domingo, fevereiro 23, 2014

por dentro

pingos de cera quente
que caem na pele 
e queimam e ardem por dentro

pequenos nadas
absolutos vazios
que se cravam em nós 
e doem e magoam por dentro

de fora para dentro
nadas
vazios
que queimam
e magoam
por dentro


Liliana


quinta-feira, fevereiro 20, 2014

Os sonhos têm cor?!

As ruas são paralelas ou transversais, não há rotundas nem atalhos.
Os prédios, esses, acompanham o recortar da calçada sem abrir espaços nem criar travessas.
O trânsito segue, curvando primeiro a dianteira e só depois, num movimento curvo, se lhe seguir a traseira dos carros.
A vida corre, a par com as horas e de acordo com os movimentos certos, coordenados com o estado do tempo.

Sigo em frente e viro na terceira à direita.
Devolvo o mesmo sorriso de todas as manhãs.
E demoro-me nas floreiras abertas à imaginação.
Carrego os sacos com as compras e as memórias lá dentro fechadas.
E volto ao ponto de partida pela rua mais curta.

Passaste por mim, num dia qualquer, no passeio mais largo, e sorriste um olhar da cor dos sonhos.
Devolvi algo entre o vermelho da cara e o verde tímido das floreiras.
Demorámos entre palavras tão vivas e vontades tão esquecidas que, esquecemos os ritmos da cidade. 
Na despedida trocámos algo por alguma coisa, embrulhado nos sacos.

Seguimos pelas ruas, perdidos do mundo, tropeçando nas transversais.
Aqui e ali descobri jardins entre os prédios e até um atalho directo á minha porta.
O mapa com os cafés, os sinais, os sentidos das ruas e até a saída, desarrumou-se.
Os sacos, os teus, abriram-se e espalharam pelo chão as tantas palavras, sorrisos, olhares e sentires que, naquele dia, trocámos.

Todos os dias volto à rua do passeio mais largo.
Procuro uns olhos sorrindo a cor dos sonhos.
Aguardo palavras tão cúmplicemente repetidas.
E embalo as vontades, despertadas num dia qualquer.

O vento sopra forte por entre os prédios arrumados.
O sol esforça-se para entrar no mapa, enquanto se vai deitando sobre Monsanto.
Uma ambulância, mal parada, gera o caos na fila de carrinhos de brincar.
E a vida volta a correr, ou a demorar, nas horas que cantam no relógio da Igreja.

Como era a cor dos sonhos?...


Liliana


quarta-feira, fevereiro 19, 2014

Onde está...

Onde está a fronteira entre o estarmos aqui e o aqui estar?
Como se distingue a mão que damos da mão que se quer dar?

Procuramos caminhos, escolhemos atalhos...
Onde está a terra prometida, que no mapa desenhámos?

Porque procuramos inventar um estar que não está
se sabemos desde sempre que nunca será suficiente?

Como não me perder num sorriso
que, dissemos, tem um nome, do outro tão diferente?

Onde está a fronteira entre o meu corpo e teu?
Como se distingue alguém que se dá de quem apenas se quer dar?

Liliana



Pintura de Jacqueline Klein "A dança dos amantes"

segunda-feira, fevereiro 17, 2014

Sorriso

Chego, estás no lado oposto do jardim olhando as árvores que já viveram tantas vidas. Vou-me aproximando com um sorriso de menina, matreiro, de quem sente já o teu abraço muito antes de nos tocarmos. Não consigo assustar-te, o teu olhar encontrou o meu a meio do percurso. Penso andar mais depressa para te chegar, mas atraso o passo qual raposa à espera dos cabelos d'oiro, e faço-te esperar, escondendo o sorriso num andar quase dançado.

Encontramo-nos por fim, não no jardim, nas paredes que nos acolhem e nos embalam com os ponteiros, cúmplices dum tempo que se demora desde que entrámos em casa.

Não temos pressa, os dias de grandes nervosismos já lá vão, e nós não os revivemos nem queremos. Queremos e temos as mãos que se apertam e abrem caminho para os corpos se despirem sem vergonhas e se entregarem sem reservas numa comunhão de quereres e sentires que nos envolve junto à cama.

Sou-me em ti e sinto o contrário sem palavras no meio. Lá fora chove, ou está enevoado, ou até faz sol. Aqui dentro estamos nós, e o tempo é o que nós fizermos dele. Há ventos suaves à força duma mão que se passeia em dunas ondulantes. Há vales onde a primavera faz nascer flores e correr um riacho por entre leves pulsares. Há montes que se acomodam à forma de uma mão que traz com ela o calor. Há planícies que se contorcem em movimentos cíclicos que vão aumentando de velocidade e intensidade conforme os corações assim o comandam e a respiração assim obedece e os braços assim os envolvem... Até que uma onda de lava se entrega ao mar provocando o fervilhar das águas até ao fundo dos corais.

Somo-nos nos lençóis suados, nas caras coradas, na respiração descontrolada, nos corpos ainda um, num não-local onde nos deixamos ficar durante muito tempo.

Com o despertar dos ponteiros, devagar, voltamos a nós. Eu contigo e tu com um pouco de mim. E um sorriso de meninos, matreiros, de quem sabe que o abraço se soltou, mas não acabou.


Liliana



quarta-feira, fevereiro 05, 2014

Abraço

Sei de um abraço pronto para se dar
Sei de uma fonte com poderes de amar
Sei duma praia onde as ondas batem para teu nome gritar
Sei dum pôr-do-sol laranja/rosa/laranja para o meu peito acalmar
Sei das palavras que, sonhava, me quisesses dedicar

Sei do desencanto de árvore esquecida no deserto
Sei do sorriso que ficou por trocar
Sei das roupas espalhadas tão depressa vestidas
Sei de cem mil de perguntas, por responder, esquecidas
Sei do abandono que, de outras vidas, me vem visitar
Sei do silêncio, que tudo seca, no meu corpo a dançar

E sei do pouco que sou, história acabada na primeira estrofe
E sei do coração que bateu junto do meu mas já esqueceu
E sei que muito não sei, porque o silêncio assim se defendeu

E sim, sei um abraço pronto para se dar
E um pôr-do-sol para o meu peito acalmar


Liliana