terça-feira, setembro 23, 2014

EStrAGos

Nos dias cinzentos de Outono saio de casa com pressa e deixo o mais novo na escola.
Nos dias cinzentos de Outono não posso virar para esquerda e perder-me, no cinzento apaziguador, do Tejo.
Nos dias cinzentos de Outono vejo a cidade do alto da torre, de onde não vejo ninguém.
Nos dias cinzentos de Outono procuro-te e não te encontro, chamo-te mas o cinzento das palavras torna-as pesadas e demoradas no caminho.
Nos dias cinzentos de Outono espero-te num recanto, no ranger duma porta, numa buzina que ecoa da rua, numa chávena suja de café.
Nos dias cinzentos de Outono também tu estás cinzento e sem palavras coloridas e meigas.
Nos dias cinzentos de Outono não nos encontramos no meio dos significados e interpretações e as interpretações dos significados que chocam, letra a letra, no que devia ser o aconchego mútuo.

Os dias de Outono são húmidos e desconfortáveis, e entram pelos meus olhos bem cedo  ameaçando escorrer através deles durante as horas que passam.
Os dias de Outono fecham-me numa nuvem escura onde, imagino, vivem todos os meus fantasmas.
Os dias de Outono levam-te para longe, muito longe de mim, falo sem voz mas não entendes os meus lábios que só te pedem que me estendas a mão.
Os dias de Outono baralham os filmes, as cenas, as falas, as dúvidas e as certezas.

E no final dos dias de Outono, somos obrigados a esperar pelo dia seguinte para conseguir ver os estragos do cinzento dos dias de Outono.

Liliana





domingo, setembro 14, 2014

dIAs

Cada hora tem mil vidas lá dentro.
Vidas que se amparam, que se desencontram
vidas de festa e vidas obscuras
Até as vidas interrompidas se escondem lá dentro.

Quando passo por uma hora
olho para ela o melhor que posso
procuro-lhe a melodia, o ritmo e a dança
e tento convecê-la a abrir-me o sorriso.

Horas há,  em que o nevoeiro nos tolda a visão
e, por mais que procuremos, não encontramos os minutos
que nos lembrariam que cada hora tem mil vidas
e que nem sempre "os dias são dias passados".

Sim, cada hora tem as suas mil vidas dentro
com os seu afazeres, os seus ritmos
e tantas vezes nos desencontramos
por entre os minutos que apenas nos
esperam para cantar "uma canção que eu ouvi do meu avô"

Liliana




terça-feira, setembro 09, 2014

CoRdA

Atiro a corda o mais longe possível do cais. A ponta cai nas águas cristalinas do rio, provocando uma sequência de ondas circulares que se abrem até mim. Sento-me no chão e brinco com os aneis de água que se desfazem ao tocar nos meus pés que brincam com eles.

Olho ao fundo o laço da corda que boia, solta, na corrente. Não a consegui fazer chegar ao pequeno barco à vela que tento amarrar a terra.

Apesar do calor do meio da tarde, fico ali muito tempo. Descubro o brilho que o rio esconde, salpicando o leito de pequenos espelhos quebrados que namoram com o sol. Aprendo a distinguir as gaivotas das andorinhas do mar. Converso com o silêncio que me rodeia sem que tal me assuste. E divirto-me com os pequenos peixes que ignoram a minha presença. 

O pequeno barco à vela seguiu a corrente mas não se afastou de mim. Levanto-me e, descalça, puxo a corda molhada e torno a atirá-la o mais longe possível em busca do barco.

A luz da lua bate na corda que, finalmente, encontra o caminho para o pequeno barco. O laço abraça a proa que eu pela corda amarro ao cais para que não se solte.

Deito-me com as estrelas como companheiras e aconchego-me no luar, a noite de vela ao pequeno barco promete uma brisa fresca. O azul-escuro do céu embala-me num sono tranquilo à mercê da maré. E anoiteço em paz.

O céu acorda de mansinho e chama-me para ver o sol nascer. Com a claridade ao meu lado, desamarro a corda e tento puxar o barco para o cais sem sucesso. 

Olho os meus pés descalços, olho o barco que não quer chegar a mim e peço ao rio que me ajude. Com as gaivotas e as andorinhas do mar e o vento e a maré, o pequeno barco à vela acaba por ceder aos meus pedidos e, aos poucos, aproxima-se do cais.

Sorrio contente por o ter já perto de mim. Amarro a corda de novo ao cais, desta vez com o pequeno barco aportado. De pés descalços apresso-me a ir ao seu encontro. Afinal é lá que estás sempre, mesmo quando não estás...

Liliana



domingo, setembro 07, 2014

Perto de ti

Estou aqui (ou deveria dizer aí?)
porque cada célula do meu corpo teu
me diz que este é o meu lugar
perto de ti, por pouco que tenhas para me dar

Estou ali (ou deveria dizer aqui?)
em busca da força para me sentir de cá
apesar da vontade de ser rio
e água límpida correndo para perto de ti

Estou aí, onde os dias são compridos
e cheios de agendas que não se amparam
e silêncios que rompem estradas feridos
por fantasmas e medos que não saram

Estou, perto de ti, na mão que estendes
quando o sol brilha no Tejo
e a ponte liga as nossas margens
numa cumplicidade difícil mas que entendes

Estou em mim, sabendo que não sou daí
consciente do dia em que "se descaia o meu pé de catraia
e óleo suja a beira mar"
mas é aqui, perto de ti, que quero estar

Liliana

terça-feira, setembro 02, 2014

aMaNhEcEr

Ensinas-me a esperar sentada à beira-rio, afastando o peso da inquietação que altera a corrente que desagua no mar.

Ensinas-me a dançar ao som do silêncio que retiras do baú dos fantasmas e enfeitas com o pôr-do-Sol sobre a cidade.

Ensinas-me a pousar o olhar, devagar, sobre as asas duma gaivota que assenta o seu vôo nos ventos calmos do sul.

Aprendo a sentir cada dia como o passar do inevitável que não se deixa intimidar pelo esperado ou desejado.

Aprendo a colocar na palma da mão os impulsos descompassados e encerrar os dedos à sua volta para que não se libertem pelo jardim.

Aprendo a desenhar silêncios inquietos e olhares de desejos livres num caderno que abro em sonhos e vivo até o amanhecer.


Liliana