terça-feira, junho 28, 2011

Dentro do meu castelo

Dentro das minhas muralhas, há dias em que consigo fechar os portões ao barulho da vida, enviar as minhas tropas, dar ordem para lançarem as flechas e sentir-me segura, calma, tranquila.

Dentro das minhas muralhas, há dias em que o sonho fala mais alto e o arco-íris me sorri, bem no meio dum céu de verão, como que a convidar para um passeio.

Dentro das minhas muralhas... consigo, em alguns dias, fechar-me duma realidade chuvosa e fria e manter-me afastada das dores do mundo.

Cá do cimo das ameias, vejo a cidade e sei-me fora dela. Sorrio. O burburinho de fundo, dos carros que se apressam das crianças que correm das pessoas que se acotovelam da confusão que se vive, não me afecta nem perturba... dentro do meu castelo.

Há a lua e as estrelas que me sussurram que tudo passará.
Há o Tejo ondulado e azul-verde-azul que me canta um novo dia.
Há o sol e as nuvens finas, espalhadas numa leve camada branca, que asseguram que a Terra continua a girar.


Dentro do meu castelo!


Liliana

segunda-feira, junho 27, 2011

Não sou uma Princesa...

Procurei um cavaleiro, um principe, um herói... daqueles que nos salvam de todos os apuros, desde um assato à mão armada num canto escuro da cidade, a um furo num pneu na estrada mais quente do interior, até à tristeza indizível de não cabermos naquele vestido especial que nos ficava tão bem...

Procurei um cavaleiro que me encontrasse no meio da floresta dos anos e me levasse de volta aos campos dourados pintalgados do vermelho das papoilas...

Procurei um príncipe que chegasse quando mais ninguém chegou e, com um sorriso leve e um beijo enbriagante, me sentasse no seu cavalo branco e me acolhesse no palácio mais bonito de toda a região...

Procurei um herói capaz de me ler os medos e afastar os fantasmas que, à noite, me atormentam, enquanto se sentava à minha cabeceira sempre que, mesmo ao longe, me soubesse a chorar...

Na verdade, procurei o cavaleiro andante, o principe encantado o herói ideal... mas não percebi que eu... Eu, não sou uma donzela em apuros... Eu, não sou uma princesa adormecida.

Agora, que me olho ao espelho e me vejo claramente, sem vestidos vaporosos ou penteados perfeitos, sei-me apenas eu... no corpo marcado pelo avançar do relógio, nos cabelos descorados pelos sóis que não param, nas olheiras das noites em branco...

Se o cavaleiro não veio, foi porque nunca o chamei, nem saberia como.
Se o principe não chegou, foi porque nunca me deitei à espera do seu beijo, nem conseguiria ficar parada.
Se o herói não me salvou, foi porque fui capaz de me ir salvando sozinha, e não o fazer ser-me-ia impensável.

Agora que me olho ao espelho (malvados espelhos que raramente nos dizem a verdade), percebo que não sou, e nem quero ser a Cinderela, quero - apenas - e só - ser eu.


Liliana

quinta-feira, junho 23, 2011

Tudo pode esperar...

Olho para o rio que me sorri, e sinto as tuas mãos que me tocam numa humidade quente. Entro na água e a saia flutua à minha volta como uma flor que se abre em mim enquanto me aproximo de ti. Deixo-me levar pela corrente que me envolve num rodopio de sentidos. As margens parecem tão longe quando nos amamos.

O tempo pára, apenas as ondulações nos levam e nos trazem neste abraço eterno... dois corpos que se unem numa cumplicidade de água que corre para o mar. Num sonho do qual não quero acordar, o teu olhar meigo percorre-me o corpo nu, que é mais teu que meu.

Quero abarcar todos os sentimentos que se vão espalhando pelas águas mas puxas-me para ti e entregas-te-me. Perdemos o pé, entrelaçamos as pernas e mergulhamos no rio que nos une numa paz silenciosa.

As ondas levam-nos de volta à margem onde os corpos molhados se deixam aquecer à luz branca do luar. O tempo, parado ainda, embala-nos num sono leve e embriagante. Não temos pressa, nada nos espera, tudo pode esperar...





Liliana

segunda-feira, junho 20, 2011

Caminhando...

