sábado, março 28, 2015

Ar.co

As ondas, agitadas, batem no paredão e a marginal arrepia-se com a humidade salgada.
Lá dentro, na cidade, as árvores abanam os troncos e largam as folhas que, aflitas, voam com a força do vento.
No meu mundo os barcos balançam sem conseguir aportar e as gaivotas seguem atentas o meu andar desalinhado.
As palavras voam desatentas, despidas, veladas... e enchem as ruas de desencontros que passeiam de mãos dadas.

Como seria, por uma só vez, ser arco e cobrir a cidade e as pessoas e as palavras e os barcos e os sentimentos e as águas e as árvores e as gaivotas de mil cores luminosas?
Pudera eu acalmar a tempestade e convencer o Sol a brilhar, e todas as conversas do mundo seriam claras como uma manhã de primavera.

A cidade olha-me de soslaio, como que pedindo para acalmar as palavras que, desorientadas, atropelam o trânsito.
Do meu mundo devolvo-lhe o olhar e peço, também eu, à palavra 'vento' para se acalmar e à 'água' para se tranquilizar e, por fim, deixarem os barcos navegar.

Pudera eu ser arco e na tua íris brilhar...

Liliana Lima


segunda-feira, março 23, 2015

pa.lavra

Esta pele que me contém cheira a ti. 
Aconchego-me dentro dela e sinto-te envolver todo o meu espaço.
Procuro-te em mim, nas marcas que pintaste no meu corpo, no calor com que me embrulhaste no teu abraço, no gesto impensado com que passo a mão no meu cabelo à procura do macio do teu.

Estas cores que despontam à minha volta, pintam uma aguarela de ti. 
O sol matinal e a lua ao entardecer, contam-me das tuas sombras e do recorte do teu corpo quando olhas o horizonte. 
O céu, azul, reflectido em flashes na ondulação do rio, traz-te numa brisa suave e as flores sorriem com o mesmo brilho dos teus olhos e o mar invade o horizonte com a mesma cadência com que me invades a mim.

Esta palavra que me pede para ser dita, fala de ti.
Enrola-se-me na língua e perde-se no meu corpo, espalhando as letras num remoinho interno.
Solto-a momentânea e cuidadosamente, quase em surdina, na mesa de cabeceira no instante em que me entrego a ti e embrulho-a com todo o carinho na valsa desenfreada dos dias que correm sem ti.

Esta pele,
Estas cores,
Esta palavra,
Este sentir.

Este sentir que me arrebata num só sorriso e me empurra na corrente revolta do rio num não dito velado.
Embalo-o todas as madrugadas, na esperança de te guardar os sonhos e proteger o sono. E de manhã, ao nascer do dia, pinto na pele as palavras com que te sinto.

A vida lembra-me de ti.

Liliana Lima