sábado, janeiro 26, 2013

Espiral...

A espiral 
avança devagar, 
quase que tímida, 
quase que indecisa, 
quase que contrariada, 
reprimida.
O toque 
desbloqueia a timidez,
e deixa deslizar as mãos
que se encontram
e se perdem pelos 
dois corpos.

A respiração 
aumenta a velocidade
e a espiral roda 
com ela e através dela.
Quero-te.
Não tenho dúvidas, 
todo o meu corpo o grita 
no silêncio da lua.
Queres-me.
Sinto-o também, 
nas tuas mãos que 
me percorrem, 
no teu corpo que
se junta ao meu.

Os lençóis 
enrolam-se em nós 
enquanto na 
sala, a televisão 
projecta um filme
para um público inexistente.
Ali, no quarto, 
os dois 
vamo-nos tornando num.
As pernas 
que se enrolam
e se baralham.
As mãos 
que percorrem 
toda a pele 
e se juntam 
e se afastam.
Os dois corpos, 
um que se tornam,
no ritmo que aumenta
com o bater do coração.
O atingir do auge e
o retomar dos ritmos
e das formas. 

A espiral 
abranda calmamente,
até parar por fim
num suspiro profundo.


Liliana


quarta-feira, janeiro 23, 2013

Relógios no Tejo

De janelas abertas sobre o Tejo, banhado por um Sol dourado de Julho, olho para o relógio de pé da casa dos meus bisavós e sigo o ponteiro do segundos.
O tempo não pára nem para olhar o rio, e as ondulações brilhantes, que entra pela janela dentro sem pedir licença.
Uma brisa suave parece chamar por mim e sussurrar ao relógio que me dê tempo para viver. Tocam as cinco horas e os ponteiros sorriem comigo.

Saio para a rua e inspiro o ar fresco do início de tarde de Verão. Saltito enquanto o vestido esvoaça e o cabelo voa livre. 

Penso em ti. Mas logo me recordo dos "ses" e dos "mas", dos medos e fantasmas e passados, que ambos carregamos. Abrando o passo e o vestido e o cabelo acalmam o ânimo.

Ao meu lado ainda o Tejo, em recortes dourados que brilham aqui e ali num jogo que me ofusca os olhos. Como sempre procuro-lhe as respostas que acho, posso encontrar em mim. E hoje era bem claro o que me dizia, na brisa, na ondulação, na corrente até. Vai!

E eu fui. Fui procurar-te, ainda que os "ses" e que os "mas" e tudo o resto. Ainda que me dissesses que não. Ainda que ainda ficasse mais só.

Todos os relógios por onde passava me diziam que o tempo certo é o agora, não o ontem ou o amanhã. E era agora que estava decidida a viver.

Afinal não se pode viver nas lembranças nem por antecipação, o melhor é mesmo, olhar para o relógio e coordenarmo-nos com os seu ponteiros.

Liliana



segunda-feira, janeiro 21, 2013

Gato na porta do sonho

Eu sei, o gato entrou pela porta que apenas tu vês.
Aquela porta que atravessas nas manhãs de inverno, em que os lençóis te enregelam e a cama te expulsa.
O gato, empurrou a porta como se ela deveras existisse, e passou através dela para o mundo dos teus sonhos.

Como é o gato acabado de entrar no teu mundo só teu?
Como ficam os teus sonhos com a chegada do gato, que ronrona e brinca com as tuas imagens guardadas?
E de onde apareceu um gato que te sabe ao ponto de conhecer as tuas mais secretas passagens?

Eu sei, vais ter de o seguir, entrar pela porta que apenas tu vês e procurá-lo no meio do teu mundo.
Vais seguir as suas pegadas, analisar cada arranhão e procurar sinais do seu paradeiro.
O gato esse, vai-se esgueirar por entre lembranças e ideais e, provavelmente esconder-se no meio dos sonhos mais profundos.

Se o encontrasses que lhe farias?
Será que ao pegar-lhe te reconhecias?
Conseguirias ver-te através dos seus olhos, e no cimo do sonho mais puro aconchegá-lo ao teu colo?