Com os pés descalços avanço devagar pela terra fria, dura.
Vou andando nos trilhos traçados por outros tantos pés que este caminho atravessaram.
Nada é novo, embora para mim a paisagem seja um salto no escuro.
Avanço decidida, por entre os arbustos que me circundam e recortam a vista do pôr do sol que se anuncia ao fundo.

Ao chegar ao fim do caminho, um enorme declive convida-me a descer à praia e tocar a linha do horizonte.
Descalça, por entra as memórias das escadas envelhecidas por muitos invernos, aproximo-me do mar que na sua imensidão me cumprimenta em pequenos abraços salgados.
Sento-me, à minha frente o palco prepara-se para o grande momento em que o sol beija o mar e os dois se fundem num abraço longo, profundo.

Todos os meus gestos são novos, todos os sentimentos renovados por uma energia que se levanta com vento norte do início da noite.
As mudanças deixam-nos sempre inquietos e é inquieta que me deixo envolver pela noite.
Ah! Se todos os passos do mundo me trouxessem até esta praia, nunca teria receio de os iniciar.

Estou só, na praia, enquanto a lua se levanta para me acarinhar.
Não tenho medo, não tenho remorsos, apenas uma enorme vontade de me encontrar!




Liliana


quinta-feira, junho 16, 2011

Os sonhos nascem na lua?!

Os sonhos nascem na Lua?
De que planeta vieram os sorrisos com que nos brindamos nas manhãs solarengas e demoradas de verão?
Porque corre o coelho sempre atrasado para a hora que, há tantos anos, passou?
Como se fazem crescer os desejos que nos dão força para mais uma corrida à volta de um novo dia?
As fadas aparecem perto de água, como as Moiras encantadas?
Aqueles pequenos seres que brilham voando na noite nascem para nos fazer acreditar?
Ah! E o rio que lá em baixo ondula lentamente reflectindo uma cidade desfocada, porque me chama?
Para que servem as palavras que tantas vezes deixamos por dizer?
O amor vem de Paris em pequenos embrulhos coloridos e adornados com laços de seda?
Quando perdemos o tempo, como o encontramos?
Saberão os meus olhos que tudo invertem antes de levar as imagens ao cérebro?
Em que língua falam os búzios gigantes onde ouvimos o canto do mar?
Onde está o mapa das estradas dos tijolos amarelos?
Em que país é fabricada a alegria e porque não é justa a sua distribuição?
Porque nasce o sol depois de se deitar a lua?
Onde está a areia quando o mar dos olhos decide escorrer e a maré vazar?
Porque nos perdemos nos bosques, sem percebermos as casas acesas onde podíamos descansar?
E quem sonha, vive na Lua?



Liliana


quarta-feira, junho 15, 2011

Conta-me como foi, Sérgio...

Conta-me como foi, para que me lembre das vezes que nos rimos de mãos dadas. Diz-me de ti, de nós, para que nunca ponha em causa o que, um dia fomos e sentimos, e agora parece tão longe.
Não deixes que se me apague o tempo, no corpo cansado do mar e da chuva.

Conta-me como foi, para que fique guardado nas linhas da minha mão o caminho que partilhámos. Diz-me das canções, que juntos cantámos e dançámos à luz branca da lua.
Ajuda-me a guardar as memórias, nesta caixa que um dia abrirei para nos sentir e cheirar e ouvir, com um sorriso que hoje me foge pelos dedos como a areia dos dias.

Ah! Conta-me como o teu corpo no meu, se fez jardim e arco de mil cores, quando todos os sonhos eram possíveis. Sim, diz-me que também foste flor a nascer no meio da rebentação da praia dos desejos.
Não me deixes lavar o sal das lágrimas, que conserva as lembranças boas e faz de todo o passado um constante presente que não dói, apenas afaga a alma.

Deixa-me ser quem te faz sorrir, aquela que no tempo em que os desejos falavam, te encantou com histórias de fadas e cavaleiros andantes.
Deixa-me sorrir contigo, no cimo desta muralha que cobre o mundo, onde outrora descansámos as almas pesadas da inquietação das horas, e nos demos em corpo, suor e beijo.
Deixa-me sentar ao teu lado e lembrar as noites em que cantámos as canções que fazíamos em pautas desenhadas nos corpos nus.

