terça-feira, fevereiro 24, 2015

malaba.ris.mo

Peso na balança antiga, de pratos de cobre amolgados pelo passar dos anos, o hoje o ontem e o depois
Entrego ao lado esquerdo o peso vivo dos sentimentos, que brincam comigo esvoaçando alegres a cada nascer do Sol
E despejo à direita a ausência dos outros, que espreito e pinto no céu ainda que os saiba, eternamente tapados pelas nuvens 

Espero que a balança responda, enquanto jogo com os pesos à procura do equilíbrio que nunca encontro
Descai o prato do lado direito, meu esquerdo, que olha para mim de sobrolho franzido culpando-me pela incoerência do sentir
No entanto, ontem, podia jurar que os pratos inclinados para a esquerda e os olhos a sorrir, com o Sol a iluminar o corpo e o querer

Peso nos pratos amolgados da balança antiga de cobre, o querer os sorrisos o sentir as incoerências o desequilíbrio as ausências e os sentimentos
Junto tudo no mesmo prato, não consigo separar uns dos outros e desisti de tentar entender a ordem pela qual se vão manifestando
Pergunto-lhe para que lado me virar, e ela, antiga e amolgada, eleva os pratos à vez como quem faz malabarismo e recusa-se a responder

Liliana


quinta-feira, fevereiro 19, 2015

d_i_a_s

Todos os dias pela manhã, o espelho, altivo e sereno como só um espelho sabe ser, me devolve a realidade do que nele projecto.
Pego nela com todo o carinho e, como quem brinca com legos, moldo-a a meu belo prazer. Construo casas, caminhos e pontes com as cores de que mais gosto e reciclo em forma de árvores e flores as peças cujas arestas se me mostram mais evidentes.
Depois deste exercício diário, despeço-me do espelho na parede ao fundo do quarto e saio para a vida com a minha cidade do faz-de-conta. 
Todas as noites quando a lua chega, sentada aos pés da cama, atiro-lhe com as peças que se desmoronaram para dentro da sua serenidade e olho, cansada, para o filme do meu dia.

Na manhã seguinte, reconciliada comigo, com a vida, com o mundo, digo bom dia ao espelho na parede ao fundo do quarto e aguardo a sua resposta.
Todos os dias, altivo e sereno como só um espelho sabe ser, olha-me de lado, reflecte-me de frente e devolve-me a realidade que trago comigo.

Dias há, em que tenho vontade de o contornar, tapá-lo com um pano e sair para a vida sem peças de lego para desmontar.
Dias há, em que me obrigo a olhá-lo, olhos nos olhos, para ver bem o que me mostra e sair para rua com a certeza de levar os sapatos certos nos pés.

Mas a verdade é que, por muito que brinque e jogue, a realidade espreita-me sempre por um qualquer espelho numa qualquer parede.
Alguns conseguem olhá-la desapaixonadamente, sem perigos nem sarilhos, sem paixões nem primaveras.
Alguns chegam ao extremo de a tapar, ignorando tudo o que não querem ver, com todos os riscos dum salto sem rede.
Eu, sei que ali está e até a conheço bem, mas para manter a primavera florida, arrisco jogar com o que é e o que podia ser na mesma mesa.

Todos dias o espelho, altivo e sereno, me devolve a realidade que nele projecto. E todos dias pela manhã, pego nela com todo o carinho, pergunto-lhe que sapatos usar, e moldo-a a meu belo prazer.

Liliana