sexta-feira, outubro 24, 2014

Astro.Lábio

Embrulhei-me num cesto de palavras doridas, magoadas, desiludidas, e procurei mudar-lhes o significado.

Pintei-as numa tela de algodão, por entre caminhos e possibilidades por onde não avançaram.
Mergulhei-as nas ondas dum mar iluminado pela lua, para que percebessem a beleza do reflexo inconstante nas águas. Mas limitaram-se a deixar-se afundar pelo peso estimado apenas por elas.
Dei-lhes versos de outros olhos para com eles se reinventarem. Mas não os tiraram do papel.
Pronunciei-as com todos os ritmos e entoações que há em mim, mas não as consegui aproximar.
Contei-lhes histórias de outros mundos e baralhei-lhes o sentido, mas nunca as comovi.
Mostrei-lhes o mapa astral, construi-lhes um barco e dei-lhes um astrolábio, para que zarpassem sem medo à descoberta da sua rota. Mas nunca saíram do porto.
Por fim, sentei-me à fogueira e embalei-as com a música dos sonhos. Mas passaram a noite em branco.

Embrulhei-me num cesto de palavras e tentei mudar-lhes o significado com tudo o que tinha para lhes dar, mas na verdade o que pode gerar mudança, não é tanto o que é dado mas sim o que se suspira receber.


Liliana



quarta-feira, outubro 15, 2014

bege

Levanto o auscutador do telefone bege, pousado na mesa de carvalho com um banco incorporado, e faço rodar o disco dos números que me levam a ti. Oiço o sinal de chamada, que repetidamente chama o teu nome, e espero pela tua voz. Não estás, ou não ouves, ou já dormes. Não atendes. Desligo a chamada e fico com o auscultador colado ao ouvido.

A lua abraça a cidade e pinta o rio de pequenas ondas prateadas. Enquanto, sentada no banco-mesa ao lado da janela com o telefone na mão, converso contigo em silêncio. Conto-te, numa conversa inventada, da chuva fria que me molhou e do nevoeiro onde me perdi e das palavras que me enganaram e das horas que não vivi. Falo devagar, ouvindo cuidadosamente as tuas respostas, e acabo a conversa com um quase-sorriso e um obrigada enrolados num beijo de boa noite.

As estrelas não me iluminam o sono e a noite, branca, passa muito devagar. O dia acorda com olheiras e um cansaço enjoativo que me veste o corpo. Olho para a mesa-banco e o telefone, como eu, está fora do descanso. Pego no auscultador e deito-o delicadamente no seu suporte. Abro a porta da rua, mas antes de sair oiço o telefone que repetidamente chama o meu nome.

Levanto o auscultador do telefone bege, pousado na mesa de carvalho com um banco incorporado, e oiço a tua voz que me pergunta se liguei para ti.


Liliana


sexta-feira, outubro 10, 2014

Shhhh...

Não digas o que já sei
que foi
que é....


Apaga as palavras que trazias ao colo.
Enfeitadas,
uma coroa de flores apodrecidas
pela chuva dos olhos.
Embrulhadas,
uma mortalha de algodão branco
vestindo os espinhos.


Não me digas n.a.d.a.
Porque
os teus olhos não sabem calar.
Porque
as tuas mãos não conseguem disfarçar.
E antes dos olhos,
um arrepio numa tarde abafada.
E antes das mãos,
um puzzle acabado com uma peça perdida.


Então não digas,
porque eu já sei
que foi
que é...


Liliana



quinta-feira, outubro 09, 2014

VERedas

Foi assim, com a pele em flor duma semente d'outros campos rasgada no peito, que nos encontrámos.
Dormias encostado nas suas pétalas que mantinham o cheiro no ar e te embalavam nas memórias doridas dum futuro encerrado.

Percorri as veredas, escondidas por entre os caminhos largos e as estradas principais,  seguindo as migalhas que deixaste cair.
Sentei-me ao teu lado e, sem te acordar, cantei mornas e canções de embalar enquanto velava o teu sono.
Adormeci a meio dum refrão e sonhei que, acordado, me aquecias as mãos e afastavas os medos.
O vento de outras paisagens levou-me a vôos distantes e ausências prolongadas à procura do mapa astral que me devia salvar das tempestades.
E com a força das chuvas, encontrei-me de volta aos atalhos e carreiros onde reconheci as tuas e minhas pegadas.

E assim, com a pele em flor duma semente d'outros campos rasgada no peito, reencontrei-te dormindo nas memórias doridas dum futuro encerrado.

Olhei-te, com a luz tímida dum sol acabado de nascer, e vi as lágrimas que não mostravas.
Toquei-te no ombro e senti o arrepio gelado duma pele frágil que se quer mostrar carapaça. 
Falaste-me e, devagar, encostei-me a ti para ouvir para além das palavras ditas.
Ali ficámos muitos dias, tricotando a cumplicidade de quem se despe por dentro sem medo  do reflexo de outros olhos.
As pétalas da flor onde dormias caíram e outras, que fui tentando alisar, nasceram no seu lugar.
O mapa que sempre procurei, o do caminho astral que me iria salvar, levou-me repetidamente a becos sem saída, de onde fui saindo com a ajuda da tua mão. 
E os ventos do oriente foram enfunando as nossas velas na mesma direcção. 

Foi assim, numa tarde sem manhã nem noite, com a pele em flor duma semente d'outros campos rasgada no peito, que nos encontrámos. 
Foi assim, encostados em pétalas de várias cores que fechámos as portas ao futuro e, apesar das memórias doridas, desenhámos o caminho do presente.

Às vezes ainda me perco no meio das veredas.
Às vezes ainda te encontro dorido, embalado nas memórias. 
Quase sempre, seguimos as pegadas por nós desenhadas e encontramo-nos a meio caminho entre o aqui e o agora.


Liliana




domingo, outubro 05, 2014

diAS

Os dias passaram e eu esqueci-me de os contar.

Sei que o sol já pouco aquecia os corpos, que o céu amarelecia por volta das sete e que as tardes já pediam o aconchego de um casaco. Mas não sei dizer-me, ao certo, quantos os dias que passámos. 

Lembro-me do rio, das gaivotas, do sol refectido na água e da cidade pintada de dourado.
Lembro-me das pontes que atravessámos e das palavras que em caminho tornámos. 
Lembro-me das minhas mãos trémulas que hoje se aconchegam nas tuas sem pedir licença. 
Lembro-me do teu sorriso ter prendido o meu olhar e ainda hoje não mo ter devolvido.
Lembro-me dos corpos que se descobriram um no outro quando se fizeram nascente e, a par, se perderam na força das ondas até desaguar na praia.
Lembro-me dos dias cinzentos, das palavras secas e dos silêncios amargos. 
Lembro-me do vazio das ausências e do frio da distância.
Não me lembro de quantos dias passaram por nós. 

Sei que esta margem onde hoje nos sentamos com os pés na água, é resultado dum caminho que vamos percorrendo em navegação à vista, sem bússola nem mapa nem planos de futuro. Sei que o vento não sopra as velas de forma igual e que há correntes agitadas a meio do leito. Mas não consigo saber com toda a certeza, quantos dias já vimos passar.

O que fica, no dia em que os dias deixarem de ser nossos, é o cesto redondo de verga onde guardo as memórias cheio de palavras e olhares e rios e sorrisos e correntes e corpos e gaivotas e mãos e sol e silêncios e lábios e bússolas e nós. 

Os dias passaram e eu esqueci-me de os contar. Mas não me esqueci de tudo o que deles guardo para me contar.


Liliana