segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Viver

Da inevitabilidade de sermos, cada um com as nossas curvas e rasantes que tantas vezes se aproximam umas das outras apenas por uns quilómetros, para logo se desviarem por outros caminhos.

Da inevitabilidade de sentirmos, uns tão mais que outros, à flor da pele, com o palpitar do coração alterado, as mágoas que entram pelos poros e as lágrimas que teimam em cair em plena rua.

Da inevitabilidade de nos reconstruirmos pegando em todos os bocados de carinho, de amizade, de respeito que outros nos deram, e procurando o mais fundo que tenha de ser pela nossa alegria.

Da inevitabilidade de viver, de respirar e acordar todos os dias e mais uma vez ser, sentir, reconstruir, viver...

Liliana



domingo, fevereiro 24, 2013

Dança



Queria escrever... dizer... contar.... chorar, rir, aplaudir, zangar ou mesmo só desabafar.... exorcizar os fantasmas. Afastar os medos, delinear um caminho com início meio e fim e percorrê-lo sem receios de que o passado, não se limitando a ficar lá atrás, tente sempre sem vergonha envolver-se no agora, no hoje e até no amanhã....



Queria escrever... dizer... contar.... exorcizar os fantasmas, saber o que quero e tentar obtê-lo; prometer a mim mesma e realizar; querer e gozar; aprender a estar e a ser; e conseguir não falar, nem cantar, a estar e a ouvir apenas o silêncio...



Queria escrever... exorcizar os fantasmas de tal forma que os supere. Enfrentá-los até que eles murchem; conseguir abafar a sua cor e suprimir os seus gritos. E então simplesmente viver. Com os medos, as hesitações, as inseguranças, mas também com certezas, mas também com orgulho, mas também com força para me amar a mim própria e dar-me ao trabalho de me olhar, de me acarinhar, de me ver como realmente sou e gostar do que vejo “do outro lado do espelho”, qual Alice após uma das suas incursões na 5ª dimensão....



Queria escrever... poder fazê-lo sobre a minha íntima dimensão sem me perder nela, sem ser apanhada pelas teias que tecem este labirinto de intensa escuridão... Conseguir ver para além do corredor que se adivinha, e escrever o que vejo, sem me deixar ferir pelas navalhas, imagino, me estão apontadas... Ter a força de dar o passo em direcção ao abismo e, sem me magoar com a queda, escrever o que sinto... E logo de seguida saltar para o desconhecido deste poço sem fundo, escavado no mais profundo do meu ser e, sem me perder, descrever as suas paredes...



Queria escrever... e fazê-lo sem magoar ninguém. Conseguir pintar as memórias com tais cores que assombrem os sentidos de quem poderia ser afectado... Criar tais distracções que me permitam fintar quaisquer abertas à autocrítica das personagens reais... Inventar novas melodias que se distingam de todas as músicas jamais ouvidas... E captar de tal modo as imagens, que nem o mais avançado sistema de projecção as consiga descodificar...



E então sim... escrever, escrever, escrever... deixar-me levar pelas letras como a bailarina pelas sapatilhas vermelhas... Envolver-me na melodia das palavras como se uma orquestra ouvisse... Enredar-me de tal forma no inesperado ritmo das frases que os textos se assemelhem ao rufar dos tambores africanos...



E nos manuscritos me perder até me encontrar na magia da criação... E nas palavras me dissolver até me estruturar na elegância das memórias... E nos textos me desintegrar até me converter, enfim, na mais simples história duma flor colorida das que vivem apenas um dia...

 

Mas que palavras escreverei se elas próprias não rimam com as imagens que quero passar, e que personagens criarei se, no fundo, elas não passam de metáforas de si próprias, lutando para se libertarem das mordaças e coletes que lhes amarrei?



Nesta dança à volta do lume, os corpos que se movem são os meus medos e o ritmos que os envolvem são os dias passados em revista pelas minhas mãos... As palavras envolvem-me numa espiral de loucura com vontade própria e as letras fogem-me como grãos de areia procurando o pôr-do-sol... 

Será inevitável este encontro sistemático frente ao espelho?
Porque me persigo sem me dar tempo de me esconder?
De onde vem esta necessidade de me dar... e ser recebida?


Liliana
(07-07-2004)



quinta-feira, fevereiro 21, 2013

Barro

Deixem-me chorar.
Um dia ou dois para enterrar as lágrimas, uma a uma nesta terra seca onde ponho os pés para avançar.

