quinta-feira, abril 26, 2012

De onde vem o tempo, Fausto?!

Hoje o meu jardim vestiu-se de verde só para mim. Saí cedo de casa, ainda estremunhada pela normal correria matinal e ele sorria, tranquilo, com o seu manto verde claro.

Corri por entre as árvores com a mala numa mão o cesto cheio de livros e acessórios noutra e ainda os miúdos a resmungar com as mochilas que nunca se ajeitam sozinhas, com as horas de sono que durante a semana sabem sempre a pouco e com o meu passo a compasso da minha agenda, sempre atrasado... Entrámos no carro lutando com as bagagens e os cintos e partimos, tentando fugir das velhinhas que se atrasaram no caminho até à escola.

Voltei atrás depois, de me aperceber que um dos principais acessórios das histórias não estava comigo, e foi a meio do jardim que o encontrei, aliás ele é que me encontrou e se mostrou a mim. Por entre ponteiros irrequietos e horários por cumprir, vi-me parada debaixo duma laranjeira que o meu jardim preparara para mim, com perfume e pequenas flores para me alegrar o dia. Olhei em volta, com os sentidos em alvoroço e vi-o sorrindo, dizendo "bom dia", em cada pequena folha verde que acenava nas copas das árvores.

Sentei-me num banco e, aliada dos carros e das pessoas que apressadas perseguiam as horas, sorri-lhe de volta num "que bonito que estás hoje!", a que ele respondeu com uma leve brisa matinal cheia de paz e daquela tranquilidade que só os jardins e as árvores têm porque crescem com a certeza que "atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir". É nesse respirar que vão acordara calma de quem sabe que, ainda que atrasada, a Primavera chega sempre e enche-nos de aromas e flores coloridas com que salpica os dias.

De repente lembrei-me dos ponteiros e das horas e dos compromissos que se aproximavam em grande velocidade, e do porquê do meu regresso. Tinha voltado atrás à procura de um acessório importante para as histórias que tencionava contar, como o pato que não sabe nadar sem o pauzinho que o segura ao céu, e afinal estava tudo ali, naquela paz, naquela tranquilidade que se inspira e depois se transporta connosco e se partilha com quem nos ouve.

Hoje o meu jardim vestiu-se de verde para mim e eu, alegre com a surpresa, peguei no seu aroma e cor e vivacidade e levei-os comigo no meio de um conto!



Liliana
 
 
“Eu pego na minha viola
E canto assim
Esta vida
A correr
Eu sei que é pouco e não consola
Nem cozido à portuguesa há sequer
Quem canta sempre se levanta
Calados é que podemos cair
Com o vinho molha-se a garganta
Se a lua nova está para subir
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir

Eu sei de histórias verdadeiras
Umas belas
Outras tristes de assombrar
Do marinheiro morto em terra
Em luta por melhor vida no mar
Da velha criada despedida
Que enlouqueceu e se pôs a cantar
E do trapeiro da avenida
Mal dormido se pôs a ouvir
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir

Sei de vitórias e derrotas
Nesta luta que se há-de vencer
Se quem trabalha não esgosta
No seu salário sempre a descer
Olha a polícia
Olha o talher
Olha o preço da vida a subir
Mas quem mal faz
Por mal espere
Se o tirano fez a festa
P'ra fugir
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir

Mas esse tempo que há-de vir
Não se espera como a noite
Espera o dia
Nasce da força que transpira
De braços e pernas em harmonia
Já basta tanta desgraça
Que a gente tem no peito
A cair
Não é do povo
Nem da raça
Mas do modo como vês o porvir
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir “ 

 
Atrás dos tempos – Fausto Bordalo Dias

terça-feira, abril 24, 2012

É noite de Liberdade...

É noite de liberdade! Digo-te eu com os olhos cheios de lua!

Sabias que hoje as estrelas dançam livres no céu?
Sabias que hoje os sonhos se libertam e se soltam das camas onde, sonhados, os donos se deitam?
Sabias que hoje as letras se apaixonam e, dançando, formam novas palavras livres?
Sabias que hoje a música se revolta e, fora das pautas, soa mais alto e mais forte?
Sabias que hoje os livros saltam das estantes e as histórias, livres, gritam pelas ruas?

Livremente confesso que, mesmo hoje, é difícil aceitar a diferença que, por ser livre, se afasta de mim...
Livremente confesso que, ainda hoje, me assusto ao perceber outros caminhos tão longe do meu...
Livremente confesso que, só hoje, percebi que para o meu conto ser livre, terá de aceitar outros finais que dele discordam...

É noite de liberdade! E este cravo é a prova que te liberto para que, também eu, seja livre de continuar a acreditar!


