quarta-feira, junho 18, 2014

Pôr do sol

O que tu precisas é de viver um grande amor.
Disse ele olhando para mim do alto da sua idade, mais alta que a minha.
Precisas de te apaixonar por um homem que largue tudo por ti. Vais ver que te anima o cinzento da expressão e retira o amargo do olhar.
É isso, é mesmo assim, tão fácil como parece.

Virei-me para o rio e pousei o olhar numa gaivota branca que parecia flutuar por cima das águas.
(Viver um grande amor? Mas grande de que tamanho? Quem diz que não o vivi já?
Um grande amor não tem de ser como nos filmes. Quer dizer, depende do filme, mas as histórias de encantar já não enganam ninguém...
Um homem que largue tudo por mim? Essa é boa! Largue o quê? A casa o carro os fatos? Outra mulher a mãe a profissão? Oh, que treta de conversa.
Apaixonar-me ou viver um amor? É que não é a mesma coisa. Aliás, são dois sentimentos distintos. Podem é vir em pack's tipo "pague um e leve dois")...

Que se passa? Disse alguma coisa de mal?
'Tocou-me  o ombro e a marca ficou lá', para chamar a minha atenção que vagueava nas águas prateadas do Tejo.

Devolvi-lhe o olhar sem me virar e sem grande entusiasmo.
Não se passa nada. Estou a pensar nas tuas palavras. E não sei se fazem grande sentido.
É tudo absolutamente abstrato e facilmente refutável. Além disso parece saído de um livro infantil.

Não quero que te zangues. Quero apenas que entendas porque vou e porque deves ficar.
Quero também que saibas que desejo o melhor para ti, e nesse melhor está, sem dúvida, o que disse.

Ainda com a marca no ombro, virei-me de frente para ele e sorri.
Está bem. O melhor para mim e vais. Já tinha entendido.
Parte tranquilo, vive bem e sê feliz. Quero o melhor para ti também, claro.

Levantou-se quando o Sol se encostou ao rio. Pegou no saco das memórias e acenou, figura escura recortada na luz laranja que inundava a cidade.
De olhos semi-cerrados, sorri e acenei de volta.

Com as palavras espalhadas no prateado das águas que se tornava fogo à medida que Sol baixava, tentei completar o puzzle de significados que não percebera.
(Não encaixam os conceitos. Não se acolhem umas às outras as palavras. Não coincidem com os espaços disponíveis em mim as ideias.)

Olhei para o fundo procurando a sombra que já não encontrei e descobri no meio do céu azul laranja azul a chave certa para desmontar o código.
(Como viver um grande amor se aquele em que estou largou tudo de mim?
Nem todos os grandes amores são como nos filmes, alguns conjugam-se na primeira pessoa do singular, mas nem por isso deixam de ser grandes amores.)

Deixei-me embalar na branda ondulação do Tejo, companhia íntima e sempre leal ao longo dos anos. Dentro da mala o telemóvel tremeu e, em silêncio, recebeu uma mensagem que só muito mais tarde li.
O que tu precisas é de viver um grande amor.

Liliana



segunda-feira, junho 09, 2014

onda

Deito-me ao teu lado como uma onda que se entrega à maré. Calma, ansiosa, sedutora ou apaixonada, a maré comanda o ritmo do meu suspirar.

O toque acontece antes de ser, o teu corpo embala o meu antes mesmo de puxares para ti a minha cintura. A onda quente que nasce no mais íntimo de mim, ganha forma ao aproximarmo-nos da cama que já nos conhece doutros oceanos.

O meu e o teu corpo na maré revolta da pele húmida. O teu corpo meu na entrega da onda que se desfaz em espuma e volta ao oceano ganhado força para, em nova onda se formar e novamente se desfazer em espuma que volta ao oceano e retorna para, por fim desaguar toda a água do mar na areia branca da praia deserta.

Deito-me ao teu lado e deixo que a cama seja praia, ilha que nos refugia do mundo e das horas e das agendas e das convenções. Deito-me e, devagar, com todo o tempo do mundo, enrolo-me em ti, qual areia molhada onde descansa a maré.


Liliana