Sim.
A dor deixa-me sem norte, as palavras que saem de mim vêm doridas, magoadas, feridas por um abandono, tão óbvio quanto repentino.

Ai, mas então entendam-me aqui, no meio do jardim, só. 
E deixem-me chorar. Só hoje, ou quem sabe amanhã talvez. Mas depois volto, prometo.

Cada gota que cai na terra, que em pó se desfaz aos meus passos lentos, é água que rega a semente do que em mim já refaz, reconstrói, reinventa.

Não conheço outra forma de viver. Avanço, sorrio, dou-me e, muitas vezes acabo num silêncio estranho onde só me oiço a chorar. Depois, com o barro da terra me misturo até nele me perder. É esta a minha essência, e aqui ou ali, como flor, ou árvore, ou erva apenas, renasço.

E que alegres são os campos quando, ao desabrochar, vejo que não fiquei sozinha na montanha alta e gelada, mas antes vos tenho ao meu lado numa explosão de cores que reaprendem a viver umas com as outras, nas mais variadas formas que a natureza nos permite.

Liliana


terça-feira, fevereiro 19, 2013

Recomeçar

Disseste que me esperarias, mas eu não sabia qual de ti iria encontrar, e por isso não estava certa qual de mim levar. Concentrei-me no dia que brilhava e virei as costas ao céu escuro que, sabia, atrás de mim se mostrava.

Avancei o mais despida possível. Soltei as saias com as lembranças, despi as blusas com os receios, desenrolei os lenços com as zangas. E avancei de peito aberto, pronta para todas as leituras e interpretações. As armaduras? Essas, há muito que foram derrotadas, estão gastas e de nada valeriam.

Aproximaste-te tranquilo, com um sorriso. Encheste o espaço com uma calma que te desconhecia e que a princípio estranhei. Os caminhos, por entre a relva e o lago foram conduzidos ao ritmo das palavras. Umas sérias e pesadas, fazendo barulho ao cair no chão e outras leves e alegres, esvoaçando por entre os pardais e saltitando de tronco em tronco no meio das árvores.

Sim, estávamos mesmo ali entre a relva e o lago, os dois, despidos dum passado pesado que não mais conseguíamos carregar. Sentámo-nos à mesa e, no meio de tantas coisas, reconheci-me num percurso mais ou menos tumultuoso, mas um percurso que me fez, que me trouxe até aqui.

Rimo-nos de alguns momentos, calámos muitos. E lembrámos em especial os que, também, fizeram de mim aquilo que sou. Ali, uma mulher sem armadura, de peito aberto, capaz de aceitar um pedido de desculpa e, depois de tanta mágoa, tentar começar de novo.

Liliana



sábado, fevereiro 16, 2013

Flor

Hoje tropecei numa flor pequenina, daquelas que sorriem nos campos no tempo Primaveril. 

Ia a andar distraída, com o frio cinzento e o céu triste e os pensamentos de inverno, quando num cantinho abrigado sorriu para mim.

Ah que saudades das flores pequeninas e meigas que na Primavera despontam aqui e ali como crianças saltitando por entre a relva!

Hoje encontrei uma flor pequenina das que vemos todos os anos, por isso foi um reencontro. Um reencontro com a delicadeza das folhas e a alegria das pétalas e o branco angelical e o cheiro campestre e o carinho do olhar.

Hoje tropecei numa flor pequenina que me encheu o peito e a alma com a magia do pólen amarelo vivo. Por momentos, naquele curto espaço de tempo em que os relógios pararam e tudo à volta se tornou baço, senti a alegria de correr e sentir o vento na cara, ser simplesmente, como uma flor no campo.

Despedi-me dela, que sorrindo me disse "até já".

É pouco provável encontrar flores em pleno Inverno, principalmente uma flor Primaveril. Ainda assim, orgulhosa daquele convite dei-lhe uma festa e respondi também "até já"!

Liliana





sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Janelas

O meu coração tem janelas, como as casas antigas, altas e largas que se abrem em par. 
Tem vontade de Sol e perde-se pelo prateado do Tejo. 

O meu coração é impaciente como uma criança. 
Corre de um lado para o outro e angustia-se se não vê sinais de fumo no horizonte. 

O meu coração é romântico. 
Gosta de contos de fadas e suspira por um cavaleiro que um dia o abrace, acorde dum sonho desanimado e o leve pela estrada dos tijolos amarelos para todo o sempre.

