sábado, novembro 30, 2013

Caminho

Há quartos e salas por onde ando. Mexo-me por entre espaços e tempos que não quero perturbar, somos todos os coreógrafos dos nossos dias. Pego em todos os cenários e espalho-os por cima da mesa de madeira antiga da sala de jantar. Olho para eles e vou alterando objectos, trocando espaços e fazendo novas marcações no texto.

Afinal, como programamos o correr dos dias, sem os deixar afundar no mar da monotonia? Damos mais espaço aos tempos com sorrisos, e avisamos o ponto das novas pausas.

Sim, o meu caminho é feito de divisões várias, umas que se ligam entre si, outras que se empurram para não se tocarem com a maré dos meus passos.

Ah, se o fio condutor deste caminho estivesse nas minhas mãos... Avançava sem nunca mais tropeçar e sabia parar a tempo de me sentar na varanda, nas noites de lua cheia, e deixar-me envolver na sua luz branca e fresca, só porque sim.

Há quartos e salas por onde ando, que visito ao sabor dos ventos que vou tentando conter em mim.

Liliana





sexta-feira, novembro 29, 2013

Casa

Estou em casa, em ti.
O meu corpo responde ao teu, que me chama, com calma.
Dou-me(-te) na humidade ofegante do sangue que corre nas veias, sem pressa.
Recebo o teu corpo no colo do meu que se fez nosso e, tranquilamente, nos sinto cúmplices no caminhar ritmado pelo bater do coração dos dois.

Estou em casa, em ti.
Não há dragões nem medos, aliás, não há para além de nós.
Os lábios que se cruzam, os corpos que se tocam, os gemidos que se perdem, ficam ali, contidos, como num ninho, abrigados do mundo.

Estou em casa, em ti.
Sentindo-nos e sendo-nos na euforia dos corpos que se dão em ondas que rebentam nas rochas e se fazem mil gotas até voltar ao embalo do mar.
E nesse embalo me deixo levar, em ti, até desaguar na areia serena da nossa praia.
E então, juntos os corpos, estás em casa, em mim.


Liliana



quinta-feira, novembro 21, 2013

Espera...

Guarda a vontade que eu estou quase a chegar
Embrulha-a no calor da tua pele
E não a deixes apagar

Guarda a vontade para mim, 
Fecha-a bem em várias gavetas
Que não demoro nestas ruas incertas

Guarda a vontade dentro de ti
Deixa-a correr por todo o teu corpo
E para não arrefecer fala-lhe de mim

Guarda essa vontade partilhada
Embala-a na lua que tudo ilumina
E espera-me na hora mais sossegada

Guarda a vontade que eu chego não tarda nada
E nos teus braços me enrolarei
Neste rio que em que me desaguei


Liliana


terça-feira, novembro 19, 2013

À minha avó

A nossa recordação mais antiga que guardo na caixa das horas vividas, é a mesa da cozinha cheia de púcaros onde, a par contigo, cozinhava as cascas das ervilhas que eu detestava, ou das cenouras que davam uma cor linda aos meus cozinhados depois de bem esborrachadas, ou ainda os talos dos grelos que eu desesperadamente tentava migar com a faca de sobremesa que me davas como utensílio. No fim das contas o mais importante de tudo era mesmo o avental, teu, que dobravas para eu não tropeçar e apertavas com um laço digno de uma princesa.

A cozinha foi, de facto, o centro das nossas memórias, aliás era o centro nevrálgico de toda a casa e família, que giravam à sua volta de acordo com as horas, os dias da semana, as festividades anuais e toda a logística que ali tratavas e resolvias com as tuas próprias mãos.

Nas grandes janelas, rasgadas sobre o Tejo, da sala de estar, aprendi a contar os carros que, apressados corriam na marginal nos fins de tarde de Primavera, com um Sol preguiçoso que se despedia da cidade beijando o rio.

Ao som dos Parodiantes de Lisboa faziam-se os trabalhos de casa, difíceis por ter vindo coxa (ou nem isso) da Primeira Classe. A tabuada espalhava-se por toda a casa, seguia pelo corredor até ao banho, abria a porta do quarto para se vestir, parava no sofá da sala da televisão e voltava à cozinha, sempre com os mesmos erros e os respectivos ralhetes.

Fora de casa, seguíamos até Algés com o rio como companheiro e as conversas inesgotáveis de quem descobria o mundo inteiro numa folha do jardim, e tu paciente, atenta, respondendo àquele enorme entusiasmo até às montras e montras com muito mais do que conseguia imaginar e, por fim, o café e o bolinho antes do eléctrico de regresso.

E ainda os Natais, e ainda o sótão com os brinquedos, e ainda as saias e os vestidos, e ainda as conversas de "mulheres", e ainda os outros dias todos de que não guardo memória...