Vem e abraça-me, num aconchego de quem já juntou as vozes e misturou os cheiros em madrugadas claras e horas de gemidos silenciosos.
Vem sem medos nem receios, porque quem já esteve tão perto nunca deixa de se querer bem.
Vem e dá-me a mão, sem dizer nada, sem palavras ou explicações, que os nossos olhos conhecem bem demais o fundo de cada olhar, e nada mais precisamos para nos sabermos de novo em casa, na casa dos sonhos.

Conta-me como foi, para que juntos inventemos a história por viver, do que ainda podemos ser, agora que chegou a hora... de dizer adeus!

Liliana




"Com um brilhozinho nos olhos
e a saia rodada
escancaraste a porta do bar
trazias o cabelo aos ombros
passeando de cá para lá
como as ondas do mar.
Conheço tão bem esses olhos
e nunca me enganam,
o que é que aconteceu, diz lá
é que hoje fiz um amigo
e coisa mais preciosa
no mundo não há.

Com um brilhozinho nos olhos
metemos o carro
muito à frente, muito à frente dos bois
ou seja, fizemos promessas
trocamos retratos
trocamos projectos os dois
trocamos de roupa, trocamos de corpo,
trocamos de beijos, tão bom, é tão bom
e com um brilhozinho nos olhos
tocamos guitarra
p'lo menos a julgar pelo som

E que é que foi que ele disse?
E que é que foi que ele disse?
Hoje soube-me a pouco.
Hoje soube-me a pouco.
Hoje soube-me a pouco.
Hoje soube-me a pouco.
passa aí mais um bocadinho
que estou quase a ficar louco
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
portanto,
Hoje soube-me a pouco

Com um brilhozinho nos olhos
corremos os estores
pusemos a rádio no "on"
acendemos a já costumeira
velinha de igreja
pusemos no "off" o telefone
e olha, não dá p'ra contar
mas sei que tu sabes
daquilo que sabes que eu sei
e com um brilhozinho nos olhos
ficamos parados
depois do que não te contei

Com um brilhozinho nos olhos
dissemos, sei lá
o que nos passou pela tola
do estilo és o "number one"
dou-te vinte valores
és um treze no totobola
e às duas por três
bebemos um copo
fizemos o quatro e pintámos o sete
e com um brilhozinho nos olhos
ficamos imóveis
a dar uma de "tête a tête"

E que é que foi que ele disse?...

E com um brilhozinho nos olhos
tentamos saber
para lá do que muito se amou
quem éramos nós
quem queríamos ser
e quais as esperanças
que a vida roubou
e olhei-o de longe
e mirei-o de perto
que quem não vê caras
não vê corações
com um brilhozinho nos olhos
guardei um amigo
que é coisa que vale milhões.

E que é que foi que ele disse? ..."
Sérgio Godinho (in "Canto da boca" - 1981)

terça-feira, junho 14, 2011

Adeus, Raúl. Não afastes os teus olhos dos meus.

Dizemos adeus tantas vezes durante o dia...
Aos filhos à porta da escola com os boné torto e a mochila às costas.
À senhora do café da esquina que todos os dias, com o mesmo sorriso, nos serve a "bica cheia" e o pastel de nata.
Ao carro, no lugar que demorámos quinze dolorosos minutos a encontrar e que nos obrigaram a dizer adeus à pouca boa disposição que, a ferros, arrancámos da cama.
Nos mil e um mail que enviamos e nos inúmeros telefonemas que vamos atendendo durante o dia.
Aos colegas que no dia seguinte lá estarão, invariavelmente, na secretária ao nosso lado.
A mais um dia vivido, depois do jantar.
Aos filhos que adormecem num segundo e nos deixam sozinhos com os tantos adeus que, antes de fecharmos os olhos, dizemos aos sonhos que, mais uma vez adiámos.

Adeus...

