terça-feira, junho 23, 2015

Do branco fora do papel

Dos dias em que vence o VAZIO
da não COMUNICAÇÃO

Da SOLIDÃO fria
da não RESPOSTA

Da voz rouca que chama do PRECIPÍCIO
da ausência de RETORNO

Da estranheza e CONFUSÃO
da inexistência de ECO

Do subreptício e inesperado MEDO
da emissão sem RECEPTOR

Do sentimento de ABANDONO

do reconhecimento da nossa INSIGNIFICÂNCIA 



Liliana


domingo, junho 21, 2015

não sei SE sei

Se ousar dizer, sem medo que apenas o eco me oiça
Se me atrever a perguntar sem levar na própria pergunta o peso da recusa
Se arriscar dar um passo, sem deixar um pé pronto a recuar
Se me aventurar a ver o silêncio, sem o encher de fantasmas
Se experimentar sentar-me à beira-rio sem forçar o vento e a maré
Se me lançar ao caminho sem procurar o itinerário previamente desenhado
Se resolver que, parando a inquietude do meu ser, a vida continua a correr

Se... então exponho-me à chuva, à mágoa, ao medo, à desilusão, ao vento...

E se... apesar dos pesares, sou ouvida, sou aceite, sou acariciada, sou querida, sou acolhida...
...não sei se sei por onde começar


Liliana





segunda-feira, junho 15, 2015

BorBoleta

Acordei esta manhã e encontrei-me escaqueirada pelo chão do quarto. Levantei-me muito devagar e um-a-um peguei em todos os cacos que de mim choveram.

Lembrei-me de outras manhãs, outras chuvas, os mesmos cacos.
Lembrei-me dos mesmo braços esticados para o chão refazendo-me a mim mesma em pequenos puzzles diferentes e tão iguais.

Com muito cuidado, pousei os bocadinhos que de mim se soltaram à força dos ventos e, antes de os colar, guardei-os na concha madre-pérola onde me deito quando não quero ver o mundo. O tempo correu, e eu ainda que meia-desfeita (ou meia por fazer) fui obrigada a seguir, avançar, ou melhor, a acolher.

Vem-me de há muito, esta capacidade circense de me dar apenas com a cara metade (ou metade da cara) da imagem no espelho. E por isso desci o Jardim sem sobressaltos grandes. E por lá serpenteei, sem olhar os cacos que me espreitaram entre os livros que toquei, e me chamaram nas sílabas das palavras que fui trocando, entre sorrisos fugazes.

Às mágoas que correram colina abaixo pelo jardim e às que, mais tarde, dançaram nas águas salpicando a noite de notas coloridas, acolhi como se minhas fossem, guardando-as no meu colo embrulhadas num aconchego rendado. Embalei-as na canção da lua e deitei-as no berço do carinho.

Acordei esta manhã e, depois da tempestade, da acalmia dum tempo que se quer de bonança, do jardim e da cara metade, das mágoas e da canção que lhes cantei, encontrei-me escaqueirada pelo chão do quarto.

Procurei a concha madre-pérola que me protege do mundo e percebi-lhe o aroma do mar e ouvi as ondas desfazerem-se na areia e senti o calor do sol na pele. Lá dentro, feita areia que se desfaz, feita rocha que resiste, descobri-me refeita pela enésima vez.

Peguei-me com todo o cuidado e vi-me, cara completa de corpo inteiro. Vesti-me uma saia rodada e uns sapatinhos vermelhos, e abri as asas em direcção ao mundo.

Quando acordar amanhã, não verei cacos nem mágoas espalhados pelo chão, estarei igual a mim "como sempre como antes", tirando a pequena cicatriz em forma de lua que esconderei no lado esquerdo do peito.


Liliana




terça-feira, junho 02, 2015

Como é uma "Pessoa" tranquila, Fernando?!

(Há coisas que não mudam...)




Não, não me peças tranquilidade como quem pede um copo de água. Não nasci com o dom da calma.

Como gostava de ser uma rapariga tranquila! Procuro, vasculho a mala à procura da calma prometida num fraquinho de berlindes. Não encontro. Tento a todo o custo manter o controlo, paro de falar, inspiro, simulo uma calma falsa diminuindo drasticamente a velocidade dos meus gestos.

Sento-me no cadeirão de verga virado para a janela e procuro o azul do Tejo. O dia está cinzento, carregado, ao fundo avisto o arco-íris esbatido nas nuvens escuras. Mordo a língua com vontade de gritar e em vez disso repito baixinho, pausadamente:
"Não me peças tranquilidade como quem pede um copo de água."

Olhas-me de raspão, procuro entender o que dizem os teus olhos mas foges-me. A sala estica-se e eu cada vez mais afastada de ti. Como gostava de ser uma rapariga tranquila!

O bebé trepa por mim sem se importar com os remoinhos que atravessam o meu corpo. Não tenho calor para lhe dar, "não me peças colo", digo em silêncio. E a sala a alongar mais e mais enquanto afasto o bebé e os teus olhos e o teu silêncio e a ti encostado à porta com as mãos nos bolsos sem saberes o que fazer (de mim). Como gostava de ser uma rapariga tranquila!

Desvio o olhar para o rio e as listas de aguarela escorreram e tingiram as águas que se baloiçam, e se misturam num arco-íris líquido que beija a cidade. Procuro a tua mão, os teus olhos, estás longe, não me ouves lá ao fundo. Vejo a mala, levanto-me e procuro novamente os berlindes que prometem tranquilidade, estou tão perto... será que não me ouves? Como gostava de ser uma rapariga tranquila!

Olhas para mim sem expressão, sei que procuras acalmar-me com o teu silêncio. Tento chamar-te, contar-te o quanto preciso que me toques, que me abraces, que me dês a mão. E a sala a alongar, a aumentar a distância entre nós, quilómetros e quilómetros de água colorida que entra pela janela. Eu em silêncio a chamar-te e tu em silêncio para me acalmares.

O bebé corre entre os dois, divertido com os brinquedos espalhados pelo chão. Não te vejo e sinto-me sozinha. Como gostava de ser uma rapariga tranquila!




Liliana Lima
26-01-2009



Aprendendo a florescer/ Agnes-Cecile


"Ela ia, tranquila pastorinha,
Pela estrada da minha imperfeição.
Segui-a, como um gesto de perdão,
O seu rebanho, a saudade minha...

'Em longes terras hás de ser rainha'
Um dia lhe disseram, mas em vão...
Seu vulto perde-se na escuridão...
Só sua sombra ante meus pés caminha...

Deus te dê lírios em vez desta hora,
E em terras longe do que eu hoje sinto
Serás, rainha não, mas só pastora

Só sempre a mesma pastorinha a ir,
E eu serei teu regresso, esse indistinto
Abismo entre o meu sonho e o meu porvir... "



"Ela ia, tranquila pastorinha" - Fernando Pessoa