quarta-feira, setembro 26, 2012

Vestidos compridos

Vestidos compridos esquecidos ao vento
uma menina caída no chão
Uma lágrima engolida
e a magia de uma canção
Manhã de inverno e chuva 
um grito em surdina a abraçar o medo

Vestidos esquecidos compridos ao vento
uma manhã desencantada
Escadas íngremes
natais de encantar
Um sorriso fingido
num sótão longe do mundo

Vestidos ao vento compridos esquecidos
uma tarde ao contrário
Um quarto desarrumado
e um grito na solidão
Um gato cúmplice
num teatro sem guião

Compridos vestidos esquecidos ao vento
uma tarde para apagar
A lua que grita
num telefone qualquer
Uma porta que se fecha
e não deixa sair
do céu escuro onde se pode tocar

Esquecidos vestidos compridos ao vento
uma tarde para ensaiar
Um palco montado
e uma estrela a nascer
Sapatos desarrumados
e malas por abrir
com segredos fechados

Ao vento esquecidos vestidos compridos
uma lua para desabrochar
Uma lágrima calada
na solidão da noite
Muitas casas, muitas ruas
fantasmas por apagar
Passos em falso
e medos por arrumar

Vestidos compridos esquecidos ao vento
com os sonhos e os sorrisos
descorados e rasgados à força do tempo


Liliana




terça-feira, setembro 18, 2012

Silêncio


Procuro-te por entre as horas do dia mas não encontro nada.
Podia jurar que te deixei aqui, mesmo ao lado dos filhos e da escola e do trabalho e da casa e das esperas e da saudade, mas não estás em lado nenhum.

Um silêncio ensurdecedor espalha-se por toda a casa apertando-me o peito.

As fotos das horas alegres apagam-se nos móveis e um vazio baço ocupa o teu lugar. 
Estendo a mão na cama em busca do teu corpo, mas estou só. 
Os lençóis ainda quentes e as memórias penduradas no roupeiro são a única prova de que não te sonhei.

Chamo-te, mas a minha voz ecoa num muro silencioso que parece dividir-me do resto do mundo.

As palavras que dissemos rodam ainda no tecto e, por toda a casa, o teu cheiro perdura. 
A noite conta-me dos nossos corpos que se entrelaçavam, ainda agora, nesta mesma cama onde me deito sozinha. 
Procuro-te por entre as horas da madrugada, mas a lua não te ilumina o rosto. 

Espero-te no escuro, perco-me no silêncio, e reconheço-te em cada virar de esquina ao tropeçar numa memória.

O silêncio mata as palavras, escurece as fotos, arrefece os corpos. Mas não apaga o fantasma de ti que sobrevive dentro mim.

Liliana




sexta-feira, setembro 14, 2012

Alice

Estou a cair... e a rodar... sinto o peso do corpo assente num colchão de passados presentes nas horas da noite.


Caí novamente? Escorreguei. Tropecei na pedra. Sempre a aquela pedra Drummond. Eu caí nela e ela lá continua, "no meio do caminho"... Sempre no "meio do caminho", porque havias tu de a inventar? Porquê escrevê-la e deixar que ela exista ali, no MEU caminho? Porra para ti e para a tua pedra, Drummond!

Escorrego, embato, desco rápidamente sem conseguir ver onde estou. Está escuro... vejo imagens deformadas. Que querem?! Quem são vocês?!... Só me faltava o coelho para ser Alice. Mas Alice não sou! Já me deixei de crenças, que o arco-íris, esse, é um mero reflexo da luz na humidade dos desejos vãos.

Os desejos... os verdadeiros, aqueles que nos fazem subir e não cair nos buracos, onde estão Simone? Ficaram lá em cima que aqui é só o escuro e os fantasmas que nascem do "medo até de ter medo". 

Ah! Qual medo! O medo é para os fracos "meu irmão". E eu, não quero este buraco escuro de onde não sei sair e para onde, tantas vezes me deixo levar. Quero lá saber das horas e das marés! Eu quero é respirar sem este aperto. Eu quero é olhar para o pôr-do-sol sem esta inquietação que tu me ensinas desde que nasci Zé Mário!


Já não sei se caio se me atiro. Se me afogo ou se mergulho, porque o agora e o aqui são conceitos indefinidos que, por mais que queira, não consigo lembrar-me onde os deixei. Perdi a conta às horas e não me vejo em nenhuma manhã. Esta invontade voluntária de me ajudar a amparar a queda deixou-me paralizada.


Agora quero mesmo cair! Preciso de embater no chão e partir-me em mil cacos! Quero saltar! 

...Mas quero ficar. Lá fora não sei como sou... Aqui bebo o chá das cinco com meus fantasmas e faço corridas com os medos... "Que força é esta"?!  Porra! "Que força é esta"?!

