segunda-feira, outubro 29, 2012

Que caminho tão longo, José...

Que caminho tão longo pai... Que sois tão cansativos se interpõem entre nós, neste nós que perdeu, há tanto tempo, a possibilidade de ser.

Que viagem tão comprida nos inundou as memórias de infância, que bóiam sem rumo nem mastro neste aparente caos calmo.

Quantas vidas teriam de passar para que nos pudéssemos sentar frente a frente e, olhos nos olhos, conversar? Mas conversar sem palavras, que essas só servem para enaltecer os que precisam de se ouvir a si mesmos fingindo perceber o mundo. Conversar a sério, a valer, afinal nem só do presente é feita a vida e nem todas as respostas estão no passado. Conversar olhando, sentindo, ouvindo, acolhendo aquilo que somos ou pensamos ser...

Que deserto tão grande... Que areias tão finas que entram pela pele, se entranham e se colam a mim por mais que as sacuda e empurre para longe. Estão cá dentro e fazem-se ouvir nas noites de tempestade, rolando umas contra as outras com o baloiçar do barco.

Estas estranhas marés que, novamente me largam nesta ilha que conheço tentando desconhecer, são apenas o reflexo da força do outro lado da Lua. Não sou daqui, sei-o. E no entanto, um estranho sentimento de déjà vu embala-me numa viagem remota ao centro do meu ser. Não sou daqui, mas podia ser.

Fui aqui um dia, há muitas vidas. Antes deste caminho tão longo, desta viagem tão comprida, deste deserto tão grande... que afinal me trazem sempre de volta aqui mesmo, a esta ilha de cacos espalhados e recortes desarrumados feita, no meio de um enorme oceano de silêncio, caos, desespero e solidão, onde nadas sem barco nem bóias. E eu, que fui aqui um dia, há muitas vidas, não te posso puxar, não te consigo dar a mão. É que eu, não sendo daqui, não consigo cá entrar.

Que caminho tão longo... para perceber que tudo o que posso fazer é ser ilha e aguentar a corrente das águas do passado. É ser terra em que semeie o presente para que nasça a espiga de tudo o que pode vir a nascer. É ser fonte onde jorre o tempo calmo de cada dia para que, às vezes, quando te falta a terra e te escorrega o céu, te possa estender uma ponte que te leve a quem, de facto, te pode ajudar, sem que isso me leve de volta ao deserto.

Liliana Lima
26-Jan-2010
 



"Que caminho tão longo!
Que viagem tão comprida!
Que deserto tão grande grande
Sem fronteira nem medida!

Águas do pensamento
Vinde regar o sustento
Da minha vida

Este peso calado
Queima o sol por trás do monte
Queima o tempo parado
Queima o rio com a ponte

Águas dos meus cansaços
Semeai os meus passos
Como uma fonte

Ai que sede tão funda!
Ai que fome tão antiga!
Quantas noites se perdem
No amor de cada espiga!

Ventre calmo da terra
Leva-me na tua guerra
Se és minha amiga"

"Travessia do deserto" de José Mário Branco

domingo, outubro 28, 2012

Pelo que esperas, Chico?

Esperando que o amanhecer não caia em cima dela com força demais, capaz de deitar abaixo os sonhos da noite.
Esperando que os ventos não abanem o seu tronco de forma a danificar as raízes que a prendem ao seu solo interno.
Esperando que as estrelas não deixem de iluminar o seu lado mais alegre.
Esperando que a lua mantenha a ligação secreta que sempre a levou para lá do arco-íris.
Esperando acordar com um suspiro sincero, profundo, de respeito por si mesma.
Esperando encontrar-se, um dia, certa de si e das suas convicções, capaz de se pensar longe e inventar outros horizontes.
Esperando conseguir olhar para o copo e vê-lo sempre vazio, pronto a encher-se para novamente se esvaziar, num movimento perpétuo.
Esperando fintar a inquietação e olhar os fantasmas olhos nos olhos até lhes retirar toda a energia.
Esperando adormecer com a tranquilidade dum dia atrás do qual não precisou de correr.
Esperando olhar para o espelho e ver-se sorrir, sem reservas, para e de si mesma.
Esperando esperar...
Esperando apenas...
Esperando por si.
Liliana
17-10-2010





"Pedro pedreiro penseiro
esperando o trem
Manhã parece, carece
de esperar também para o bem
de quem tem bem
de quem não tem vintém

Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa
e a gente vai ficando prá trás
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
esperando o trem,
esperando aumento
desde o ano passado
para o mês que vem

