sábado, outubro 22, 2011

so LI dão

Estou cansada...
Olho para o espelho e não encontro nada para onde olhar.
As margens do rio não me devolvem peixes nem as vejo para a foz correr.
Estou cansada...
Não tenho remos nem vela que me ajudem a navegar.
A terra quente queima-me os pés e a lua não é suficiente para a arrefecer.
Estou cansada...
Falta-me vontade para me levantar, força para me alegrar e energia para andar.
Enrolo-me sobre os joelhos e deixo-me perder no mar.
Estou cansada...


Liliana

domingo, outubro 16, 2011

Uma curva que vem de trás....

Aqui estás tu, José...

Apareceu ao fundo da rua, com um sorriso enorme de criança que acabou de ganhar um chocolate. "Aqui estou eu!", disse ele feliz. E estava mesmo...

A imagem era, no mínimo, surreal. Vinha a pé pelo meio da estrada, trazia com ele duas malas de pele castanha já gastas, tão cheias que uma quase se abria e a outra trazia de fora uma manga de camisa branca com riscas azuis. Um malote verde à tira-colo, uma mochila grande às costas, daquelas de campismo com a tenda enrolada por baixo e uma caçarola pendurada nos fechos de cima, uma mala de transportar animais com um gato, que a medo espreitava pela rede, e um periquito ao ombro.

"Aqui estás tu, com tudo o que és..." pensei eu. Tudo o que, ao longo da vida, foste recolhendo e apanhando, o que te foi marcando, o que não conseguiste soltar, o que te pesa nos ombros à noite quando, às voltas na cama, não consegues dormir, o que te arrependes e o que tens saudades.

Ele avançava devagar, cansado do peso e da viagem. Era fim de tarde e o Sol, que brilhava baixinho, alongava-lhe a sombra da bagagem que chegava muito antes dele. Tentei dizer-lhe que largasse algum peso, estranhou a sugestão como se viesse de mãos a abanar e não tivesse nada para largar.

Entrou em casa com dificuldade, lutando com as malas de pele e a mochila que lhe dificultavam a passagem pela porta. No meio daquela luta, o periquito esvoaçava assustado e o gato, cuja mala acabou por se abriu ao bater na porta, fugiu assanhado e eu acabei a correr pela estrada fora para o apanhar.

Quando voltei com o gato nos braços ele já estava instalado, sentado no sofá grande à frente da televisão, com o comando na mão e o mesmo sorriso alegre de criança. Espalhados um pouco por toda a sala, peças de roupa, bugigangas e papeis soltos saídos de uma das malas castanhas. Por muito que tentasse não consegui chegar-me a ele, muito menos sentar-me ao seu lado. O sofá estava completamente ocupado pelas bagagens que trouxera, e eu estava a mais naquela fotografia.

Abri a janela ao periquito e soltei o gato, tentei encaixar as malas, o malote e a mochila na dispensa, mas as tralhas pareciam ter vontade própria e não deixavam a porta fechar. Cheguei-me a ele devagar e perguntei o porquê de tanto passado a invadir um momento que devia ser só nosso, feito de futuro e esperança. "Eu estou aqui tal como sou, nada mais e nada menos" disse ele, e olhou-me com o sobrolho franzido, como se eu falasse chinês. "Tens a certeza?" perguntei de mansinho, quase em surdina. Afastei-me e percebi que ele não sabia o peso que trazia às costas. Tudo aquilo vinha com ele há tanto tempo que ele já nem se apercebia do que o acompanhava.

Peguei-lhe na mão e chamei o gato que saltitava em cima da cama, atrás do periquito. Depois levei-o até à dispensa onde as tralhas lutavam contra a porta. Pelo chão do corredor, desordenadamente, espalharam-se roupas usadas, papeis amachucados e fotos antigas. Pasmado, encostado à parede, ele olhava aquele desfile do seu passado, enquanto os bons e os maus momentos, as dores e a alegrias invadiam um espaço tão grande que não me deixavam sequer chegar-lhe. Quanto mais tentava aproximar-me, mais longe me encontrava. Um mar de antigas memórias separava-nos empurrando-me para longe, longe dele.

Saí para lhe dar espaço, para não me sentir estranha numa vida da qual, afinal eu não fizera parte. Saí mas voltei, mais tarde, depois dos ponteiros do relógio me confidenciarem que era o momento certo. Entrei devagar, receosa do gato, do periquito que esvoaçava, dos papeis, das malas e malotes... Entrei mas não vi os bichos, nem as tralhas, nem as malas. Na sala, no sofá grande à frente da televisão, sozinho, estava ele. Olhou-me demoradamente e tentei entender no seu olhar o que se seguiria.

Nunca mais vi as malas, o malote ou a mochila de campismo. Na verdade, não tenho a certeza que o gato tenha ido verdadeiramente embora, às vezes parece-me ouvi-lo miar, e podia jurar que no outro dia vi um periquito a tentar entrar pela janela do quarto. Poderei eu recrimina-lo por isso? Afinal, quem não guarda consigo imagens ou mesmo marcas do caminho que atravessou...