A tua recordação mais antiga que guardo é tão antiga que não me lembro dela, mas sei que está dentro de mim, a primeira vez que te vi e te percebi minha... para sempre.

Liliana


Parabéns pelos 88 anos, obrigada!

sábado, novembro 16, 2013

Jogas comigo?

Todos os dias amanhecemos peças de tabuleiro (mais ou menos) prontas a jogar.
Lançamos os dados a cada passo cada decisão cada avanço e, tantas vezes, cada recuo, sempre atentos aos jogadores que nos rodeiam, ao movimento das peças e ao avançar do jogo.

Na maioria dos casos as peças mantêm posições confortáveis sem grandes sprints ou dribles audazes com receio de sair do tabuleiro ou perder a bola.
Mas peças há que têm em si a liberdade de jogar fora do quadrado, de arriscar, de rematar de trocar de lugar e não reconhecer adversários se não a sua própria responsabilidade no jogo.

Mas e se, eu avançar com a rainha e, por descuido, a deixar desprotegida?
E se, eu arriscar a correr fora da pista, sem meta comum com conffetis e lacinhos, apenas eu e a minha vontade?
E se, por entre os outros, avançar até à bola e rematar à baliza, arriscando acertar na trave?
E se,sair da estrada de tijolos amarelos e correr por entre os campos sem a segurança do caminho certo?

A dúvida nasce quando descobrimos que as estradas bifurcam vezes sem conta, e vezes sem conta somos obrigados a escolher. Avançar? Recuar? Esquerda? Direita? Parar?
A dúvida instala-se quando, por fim arriscamos sem garantias de sucesso, ou até de conseguir manter-mo-nos naquele jogo.
A dúvida, essa, é companheira de quem não tem medo das regras e aceita-as ou não conforme a sua íntima convicção.
E é na dúvida que às vezes nos perdemos, desesperamos ou, até nos arrependemos.

Mas é também lá que aprendemos a olhar o nosso reflexo sem nos afogarmos nas águas.
É também lá que descobrimos os limites do que conseguimos, devemos e podemos atingir.
É também lá que vemos o que nunca veríamos se nos mantivessemos nas posições confortáveis dos tabuleiros já tão familiares.

Todos os dias amanhecemos peças de tabuleiro onde nos mascaramos, despimos, amamos, criamos, desafiamos, amedrontamos, seguimos ou paramos.

Como jogo esta manhã? Avanço sem medo, paro assustada ou continuo sem garantias de onde vou chegar?

Já podes jogar...


Liliana


 


 

quinta-feira, novembro 07, 2013

Loucura



Sou filha da loucura e da insanidade

e com elas me perdi no fundo da minha verdade

Sou filha da loucura e da insanidade

fogo que guardo em mim até à eternidade



Da loucura ficou a mágoa,

cavalo correndo sem fim

numa pista amarga e solitária,

sem ventos, moinhos ou lembranças de mim



Da loucura resta esta chave,

que escondo com medo que abra

a mala de ferro, que tapo

para que de dela não salte a verdade



Mas nem tudo foi só tristeza,

pois é complexa a nossa essência

Da dualidade vivida, nasceu o terror

de perder a visão da resistência

travada com violência e rancor,

contra as formas falsas da aparência



A insanidade jogou as cartas trocadas

e no tabuleiro viciado deixou desnudadas

a verdade e a mentira que foram violadas



O preço do jogo foi de tamanha quantia

que a alma vendida, jamais, algum dia

se virou contra a voz que lhe dizia

não ser verdade o que via, apenas o que dela ouvia



E na manta de retalhos escrevi

nada do que vivi ou senti,

pois ainda hoje oiço a voz que me diz

ser mentira o que penso que fiz



Sou filha da loucura e da insanidade

e com elas, um dia, avistarei a tranquilidade.



 

                                                                       Liliana
Abril 2005 


segunda-feira, novembro 04, 2013

Relógios...

Segura nos números que eu agarro os ponteiros.
Baixa os estores e corre as cortinas para que tudo o mais fique lá fora.
Agora ficamos sós, a sós um com o outro.

Assim, no lusco-fusco, consegues olhar para mim?
Assim, no vazio do peito, consegues chegar-te a mim?
Assim, no limiar do silêncio, consigo entregar-me a ti?

E a casa e os filhos e as escolas e a roupa estendida e o almoço e as mochilas e loiça suja e os horários e as noites mal dormidas e a roupa estendida, e tudo o resto que gira em torno de nós à espera de uma só deixa para cair nas nossas costas....
Assim, consegues entregar-te a mim?

Largo os ponteiros para te tocar, deixas cair os números para me abraçar.
Viramos o relógio para baixo e sorrimos...
Estamos prontos para nos encontrar.


Liliana