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro espera o carnaval

E a sorte grande do bilhete pela federal todo mês
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando a festa, esperando a sorte
E a mulher de Pedro está esperando um filho prá esperar também

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando

Pedro pedreiro está esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro Norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo espere alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar, mas prá que sonhar se dá o desespero de esperar demais
Pedro pedreiro quer voltar atrás, quer ser pedreiro pobre e nada mais, sem ficar
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando um filho prá esperar também
Esperando a festa, esperando a sorte, esperando a morte, esperando o Norte
Esperando o dia de esperar ninguém, esperando enfim, nada mais além
Que a esperança aflita, bendita, infinita do apito de um trem
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem
Que já vem...
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem"
"Pedro pedreiro" de Chico Buarque

sábado, outubro 27, 2012

Corpo

Enrolo-me em volta dos joelhos

Procuro-me no quarto onde nada fala de mim
nem os livros, nem a cama, nem mesmo o espelho em cima da cómoda

Tu olhas através do meu corpo encostado à parede fria
um dia conseguiste ver-me apesar do escuro da noite

Estou aqui, à espera que a lua me embale no seu canto leve
sou só, profunda e verdadeiramente só
enrolada em volta dos joelhos

Liliana




sexta-feira, outubro 26, 2012

Uma avenida para Mariza...

Desço a avenida e o som dos ferros dos andaimes a bater uns nos outros atordoa-me os sentidos e leva-me a uma insegurança que julgava perdida para o dia de hoje.

Desço a avenida e com o pingar das primeiras gotas de chuva nos vidros das montras, vejo-me reflectida em mil pedaços, em mil lágrimas.

Desço a avenida e todos os barulhos da cidade se distanciam à minha passagem, tornando-se apenas num burburinho de fundo. Como se o seu respirar sussurrasse aos meus ouvidos e nele se diluíssem, os carros que passam por cima das poças, os choros das crianças que entram nas escolas, os comboios que avisam que vão partir, o sem número de pessoas que avançam em passo apressado.

Desço a avenida com o sussurrar da cidade nos ouvidos, e no poço dos sentidos descubro o uivar do vento nas janelas de madeira da velha casa de Moimenta, agarro-me a ele como se um bote salva-vidas se tratasse e perco-me nas ondas do mar que em mim se baloiça.

Desço a avenida e com ela navego na lembrança do soalho que estala aos passos do meu avô, e com ela relembro o desembrulhar dos rebuçados de geleia na cozinha grande e fria que dava para o quintal.

Mas não o quintal com a videira, não os rebuçados reluzentes e pegajosos, não o soalho aos passos do avô…

Desço-me pela avenida e vejo escorrer, com a água da chuva, os mil reflexos que de mim deslizam e desaguam no Tejo…

Liliana 14-12-2006


"Ando na berma
Tropeço na confusão
Desço a avenida
E toda a cidade estende-me a mão
Sigo na rua, a pé, e a gente passa
Apressada, falando, o rio defronte
Voam gaivotas no horizonte
Só o teu amor é tão real
Só o teu amor…

São montras, ruas
E o trânsito
Não pára ao sinal
São mil pessoas
Atravessando na vida real
Os desenganos, emigrantes, ciganos
Um dia normal,
Como a brisa que sopra do rio
Ao fim da tarde
Em Lisboa afinal

Só o teu amor é tão real
Só o teu amor…

Gente que passa
A quem se rouba o sossego
Gente que engrossa
As filas do desemprego,
São vendedores, polícias, bancas, jornais
Como os barcos que passam tão perto
Tão cheios
Partindo do cais

Só o teu amor é tão real
Só o teu amor…"

Montras – Rui Pedro Campos

quarta-feira, outubro 24, 2012

Vamos lá Geni!

Agora vou tomar um calmante, vestir um sorriso e servir o jantar. Disse ela em frente ao espelho, mal iluminado e já descascado como o tronco duma velha árvore, da casa de banho.

Não era a primeira vez que se vestia de alegria, de paz, de confiança, de fé apenas para embalar os outros numa dança onde cada passo era cautelosamente conduzido por ela mesma.

Ali, em frente ao espelho que tão bem a conhecia que já não a conseguia enganar, procurava a força para se despir de si e enfeitar-se com os restos dum mundo que desde cedo lhe mostrara a face estranha de palhaço pobre.

