domingo, setembro 27, 2015

AMA.ndo

Como acompanhar um passo que se arrasta sem rumo ou rota?
Como agarrar uma mão que se deixa seguir pendurada, mão morta sem bater em nenhuma porta?
Como sorrir para um olhar vazio, que foge da íris colorida sempre que se pode esconder no cinzento Outonal?  
Como beijar uma boca fechada, que cerra os lábios ao travo silvestre dos frutos vermelhos?
Como aquecer um corpo que se deixa secar, obrigando-se ao calor da travessia do deserto apenas para por lá se perder?
Como acolher uma mágoa cultivada e cuidada no quintal das emoções e regada com as lágrimas de cada madrugada?
Como aconchegar um sono que não se deixa embalar, mantendo-se acordado no sonho, só, das noites de lua nova?
Como preencher um espaço ocupado pelos fantasmas que são alimentados à boca a cada aurora?
Como partilhar o hoje com uma vida que se recusa virar costas ao ontem e procurar o amanhã?
Como alimentar um amor nascido numa peça que, tocada por duas, foi, na realidade, composta para quatro mãos?

Como?
Acompanhar um passo...
Agarrar uma mão...
Sorrir para um olhar...
Beijar uma boca...
Aquecer um corpo...
Acolher uma mágoa ...
Aconchegar um sono...
Preencher um espaço ...
Partilhar o hoje ...
Alimentar um amor...
Como?

Amando, amando, amando

Liliana


domingo, setembro 20, 2015

r_i_o

Tenho um cruzeiro de brincar com o qual risco o rio de ondulações perpendiculares às margens. Rasga-se o leito à força do meu querer enquanto os veleiros baloiçam na agitação do vazio.

Procuro um navio onde empilhar as palavras que não me vais dizer. Contentores e contentores coloridos que empilho como peças de lego para mais tarde enterrar. É lá que me encontro, por entre as cores com que pinto o horizonte que podia ser.

Largo o cruzeiro e refugio-me no embalo das ondas por mim criadas, o Tejo sorri-me, divertido com as cores que espalho até à nascente. Navego sempre ao contrário da corrente, o rastro é sempre mais profundo.

Salto para a margem onde o rio ainda não confessa as marcas que provoquei. Demoram sempre tanto tempo a chegar as ondas de choque que chego a duvidar se, de facto, é neste leito que navego. Aproveito o intervalo para me deixar enganar pela acalmia que respiro neste pôr-do-Sol Outonal e visto-me de festa com as cores que roubo aos contentores.

Mais sentimento, menos sentimento, o cruzeiro vai acabar por albarroar o porta contentores, e as palavras que o povoam vão mergulhar na água colorida das que não chegarão a nascer.

Tenho um cruzeiro de brincar com que risco o rio ao ritmo do canto das sereias, e um porta contentores onde escondo os vazios que não rimam com as palavras que canto.

Liliana


sábado, setembro 12, 2015

NÁU.frago

Perdoa as palavras amargas, pesadas, que escurecem os dias e arrefecem as noites.
Perdoa
Perdoa a ansiedade, inquietação imensa que me alaga os sentimentos náufragos que não consigo evitar.
Perdoa
Perdoa o travo acre da insegurança que ecoa no fundo dos copos das conversas mudas.
Perdoa
Perdoa a interrogação eterna dos silêncios que gritam à noite e da dúvida que os embala num choro infantil.
Perdoa
Perdoa o corpo rígido, cansado, a invontade de avançar e a palidez dos passos do fim-de-dia.
Perdoa
Perdoa este sentimento à desgarrada, que me faz saltar o coração e me embarga a voz e me baralha os sentidos.
Perdoa
Perdoa este querer que força a minha presença e impõe o meu estar.
Perdoa
Perdoa esta força que prende o meu ao teu olhar.
Perdoa
Perdoa o desejo húmido, alado, deste meu corpo que deito ao teu lado.
Perdoa
Perdoa este amor que não pediu para ser amado.


Liliana