quarta-feira, março 28, 2012

Janela..

Encosto a cabeça nos pés da cama, no vazio da noite as imagens ficam mais nítidas se vistas ao contrário...
Deixo que as pupilas se dilatam, para se habituarem ao luar, e espero que a luz recorte a minha sombra no chão do quarto. Procuro o barulho do mundo que me diz onde estou e me mostra o caminho, no meio de formas mal desenhadas.

Em segredo, velo o teu sono e penso como gostava que acordasses e olhasses por mim, que me ouvisses por entre as palavras que digo. Que o mundo me entendesse sem me explicar...
Não é isso que queremos todos, no final do dia?! Ser vistos sem nos despirmos, ser notados sem colocar a voz?!

Procuro os lençóis em silêncio como se tentando não te acordar. O frio da noite solitária abraça-me enquanto me embrulho nas memórias coloridas que me fazem sorrir.

Pergunto à lua se passarei melhor as noites olhando-as daqui. As estrelas agitam-se num esgar ensonado e d_e_v_a_g_a_r fecham os olhos.

Acordo com o sol a entrar, descarado, pelo quarto dentro. Estou atravessada na cama e o sono tomou conta das perguntas que fazia ao universo. Mais uma noite que se fechou num ciclo lunar que ainda agora começou.
Liliana

sexta-feira, março 02, 2012

Dentro da concha...

Estou dentro da concha. Enrolada, encolhida neste espiral côncavo salgado dos meus olhos.

Escondo-me do mundo para fintar a realidade, brinco ao faz-de-conta com os medos e fujo dos fantasmas. Aqui, dentro do búzio onde me deito, o mar está sempre calmo e as ondas não inundam o chão.

Não me perguntes quando entrei, não me questiones porque aqui estou. Dá-me apenas a tua mão. O teu ombro. E diz-me baixinho que tudo vai correr bem.

Estou dentro da concha. Fechada. Fora do mundo. Fora dos dias e das horas que correm em busca dos ponteiros. Escondida. Enfrentando o vazio com um grito mudo.

As palavras não dizem o seu significado e eu falo numa língua estranha que me empurra para fora das conversas. Encosto-me nas curvas do chão e embalo-me com os joelhos encostados ao peito, estou cansada... de tudo até de mim.

Estou dentro da concha e brinco com as horas que passam devagar sem olhar para mim. Peço licença para fechar os olhos (é tão mais fácil ver o mundo assim!) e deixo-me levar pelo barulho do vento que sopra de mansinho e ecoa nas espirais.

A maré balança numa canção de embalar tranquila, mas falsa, que dura apenas até ao nascer do Sol. A luz acorda-me e mostra-me a rua pelas rachas laterais. Volto a ouvir os ponteiros e os carros e as crianças que gritam. Encolho-me o mais que posso e tapo os ouvidos com força.

Estou dentro da concha...




Liliana