Não tem medo de subir os estores e abrir as portas. 
Fá-lo, aliás, com grande alegria sempre que outro coração, mesmo que dentro da sua janela, lhe fala, o faz sentir interessante ou o acolhe.

Fechá-lo é sempre mais complicado. 
Ele é sonhador. Gosta de ver o rio, mergulhar no mar, e dançar no céu.

Voltar para casa e fechar a janela nunca é sua vontade. 
Acredita. Acredita sempre, mesmo quando sabe que é impossível, que não vale a pena, que chegou ao fim da estrada.

O meu coração é teimoso. 
E mesmo quando são horas de voltar, teima em voar por entre as nuvens, como um balão colorido ao sabor do vento. 

Enquanto eu, cá em baixo, às vezes deixo os olhos chover pelo que nunca vai ser, outras consigo sorrir com o que guardei em mim.

Liliana


domingo, fevereiro 10, 2013

Tempo queimado, Silêncio escuro

Tempo que queima nas veias
Silêncio que escurece as paredes
Ponteiros que não correm com o avançar do Sol
Palavras ditas pela metade, corroídas pelo silêncio dos dias
Relógios de pé abandonados ao pó num sótão esquecido
 Monólogos a par que nunca se chegarão a cruzar
Areia que se recusa a escorrer pela ampulheta
 Um enorme silêncio gritado pelos relógios parados

Tempo que queima nas veias quando teima em não avançar

Silêncio que escurece as paredes, abafa os gemidos e não deixa florir o amor 


Tempo que queima
Silêncio que escurece

Tempo...
Silêncio...
Liliana



sexta-feira, fevereiro 08, 2013

Dei-me

Quando chegaste noticiaste que haverias de sair, disseste-o com um ar sério de quem quer deixar bem clara a sua posição.
Acedi. 
Concordei. 
Compreendi. 
Aceitei.

Entraste e abri-te a porta de par em par, dei-te espaço para te acomodares e guardei-te o melhor que consegui na casa das emoções.
Sempre te soube de outras margens.
Às vezes vi-te muito longe de mim.
Entreguei-me conhecendo o destino do teu olhar.

Senti o dia de partires chegar. Espelhava-o a tua voz, dizia-o o vento, cantava-o o mar, mostravam-no as estrelas. 
Chorei.
Resmunguei.
Compreendi.
Aceitei.

Dera-me sabendo que não te darias em troca, e nunca te pedindo isso.
Não há pagamentos no amor.
Dei-me, apenas. 
E dar-me-ia outra vez.



"...o menino partiu e a árvore ficou feliz"

Liliana




segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Hoje não... Amanhã.

Hoje não, não é um bom dia para estares doente.
Amanhã claro, cuidarei de ti.

Hoje não, não te deixes ir abaixo que eu também não te posso acudir e ajudar a levantar.
Amanhã sem dúvida, estarei ao teu lado.

Hoje não, não permitas que as lágrimas escorram dos teus olhos e pinguem do teu queixo, também eu não vou poder enxugá-las.
Amanhã sim, chama-me que correrei para ti.

Hoje não... 
Amanhã.

Mas é hoje que choro, me sinto doente e a ir abaixo...
É hoje que te chamo  a  ti  e  a  ti  e  a  ti.

Amanhã? Amanhã já não te lembrarás que chamei por ti. 
Porque amanhã é já depois de hoje, e é suposto que eu saiba cuidar-me, acudir-me e enxaguar as minhas lágrimas.

Amanhã, é suposto que eu tenha curado as minhas feridas.

Hoje não...
Amanhã.

Liliana



sexta-feira, fevereiro 01, 2013

Meu corpo teu

Deixaste o meu corpo marcado com o desenho do teu.
Agora, não consigo olhar para mim sem te ver decalcado, como um carimbo na minha pele.

No mapa do meu corpo vislumbro um pouco de nós.
Um nós efémero como o pôr-do-sol em pleno Inverno, mas ainda assim um nós que se estende por mim, nas marcas desenhadas por ti.
Vejo estrelas e constelações, vejo os corpos que se juntam enquanto se afastam do mundo.
Vejo um caminho verdadeiro, sem falsas esperanças e de olhos expressivos.
Vejo uma mão aberta para outra, sem juramentos ou promessas.
No mapa do meu corpo vislumbro um pouco de nós.

Deixaste o meu corpo marcado com o desenho do teu.
Será que no teu deixei alguma coisa de meu?!


Liliana