Abriu o pequeno frasquinho com comprimidos cor-de-rosa e tirou um que engoliu sem água e sem cerimónia. Suspirou fundo, tão fundo que, a casa de banho com loiças antigas e um poliban de canto, quase ficou sem ar. Abanou a cabeça, penteou o cabelo e tentou até sorrir ao espelho que se recusava a reflectir uma falsa imagem.

Abriu a porta decidida e dirigiu-se à sala onde o mundo ficara suspenso à sua espera. Entrou, fez uma festa ao filho mais novo e, com um sorriso, serviu o jantar.

Liliana




De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Co'os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo - Mudei de idéia
- Quando vi nesta cidade
- Tanto horror e iniqüidade
- Resolvi tudo explodir
- Mas posso evitar o drama
- Se aquela formosa dama
- Esta noite me servir

Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
- e isso era segredo dela
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni

Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni


Chico Buarque/1977-1978
Para a peça Ópera do malandro, de Chico Buarque

http://www.youtube.com/watch?v=jsB--twZgng&feature

quarta-feira, outubro 17, 2012

Fica um bocadinho mais, Fausto...

Chove com força lá fora, as árvores dos jardins abanam os ramos para poupar as folhas que pingam gotas enormes que se esborracham no chão da calçada e correm para o Tejo.

Cá dentro a luz é fina, quase cinza, entrando pelas janelas altas que olham o rio. O gira-discos toca sem cessar "Por este rio acima" e as folhas com as letras das canções esvoaçam pela sala e aterram amachucadas no sofá. Fernão Mendes Pinto passa-me ao lado, cada palavra é apenas aquela palavra cantada naquele determinado tom e com aquele exacto ritmo, a que tento, repetidamente, chegar. 

As portas da sala são em par, brancas como as janelas que contrastam com o papel de parede em tons de amarelo. Abro-as e fecho-as conforme as canções começam ou acabam. Estou num palco e o meu público é o mundo todo, a vida por viver e os sonhos por criar, à minha frente, naquela sala, sentados no sofá grande ou empoleirados nas prateleiras dos livros e dos bichos de cristal da avó ou ainda espreitando pelas janelas, à chuva com pena de não conseguir entrar. Canto com Fausto como quem se senta à conversa com um velho amigo. As letras das canções, caídas no sofá, já estão misturadas de tanto terem sido lidas e relidas, agora conheço o disco como a palma das mãos. 

O Tejo, enche-se com a chuva que chega das ruas da cidade e bate-me palmas para incentivar a mais uma rodada. Na marginal os carros encavalitam-se e as buzinas animam a minha actuação. Lisboa está atrás do palco, escondida pelas portas em par que dão para o quarto dos avós. É-me, ainda, indiferente a cidade, sinto-a apenas nos cheiros do meu rio e nas suas mudanças de humor, mas não a convido para o concerto.

Chove e o meu bisavô, o "avô velhinho", já cego e com muita dificuldade em andar, acaba o lanche, corro pelo corredor para o agarrar antes da minha bisavó, a "avó uma" assim baptizada por mim em pequenina, e levo-o para junto do meu palco. Ficará sentado na primeira fila, no sofá pequeno, virado para mim para me ouvir melhor a mim que ao meu colega Fausto. Ri-se e bate palmas sempre que acabo uma canção com a paciência que apenas um bisavô pode ter, num final de tarde chuvoso. No fim do concerto enrosca-me no colo e diz-me "cantas melhor que ele!"

Chove com força, lá fora já não tenho o Tejo mas Lisboa. Também já não tenho o avô velhinho para me enroscar, mas continuo a ter janelas altas, que olham para a cidade, e portas em par que dão duma sala para a outra. Levanto-me devagar, quase como num ritual e procuro o CD "Por este rio acima". Ligo a aparelhagem, sento-me no sofá, fecho os olhos e, por momentos, podia jurar que ouvia o Tejo a bater palmas e o meu bisavô a dizer que canto muito melhor que o Fausto...

