segunda-feira, dezembro 30, 2013

Ano

Não entres no dia a pensar no outro que vem.
Não entres.
Não deixes que o horizonte, por mais belo que seja, te afaste os olhos de cada pequena flor do caminho.
Não deixes.
Não percas nem uma dentada do bolo mais teu, pensando nas consequências no dia que vem.
Não percas.
Não sintas nem um beijo a menos do prazer do dia, por pensar que no outro que vem tudo pode acabar.
Não sintas.
Não corras em busca do arco-íris até ao último fôlego, porque a seguir outros arcos virão.
Não corras.
Não mates os fantasmas que crescem contigo, é com eles que aprenderás a viver no outro que vem.
Não mates.

Não entres no dia a pensar no outro que vem.
No dia
Na semana
No mês
No ano
Não entres no último dia do ano com medo do que o outro traz.
Não entres.

Liliana


sábado, dezembro 28, 2013

"Atrás dos tempos"

Os Invernos e os dias de chuva e vento que à força despe as árvores e o cinzento pesado do céu que parece ameaçar cair sobre as nossas cabeças... Sucedem-se, é uma roda que gira e que de ano a ano nos tráz cada Outono, todas as Primaveras e passeia os Verões. 
Não é, por isso difícil, depreender que "atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir". 

Mas e se se der o caso de uma dúvida pequenina, tão pequena como um grão de areia, se instalar entre as pás que fazem andar a roda e todo o mecanismo parar. Ficará o Inverno parado na minha vida, enquanto a roda gira para todos os outros? Ficarei eu presa dos meus fantasmas, com eles à espera da chegada de um novo Inverno para, com muito cuidado, retirar o grão de areia, pedra angular de todo o meu ser....

A questão é que, passados alguns Invernos, já consegui perceber que o tempo a gerir, a clarear e às vezes chuviscar é dentro de nós que se reflecte e projecta para fora ajudando a roda a emitir a estação certa que, durante uns meses, florescerá em toda a terra.

Porque fico tanto tempo no Outono e no Inverno?!...........

Liliana




segunda-feira, dezembro 23, 2013

Dos Natais de outros anos...

Acreditas no Pai Natal?

Pego no pinheiro enrolado numa espécie de meia de rede, daquelas que antigamente as senhoras ousavam usar para provocar os cavalheiros, e tento a custo equilibrar-lhe o tronco entre as duas pedras grandes que de ano para ano servem de apoio à tão esperada árvore de natal. Entre desequilíbrios e quedas, dou um salto na memória e vejo os pinheiros da minha infância. Sem esforço aparente apareciam prontos a decorar na sala de jantar onde eu e a minha prima mergulhávamos nas caixas de enfeites e descobríamos as bolas decoradas, ainda de vidro, que diminuíam de número à força das nossas tão delicadas mãos, as luzes em feitio de vela que se apagavam sempre que uma das lâmpadas se fundisse e até as faixas farfalhudas douradas e prateadas com que, literalmente, vestíamos o coitado do pinheiro...

De repente o meu pinheiro, este verdadeiro, com resina e folhas que se espalham pelo chão da sala e tudo o que a natureza nos dá, parece-me tão pequeno. Os enfeites e bolas, estas de plástico para sobreviverem aos assaltos anuais dos miúdos, olham-me tristes e desengraçados. Até as luzes, que piscam e mudam de cor, me parecem desengraçadas.

Quando eu tinha o tamanho dos meus filhos mais velhos, o Natal estava coberto de um manto mágico que nem a mais dura realidade conseguia romper ou corromper. Via a azáfama e correria na cozinha com os olhos de quem quer acreditar no Pai Natal mesmo quando me diziam que ele não existia. Tudo me parecia um bailado de movimentos alegres e criadores, de onde nasciam filhoses e leite-creme e embrulhos e aletria e bacalhau e embrulhos e mesas arranjadas com copos de pé e embrulhos...

Enrolo o alguidar com a massa das filhoses numa manta e deixo-a fintar perto do aquecedor. Com as mãos cheias de farinha vejo-me do lado de dentro do teatro, onde as luzes estão penduradas por cabos pretos e o cenário colorido está debotado e remendado. A minha avó à porta da cozinha, também com as mãos enfarinhadas, suspira cansada. A minha mãe na sala, arruma as lágrimas ao lado dos copos de pé enquanto arranja os presentes em volta da árvore. Os meus tios, atrasados para o jantar, batem à porta com olhos cansados da correria e do trânsito.

