domingo, junho 23, 2013

Passar dos anos

A idade para mim é assim uma coisa estranha, perdida entre os anos que passam/ passaram/ hão-de passar/ e o tempo, amorfo, que sinto pesar dentro de mim.

Nem sempre coincidem, estas duas realidades. Aliás, raramente coincidiram os anos que festejo e os anos que senti ter ao longo da vida.

Não me preocupa esta dissonância, este desequilíbrio externo/interno, que ronda o equivalente a uma década. 
Com esta dança aproximei-me da geração anterior sendo que não é dela que faço parte, aprendi a crescer no mundo sem deixar de brincar por entre as suas ruas e vielas, li os livros, vi os filmes e cantei as canções antes do tempo sem perder o tempo dos meus afazeres.

Hoje, continuo com este desfasamento em mim.

Normalmente não penso nisso, mas com o virar de mais dez anos à espreita, às vezes assusto-me com os meus próprios enganos e tenho de fazer contas até chegar ao número certo. 
Que afinal, é só um número. 
Porque, na verdade, sou mais da geração anterior e, no entanto, não é dela que faço parte.

A idade para mim é assim uma coisa estranha...


Liliana




terça-feira, junho 11, 2013

Vida

Hoje dei de caras com uma cegonha. 
Ela ficou tão espantada comigo como eu com ela. Olhámos uma para a outra, curiosas. 
Vi-lhe os olhos cheios de vida e as asas que se abriram aos poucos à minha frente, a uns passos em frente.

De asas abertas, pronta a levantar voo, olhou-me de lado e, juro, disse-me um rio de segredos, daqueles que todos sabemos para os outros mas sempre esquecemos para nós.

E partiu.

Fiquei muito tempo parada, com os segredos dela na cabeça. 
Às vezes precisamos dar tempo aos pensamentos para se arrumarem e se organizarem em ideias.

Depois também eu parti, para o resto do dia que me esperava.

Hoje dei de caras com uma cegonha...

Liliana



segunda-feira, junho 10, 2013

Feira do Livro

Olho para ti, com o Tejo como cenário ao fundo, e vejo-me dentro dos olhos. Sentada aqui deste lado do monitor, com algum receio de voltar a calcar as teclas mas com a certeza de que é nelas e com elas que me (re)invento a cada queda (e todas as flores precisam cair uma vez por ano para que nasçam novos frutos).

Cresceste/emos tanto!

Está-se bem ao teu lado agora. As conversas, que sempre foram agradáveis, são mais tranquilas (e que falta me faz um pouco de tranquilidade nestes dias). Afinal a pouca que tenho, que encontro, que cultivo é, qui çá, a pouca que sempre tiveste e não conseguiste juntar.

Somos um. Tão iguais afinal. Tão iguais. 

Volto às palavras que abandonei (ou me abandonaram) há tantas noites e, ainda a medo avanço pelo labirinto das metáforas e dos segundos sentidos. Nunca gostei de coisas demasiadamente explícitas, tem de haver sempre um certo pudor no dizer, um véu que enrola as ideias para as não deixar demasiado expostas às intempéries dos dias. 

Os dias constroem-se devagar. 

O Tejo reflecte o céu de Lisboa que, hoje, não me sorri ao descer o Parque contigo. Paramos, subimos, descemos, ziguezagueamos por entre uma das paixões comuns - livros. No meio de tantas palavras é difícil, às vezes, escolher as certas para reconstruirmos os dias que se cosem com linhas que vêm de passados, que não estou certa de querer trazer para o presente.

Olho para ti e o rio clareia por segundos numa nuvem que se afasta, como o nosso sorriso abraçado, de até depois, que ecoa em todos os livros por onde passo. Ainda agora nestas palavras que me permiti escrever, juro, consigo ler em cada uma delas o nosso sorriso.

Cresceste/emos tanto!

Liliana