Liliana



Por este rio acima
Deixando para trás
A côncava funda
Da casa do fumo
Cheguei perto do sonho
Flutuando nas águas
Dos rios dos céus
Escorre o gengibre e o mel
Sedas porcelanas
Pimenta e canela
Recebendo ofertas
De músicas suaves
Em nossas orelhas
leve como o ar
A terra a navegar
Meu bem como eu vou
Por este rio acima
Por este rio acima
Os barcos vão pintados
De muitas pinturas
Descrevem varandas
E os cabelos de Inês
Desenham memórias
Ao longo da água
Bosques enfeitiçados
Soutos laranjeiras
Campinas de trigo
Amores repartidos
Afagam as dores
Quando são sentidos
Monstros adormecidos
Na esfera do fogo
Como nasce a paz
Por este rio acima
Meu sonho
Quanto eu te quero
Eu nem sei
Eu nem sei
Fica um bocadinho mais
Que eu também
Que eu também
meu bem
Por este rio acima
isto que é de uns
Também é de outros
Não é mais nem menos
Nascidos foram todos
Do suor da fêmea
Do calor do macho
Aquilo que uns tratam
Não hão-de tratar
Outros de outra coisa
Pois o que vende o fresco
Não vende o salgado
Nem também o seco
Na terra em harmonia
Perfeita e suave
das margens do rio
Por este rio acima
Meu sonho
Quanto eu te quero
Eu nem sei
Eu nem sei
Fica um bocadinho mais
Que eu também
Que eu também
meu bem
Por este rio acima
Deixando para trás
A côncava funda
Da casa do fumo
Cheguei perto do sonho
Flutuando nas águas
Dos rios dos céus
Escorre o gengibre e o mel
Sedas porcelanas
Pimenta e canela
Recebendo ofertas
De músicas suaves
Em nossas orelhas
leve como o ar
A terra a navegar
Meu bem como eu vou
Por este rio acima

segunda-feira, outubro 15, 2012

Dá-me a mão, Sérgio...

Dá-me a mão que me escapo por este precipício feito de lembranças dos meus medos, vestidos de fatos completos e sapatos altos, numa dança de salão que me convida para o centro num voo libertador de gaivota bailarina.

Dá-me a mão que salto para este buraco escuro onde o agora se baralha com o antes, e o depois deixa de existir, num movimento circular em volta de cada lágrima que não chorei e de cada sorriso que fingi.

Dá-me a mão para que não me envolva neste cântico de sereia que me chama e me puxa para o fundo do fundo do mar, onde os peixes me relembram os erros e as falhas e a água é fria e escura e não me deixa respirar.

Dá-me a mão porque este grito leva-me ao início dos tempos e esta zanga atira-me para outro dia e eu, de repente pequena, não me sei defender nem resguardar, e vou pelos anos fora contabizando as mágoas que saltam das caixas onde as escondi, como bonecos de mola que me olham com olhos assustadores.

Dá-me a mão nesta corda bamba que decidi atravessar, apesar de todos os avisos e conselhos e contra todos os gráficos e estatísticas, numa bicicleta ferrugenta e sem travões que me levará não sei bem onde nem como.


Dá-me a mão e não digas nada que o silêncio contém em si todas as palavras do mundo e eu sei tudo o que me queres dizer.

Dá-me a mão apesar do que sentes e pensas das minhas escolhas.

Dá-me a mão apenas...

Dá-me a mão...


Liliana




"- Senhora de preto
diga o que lhe dói
é dor ou saudade
que o peito lhe rói
o que tem, o que foi
o que dói no peito?
- É que o meu homem partiu

Disse-me na praia

frente ao paredão
“tira a tua saia
dá-me a tua mão
o teu corpo, o teu mar
teu andar, teu passo
que vai sobre as ondas, vem”

Pode alguém ser quem não é?

Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?

Seja um bom agoiro

ou seja um mau presságio
sonhei com o choro
de alguém num naufrágio
não tenho confiança
já cansa este esperar
por uma carta em vão

“por cá me governo”

escreveu-me então
“aqui é quase Inverno
aí quase Verão
mês d’Abril, águas mil
no Brasil também tem
noites de S. João e mar”

Pode alguém ser quem não é?


É estranho no ventre

ser de outro lugar
e tão confusamente
ver desmoronar
um a um sonhos sãos
duas mãos
passando da alegria ao desamor

Pode alguém ser livre

se outro alguém não é
a algema dum outro
serve-me no pé
nas duas mãos,
sonhos vãos, pesadelos
diz-me:
Pode alguém ser quem não é?"



Pode alguém ser quem não é  de  Sérgio Godinho

domingo, outubro 14, 2012

Hoje as janelas estão fechadas

Não gosto de correr as persianas, nunca gostei, sinto-me asfixiada pelas paredes brancas que parecem apertar-me num canto da sala. Prefiro cortinados leves que me protegem do exterior mas permitem ao olhar sair e saltitar pelas pessoas que passam na rua, os carros, as expressões, as outras casas, o jardim, os canteiros... 