Ao fundo do palco, o meu avô sorri. Olha-me através dos tempos e das luzes e das árvores de muitos natais. Ao fundo do corredor grande e comprido, da cozinha ao escritório, chama-me ao seu lado. Sou do tamanho dos meus filhos mais velhos e está na hora de lhe dar a prenda que a minha mãe comprou. Ele dá-me a mão e abre o embrulho de mais um lenço com um "F" bordado. Está tudo tão perfeito que nem as lágrimas, nem os suspiros, nem os cansaços se atrevem a interromper, apenas a mesa com os copos de pé e o leite-creme e os embrulhos ainda à volta da árvore.

Ao fundo do corredor, do meu corredor, o meu avô sorri e os seus olhos azuis iluminam o palco, dão cor ao cenário e alegram os focos.

Os meus filhos correm e brincam em volta do pinheiro que, aos poucos, se veste de festa. As filhoses estão prontas e luzidias no centro da mesa vestida, também, de Natal. Os embrulhos vão-se juntando longe da vista das crianças e na manhã de Natal aparecem, como que por magia, em volta da lareira. Afinal sempre me disseram que o Pai Natal não existe, apesar de o ter visto passar em frente da lua todas as vésperas de Natal!


Liliana a 22/Dez/2009


quarta-feira, dezembro 18, 2013

Dias

Há dias em que ao fundo do corredor dos quartos, logo ao acordar, já espreita um aperto no peito que se cola a nós e que acabamos por vestir durante todo o dia.

Nestes dias, mesmo antes de me levantar, sinto já uma brisa fria que me arrepia o corpo e desnorteia a calma. Levanto-me, por isso, com receio do corredor e do que vestirei. Avanço à força das horas e das barrigas vazias que me chamam como pássaros a pedir comida, e tento ainda fintar esse nevoeiro que cobre o futuro. Mas tenho um iman interno que atrai as inseguranças e os medos e as aquelas aflições quase inaudíveis que nos perseguem para todo o lado e, invariavelmente percorro o corredor com um cesto onde guardo toda essa inquietação.

Há dias em que esse peso, que se me cola à pele, vai palpitando por entre os ponteiros do nascer ao pôr do Sol.

Nesses dias não consigo ultrapassar os sentimentos encobertos, antes sou controlada por eles qual refém duma força indestrutível que me comanda como uma marioneta. Todas as pequenas coisas rapidamente se tornam em "pormaiores" difíceis de contornar. Entro como que numa espiral que me deixa extenuada a cada hora que passa.

Há dias em que me queixo, em que digo que não me sinto confortável neste guião, mas só eu o conheço e por isso dificilmente se levanta uma mão que me consiga ler em tudo o que não chego a escrever.

Esses são os dias em que pinto a cara com o que não sou e sorrio a alegria que não tenho, à espera, sozinha, que as horas avancem e me deixem descansar... de mim.

Liliana


segunda-feira, dezembro 16, 2013

Cá dentro...

O meu jardim chora folhas amarelas e castanhas cobrindo o chão por completo. As crianças, pela manhã fria, saltitam por entre as lágrimas do meu jardim convidando-o a olhar o céu azul claro de Inverno com as suas cabecinhas cobertas com gorros e pequenas nuvens a sair pela boca quando riem.

O meu olhar fixa-se no chão, nos montes de lágrimas amarelas e castanhas que se vão formando aqui e ali, por entre os caminhos que quase não se vêem. O meu filho corre pelo tapete das árvores e chama por mim. Faço de conta que não ouço, não me apetece correr nem ver as pequenas nuvens que fogem das nossas bocas em direcção ao céu azul.

Choro com os ramos que se despem devagar e invento histórias para as folhas que caem. As manhãs de Inverno, mesmo que claras, deixam-me num sentimento melancólico de falta, ausência, talvez carência de algo que não sei nominar mas que reconheço no peito.

Percorro o jardim de um lado ao outro e despeço-me das lágrimas, amarelas e castanhas, que me deram os bons-dias e vestiram o chão matinal.

Entro na rua sem árvores até à escola, e volto para trás tentando contornar, o incontornável, jardim que leva a casa.

"Cá dentro inquietação..."


Liliana



sexta-feira, dezembro 13, 2013

Sinto!

Pergunto-me por onde andas
mas antes da pergunta chegar à boca
agarro-a com força e prendo-a na palma da mão,
consciente da impossibilidade de a conjugar.

Não me cabe saber, nem querer, nem procurar
somos dois, e múltiplos em cada um.
Esqueço-me que não sou parte da tua equação
quem sabe personagem num sonho de encantar
quem sabe caminho alternativo para descansar.