Eu sei, o gato vê a mesma porta que apenas tu vês...

Liliana



domingo, janeiro 20, 2013

De volta a casa

Entro no carro e sigo sem direcção,
escolho o caminho ao sabor do vento.
Viro, subo, encosto e descubro o tanto
que tenho dentro de mim. 

Sigo pela margem
dum rio que desconheço, e que espelha 
a paisagem de tudo o que sou.

Há sempre descobertas nas viagens,
e esta ensina-me a olhar
para lá das mãos, cansadas do volante.

Entro no carro e sigo em direcção 
ao início, com esperança de sarar o agora
e consertar e futuro. Numa espécie
de salvação sintomática.

Ando à roda sem saber por onde seguir.
Nunca gostei de viajar sozinha.
Perco-me nos caminhos e nas curvas.

Encosto e saio do carro,  procuro
uma referência conhecida, que me 
remeta ao meu mundo.

Vejo Lisboa e as suas colinas.
Avisto o Tejo e as suas águas brilhantes.
Sinto o Luar e o seu abraço.

Estou de volta a casa!


Liliana


Dias de tempestade

A estrada enrola-se num caracol de dúvidas, que se misturam a cada cruzamento com a ansiedade, que espreita e aumenta à medida que o caminho se aproxima do cimo do monte.

Uma verdadeira batalha de vontades e emoções e medos e inseguranças ocupa o meu peito, que se esforça por disfarçar.

Devo?
Quero.
Queres?
Duvido.
Volto atrás?
Chamas-me.

Fico no limbo, entre quem está e quem sabe que já devia ter saído.
Num momento fugaz há um nós onde te encontro, para logo me escorregares pelos dedos, qual areia da praia.

Em línguas diferentes dizemos as mesmas frases.

Passado.
Fantasmas.
Tempo.
Espaço.
Vontade.
Passado.
Fantasmas.

Lá fora a chuva lava as ruas, e o Tejo corre com mais força. Suspiro. 
Passo o leme para as tuas mãos, e espero que a tua estrada não se afaste da minha.

Uma verdadeira batalha de vontades e emoções e medos e inseguranças ocupa o meu peito, que se esforça por disfarçar.


Liliana



terça-feira, janeiro 15, 2013

Porquê?!

Há um poço tão fundo,
um oceano tão largo,
uma noite tão escura...

Cabem todos dentro de mim
e são-me e eu sou-os
sempre e a cada passo,
ainda que escondidos e
mesmo que esquecidos

Porquê em mim?!
Alguém tem de conter as águas.
O oceano obedece à lua.
E a noite, essa, é só o outro lado do dia.

Mas está gravado tão fundo este poço...
É tão pesado este oceano...
É tão escura e demorada esta noite...

Porquê em mim?!...

Porque vos trago colados ao corpo como chagas
de dor que engulo com a certeza
de que poucos conseguiriam entender?

Porque me perseguem dia e noite 
num eterno desalinho que, aparentemente,
só eu vejo e sinto?

Porque não vos consigo enfiar no armário
das bonecas antigas e dos brinquedos partidos,
fechar bem fechados e deitar a chave ao Tejo?

Porquê?!...

Liliana



quinta-feira, janeiro 10, 2013

E depois...


E depois... 
dois corpos deitados, cansados, transpirados, quando antes uma revolução de movimentos em que pernas se enlaçavam e dedos passeavam e lábios se beijavam.
E depois... 
um abraço a quatro braços onde antes dois corpos feitos um.
E depois... 
o leve sorriso de olhos fechados, quando antes os gemidos, a boca aberta, a respiração alterada.
 
E depois... 
o silêncio onde antes as respirações se cruzavam no ar.
E depois... 
eu transparente quando antes ao teu lado, enrolada em ti, contigo em mim.
E depois... 
um afastamento, um fosso, um muro invisível, quando antes as mãos que se apertavam ao ritmo dos corações.

E depois...
Apenas um dia depois de outro dia qualquer...

Liliana


sexta-feira, janeiro 04, 2013

Porque fechamos janelas, João?!