Todas as manhãs, Verão ou Inverno, abro as janelas de par em par para o ar do novo dia renovar a energia da casa, espalhar o pó das mágoas nocturnas e acordar os sonhos perdidos por baixo dos sofás ou atrás dos livros da estante do escritório. Respiro a cidade e sinto-lhe o ritmo, o correr do Tejo que me conta do dia que agora começa e a luz do céu que me inspira o sorriso para me enfrentar nas horas seguintes.

Hoje, todas as janelas estão fechadas. Vejo a vida que corre num corropio de carros zangados e pessoas apressadas e crianças com mochilas e cães puxados pelos donos. Vejo, mas não sinto. O Tejo não me vem cumprimentar e sussurrar a sua voz. E os sonhos estão perdidos um pouco por toda a casa sem se deixarem descobrir. A luz, abafada pelas cortinas, não chega para aquecer o coração nem abrir o sorriso que tanta falta me faz para conhecer o novo dia.

Com as janelas fechadas, não tenho coragem para sair e entrar no carrossel que corre lá em baixo. Com as janelas fechadas não sinto, estou dentro duma bola de sabão que flutua pelo céu mas nunca chega a tocar em nada.
Com as janelas fechadas, não consigo criar os sonhos que dão sentido ao meu andar.

Com as janelas fechadas...
Com as mão fechadas...
Com o sorriso fechado...
Com o coração fechado...

Liliana





quinta-feira, outubro 11, 2012

Quem dorme comigo Alain?

Enrolada na cama desfeita, foi-se soltando do manto que os cobriu durante a lua. Os ponteiros do relógio da torre da igreja em frente gritavam-lhe aos ouvidos que as horas e os minutos esperavam por aquele movimento último que ela tanto adiava.

Estava na hora. Não podia mais fingir que não via as sombras na parede do quarto reflectir a vida. Nem virar a cara para o lado e fazer de conta que não vira o que estava mesmo à sua frente. Nem mesmo imaginar uma narrativa com que se enganava enquanto a chuva na rua batia nos vidros dos carros e corria pela calçada. 

Lá fora a cidade resmungava com parar súbito das horas. O ruído entrava pela janela do quarto e ecoava em todos os móveis por onde passava até acabar deitado, na cama desfeita com lençóis desarrumados.

Não o queria acordar, por isso levantou a perna muito devagar, e sentiu um arrepio a percorrer todo o corpo ao pousar, lentamente, o pé no chão. Era o frio da manhã e das horas apressadas que a obrigavam a levantar-se e sair da cama desfeita onde o manto os cobrira durante a lua. Mas estava na hora. E ela, por mais que se quisesse enganar, sabia disso.

Sentou-se na cama, nua com a pele arrepiada e os ouvidos atordoados pelo barulho dos carros e os gritos dos ponteiros do relógio da igreja em frente. Levantou-se e evitou o espelho, debruado a preto, que geralmente lhe mostrava imagens que não queria ver. Aproximou-se da janela, por trás da cortina bege, e disse aos ponteiros que parassem de gritar e aos carros que recomeçassem a andar e até à chuva que deixasse de cair. Estava na hora dela, era certo, mas a ele queria deixar dormir.

Apanhou as roupas espalhadas pelo chão, guardou as palavras, dobrou os sentimentos e aconchegou os movimentos, sem fazer barulho quase nenhum, e guardou tudo em boiões coloridos com tampas largas de cortiça, que depois pousou ordenadamente em cima da cómoda por baixo do espelho, o que a obrigou a alguns números de ginástica para não se ver reflectida na superfície prateada.

Depois foi à casa de banho, tomou duche, lavou os dentes, penteou os cabelos curtos e loiros, voltou ao quarto onde tirou uma blusa verde e umas calças pretas, depois um vestido cinzento, depois uma blusa branca e umas calças de ganga e por fim uma saia rodada cinza e uma blusa rosa.

Estava pronta. Pronta para sair, depois daquela lua com a cama desfeita e o manto que os cobriu, abafou as palavras, aqueceu os sentimentos e ocultou os movimentos. Ela sairia, mas ele ficaria, descansado em cima da cama até que a brisa do mar o viesse acordar.

Aproximou-se de mansinho à cama, sentou-se na beira onde os lençóis se enrolavam. Procurou o corpo dele para se despedir apenas com um breve um olhar. O manto e o lençol de cima estavam embrulhados num laço de presente mal feito, e o lençol de baixo estava solto com uma das pontas caída até ao chão desde o cimo da cama sem cabeceira. 

