domingo, maio 31, 2015

madrugA.da


Sombras, dos risos e das lágrimas que nem cheguei a chover, mas que seriam tão mais perfeitos que estas angústias que trago, atreladas, comigo

Sombras, de outras noites aquecidas na fogueira das verdadeiras paixões e iluminadas por uma lua tão mais pura que o tom amarelado que hoje me envolve

Sombras, dos sonhos esquecidos, varridos do ventre muito antes da fecundação para não correr o risco de, um dia, como hoje, poderem florir

Sombras, dos amores perdidos, encontrados no chão do quarto junto a papeis de outros embrulhos, e que emolduro para que não se confundam com outras imagens

Sombras, que me embalam nas noites brancas, e que quando o silêncio se instala, abraço com medo da luz da madrugada

Liliana


sábado, maio 30, 2015

Baltazar

Deixo cair a manhã sobre mim e, qual Blimunda, dou-te os bons dias ainda de olhos fechados. Naqueles enormes dois segundos, em que deambulamos entre o sonhar e o ser, está a paz do nosso mundo seguro. E é nessa ilha, com forma de utopia, que deposito a certeza de, não conhecendo o amanhã, nos saber hoje.

Levantamo-nos e, ao sair da porta, mergulhamos na cidade que corre, imparável. Neste lado do universo não há olhos fechados nem tempos suspensos, apenas as vidas que seguem o seu curso tão próximas e sempre tão longínquas.

Hoje deixo cair a noite sobre mim e adormeço com os olhos nos teus. Amanhã de manhã, ao nascer do sol, dar-te-ei os bons-dias de olhos fechados. Onde quer que estejas.

Liliana


quarta-feira, maio 27, 2015

LaBiRiNtO

Não quero.

Não quero ver tanto, quase tudo, longe do pouco que me traria a paz num ramo de oliveira.
Não quero!
Não quero olhar pelas janelas dos olhos e, como se no Matrix, ver o cenário perfeito, os actores bem caracterizados e as falas memorizadas, a par do próprio Oz.

Não quero.

Não quero sentir em mim o tudo que, não me pertencendo, se me impõe a cada vez que me aproximo.
Não quero!
Não quero prever o voo da borboleta que agita as suas asas no outro lado do globo e me arrepia, aqui, no meio do verão.

Não quero.

Não quero a banda-sonora dos dias, tocada em surdina só para mim, na velha sala do cinema paraíso de onde vejo o correr das horas.
Não quero!
Não quero ouvir as palavras não-ditas(mal-ditas) por entre os espaços das pronunciadas, essas tão audíveis e bem conjugadas.

Não quero.

Ah! Não quero!
Quero menos, muito menos!

Queria sim olhar o céu e ver apenas as andorinhas que invadem, finalmente, a cidade.
Queria ver no teu sorriso nada mais para além da sua própria beleza.
Queria ouvir nas palavras sussurradas absolutamente mais nada senão elas mesmas.
Queria aceitar as escolhas dos dias sem lhes saber os mapas astrais.
E queria, também, perder o medo dos silêncios e não os sentir labirintos de intenções e interpretações.

Quero.

Quero apenas pela quase certeza de que seria mais feliz.
Quero porque o meu mundo seria, acho que seria, menos complicado se não conhecesse de antemão o feiticeiro, e aquele coelho que todos os dias vejo passar apressado, penso que atrasado, correndo por uma estrada de tijolos amarelos.


Liliana