Vou saltar!

...vou-me enroscar...

Partir tudo, recomeçar!

...tenho medo...

Tem de ser!

...não consigo...
...estou só, posso gritar que ninguém me ouve, dentro de mim não há mais ninguém... 

...e lá fora? Quem me entenderia?!
Ninguém... 

Não, não posso sair deste casulo...

Fico.

Só.

Liliana


segunda-feira, setembro 10, 2012

Quem foi Luís...?

Quem foi que deu às estrelas a luz dos teus olhos e as deixou brincar com o meu olhar?
Quem foi que ofereceu aos céus a força do meu abraço e o deixou embalar o luar?
Quem foi que contou ao vento o que sinto e o deixou gritar ao mar?

Quem foi que deu às estrelas a luz dos teus olhos e as deixou brincar com o meu olhar?
Quem abriu as portas aos rios e à corrente para o coração inundar?
Quem mergulhou ao fundo do mar e trouxe o azul que embala o meu sonhar?

Quem foi que deu às estrelas a luz dos teus olhos e as deixou brincar com o meu olhar?
Quem baralhou a bússola que me fez perder norte do mundo?
Quem disse que a verdade é um poço sem fundo?

Quem foi que deu às estrelas a luz dos teus olhos e as deixou brincar com o meu olhar?
Quem disse que o arco-íris não existe? Que o homem não pode voar?
Quem sonhou um caminho novo, com pedras de mil cores, para nos encontrar?

Quem foi que deu às estrelas a luz dos teus olhos e as deixou brincar com o meu olhar?
 
Liliana 14 Dez 2008


"Lembras-me uma marcha de Lisboa
Num desfile singular,
Quem disse
Que há horas e momentos p'ra se amar

Lembras-me uma enchente de maré
Com uma calma matinal
Quem foi
Quem disse
Que o mar dos olhos também sabe a sal

As memórias são
Como livros escondidos no pó
As lembranças são
Os sorrisos que queremos rever, devagar

Queria viver tudo numa noite
Sem perder a procurar
O tempo, ou o espaço
Que é indiferente p'ra poder sonhar

As memórias são
Como livros escondidos no pó
As lembranças são
Os sorrisos que queremos rever, devagar

Quem foi que provocou vontades
E atiçou as tempestades
E amarrou o barco ao cais

Quem foi, que matou o desejo
E arrancou o lábio ao beijo
E amainou os vendavais

As memórias são
Como livros escondidos no pó
As lembranças são
Os sorrisos que queremos rever, devagar
Devagar"

Memórias de um beijo – Luís Represas(in "Terra firme" Trovante 1987)

sexta-feira, setembro 07, 2012

Esse rio

A sala é pequena e desnudada. 

Um caos sentado à secretária separa-me das palavras que embatem a uma velocidade que, a mim, parece vertiginosa. Limpo as feridas e os arranhões mas o tempo não me deixa sarar os medos que acordam, ali naquele caos que olha fixamente da secretária e me remete para um mundo interno a que não quero chegar.

O ar simpático, quase coloquial, de toda a conversa raspa uma peça de teatro mal ensaiado onde os actores improvisam nos silêncios e se calam nas pausas. Tudo é dito e nada é devidamente entendido. Já sei que o meu lugar será aquele, que me sentarei naquela cadeira e que a postura terá de ser aquela. 


Não sei quem é o "eu" sentado na cadeira para onde olha o caos, cada vez mais intensamente. 

Sou mar revolto, sou vulcão, força de mim que inrrompe pelos céus e se entrega à terra feita raio, energia pura, em me dou sem medida e sem restrição.

Sou

Sou a criança ferida enrolada em si, num embalo de choro que não consigo sarar e que ecoa em mim e me inquieta as horas num deserto onde não deixo mais ninguém entrar.

Sou

Acredito no arco-íris e num mundo mais feliz, onde damos flores em forma de sonhos que consigo visualizar tão mais nitidamente do que esta pequena e desnudada sala, onde um caos em cima da mesa me desconcentra.

Luto com as armas da imaginação numa guerra onde, um dia, me chamaram naïf, e procuro o fumo que me levará a "esse rio" onde, aí sim, me confundirei com as águas até nelas desaparecer.


A conversa acaba onde começou e o peso dos nomes e dos rótulos, dos medos e dos receios, dos riscos e das prescrições, dos medos e dos receios, das indicações e contra-indicações e dos medos... Caem-me aos pés prendendo-me ao chão para onde, sem me ter apercebido, o caos da mesa se espalhou.

Mais uma vez, não sei quem é o "eu" que luta para se levantar e andar e sair pela porta e entrar na "realidade".