O colchão estava frio e não havia roupas no chão. Lá fora os ponteiros do relógio da torre da igreja em frente mantiveram o compasso e a cidade continuou no seu ritmo. Estava na hora dela e ela sabia-o. Ele saíra há muito.

Liliana




Quem dorme à noite comigo?
É meu segredo, é meu segredo!
Mas se insistirem, desdigo.
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo!

E cedo, porque me embala
Num vaivém de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.

Gritar? Quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me.
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.

Medo
Alain Oulman / Reinaldo Ferreira

terça-feira, outubro 09, 2012

Aqui estás tu, José...

Apareceu ao fundo da rua, com um sorriso enorme de criança que acabou de ganhar um chocolate. "Aqui estou eu!", disse ele feliz. E estava mesmo...

A imagem era, no mínimo, surreal. Vinha a pé pelo meio da estrada, trazia com ele duas malas de pele castanha já gastas, tão cheias que uma quase se abria e a outra trazia de fora uma manga de camisa branca com riscas azuis. Um malote verde à tira-colo, uma mochila grande às costas, daquelas de campismo com a tenda enrolada por baixo e uma caçarola pendurada nos fechos de cima, uma mala de transportar animais com um gato que, a medo, espreitava pela rede, e um periquito ao ombro.

"Aqui estás tu, com tudo o que és..." pensei eu. Tudo o que, ao longo da vida, foste recolhendo e apanhando, o que te foi marcando, o que não conseguiste soltar, o que te pesa nos ombros à noite quando, às voltas na cama, não consegues dormir, o que te arrependes e o que tens saudades.

Ele avançava devagar, cansado do peso e da viagem. Era fim de tarde e o Sol, que brilhava baixinho, alongava-lhe a sombra da bagagem que chegava muito antes dele. Tentei dizer-lhe que largasse algum peso. Estranhou a sugestão como se viesse de mãos a abanar e não tivesse nada para largar.

Entrou em casa com dificuldade, lutando com as malas de pele e a mochila que lhe dificultavam a passagem. No meio daquela confusão, o periquito esvoaçava assustado e o gato, cuja mala acabou por se abriu ao bater na porta, fugiu assanhado. E eu acabei a correr pela estrada fora para o apanhar.

Quando voltei com o gato nos braços ele já estava instalado, sentado no sofá grande à frente da televisão, com o comando na mão e o mesmo sorriso alegre de criança. Espalhados um pouco por toda a sala, peças de roupa, bugigangas e papeis soltos saídos de uma das malas castanhas. Por muito que tentasse não consegui chegar-me a ele, muito menos sentar-me ao seu lado. O sofá estava completamente ocupado pelas bagagens que trouxera, e eu estava a mais naquela fotografia.

Abri a janela ao periquito e soltei o gato, tentei encaixar as malas, o malote e a mochila na dispensa, mas as tralhas pareciam ter vontade própria e não deixavam a porta fechar. Cheguei-me a ele devagar e perguntei o porquê de tanto passado a invadir um momento que devia ser só nosso, feito de futuro e esperança. "Eu estou aqui tal como sou, nada mais e nada menos" disse ele, e olhou-me com o sobrolho franzido, como se eu falasse chinês. "Tens a certeza?" perguntei de mansinho, quase em surdina. Afastei-me e percebi que ele não sabia o peso que trazia. Tudo aquilo vinha com ele há tanto tempo que ele já não se apercebia de que o acompanhava.

Peguei-lhe na mão e chamei o gato que saltitava em cima da cama, atrás do periquito. Depois levei-o até à dispensa, onde as tralhas lutavam contra a porta. Pelo chão do corredor, desordenadamente, espalharam-se roupas usadas, papeis amachucados e fotos antigas. Pasmado, encostado à parede, ele olhava aquele desfile do seu passado, enquanto os bons e os maus momentos, as dores e a alegrias invadiam um espaço tão grande que não me deixavam sequer chegar-lhe. Quanto mais tentava aproximar-me, mais longe me encontrava. Um mar de antigas memórias separava-nos empurrando-me para longe, longe dele.

Saí para lhe dar espaço, para não me sentir estranha numa vida da qual, afinal, eu não fizera parte. Saí mas voltei, mais tarde, depois dos ponteiros do relógio me confidenciarem que era o momento certo. 
Entrei devagar, receosa do gato, do periquito que esvoaçava, dos papeis, das malas e malotes... Entrei mas não vi os bichos, nem as tralhas, nem as malas. Na sala, no sofá grande à frente da televisão, sozinho, estava ele. Olhou-me demoradamente e tentei entender no seu olhar o que se seguiria.

