sexta-feira, junho 29, 2012

Estás?

Aqui estou.
Não sou nem existo sequer, para além do meu ser físico.
Estou.
Apenas.

Nada de mim sai.
Não dou absolutamente nada que, por reflexo, não seja oferecido ou, por ausência, me seja exigido.
Estou.
Somente.

Não me entrego porque não sei de mim. Não há mar em mim onde algum navio possa viajar. Estou seca.
Estou aqui, como poderia não estar.

Sei-me ao teu lado porque te cheiro. E a tua voz me diz onde estou.
Misturo a noite com os dias que correm sem içar as velas, como quem agita o gelo num copo duma qualquer bebida áspera.
Às vezes duvido se sonho ou se os sonhos me inventam a mim.

Só sei que estou...
Só.

Liliana


quinta-feira, junho 14, 2012

Suspiro...

Aperta-se-me o peito quando inspiro.

Procuro, vasculho no subconsciente um recorte que me ajude a entender esse espartilho que me prende.
As janelas não me mostram nada de novo e as palavras só me descrevem imagens conhecidas. 
Pergunto ao espelho se  a onda que me molha vem do mar que corre dentro de mim. Sorri para mim e confirma com a cabeça sem nada dizer.
Procuro a paz num suspiro profundo. Mas os músculos estão tensos e o corpo em alerta. Rodo o pescoço enquanto percorro o teclado com a ponta dos dedos. Nada me tranquiliza, nem a certeza de que o mundo continua sem mim, nem a força de te querer feliz, não tenho vontade de sonhar.
Levanto-me todas as manhãs apenas para vos dar a mão. Para manter este cenário onde estendo o arco-íris na corda da roupa e penduro o sol no varão das toalhas. Os meus sorrisos procuram encantar-te a ti, tanto quanto a mim. E a minha canção queria ser o embalo da minha alma.

Aperta-se-me o peito quando respiro. 

Luto comigo para soltar as minhas asas, mas sou eu própria quem as prendem e enlaça com cordas de mágoas. 
Saberei encontrar a ponta do fio com que me enrolo a cada madrugada e libertar a vontade e silenciar os medos e alegrar o pensamento?

Olho para a porta da ponta de cá do corredor. Puxo as cordas para esticar o arco-íris, mas não consigo fazê-lo voar.

Aperta-se-me o peito enquanto suspiro...

Liliana







quarta-feira, junho 06, 2012

És forte?

"És mais forte do que pensas", disseram-lhe. "Abre as asas e voa!"

Sou forte? Perguntou a si mesma. Eu sei que sou forte! Sou forte demais! 
Carrego o mundo às costas, à força de me prender com todos os males e não perdoar o mais pequeno erro que cometo no rodar dos ponteiros. 
Não duvido que sou forte. Reinvento-me a cada manhã para começar a andar e procuro na almofada a coragem para recomeçar, de novo, ao nascer do dia.
Duvido é que consiga sair dos dias cinzentos em que não encontro o arco-íris. Entrei neste nevoeiro por engano, mas sentei-me num canto, cansada de tanta correria, e agora não encontro a saída.
Não fora tão forte e podia baixar os braços, gritar bem alto e dizer-te que não consigo avançar.
Não fora tão forte e conseguia olhar ao espelho e ver com ternura alguém que precisa apenas da minha ajuda.
Não fora tão forte e saberia pedir-te ajuda.

Abanou afirmativamente com a cabeça, apenas para não continuar uma conversa que, já percebera, não iria a lado algum. Despediu-se e desligou o telefone, daqueles antigos, pretos, que mantivera contra os avançados aparelhos de hoje em dia. Sabia-lhe bem aquele conforto ultrapassado de casa da avó.

Sou, forte, sou forte... Murmurava ao mesmo tempo que se sentava em frente ao computador, esse já novo, moderno, pequeno. Ficou ali sentada a olhar o ecrã, alternando entre fotos e frases feitas que não via. Remoía a conversa passada na cabeça como uma discussão entre ela e ela mesma.

Fossem vocês tão fortes como eu e entenderiam o peso de me me ver, reflectida no rio, e não encontrar a vida em que me reconheço.
Fossem vocês tão fortes como eu e perceberiam que sem essa luz interna não vejo o caminho para mim mesma e, sem mim, não tenho vontade de me levantar desta cadeira.

Sim, sou forte.
Antes não fosse...
Liliana