E assim:
Nem pergunto, nem falo, nem peço, nem penso, 
nem espero, nem conto, nem duvido, nem tremo,
nem olho, nem telefono, nem escrevo, nem digo.
Nem sinto.

Liliana


terça-feira, dezembro 10, 2013

Marés

Não te faças ao mar sem que todas as estrelas se alinhem no horizonte da lua.

As correntes trocam de caminho ao sabor dos ventos, que nada nos querem, que de nada nos sabem e fazem o barco navegar à deriva.

Este mar que nos leva, nos surpreende e nos prende, de nada nos avisa ao mudar a rota dos nossos planos tão alinhados nas estrelas do luar. Tão perfeitos. Tão cuidados. Tão estudados.

E ficamos sem terra no centro da bússola que nos baralha e engana no velejar, desviando o astrolábio que nos mostrava o caminho por mar.

Não, não te faças ao mar que o regresso pode ser penoso e sem data para voltar.

As velas baloiçam enquanto suspiramos, aflitos sem direcção, não as prendemos, não as recolhemos, não as reconhecemos.

E o barco balança qual filho embalado no berço da dança do corpo da mãe.

As únicas companheiras, a lua, as estrelas, que apesar de nada nos dizerem, são esperanças e esperas.

Não te faças ao mar que nem lua nem estrelas nem maré nem velas nem embalo nem mãe te afastam os problemas.

Liliana



Madiba

Hoje despeço-me do que é já só o teu corpo. Serás embalado no colo dos que, como tu foram inspiração, força, despojo, aceitação e luta. Liberdade.

Ensinaste-me que a única forma de levantar voo e bater asas livremente vem da capacidade (não negar, não apagar) mas de aceitar os homens com as suas mesquinhas maldades e conseguir, com a força de quem caminha sobre as águas, despir a raiva que nos invade o corpo.

Mostraste-nos ainda com a força de quem o já tinha dito há tantos anos, que somos todos iguais, filhos da mesma matéria e irmãos de tantas formas.

Com o teu povo lutaste pela paz e em todos nós reacendeste a força, a necessidade, a imperabilidade dessa luta que, de longe percorremos contigo. Uma luta difícil para quem põem de lado as mágoas profundas e segue para a guerra sem armas nem arremessos.

Foste um homem de olhar tranquilo e sorriso meigo, gritando ao mundo que sempre que um homem quer duma derrocada ergue-se uma nova ponte. E pelas pontes nascidas de ti, os homens aprenderam a olhar-se e a reconhecer-se uns nos outros.

Hoje despeço-me de ti e já me fazes tanta falta...

Liliana



domingo, dezembro 01, 2013

Coração

Entro na loja abafada pelo ar-condicionado que me deixa em choque-térmico, vindo do frio da rua.
Os enfeites e as luzes a piscar atordoam-me os olhos e deixam-me perdida por entre as filas de pessoas, estranhas para esta hora do dia.
Não consigo empurrar o meu carrinho até aos vegetais. Ao fundo a música com sininhos e vozes infantis toca alguns décibeis mais alto do que devia.
Avanço pelos corredores e perco-me na lista de compras. O piscar das luzes e música de fundo acompanham-me para todos os lados que me viro.
As caixas estão cheias com filas de carrinhos e pessoas que se empurram de fila em fila, para chegar primeiro à frente.

Baixem a música que aqui à saída não há Natal!

No balcão já se fazem embrulhos, os papeis são somente vermelhos e verdes para descontentamento dos clientes que exigem um papel infantil, com desenhos e cores.

Desliguem as luzes que aqui ninguém se lembra do que quer dizer Natal!

Uma senhora de idade chega-se à frente com um cesto de pão e pouco mais, pede para a deixarem passar, não consegue estar de pé. A primeira tem o filho com ela, o segundo também lhe doem as pernas e a terceira olha para o lado como se isso a tornasse invisível.

Retirem os enfeites, o Natal murchou antes de chegar!

Saio com o barulho das pessoas das zangas da música dos embrulhos e de tudo o que faz de conta que representa o Natal. Estou zangada, enervada e quase farta do Natal. 
O frio da rua quase que me deixa em choque-térmico, e o Sol contrastando com o azul claro do céu lembra-me que o Natal não está no meio das prendas embrulhadas com papeis escolhidos a dedo, nem nas correrias das compras.

Abram o coração, é lá que está o Natal queiramos nós acolhê-lo!

Liliana