segunda-feira, novembro 28, 2011

Do medo de me conhecer...

Olho-me ao espelho e não vejo nada, olho através da imagem, pelo entre dois olhos ocos onde o mar espreita sempre, numa onda pronta a desaguar no meu leito. Passo para o outro lado em busca de mim, qual Alice em busca da infância perdida.

Não é aqui que estou tão pouco. Mas sei-me por perto, Consigo reconhecer o cheiro dos meus sonhos, do meu sorriso, da minha força.

Porque não me agarro? Porque me escondo de mim mesma num labirinto de questões? Será a preguiça o pecado mortal pelo qual me perco, ou é apenas o medo de me conhecer que me prende os movimentos e me ofusca a visão?

Entrar na sala, com a vitória da sombra cosida aos pés e os sapatos vermelhos nas mãos...

Saberei andar fora dos tijolos amarelos? Conseguirei aceitar que o arco-íris apesar de intransponível, é belo e pode continuar a ser mágico? Saberei levantar-me do cavalo sem medo de galopar?

Quero-me ou temo-me?...


Liliana

quinta-feira, novembro 17, 2011

Pedras ao Tejo...

Hoje ofereci a minha colecção de pedras ao Tejo. Meti as mãos nos bolsos e tirei pedras pequenas e redondas, seixos com as arestas amaciadas pela chuva dos dias cinzentos, pedras lascadas e ponteagudas caídas de grandes montanhas que subi, pedras brancas pintalgadas de memórias coloridas, pedrinhas pequenas quase grãos de areia que se agarraram a mim em passeios matinais... Todas elas parte desta pesada colecção que, uma a uma, ofereci ao rio.

Hoje ofereci a minha colecção de pedras ao Tejo que, alegre, as recebeu num ondular manso onde o Sol brincava às escondidas com a cidade. Depois de esvaziar os bolsos procurei os pedregulhos, há tanto tempo comigo que já faziam parte do meu corpo. Soltei-os e atirei-os ao Tejo num misto de alívio e angústia, de quem perde um membro fantasma que o acompanhou toldando-lhe as costas e moendo-lhe as pernas.

Fiquei a ver as pedras, uma a uma, mergulhar na água e desenhar um arco no rio que se repetiu até tocar as duas margens num eco infindável que soava no ar "E agora?! E agora?! E agora?!...."

Despedi-me das águas e tentei subir a calçada, mas faltou-me o equilíbrio. Acabei por me sentar ali mesmo, à beira-Tejo. O Sol, espelhado na ondulação, parecia projectar imagens das pedras que soltei. Fiquei muito tempo ali, sentada, olhando os instantâneos da minha vida e tentando responder ao eco num monólogo inundado. Não sei quantas horas passaram, só sei que me apoiei no voo de uma gaivota e senti que era tempo de voltar.

Levantei-me, equilibrei-me e, finalmente, subi a calçada como um bebé que acabou de aprender a andar e se sente capaz de conquistar o mundo. Já ao lado do Palácio, voltei-me para trás, despedi-me do rio e suspirei fundo sem o peso das pedras nos bolsos nem o amargo das memórias no coração. Sorri para mim e voltei a andar.

Uma gaivota soltou um grito que ecoou no céu azul limpo "E agora?!"...

Liliana


terça-feira, novembro 15, 2011

Espreito pela janela...

Espreito pela janela aberta pelo luar. Os lençóis falam de nós e o quarto respira a calma que avança, devagar, depois das noites de temporal. Lá fora o Sol espreguiça-se em ensonados bocejos e o rio espelha a luz das manhãs calmas.

Lisboa acorda comigo, tranquilamente.

Fecho os olhos e deixo-me ficar nesta paz que invade a casa. As noites brancas parecem-me tão longe e inofensivas... Nada me pode magoar esta manhã no abraço do sol.

Espreito pela janela aberta pelo luar. Os lençóis falam de nós...
Liliana




quinta-feira, novembro 03, 2011

Da corrente do rio...

Não quero contar sempre o mesmo conto, numa correria de caracol que nunca chega a sair da casca.

As palavras levam-me para longe, mas a maré acaba sempre por me devolver à mesma costa.
Procuro histórias de outras cores e tento, até, sorrir no meio de um turbilhão de águas revoltas onde não me encontro ao fim do dia.
Se não é o que me acontece que me define, porque não consigo lidar com o rumo do pensamento?

Não quero contar sempre o mesmo conto e, no entanto, vejo-me embrulhada num fio-condutor que me puxa sempre para a mesma estrada.

Olho o rio que me devolve um sorriso e um suspiro na maré.
Mergulho nas suas águas que me conhecem o corpo e os sentimentos bem demais para me disfarçar entre algas e conchas.
Sussurra-me "Não nades, não remes, não grites, não forces o rumo da água, deixa-te levar com a maré e aceita cada ilha, cada afluente, cada praia, cada porto, com os braços abertos. Não forces o rumo da água, que ela encontra sempre forma de passar os diques, por mais altos que sejam".

Não quero contar sempre o mesmo conto, por isso relaxo o corpo e deixo-me levar pela corrente.

Liliana