Nunca mais vi as malas, o malote ou a mochila de campismo. Na verdade, não tenho a certeza que o gato se tenha ido verdadeiramente embora, às vezes parece-me ouvi-lo miar, e podia jurar que no outro dia vi um periquito a tentar entrar pela janela do quarto. Mas, poderei eu recriminá-lo por isso? Afinal, quem não guarda consigo imagens ou mesmo marcas do caminho que atravessou...


Liliana Lima
02-Abril-2009

"(...)
Eu não tenho a certeza
De morrer ou de nascer
Sempre que o amor vier
Brilhante natureza
Fecundando matagais assim
Vira vento, vira tempo contra mim
É tão bom ter a certeza
Entre o ser e o acontecer
Mas mentir-te meu irmão 
não o farei não 
(...)
Aqui vou eu
Com o que sou
Com o que é meu
Tal como estou
É neste chão
Que eu assento os pés
E é por seres quem és
Que eu assim me dou
(...)"

"Eu não tenho a certeza" de José Mário Branco

segunda-feira, outubro 08, 2012

Essa não sou eu Jutta...


Pensavas que era eu aquela com quem gritaste e gesticulaste e mal disseste e agrediste e mal trataste? Ahh, quão enganado andas tu!

Eu não era aquela. Eu nem estava, estive ou estou lá. Ela, a tal que te olhou com olhos tristes (erro crasso, estás a anos luz) e ainda tentou chegar a ti essa, coitada, como o pinguim do livro que já contei vezes e vezes sem conta em escolas e escolas e bibliotecas e feiras cheias de gente, essa ficou completamente desfeita!

Mas eu não. Eu não estive lá, nem por lá passei. Eu estou aqui inteirinha a olhar para o pinguim/menina desfeita por todo o mundo. E, claro, já sei que sou eu quem vai palmilhar as estradas e os caminhos e os mares e os céus até a reconstruir de novo - a menina/pinguim a quem tu gritaste. Irei, como sempre fui. Com carinho, com paciência, com "uma linha feita de amor e uma agulha feita de perdão" recolher peça a peça e depois coser a boneca que se endireitará novamente, vestida de pinguim.

Ah! Pensavas que era eu! Mas eu há muito que aprendi a estar onde não estou, a ser não o que sou. Não, não era comigo que gritavas, gesticulavas e magoavas. Tudo isso era contigo e com a menina/pinguim (a que tu imaginas ser eu), num mundo onde eu não entro e que não me faz sentido. Aliás, acho que aí desse lado do véu que divide os nossos mundos apareço pintada, maquilhada e mascarada (de pinguim).

As flores acompanharam a minha surdez, as árvores ajudaram à minha indiferença e até o vento me empurrou para continuar a andar, subindo a rua. Deixei lá a menina, aquela que se desfaz com os gritos, mas sei que a consigo consertar - consigo sempre. É que essa, por mais que eu tente, não se consegue afastar sem carregar o peso insuportável de culpas, dúvidas, pena, tristezas.... E por isso, lá fica, ouvindo os gritos que a agridem e, por fim, a deixam completamente desfeita... 
 
Parto esta noite, logo a seguir ao jantar, levo a linha e a agulha e um cobertor para a embrulhar. Não sei quando volto, posso demorar, mas no fim voltarei reconstruida.


Liliana
10-Mai-2010



"Hoje de manhã, a minha mãe gritou comigo, e eu fiquei desfeito.
A minha cabeça voou para junto das estrelas.
O meu corpo perdeu-se por entre as ondas do mar (...) "

"Quando a mãe grita" 
Jutta Bauer
 

sexta-feira, outubro 05, 2012

Caminhos

Cansada de procurar bifurcações no decurso da estrada, 
sento-me na beira e recuso-me a avançar.

Não vou, 
mas não fujo para dentro da sala em forma de concha com o mar a embalar os sonhos.
Não vou, 
mas não conto a história de pernas para o ar para agitar o chão e mudar o caminho.
Não vou, 
mas não minto a mim própria, olho para a frente e sei que caminhas longe das estradas, por entre as dunas, onde o vento te sussurra e o sol te aquece.

Cansada de tropeçar nas bifurcações da estrada,
olho para o caminho que fiz.

A cada passo uma curva.
A cada passo um desvio.
A cada passo um precipício.

Sento-me à beira da estrada cansada,
e olho o vazio que se me apresenta.