Liliana Lima
02-Abril-2009



"Eu não tenho a certeza
De gritar ou de esconder
Sempre que o amor vier
Brilhante natureza
Fecundando matagais assim
Vira vento, vira lume contra mim

Aqui estou eu
Com o que sou
Com o que é meu
Tal como estou
É neste chão
Que eu assento os pés
E é por seres quem és
Que eu assim me dou"

"Eu não tenho a certeza" de José Mário Branco

(escrito de cabeça com a memória da voz do Jorge Lomba no "Inda a Noite" há uns anitos atrás...)

sábado, outubro 15, 2011

Silêncio...

Mergulho no silêncio
O mar é frio e as ondas fortes
O meu grito é abafado pela água
que o leva até às margens onde, penso, estarás.

Mergulho no silêncio
com o grito preso na garganta,
apertado no coração pequeno e frio
a boiar na corrente que vai dar, acho, a ti.

Mergulho no silêncio
rei de todos os meus medos
Onde vivem os fantasmas e dançam as salas escuras.
Avanço nadando porque, acredito, vou-te encontrar.

Mergulho no silêncio deste grito que se prende no mais fundo do meu ser, do meu querer, do meu sentir. Porque te procuro, em mim.


Liliana


quarta-feira, outubro 12, 2011

As fadas também choram

No meio da relva mal cortada, por entre as flores abertas e as borboletas esvoaçantes, ela, enrolada sobre os joelhos, embalava-se lentamente para a frente e para trás. Como numa dança índia, invocava com toda a sua força uma inspiração, uma razão para se levantar e lançar serpentinas coloridas para alegrar os dias.

Os pássaros continuavam a cantar e a brisa, mesmo sem serpentinas, continuava a acariciar os campos espalhando as sementes que, mais tarde, continuariam a desabrochar.

A cada minuto se tornava mais claro que o amanhã, sem ela, seria apenas mais um amanhã como tantos outros.

Pensou nos seus, nos que amava. Nenhum dependia já dela. A todos dera asas para que, a seu tempo, se assim o quisessem, conseguissem voar.

Pensou nas crias, nos filhos que à sua roda cresciam. Não dependiam já dela para sobreviver e cada dia lhe era mais difícil gerir o ninho com a precisão e naturalidade que lhe eram exigidos como mãe.

Pensou em todos os que, regularmente, se cruzavam com ela. Uns mais outros menos, todos ouviram já a sua canção. A música com que lançava serpentinas já os tocara de alguma forma.

Pensou nos que não conhecia, com quem não tinha ainda dançado. Haveria outras fontes que limpariam as suas feridas e alegrariam os seus sonhos.

A cada minuto, enrolada sobre os joelhos no meio da relva mal cortada, se tornava mais claro que um amanhecer, sem ela, seria apenas mais um nascer do Sol a que se seguiriam outros e mais outros e mais outros...

Com as serpentinas amontoadas ao seu lado, ela nem tinha já certeza qual era a sua canção, já nem estava certa de saber como enrolar os fios coloridos para lançar ao luar.

Por entre as flores abertas e as borboletas esvoaçantes, ela embalava-se lentamente para a frente e para trás. Como numa dança índia, invocava com todas as suas forças que uma fada a encontrasse, lhe cantasse uma canção que iluminaria os seu sonhos e, por entre serpentinas coloridas, alegrasse os seus dias.


Liliana

domingo, outubro 02, 2011

Pára!

Salto, salto, salto....
Aquele pássaro está a sofrer!

Rego, rego, rego...
Esta árvore não pode morrer!

Falo, falo, falo...
Está uma lágrima prestes a nascer!

Corro, corro, corro...
Não posso deixar tanta coisa acontecer!

Espero, espero, espero...
Não te quero prender!

Conto, conto, conto...
A imaginação não pode desaparecer!

Aguento, aguento, aguento...
Não há outro mundo para viver e tenho de vos ver crescer!


Se não o salvares, outros pássaros virão brincar...

Apesar de ti, muitas árvores vão morrer e outras, mesmo sem rega conseguirão florir...

As lágrimas não secam por dentro dos olhos, mesmo quando as embalas e recolhes, apenas se escondem e inundam o coração....

A vida não se pára, nem se conserta, este moinho não deixa de girar por muito que o tentes vencer...

Estás fechada numa gaiola, que teces devagar com linhas de várias cores, enquanto a vida, essa, canta ao vento novas canções...

Se lhes faltares... nunca te vais perdoar!






Liliana

De onde vem o passado, Zeca?

"Nem sempre os dias são dias passados"...
o absurdo espreita numa qualquer curva da mais estreita rua
a ausência espera atrás da sombra duma floreira.

"Nem sempre os dias são dias passados"...
o Sol nem sempre nasce quando o esperamos
e a Lua, essa, desaparece quando mais precisamos da sua luz.

"Nem sempre os dias são dias passados"...
a qualquer hora o passado nos escorre pelos dedos dos dias.


Liliana