terça-feira, janeiro 28, 2014

Nascer do Sol

Depois do nascer do sol deixaste de aqui estar
ficou um corpo oco, vazio e mudo
que em nada corresponde a ti
e com nada responde a mim

Depois do nascer do sol viraste a esquina depressa demais
Fiquei onde me deixaste, onde me trouxeste, sozinha
olhando as interrogações que bailavam no tecto baço
e procurando as respostas no silêncio absoluto

Depois do nascer do sol não me queres aqui
nem ali, nem mesmo onde tu próprio me desenhaste em ti
Procuro o apagador para limar a memória e não deixar
borrar aquilo que devemos sempre guardar

Antes do nascer do sol falaste-me de certezas e vontades
que viviam, afinal, apenas no teu mundo sonhado da lua

Agora, que o sol nasceu, deixaste-me com traços soltos
da imagem que gostaria de (re)fazer de ti
já que o apagador não consegue limpar o nascer do sol em mim


Liliana


sábado, janeiro 25, 2014

Escadas

As escadas escuras que sobem sobem sobem.
O quarto demasiado desprotegido, exposto ao mundo
ao fundo do corredor, cinzento, sem face.
Lá dentro um homem e uma mulher
sentados frente-a-frente, dizem tudo o que as palavras não dizem e,
tentam esquecer a cidade a quem fecharam a porta.

A tarde, espreguiça-se, vagarosa pelos céus
e os amantes despem-se das vidas, dos medos e dos receios
à medida que o calor dos corpos se toca e troca de boca 
pela humidade quente dos lábios que se juntam.

Com uma hesitação de adolescentes, as mãos
vão-se encontrando aqui e ali, deslizando ou demorando,
até que a respiração embala os movimentos e a cama e o quarto,
que os acompanha, agora, numa cumplicidade que os contém e os liberta,
num mundo feito corpo de dois corações em sintonia
num crescendo de respiração, calor, desejo e movimentos.

Os corpos feitos um, respondem a esse encontro último,
rebentar de onda que escorre pelas rochas, em espuma,
para se reencontrar com a maré e mergulhar até ao fundo do mar.

As escadas escuras calam a fala das madeiras.
O quarto, ao fundo do corredor sem face,
acolhe um homem e uma mulher que,
deitados ainda um no outro, 
sem precisar de dizer palavra
ouvem ao fundo a cidade que sorri com eles.


Liliana




quinta-feira, janeiro 23, 2014

Manhã

Vejo as árvores e os ramos que dançam ao vento
Sinto o carinho macio da relva que recebe os meus pés
e oiço num ninho bem alto um bico que nasce nesta manhã

Saboreio o sol nos os raios que me encontram
e vejo o mundo do alto do monte

Lavo-me nas águas mais claras que jorram desta fonte
e visto-me do branco com que estas casas foram caiadas

Sirvo-me da fruta que me espera nos ramos
Corro pelos campos e brinco com a sombra,
coelho saltando por entre sorrisos

Vejo as árvores e danço com elas...
Deito-me na relva e deixo que o sol me beije
Salpico o mundo a sorrir, nesta manhã que nasce

Liliana


domingo, janeiro 19, 2014

Lençóis

Dás-me a mão
e eu entrego-me nos teus braços 
envolvida pelos lençóis da noite.
O teu sorriso, 
libertado no lusco-fusco 
reflecte os corpos que comunicam 
e se unem nos lençóis da cama.

A tensão 
que se adensa, nas paredes, nas cortinas,
na respiração, no conjunto de todos os sons,
no pulsar dos corpos e do coração,
acaba num remoinho de ventos e chuvas
e ondas até nos afogar,
num arrepio quente.

As mãos soltam-se
suavemente ao mesmo tempo que a música dos corpos
volta ao compasso e volume normal.
Enrosco-me em ti
enquanto me sinto voltar ao meu corpo
ao quarto e aos lençóis amassados.

Olho para ti,
sorrio e até me devolves o olhar
distante, vazio quase, longínquo.

Estou ao teu lado nos lençóis brancos,
mas tu estás não aqui, não nestes lençóis,
não comigo.

Dás-me a mão
mas deixo-me ficar, como estive afinal,
não contigo, apenas comigo.