Porque é que fechamos as janelas em par e nos barricamos dentro de uma bola de sabão que distorce a realidade? Qual é o mecanismo que nos afasta do outro e nos impele a criar personagens de acordo com a história que pensamos viver?

Diz-me, tu que me lês nestas letras em curva, de quantas máscaras é feita a tua capa? Quantas vezes te escondes atrás de palavras vagas e opacas, como quem se defende ainda antes de ser atacado? Também te acontece dar contigo em conversas evasivas, mascarando tudo o que é sentimento e filtrando qualquer réstia de impulso de partilha? Alguma vez te aconteceu olhares o espelho de manhã e, por momentos, pensares estar em frente a outro alguém?

Às vezes penso que andamos todos às costas do que pensamos que os outros pensam de nós, que os outros esperam de nós, que os outros sentem por nós... enfim, quase esperamos que os outros sejam por nós.

Sim, eu sei que também já sofreste por, em tempos, te despires de tantos papeis. Sim, eu sei que quanto mais abrimos as janelas, mais água entra quando começa a tempestade. Sim, eu sei que também eu me escondo atrás destas verdades sempre tão verdadeiras. Sim, eu sei... mas que queres? Há dias em que me apetecia tanto ser apenas eu.

Será que se te disser, assim sem mais nada, que fiquei magoada, ou que tenho saudades, ou que me fazes falta, não me vou arrepender? Será que se eu te disser, assim sem mais nada, do que gosto, o que me faz sorrir, o que me assusta, o que me faz chorar, não vou ficar com a sensação de me ter despido enquanto te afastas de casaco, sobretudo e cachecol?

Porque é que fechamos as janelas em par e nos barricamos dentro de uma bola de sabão que distorce a realidade? Talvez porque um dia ousámos sair, abrir portas e janelas e inspirar o ar puro sem filtros nem maquilhagem mas o frio da rua desprotegida congelou-nos os pulmões, e a luz forte reflectida no rio fez-nos cerrar os olhos, e as portadas bateram e voltaram a fechar-se à força do vento.

Talvez... Mas talvez se não nos dermos espaço para sermos assumidamente nós próprios e rirmos apenas porque o sol nos pregou uma partida, ou abraçarmos quem se atravessa no nosso caminho, ou partilharmos o que sentimos com quem assim nos faz sentir... Talvez então, um dia, eventualmente um fim de tarde de outono quando as tardes esfriam e o sol, tímido, se esquece de esperar por nós... Talvez um dia, acabemos por esquecer quem éramos verdadeiramente atrás das janelas fechadas...

Posso contar-te um segredo? A ti que me lês nestas letras em curva? Hoje passou-me pela cabeça que, se calhar, a única forma de rebentar a bola de sabão sem cair redonda no chão, é mesmo abrir as janelas em par e ousar espreitar o mundo pelos meus olhos, sem máscaras ou enfeites ou papeis para decorar, apenas eu, tu e o mundo despido de janelas fechadas.

Assim de repente, parece-me que por muito que arrisque, e ainda que a chuva entre pela janela, ao menos ganho uma história para contar! E ou muito me engano, ou é isso mesmo que, atrás de cada janela fechada e dentro de cada bola de sabão que distorce a realidade, alguém sonha e espera, um dia, ganhar coragem para se vestir de si próprio e ousar viver...

Liliana Lima
13-07-2009



"Trago-te ao espaço da janela.
De novo surgiram deste lado da rua.
Em voz baixa disse «uma alucinação». A
única resposta foi entrar em casa
subir ao quarto mudar de roupa
ser jovem com quem soube bem ser jovem
sábio com quem quiseste ser sábio
velho com os velhos.
Trago-te para perto da janela
o rio vê-se daqui.
A cor da terra circula.
«Talvez seja a morte» «não»
«se for a morte o coração baterá mais ou menos forte».
O corpo não tem grande lugar."

"Trago-te ao Espaço da Janela" de João Miguel Fernandes Jorge
in "Meridional"

quarta-feira, janeiro 02, 2013

Das palavras sentidas...

Embrulho os sentimentos nas palavras e arrumo-as nas gavetas do móvel do fundo.
Não sei que lhes fazer.