Liliana


"Querida Joana:


Como sabes eu estou preso mas também não sou um homem mau. Viste como foi. Não sejas rabujenta e ajuda o Pedro. Se ele estiver birrento lembra-te que ainda é um bebé e tu mais crescida que ele. O que eu não gosto é que sejas egoísta porque é muito feio. Se algumas das tuas amigas querem tudo para elas deixa lá. Elas fazem mal mas tu não. Explica-lhes que não devem ser egoístas. Tem cuidado com os sugos e outras porcarias iguais porque podes ficar sem dentes. Depois, mesmo que os queiras ter já ninguém tos pode pôr. Ficas como os velhinhos. Alguns deles tinham a mania de comer goluseimas, gelados e caramelos. E também chocolates.
Eu lembro-me muito de ti e do Pedro. O Zé ainda não cortou as barbas? Diz à Lena que eu não gosto que ela seja desarrumada. Todos têm de ajudar a mãe e a Dina...
Muitos beijos do
Zeca Pai"
in "José Afonso Textos e Canções"

segunda-feira, abril 23, 2012

Mar sonhado

Espreito-me por baixo dos medos que me assaltam os sonhos nas noites de lua nova e escurecem as ruas e apagam as sombras. Levanto a cabeça e vejo o sol que brilha naquele horizonte onde, ainda ontem, me via em contra-luz.

Estendo a mão para proteger os olhos da claridade e os fios do sorriso sobem com ela. Quanto mais alto a levanto, mais a minha expressão se abre... Testo os movimentos, no meio de fios que me prendem as pernas e levantam o corpo, e aprendo a mover-me com a maré.

Um final de tarde dourado levanta-se ao mesmo tempo que eu e procuramos o ritmo comum nesta estranha dança que iniciamos. 

Pergunto às ondas porque devolvem à praia, desfigurado, aquilo que antes levaram, perfeito, num rodopio de espuma. Porque engolem nas suas águas revoltas retratos e pinturas que depois, secam desfigurados na areia como um desfile de roupa velha que já ninguém quer.

O mar responde-me num ondular brilhante que o seu trabalho é lavar a praia de cada um de nós. Leva o que adornamos, embelezamos, retocamos ou até remodelamos, e devolve apenas e só aquilo que é verdadeiro e real.

- Levas-me os sonhos... "apenas as ilusões".
- Roubas-me as fantasias... "somente as mágoas".
- Magoas-me... "tu é que te enganas, eu só te mostro a verdade vista com olhos lavados".

Esperneio e grito a um sol que se esconde. E o mar... olha-me, sereno e liso como um espelho, e devolve-me a imagem duma marioneta, refém da minha zanga. Sento-me à beira-mar e deixo que se inundam os olhos.

Apanho as memórias espalhadas pela areia e guardo-as no coração. 

A noite está a nascer e com ela a lua que me fala de mundos que nunca vi. Abeiro-me dum velho barco e deixo que o vento me embale na esperança dum novo olhar. Os remos são pesados e a noite arrefece. Deito-me na madeira e sinto o luar que me beija e embala os sonhos. 

Acordo com uma melodia suave que vem do areal, espreito a medo e vejo ao fundo um corpo recortado na sombra da areia. Aproximo-me da praia e estendo a mão. Retoco os seus traços, amacio-lhe o canto e adoço os seus gestos. Uma nova dança começa.

Até que um dia o mar me invada os sonhos...

Liliana


"O mar azul e branco e as luzidias
Pedras – O arfado espaço
Onde o que está lavado se relava
Para o rito do espanto e do começo
Onde sou a mim mesma devolvida
Em sal espuma e concha regressada
À praia inicial da minha vida.
"

Mar-Poesia, 2001 de Sophia M.B. Andresen

sábado, abril 07, 2012

Don Juan...


Numa mão o sorriso infantil e o olhar meigo, na outra toda a poesia do mundo embrulhada numa canção.

Chegaste numa noite de lua cheia. Atravessaste o jardim contornando as árvores e evitando os canteiros, como que longe da cidade, atento apenas aos pássaros e às histórias que cantam no trinar dos seus contos.


A noite era leve e olhei sem te ver. Não senti, apenas te ouvi.

Foi com palavras e em palavras que me acordaste desse abandono tranquilo em que mergulhara. Despertaste um desejo secreto, velado, fechado. Abraçaste-me no silêncio da lua nova e beijaste-me nas ondas do mar.

O jardim floriu num arrepio de Primavera. Impossível, tornou-se não te ver ouvir ou sentir, a toda a hora e sob todos os luares. Nada parecia silenciar a canção que, em surdina, cantavas comigo em todas as ruas da cidade. Inventámos uma história, e mergulhámos na praia dos sentidos e das emoções. Num segundo apenas, vivemos a música de todos os rios correndo para o mar.

Como o Sol, que todas as noites beija o horizonte e apaga as flores, também tu seguiste a Terra e apagaste o cantar da lua (da minha lua). Seguiu-se a noite, escura e longa, com chuva e trovoada, dúvidas e tristezas.

Ao amanhecer o sol não apareceu e o dia tardou em tirar a cabeça da almofada onde, o mar ainda desaguava. Uma brisa morna soprou pelo jardim, onde todas as flores, murchas, pediam luz. Fiquei à beira das roseiras, tristes e despidas, procurando avançar mas sem conseguir andar, buscando o amanhã mas sem sair do ontem. Ali fiquei muitas luas, parada com pena de mim, com saudades de nós.

Atrás da árvore mais alta, a noite levantou o véu e a lua mostrou-se, altiva, no seu quarto cheio. Arrisquei um passo em direcção às margaridas que pediam para nascer e a cidade inteira avançou comigo. Aos poucos as estrelas acenderam a vontade e reavivaram a esperança.

Um novo dia acabava de nascer.

Liliana