

Abro a janela, alta, sob o céu baço de Lisboa. Ao fundo uma promessa de Tejo fala-me de ti. Há dias em que o longe que estamos se torna tão mais longínquo do que a distância que nos divide.

Há uma gaivota pousada em cima da chaminé do telhado em frente. Há uma mágoa que se estende por cima da ponte e apaga o rio. E há um choro, ou um canto, de mar fora do mar. E há uma gaivota que canta o meu inquieto olhar.

Abro a janela, alta, e atiro ao vento as palavras que não quero ouvir. Procuro as marcas dos dias claros e pinto o mapa das nossas Primaveras. É sempre mais difícil encontrar o teu norte quando o céu se veste de cinza.

Há uma chaminé e muitos telhados à minha frente. Há ruas e pessoas e carros, que passam, alheios a mim. E há uma promessa dum Tejo, ao fundo, que se esconde de mim.

E há uma gaivota que canta o meu inquieto olhar.


Liliana