Nunca lidei bem com o silêncio, por isso, ver-me sem palavras, para dizer ou para ouvir, é um equilíbrio que mantenho em esforço.
Não sei o que fazer.

Vou varrendo os dias para dentro dum saco que guardo para mais tarde, quando todos dormem, rever o muito ou pouco calor que cada dia guardou.
Não sei onde o guardar.

Nas noites frias, tento dormir, mas as gavetas no móvel do fundo abrem-se e as palavras, livres, esvoaçam pela casa como fantasmas que assombram o quarto e me lembram que existem, estão ali, fechadas no móvel do fundo. 
Não sei o que lhes responder.

Há dias em que procuro letras que faltam para completar algumas palavras. Procuro por toda a casa, nos armários, debaixo da cama, no meio dos livros, até no móvel do fundo, com cuidado para não deixar sair as palavras e, num acto impensado ousar tocar um sentimento... 
Não sei se posso sentir.

Liliana



terça-feira, janeiro 01, 2013

Vamos ao teatro Gastão?!

Sobe a cortina e acendem-se os focos. No palco a acção desenrola-se entre o programado e os pequenos imprevistos, que tantas vezes alteram o decorrer do esperado, conhecido e até ensaiado. Lá ao fundo, num canto escondido, uma fagulha brilha ainda quente da fogueira que a acendeu. Não se vê, não entra na cena, não se ouve, nem tem deixas onde entrar. Está ali simplesmente, lembrando a fogueira que, outrora, ali ardeu. A cortina desce e as luzes apagam da memória quaisquer rasgos de outros actos. 

Sobe a cortina e com ela o sol que se levanta por detrás das árvores e das pontes e das casas e dos homens que dormem ainda na quietude das noites de verão. A acção desdobra-se em vários palcos que se espalham um pouco por toda a linha do horizonte. Não há harmonia entre as cenas que se sucedem num remoinho de diálogos e se cruzam e desdizem entre si. Os personagens vagueiam entre sentimentos e responsabilidades, entre culpas e lembranças, entre desejos e amarguras, num equilíbrio coxo. Desce a cortina enquanto os bailarinos se apoiam nas palavras que pairam ainda no ar matinal. 
 
Sobe a cortina e a lua, uma enorme e redonda lanterna recortada no céu escuro da noite, inunda toda a acção num amarelo baço que romantiza os diálogos e acorda os sonhos. Uma sombra disforme atravessa o campo de visão. Passa por cada personagem como um sopro vindo de outras peças, de outras noites e fala-lhes de medos antigos, ou talvez de sonhos esquecidos, ou talvez de amores perdidos, ou apenas de sombras do vento no calor da noite. Enquanto não desce a cortina, a sombra mantém-se no centro da acção, inibindo as conversas, forçando os movimentos, consumindo toda a atenção como um grande buraco negro.
 
Sobe a cortina e o arco-íris reluz de um lado ao outro do palco. Os sonhos dançam livres e, no ar, uma leve brisa marinha embala os sentidos numa valsa "a mille temps". Borboletas passam em bandos colorindo o cenário, e as nuvens desfazem-se em pequenas bolas de sabão ao mais pequeno toque. Ninguém aparece em cena. Todos os personagens parecem ter adormecido num sonho de encantar e o tempo, controlado por um pequeno relógio de bolso deixado ao acaso no chão, segue alegre ao ritmo acelerado da orquestra. A cortina começa a descer, mas os espectadores agarram as cordas e sobem ao palco onde se instalam, confortavelmente, no primeiro tufo de relva vago que encontram. 
 
A acção começa onde onde a história devia acabar.
 
Liliana
13-Ago-2009




"Vêm de dentro repelidos
Conforme o seu destino a sua cor varia
pois escolhem a base de acordo com
a luz que o rosto cria

À frente da cortina enfrentam
o vazio que lhes dava guarida
Em sepulcros abrigam
as faces atingidas

No palco deambulam como num
tempo estreito entre duas crateras
a que na sua frente lhes recolhe os soluços
e o nada donde vieram"

"Os actores" de Gastão Cruz
in "As Leis do Caos"