E os adeus não-ditos?!
Os que ficam no limbo entre o sim e o talvez?!
Os que sentimos que estão a caminho, mas não sabemos em que dia chegarão?!
Os que doem e massacram porque, o medo do que vem depois nos faz evitar e adiar o mais que podemos?!
Os que sabemos que temos de dizer, mas só a ideia de pronunciar a palavra instala uma tal mágoa, que nos recusamos a aceitar a sua inevitabilidade?!
Os que são ditos pela ausência, no absurdo do silêncio cortante que fere e nos deixa a sangrar no vazio?!

Dizemos adeus tantas vezes e em tantas situações dos nossos dias, que acabamos por esquecer o peso e o poder final, quase mortal, desta palavra escura...


Liliana




"(...)
Adeus, não afastes os teus olhos dos meus
Até quando ao longe a bruma a pairar
Se consuma entre as ondas do mar
(...)"


Raul Ferrão / José Galhardo

Bora lá ser livres, Fernando...

E se, assim, sem mais, pudéssemos voar por sobre os oceanos sem marés nem ventos a respeitar?
Se amanhã, ao acordar, nos déssemos conta, eu e tu, que podíamos virar por onde nos apetecesse apesar dos sinais vermelhos ou dos sentidos proibidos?
Ah! Se cada um de nós pudesse, realmente, experimentar a liberdade de ser, por um só dia...
De que serviriam as convenções os pré-conceitos ou as devoções num movimento impulsivo, num gesto sentido, em vez de reflectido?

E se, assim, sem mais, me fosse permitido por uma hora olhar-me ao espelho sem o reflexo de todos os outros por trás?
Se amanhã, ao acordar, me levantasse e me visse inteira, real e verdadeira?
Ah! Se ao teu lado me permitisse avançar sem a pressão da atmosfera que comprime e aborta os movimentos?
De que serviriam as palavras num tempo de sentimentos e sensações?


Liliana





"Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
...Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca..."




Fernando Pessoa

terça-feira, junho 07, 2011

Castelos de areia...

Conhecia aquele muro desde que se lembrava de si. Era assim, uma espécie de carapaça que construíra ao longo dos anos, com barro que tirava de si própria de cada vez que a vida lhe pregava uma rasteira.

No princípio eram apenas um sapatos mais fortes, para melhor aguentar o embate com o chão. Depois umas botas para suportar as tempestades. Mais tarde, a construção passou a servir-lhe de armadura, cobrindo o peito contra as agressões do dia-a-dia. A certa altura, todo aquele barro tirado de si própria, foi aumentando até a envolver por completo como uma torre onde, enclausurada, espreitava o mundo através dos dois pequenos orifícios que fizera.

Há que dizer que não era fácil viver dentro duma torre invisível, pesada, desconfortável, inibidora de qualquer aproximação real ao mundo. Mas era a sua "torre de defesa", como lhe chamava. Ali estava segura, não se magoava, não caía, não se molhava com a chuva de inverno, nem se queimava com o sol abrasador das tardes de verão. Sim, estava convencida que aquela era a melhor forma de viver segura e protegida dos males do mundo.

Os outros, os a que a rodeavam e os que com ela se cruzavam e os que lhe chamavam amiga, raramente se apercebiam da torre, não a viam, não a pressentiam e, por isso, não entendiam as suas reacções tantas vezes, à primeira vista, despropositadas. E ela esforçava-se para que assim continuasse, gostava daquele aconchego, tinha medo da proximidade, não confiava no mundo.

A certa altura, a torre começou a ser pesada demais para as suas forças. Custava-lhe sair, conversar e mal conseguia ver o que a rodeava por entre os pequenos buracos. Na verdade, por cada dia que passava menos ela vivia, de tão obcecada pelos seus medos e protecções. Isolou-se dentro da sua torre, feita de barro que tirou de si mesma, e foi criando uma imagem externa que a escondia por detrás das suas paredes. E aquela imagem, pintada na própria torre acabou por mantê-la cada vez mais longe dos outros e de si própria.

Um dia, uma noite... já não sabia bem quando, cruzou-se com ele e, por entre os orifícios da torre, viu um homem, um homem diferente. Os olhos dele pareciam denunciar uma criança dentro do seu corpo adulto. Ela parou e ficou a olhá-lo. Ele parou também e assim que olhou para ela, viu a torre, a maquilhagem, o peso, o esforço... Ela ficou espantada, pensava que ao fim de tantos anos já ninguém a conseguiria ver. