sexta-feira, julho 29, 2011

Da força do mar...

Sabes do quanto sinto o mar bater contra as rochas dentro do peito, quando estou ao pé de ti?
Ouves a maré revolta no meu corpo e as ondas que rebentam na praia com algas e conchas que revolvem a areia?

Sentes o vento na cara e o sal na boca?

Nos teus olhos ainda vejo gaivotas que dançam ao sabor do pôr-do-sol...
Nas minhas mãos a areia escorrega como o teu corpo, que se afastou mas deixou a marca do sol na pele.

Sabes do caminho da água doce que corre para o mar?
Ouves a voz do rio que embala a barca dos sentimentos, sempre a caminho da foz numa eterna e sedenta procura?
...assim o meu coração, procurando a corrente do teu.

No meu corpo ainda o cheiro da nascente.
Na minha boca ainda o sabor do mar...
E a maré vazia na praia deserta.

No teu sorriso, podia jurar, ainda as ondas revoltas.
No teu cheiro ainda a maresia...
E o vazio do areal numa noite de lua nova.


Liliana

sexta-feira, julho 22, 2011

Do futuro, com amor...

É já amanhã, e eu ainda cá estou
Nesta praia onde as nossas ondas desaguaram
Neste pôr-do-sol que nunca se apagou
Nesta lua que sempre nos iluminou com canções de embalar...

É já amanhã e eu ainda estou onde estávamos ontem
Com o teu cheiro a toldar-me os sentidos
Com este corpo, muito mais teu que meu
Com a certeza de te sentir aqui, embora já tenhas partido...

É já amanhã e os lençóis ainda me falam de ti
As marcas no chão onde, tantas vezes, nos demos
As almofadas ainda espalhadas, de tanto nos amarmos
A luz ainda apagada, depois de nos beijarmos...

É já amanhã, e esta saudade que não se aquieta
E este querer que não esmorece
E esta vontade que não se cala
E este sorriso de te ter tido, que nunca me abandona...

É já amanhã, e eu continuo aqui, onde (ainda) somos... para sempre!

Liliana

segunda-feira, julho 11, 2011

Conto, porque o sonho é real!

Trago em mim todos os sonhos do mundo.
Vivo-os com um inspirar profundo
que me ajuda a crescer, nesta vontade
de acreditar que nenhum deles pode morrer.
Conto cada um com as palavras que me fazem vibrar
e acredito que um dia, soprando,
os vou semear e, quem sabe,
quando me falta alegria,
chorando, os posso regar.
Os sonhos, na verdade, não morrem
são imortais,
fazem parte do perpétuo movimento
que faz a Lua girar.
Por isso não têm casa, nem quarto.
Voam e respiram em cada momento,
sempre que alguém acreditar.
Trago em mim todos os sonhos do mundo
e é por serem reais que os posso e quero contar!





Liliana







domingo, julho 10, 2011

Fazer pontes...

Fazer pontes. Abrir caminhos. Escavar túneis. Enviar mensagens em garrafas e atirar ao mar. Fazer sinais de fumo. Fazer pontes...

As duas personagens estão frente a frente com a boca amordaçada.

Comunicar por gestos. Escrever na areia molhada à beira das ondas e tentar que o mar não apague o que se sente. Fazer pontes...

A luz incide somente nas duas figuras, mudas, em cima dum palco nu.

Os sinais nem sempre são claros. Treinar pombos correio. Soltar balões com palavras escritas e esperar que cheguem ao destino certo. Fazer pontes...

As personagens movem-se, gesticulam, tentam comunicar com o corpo. Param silenciosas, duas ilhas isoladas, tão perto e tão longe. Desistem.

Fazer pontes...
Liliana

segunda-feira, julho 04, 2011

Onde começa o voo do Adeus, Mia?!

Partes nestes dias de calado silêncio
sei que tens de o fazer, avançar, correr...
Vejo-te ao fundo, na avenida das lembranças,
pequenas flores que abrem quando andas.
E eu que não te quero perder...

Sinto-te longe, distante
e sei que tens de o fazer, parar e viver.
O meu coração grita, explode, triste visitante
das terras de quem tem de te largar.
E eu que te continuo a querer, amar.

O meu corpo parte-se, desfaz-se,
nestas ondas rasgadas do nosso profundo mar,
onde ainda oiço o gemido que me fez transpirar.
Será que o teu corpo, sente o meu chamar?
Mas eu sei, tenho de te deixar voar...

Liliana






"Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo"

"Poema do adeus" de Mia Couto

domingo, julho 03, 2011

Das noites sem lua...

Hoje não se vê a lua. O céu, cinzento, quebra a sua luz branca que embeleza as figuras em esguias sombras e banha a cidade com um brilho cintilante.

O rio afaga as margens timidamente, escondendo o beijos e os abraços próprios da noite. E os amantes, comuns peões que descem as ruas até às docas aproveitando a brisa e o calor das águas que ondulam inspiradamente, também eles estranham o cenário que arrefece os amores e resfria as paixões.

A cidade pinta-se de cores neutras e nem o verão se atreve a espreitar a noite.

Um carro sobe a calçada, indiferente à aparente indiferença de todos os sentidos. Pára em frente a um prédio e alguém sai e toca à campainha de forma decidida e firme, embora as pernas bambas desvendem um certo nervosismo. Sobem-se vários lances de escadas e uma porta de madeira abre-se. Lá dentro, e apesar do ar frio que entra pelas janelas abertas, os corações estão quentes e batem em sobressalto enquanto se unem.

A neblina continua a cobrir a cidade e a lua, escondida pelas nuvens, parece apagada. No entanto, no meio nas casas e dos carros parados e dos jardins vazios e das ruas desertas, uma luz forte parece brilhar e o som da paixão invade todos os caminhos que desaguam no rio. Então, disperto pelo amor, o Tejo atreve-se a abraçar as margens e elas deixam-se embalar nas suas ondas e os casais voltam a ser amantes.

A cidade acorda apesar do cinzento e do nevoeiro, e o amor entra em todas as janelas juntamente com o ar fresco da rua.

Indiferentes à aparente indiferença do mundo, um homem e uma mulher num prédio qualquer, dentro duma casa com uma porta de madeira amam-se no segredo duma noite sem lua.


Liliana


sexta-feira, julho 01, 2011

Tens tempo?

Procura-me o tempo em que as margens se tocavam
entre beijos e carícias da ondulação.

Procura-me o tempo dos sonhos
que dançavam alegres por entre as nuvens brancas,
recortando no céu o caminho dos desejos.

Procura-me o tempo dos sorrisos
feitos corpos feitos abraços feitos saliva feitos suor.

Procura-me o tempo enquanto espreito o relógio
e pergunto, cantando, aos ponteiros
"quanto tempo o tempo tem?"...



Liliana