Procuro no bolso as migalhas dos sonhos impossíveis com que vou marcando no chão o caminho de regresso.

Para se um dia conseguir voltar.


Liliana



terça-feira, outubro 02, 2012

Quem escondes debaixo do tapete, Luís?!

Ela já já lá estava quando ele entrou. Estava sentada no cadeirão azul a ler um livro. Ele olhou em volta, indeciso sobre onde se sentar, e  acabou por escolher um sofá pequeno de cor difusa entre o bege e o amarelo ao lado de uma mesa de canto, com um amontoado de revistadas e uma jarra com flores de plástico, mesmo em frente a ela. 
 
Reparou imediatamente na capa do livro que ela estava a ler, era um dos seus livros preferidos, "História da gaivota e do gato que a ensinou a voar" do Sepúlveda. Sorriu, tinha quase a certeza que iriam passar algumas horas ali e só podia ser um bom presságio.
Ela estava de pernas cruzadas e balançava lentamente o pé enquanto passava as folhas do livro. Estava tão concentrada que praticamente nem levantou os olhos quando ele acabou por dizer "bom dia". Foi só quando se levantou para ir buscar um copo de água, numa uma máquina com um garrafão de pernas para o ar, que o viu e o cumprimentou educadamente. 
 
Ele mantinha-se sentado em frente dela e tinha nos olhos a serenidade de um pôr do sol de Agosto. Folheava revistas ao acaso, sem grande interesse e foi ele que deu início à conversa. 
 
A propósito do livro que ela estava a ler, falaram de metáforas e formas de ver o mundo, aos poucos foram-se abrindo e partilhando um pouco de tudo e de nada. Sem se aperceberem já estavam a falar das escolhas e gostos, dos medos e expectativas, dos amores e desamores, como se conhecessem desde sempre. 
 
Ele estava entusiasmado, não esperava uma sintonia tão imediata com uma desconhecida, parecia que estavam num filme, começava uma frase e ela acabava-a na intenção exacta  que ele queria. Ao fim de duas horas, que mais pareciam ter sido dois minutos, ele começou a pensar que, se calhar, as almas gémeas não eram, afinal, uma invenção da Disney. 
 
A certa altura ela, sentada no cadeirão azul, agarrou uma resposta que tentava sair, espontânea e genuína. E deu consigo a pesar as consequências que aquela confidência teria na imagem dela que ele estava a desenhar na sua cabeça e que, assim de repente, ela queria preservar. Não a deixou sair, antes respondeu com uma frase redonda e sem grande significado, ou com todos os que se quisessem retirar dela. Devagar, como quem estende as pernas para descontrair os músculos, levantou a ponta do tapete colorido que, entre eles se estendia no chão, e empurrou para baixo dele os recortes da sua vida que lhe pareceram menos apropriados ao tal retrato dela que ele estaria a compor a partir daquela conversa. E continuou a falar, como quem assobia para o lado. 
 
Conversavam descontraidamente e sem direcção pré-definida, até que ele se engasgou antes de responder a uma questão levantada por ela. A resposta, que se formou ao mesmo ritmo da conversa, enrolou-se na garganta mas não saiu, pois ao mesmo tempo ele deu por si a pensar qual seria a reacção dela ao ouvir o que iria dizer. Ao mesmo tempo que criou um novo diálogo, mais ao gosto do que lhe pareciam ser os parâmetros dela, fingiu apanhar algo do chão e levantou outra ponta do tapete colorido, debaixo da qual, aconchegou tudo o que preferia que ela não ouvisse. 
 
O tapete que os separava era feito de pequenos recortes de tecidos diferentes e formava uma imagem colorida e aberta a quaisquer interpretações que lhe oferecessem. À medida que eles, sentados em frente um do outro, começaram a esgotar os assuntos de conversa, debaixo do tapete as palavras, frases, relatos, deslizes e sonhos que lá tinham sido depositados entraram em relação, encontraram pontos de contacto e estabeleram sintonias.

Na verdade, ainda que no ar se mantivesse uma luz límpida e alegre, aos poucos, ele pegou numa revista e ela voltou ao livro. 
 
O tempo continuou a avançar, ao seu próprio e incontrolável ritmo, até que os dois se despediram. 
 
Por baixo do tapete as faces ocultas de cada um foram obrigadas ao afastamento e disseram adeus, com a certeza de terem acabado de se despedir da sua cara-metade.

Liliana Lima
19-06-2009





"Só pode voar quem se atreve a fazê-lo..."

in "História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar"
Luís Sepúlveda