Liliana



terça-feira, janeiro 14, 2014

Flashes

Há uma janela em feitio de vento
Há um lamento que corre no sangue
Há uma força que se quer levantar
E uma escada que obriga a descer

Liliana
 

domingo, janeiro 12, 2014

Lua

Há uma sala em mim, que se perdeu nas curvas do corredor da vida, onde ninguém entra.
Há um canto dentro de mim, que fica na sala do fundo, onde me sento sozinha.
Há uma força que me embala enquanto agarro os joelhos num canto da sala dos fundos.

Venho à janela, olho a rua, aprendo com os que passam e saio.
Passeio pela cidade, a minha cidade, que me leva sempre ao Tejo.
Sorrio meios sorrisos e dou-te a mão mais por mim do que por ti.

Nesta sala enterrada em mim, longe de tudo e todos, a porta nunca se abre.
Sentada no chão do canto da sala vejo-me só, afastada de todos, longe do Sol, para sempre embalada pela Lua.
E então, vou à janela e passeio pela minha cidade, com um lado embalado pelo Tejo e outro enterrado na sala dos fundos.
Duas faces de mim, eternamente separadas, para sempre distintas e contraditórias.

Há uma sala no fundo de mim onde, para viver, me deixei dividir entre a Lua e o Sol.


Liliana



terça-feira, janeiro 07, 2014

Mar

Da tua mão enlaçada na minha, onde
os dedos se confundem e se misturam
as veias com o correr do sangue.

Do teu corpo que se aproxima 
do meu e que, devagar, aumenta o ritmo 
da respiração e do bater do coração.

Da cama onde as nossas pernas se
enlaçam e os braços se fazem âncoras 
quando nos damos e desaguas no meu mar.

Dos lençóis, brancos, enxovalhados 
da tempestade, que fazem o ninho dos corpos 
suados, cansados. 

Dos dois corpos juntos que, devagar 
voltam a si recuperando 
a respiração e bater do coração.

Das mãos que se passeiam 
pelos lençóis, dunas e planícies 
em paz, sem ventos nem marés, 
estendidas apenas à beira-mar.


Liliana



segunda-feira, janeiro 06, 2014

Dos poemas de amor...

Serias o rio, que brandamente desaguava no mar naquele fim-de-tarde de inverno?
Aquele embalo manso de ondulações que ora espelham o céu, ora os nossos sonhos?
Seria a tua mão aquela gaivota que circundava o Tejo e, meigamente nele se apoiava?
Seriam os teu lábios o vento que soprava forte, vindo do mar, que me liam poemas de amor?


Seria o rio nada mais que a tua imagem recriada por mim?
Seria o frio a realidade "cá fora" que chamava por mim?
Seriam os sonhos espelhados nas águas, projecções do que já não era?
Seria a gaivota somente a expressão da minha carência?
Seria eu sozinha, sentada à beira-Tejo, sonhando com o teu embalo, a tua mão, os teus lábios...

...Mas...
Quem me lia os poemas de amor?


Liliana


sábado, janeiro 04, 2014

Futuro

Na ponta dos meus binóculos
virados a Sul, a caminho do futuro,
vejo sempre projectados,
sem telas nem audiência,
os capítulos dum filme passado.

Quando lhe viro as costas,
em busca de um novo caminho,
logo o presente me traz, 
enrolado em pergaminho,
a lista das parecenças dum tempo há tanto arrumado.

Se te dou a mão em busca
de ligação ao presente, sinto, 
no fundo do ser, uma pontada profunda que dói
e me remete para o tanto que já foi.

Do futuro quero apenas tudo o que vivi
sem dores, mágoas ou medo.
Ao presente, peço apenas deixe entrar 
o novo sem comparações nem pré-conceitos.
Quanto ao passado, espero que fique, sem sair,
no sítio onde, sozinha, o fecho e o enterro.


Liliana


quinta-feira, janeiro 02, 2014

Palavras

Sabes do cheiro a maresia
que sobe pelo Tejo e inunda a cidade
limpando as ruas até à Mouraria?

Sabes das praias de areia fina
onde semeio amores
que na Primavera abrem em flôr?

Sabes do colo que guardo em mim,
eternamente maternal,
onde passam tantos filmes que me fazem mal?

Sabes dos olhos sem fundo
onde projecto todo o mundo
com a claridade dos olhos limpos duma criança?

Sabes dos sonhos que encho
em balões coloridos
e solto numa colina nos dias de Sol?

Sabes da terra escura,
enlameada, onde às vezes
me deixo prender até perder o pé?

Sabes também das palavras com que brinco
rodo, giro e escrevo de pernas para o ar
até dizerem o que eu quero, dentro do que dizem?

Sabes-me?



Liliana