domingo, novembro 23, 2014

SEI - te

Pego-te na mão,  pequeno que te quero, na ânsia de não te ver correr para fora do mundo que conheço. 
Sim, sei-te com vontade de descobrir o mar e brincar com as ondas que dançam com o teu corpo. Sinto-te inquieto olhando as conchas deitadas na areia macia que te toca os pés quando te descalço. Percebo a necessidade de entrares no barco e velejar à volta dum mundo tão maior que o que tenho para te dar.

Pego-te na mão baloiçando entre o não te querer deixar voar e o entender que é essa mesma a minha obrigação - dar-te asas.
Dou-te um balão colorido para saber de ti, pequeno que te quero, ao seguires sorridente em busca das mil e uma noites. Embrulho-te numa capa para te proteger do frio dos ventos marítimos. E, contigo à porta de olhos meigos e coração decidido, despeço-me em silêncio que as palavras embargam-se-me na garganta.

Pego-me na mão,  pequena que me sinto, e olho o rio que não me conta de ti.
Suspiro, triste na minha noite, e peço às estrelas que te velem o caminho. Sento-me na ponta da cama e um pano negro cobre-me a razão. Escorre-me a chuva dos olhos e, por momentos, vejo-me sozinha no quarto olhando o balão que deixaste colado ao tecto.

Sim, sei-te descobrindo portas e abrindo janelas que há muito te esperam. Percebo, que sabes que podes voltar. Inquieto-me, na possibilidade de preferires ficar.


Liliana



quarta-feira, novembro 19, 2014

con.CHAS

A chuva lava as ruas da cidade e leva os meus olhos com ela.
Diz-me das cores dos arcos que brilham sobre o mar
e fala-me das dores que nos dias frios ajuda a apagar.
Ofereço-lhe as minhas enquanto a espreito pela janela
e sinto-a escorrer por mim para, em lágrimas, me libertar.

Pergunto-lhe 'onde me levas neste remoinho que me embrulha
numa água gelada e me ensurdece os sentidos?'.
Entre o correr das águas e os gritos das ondas que morrem nas rochas
oiço-a dizer que é no meio dos sonhos perdidos,
por entre os despojos dos sentimentos naufragados,
que se escondem as dores que silenciámos, fechadas, em conchas.

A chuva lava as ruas da cidade e leva os meus olhos com ela.
Procuro as vieiras, os búzios, as ostras que me embalam,
guardo-as na roda da minha saia e saio, escorrendo com ela.
Chego a uma praia onde outros temporais falam,
pego nas conchas, uma a uma, enterro-as na areia molhada
e espero que cada dor se mantenha assim escondida, fechada.

Com a cara molhada, as mãos vazias e os pés descalços
estou pronta para ver as cores dos arcos, que sobre o mar, brilham.


Liliana


quarta-feira, novembro 05, 2014

arco - íris

Procuras o meu corpo, por entre tantos panos que vestem os nossos dias, com a tranquilidade de quem sabe que me encontra numa qualquer aguarela do arco-íris.
Espreito pela janela e aquieto a agitação para te sentir chegar.
 
Já velejámos tantas vezes por este rio e são sempre novas as marés que nos recebem. Tenho os pontos cardeais marcados na pele onde navegas, rasgando as águas e desenhando ondas à força dum vento que se rebela ou amaina a par da corrente sanguínea do nosso querer.

Saberás que já não, eu a respirar, a arquear, a sussurrar, mas tu?!
Eu, de repente inteira na palma da tua mão.
Eu, procurando o teu corpo para, nele, me sentir.
Eu, deixando de ser-me para ser-nos.
Eu, mergulhando nas águas do teu rio sem boia nem colete salva-vidas.
Eu, onda que se levanta à força do teu remoinho, desnorteada e descompassada em movimentos semicirculares, batendo no paredão e desfazendo-se em espuma fora do leito.
Eu, tu, baixando as velas e deixando o corpo à deriva, embalado na corrente que se acalma.
Eu, de repente e repentinamente eu, ao teu lado, fechando os olhos e apagando o mundo.

Procuro o meu corpo, por entre os tantos barcos e lemos e velas e remos e... que já f(s)omos, com a tranquilidade de quem sabe que fico sempre inteira quando venho de ti.
Espreito pela janela e aquieto a saudade para te saber esperar, aqui, numa qualquer aguarela do arco-íris.


Liliana
 
 

sábado, novembro 01, 2014

m.ã.o.

Vejo-te as memórias doridas, recortadas no olhar triste
que escondes entre palavras já tão familiares

Sinto-te aqui, embora lutando com as estradas
percorridas, escolhidas e abandonadas ou seja, assombradas

Oiço-te entre frases e histórias partilhadas
com todo o peso que lhes trazem os fantasmas

Conheço-te, nas mãos enlaçadas,
os dedos que guardam e calam as tensões em noites de tempestade

Estendo-te a mão para te ajudar
Estendo-te a mão para abafar as dores
Estendo-te a mão para despir e desmascarar os fantasmas
Estendo-te a mão, para partilhar as tensões

Vejo-te
Sinto-te
Oiço-te
Conheço-te

E tento ajudar porque não é tarde
E tento ajudar porque é possível
E tento ajudar para que seja mesmo só "navegar"

E tento ajudar...
Levar-te a acreditar
Ajudar-te a mudar
Ajudar-te a aceitar
Fazer-te sorrir
Reensinar-te a sonhar

Estendo-te a mão, vens?!


Liliana