quarta-feira, outubro 30, 2013

Aqui

É no silêncio dos meus dias que distribuo o vento e a claridade que em mim se misturam e, em (des)equilíbrio convivem.

É no fundo do mais fundo do meu ser que giro as duas faces da mesma moeda que sou que estou que sinto que vivo.

Jogo no tabuleiro do meu corpo cada partida diária deste jogo sem fim, avançam as negras recuam as brancas nenhumas ganham, apenas se sobrepõem alternadamente a cada avanço dos ponteiros do tempo, do meu tempo.

E avanço (e paro) à força dos dados que lanço, não sei se lanço eu se eles próprios, avanço (e paro) com o vento que derruba as peças negras e mostra a face oculta da moeda. E avanço (e paro) com os olhos semi-cerrados pela claridade que me baralha a jogada e faz cair a moeda.

É assim, no silêncio dos meus dias. Onde não há espaço nem tempo nem vida, só silêncio e eu, bailarina a dançar dentro da caixinha de música.

Aqui sinto tudo, porque não há muros nem colchões para abafar o impacto de cada movimento.
Aqui me percebo e me perco.
Aqui te lembro ou te afasto.
Aqui me deixo levar e digo não!
Aqui sou, porque estou só.
Aqui choro e dou gargalhadas.
Aqui fico e fujo.
Aqui te digo o que não te digo.
Aqui te quero e não te procuro.
Aqui sinto tudo e aqui sou.

É no silêncio dos meus dias que me completo, de branco ou de negro, com vento ou claridade com as duas faces de uma só moeda.

Aqui, no meu silêncio.

Liliana



segunda-feira, outubro 28, 2013

Poesia

Perdidos num qualquer canto do mundo, longe das agendas e dos afazeres, despreocupados com as urgências da vida, eles encontraram-se frente a frente despidos de receios ou inquietações.

Olharam-se demoradamente, e sem dizer uma palavra perceberam toda a poesia que vive e respira, assim, num qualquer canto do mundo, quando não temos vergonha de tirar as camadas de tinta com que nos pintamos e nos permitimos estar somente com o que somos.

Não ficaram parados nem pendurados no tempo que não tem tempo. Abriram as janelas e deixaram entrar o rio onde, devagar, se entregaram um ao outro com a candura e a simplicidade de quem conhece o pulsar da vida, e sabe que é nos momentos mais simples e verdadeiros que corre a seiva que nos alimenta a alma.

As águas acompanharam os movimentos enquanto as ondas nasciam no meio dos dois corpos, um só, tão longe do mundo e tão perto de si.

Depois do remoinho, a maré parou e todo o chão se transformou num espelho d'água reflectindo tudo o que não precisava ser dito. Por todo o lado um silêncio tranquilo e meigo, marcado apenas pela respiração que devagar voltava ao normal, invadia aquele espaço longe das preocupações e afazeres.

Ao desaguar, o rio acordou os ponteiros do relógio, deixou entrar o barulho dos carros correndo nas ruas e abriu as agendas de cada um. De repente, já não estavam perdidos do mundo nem fora das horas.

Olharam demoradamente um para o outro e, sem dizer uma palavra, despediram-se da poesia vivida naquele canto do mundo.

Ao sair sorriram cúmplicemente com a certeza de quem ainda consegue "inventar o amor com carácter de urgência"(*) e depois deixaram-se perder novamente na corrente dos afazeres, das urgências e das preocupações da vida.


Liliana


 
(*) A Invenção do Amor - Daniel Filipe

terça-feira, outubro 15, 2013

Amanhecer

Sentas-te ao meu lado na cama, passas a mão pelo meu corpo adormecido e dizes baixinho "não te deixes adormecer... faz-te bem sair daqui." Eu indiferente quieta dormente, aqui, sem estar em lado nenhum. E pensas "dorme, deixa-te estar, fica, chora, não fales, não olhes nem rias, mas volta, volta para mim que te quero aqui ao meu lado na cama, ao meu lado na vida, acordada, feliz... viva... dorme se é isso que queres."
O meu corpo enrolado nos teus olhos assustados, sem saberem o que fazer de mim, como desenrolar-me o corpo neles projectado e desenhar um novo amanhã raiado de sol. Mas nem ao sol reajo e nem o céu azul, brilhante de Verão, me faz levantar da cama e abrir a janela de mim para me aproximar do mundo.

O mundo inteiro é agora esta cama onde te sentas ao meu lado e falas sozinho, esperando o dia em que as palavras, ocas de tanto ditas, se desfaçam na parede e, por milagre, me façam acordar deste não ser nem estar em que estou.

Aqui, neste lado da vida tudo se passa mais calmamente. As horas giram em torno dos pequenos rituais que criaste. Os bons-dias dos miúdos com o pequeno-almoço, os comprimidos. O sono. O almoço acompanhado dos beijinhos, os comprimidos. O sono. A tarde que passa como um filme dentro do meu sonho e o lanche contigo sentado ao meu lado, os comprimidos. O sono. O escurecer do quarto de mãos dadas com o meu silêncio e o jantar no tabuleiro ao som do vosso jantar na cozinha, os comprimidos. O sono agora contigo ao meu lado, na cama, falando de coisas que não compreendo porque o que oiço é o acordar dos fantasmas da noite, os comprimidos. O sono, alterado incomodado interrompido, numa dança a muitos tempos que não consigo acompanhar. O nascer do dia espreitando pelas persianas e o sono leve que me embala até aos beijinhos do pequeno-almoço.

Sentas-te ao meu lado na cama e dizes baixinho "não te deixes adormecer... faz-te bem sair daqui." Fá-lo todos os dias, não porque aches que me vou levantar imediatamente, mas porque acreditas que um dia, como o sol, vou amanhecer.

Liliana



segunda-feira, outubro 07, 2013

Debaixo do rio

Chamas o meu nome bem alto e acenas-me do outro lado do rio. Sorrio de volta. O barco que liga as margens segue na minha direcção e sinto-te já ao meu lado, o calor das mãos, o cheiro do abraço. 


Debaixo da ponte um ruído passado, barulho de outras vidas, enrola a corrente num remoinho que puxa o barco. Deixo de te ver. Chamo por ti na ponta do porto, mas o barco afasta-se no nevoeiro que esconde o castelo e envolve a cidade.


Fico só. Sem saber do barco onde vinhas, sem te sentir o abraço quente e tranquilo que já antecipava. Toda a cidade parece diluída num retrato a carvão mal desenhado, esborratado nos cantos. As cores que trazias na mão para me dar perderam-se num remoinho de coisas sem importância nenhuma.


Levanto-me e num último suspiro digo o teu nome aos peixes às gaivotas às nuvens e até à chuva que se funde com as lágrimas que teimam em cair e rolar até ao Tejo para, com os peixes, te procurarem. 

Encontram-te no fundo do rio, sentado numa pedra, tão longe do calor e da magia que nos unia. Os peixes aproximam-se e contam-te o segredo das lágrimas que chorei. Dizem-te dos sorrisos que despertaste, das cores que me faltam, e do calor que me aquece.



No porto cinzento, espero-te em silêncio, já sem esperança. A noite cai e a lua ilumina o rio agora quieto, quase parado. Atrás de mim um cheiro quente lembra-me o ruído e a ponte e o remoinho.... fazem-me falta as tuas cores, faz-me falta a tua mão na minha e a possibilidade do impossível.
Liliana