quinta-feira, março 28, 2013

Tralha

Já passei por tantas vidas, encarnei tantas personagens, vesti tantas máscaras e pintei tantos sois na minha pele, que ao fim-do-dia é-me difícil reconhecer-me no meio de tanta tralha.

Vivi contos de assombrar e histórias que se baralharam entre caminhos íngremes e desconhecidos. Acreditei sempre, até à última letra, num final feliz mesmo quando era óbvio que essas palavras se desfaziam em fumo de um qualquer cachimbo de lagarta em transformação.

Encarnei todas as personagens que me piscaram o olho ao virar duma dificuldade e mantive-as vivas até já não mais as poder pegar ao colo e embalar com o choro da noite.

Vesti as máscaras que o espelho me pediu para conseguir apagar as lágrimas que caiam. Num suspirar profundo vesti-as e usei-as como palhaço alegre em muitas histórias contadas de pernas para o ar.

Pintei o sol na minha pele para não me esquecer que depois de cada grande e escura e, tantas vezes, solitária noite ele haveria de nascer e iluminar o mundo com todo o seu esplendor e luz e calor. 

Já vivi tantos mundos que às vezes me perco neste que aparentemente é o meu, e onde devia deitar fora a tralha, encontrar as palavras, prescindir das personagens, tirar as máscaras e olhar o sol no céu.

Liliana





quarta-feira, março 27, 2013

Tempo

No dia em que descobri que o tempo acaba, que o "meu" tempo não é infinito, percebi que o momento é agora. 
Aquela ideia de guardar na gaveta os mil projectos que nos fazem brilhar os olhos e vibrar o coração teria de ser revista e virada do avesso. 
A vontade abafada de criar teria de ser arejada. 
A dúvida eterna se serei ou não capaz teria de ser, por fim, respondida.

No dia em que descobri que o meu tempo não é infinito, percebi que as mudanças se fazem com calma.
Lançam-se os dados e jogam-se as peças com cuidado, no tabuleiro frágil do dia-a-dia.
O momento é de introspecção e preparação, e o agora estende-se sem criar ansiedade.
Não se corre atrás dos dias, antes eles avançam connosco, ao nosso lado, à nossa velocidade.

No dia em que descobri que o momento é Agora, percebi que o agora se constrói com Calma.

Liliana



terça-feira, março 12, 2013

Sombras

Não me olhes com esses olhos, de quem me entra na alma e vasculha as gavetas, à procura das sombras perdidas. 
Não me apontes o dedo às dores que procuro esconder de mim e vejo escorrer em sangue pelos pés descalços.
Não me vires as costas... não me deixes a olhar para ti, partindo, sem te conseguir chamar, sem te saber agarrar.

Olha-me nos olhos e vê como sinto o caminho fugir do mapa.
Junta a palma da mão à minha e sente o bater dos medos no coração.
Chega-te a mim e vê as rugas que começam a riscar-se à volta dos meus olhos e pede-lhes que te contem como chegaram aqui.

Porque não te aproximas?
Porque ficas ao longe, sem entrar na minha vida, sem sair do meu horizonte?
Porque não me tocas nem me deixas tocar-te?

Não me olhes desse lado do espelho com esse olhar de quem sabe tudo o que sinto aqui, deste lado.
Não me olhes espelho...

Liliana






sexta-feira, março 08, 2013

Chão

Coração que bate sem se ouvir
num mundo que respira sem se ver
Estendo a mão a mim própria
e abro as asas com que tenho de voar

Salto e subo subo nos céus
onde me sento numa nuvem
que chove as dores que saem
à força de dentro de mim

Chamas-me. Trazes-me ao chão
e dás-me um pau para me segurar ao céu
Mas fico só. Com as dores que saem 
à força de dentro de mim

Coração que bateu sem se ouvir
asas que tenho para voar 
pau que me ajuda avançar
e força que está dentro de mim.

Liliana



domingo, março 03, 2013

Cicatriz

Não sou, estou. E, aqui, neste lugar escuro e quente, 
estou sozinha.
Não o sou, mas estou-o por definição.
Ainda que te veja por entre as folhagens e matizados do fim-do-dia.
Estou sozinha.

Neste lugar quente e escuro não sou, somos, ou fomos.
E por mais que te procure, por entre 
folhagens e folhagens
e matizados de fim-do-dia,
encontro-te sempre tão longe do que fomos, ou somos,
que passo a estar, aqui, sozinha.

Estico a mão em busca do que somos
e por entre as folhagens da manhã tento desconstruir 
este lugar escuro e quente onde estou,
e onde, por entre medos e hesitações, 
quero saber-te por perto.

Não sou, estou. Aqui, neste lugar indizível 
onde me vejo sozinha.
Procuro um abraço por entre as folhagens dos dias passados,
e peço-te que a cicatriz do que fomos não marque os matizados
do tanto que ainda podemos ser.

Liliana