Liliana


terça-feira, setembro 04, 2012

As "chuvas" de Fausto...


A enxurrada começara há já cerca duas horas, aos poucos a rua tornava-se o leito de um rio e a força das águas levava consigo os carros, os caixotes, os papeis e o lixo, até esta se tornar límpida e transparente.

As primeiras fotografias passaram quase despercebidas no meio da corrente, mas rapidamente se multiplicaram e a sua presença impôs-se no meio daquele estranho espectáculo. Fotos antigas, descoradas, fotos... de um bebé (uma menina?!), um bebé banal, com o rabito ao léu em cima de uma almofada no estúdio de um qualquer fotógrafo de época; a comer papa ao colo de uma senhora (a mãe?!); a brincar com bonecas (sim, era uma menina!); a primeira comunhão com um vestido de cerimónia branco; no parque infantil a andar de baloiço; num aniversário com os pais e um bolo com 5 velas (seriam os pais?); de bibe num grande pátio escolar com outras crianças... Fotos banais de uma infância banal.

No meio das fotografias as águas, agora mais lentas, traziam cadernos pautados de capa preta, com exercícios de escrita numa letra insegura, outros quadriculados onde a tabuada começava lentamente, a diluir tornando-se num enorme borrão ilegível.

Apareceu depois, uma boneca já gasta com o cabelo eriçado, uma saia colegial de tecido escocês plissada, um vestido juvenil de cerimónia fora de moda, uma almofada de peluche vermelho em forma de coração, que ficou presa no portão das garagens do último prédio da rua, com a palavra “Amo-te” bordada em letras amarelas, velhas caixas de bombons com grandes laços já esgaçados, brincos, anéis e mais fotografias que, com a corrente, foram vagarosamente descendo a rua num desfile bizarro de objectos desconexos.

Ao fundo da rua, uma mulher de cabelo branco preso em caracol com um gancho azul turquesa, olhos meigos e profundos com a sabedoria que apenas o passar dos anos oferece; apanhava calmamente as memórias que desaguavam no pequeno largo que ligava à avenida principal. 
Fazia-o de uma forma terna, quase maternal, sem se preocupar com as roupas molhadas que se lhe colavam ao corpo e dificultavam os movimentos. Recolhia as memórias que depois guardava no seu colo, protegendo-as das águas.

Aos poucos retirou todas as lembranças que a água trouxera e, depois de confirmar que não restava mais nenhuma, embrulhou delicadamente os objectos na saia e subiu a rua, lutando contra a força das águas que teimavam empurra-la para trás.

Chegada à porta da nascente, subiu as escadas e entrou na casa de onde saíram as lembranças.

Num canto da sala Madalena soluçava ainda, estremecendo o corpo enrolado sobre os joelhos no chão frio de tijoleira vermelha. O quadro conferia-lhe um ar frágil e infantil, como se uma pequena criança no meio dum quarto escuro se tratasse.

A mãe chegou-se a ela, fez-lhe uma festa a cabeça e, com muito cuidado, retirou uma por uma todas as lembranças boas, desde a primeira fotografia da menina ainda bebé. Em seguida retirou as más, as tristes e amargas. Colocou-as todas seguidas por ordem cronológica e mostrou-lhe que umas não existiriam sem as outras sussurrando-lhe levemente ao ouvido: “sabes Madalena? só há arco-íris enquanto houver o lado de cá e o lado de lá...”

Lá fora, as águas deixaram de correr e a rua voltou, pouco a pouco, à normalidade.

Liliana - Novembro de 2006



“Eu pego na minha viola
E canto assim
Esta vida
A correr
Eu sei que é pouco e não consola
Nem cozido à portuguesa há sequer
Quem canta sempre se levanta
Calados é que podemos cair
Com o vinho molha-se a garganta
Se a lua nova está para subir
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir

Eu sei de histórias verdadeirasUmas belas
Outras tristes de assombrar
Do marinheiro morto em terra
Em luta por melhor vida no mar
Da velha criada despedida
Que enlouqueceu e se pôs a cantar
E do trapeiro da avenida
Mal dormido se pôs a ouvir
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir

Sei de vitórias e derrotas
Nesta luta que se há-de vencer
Se quem trabalha não esgosta
No seu salário sempre a descer
Olha a polícia
Olha o talher
Olha o preço da vida a subir
Mas quem mal faz
Por mal espere
Se o tirano fez a festa
P'ra fugir
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir

Mas esse tempo que há-de vir
Não se espera como a noite
Espera o dia
Nasce da força que transpira
De braços e pernas em harmonia
Já basta tanta desgraça
Que a gente tem no peito
A cair
Não é do povo
Nem da raça
Mas do modo como vês o porvir
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir “ 
Atrás dos tempos – Fausto Bordalo Dias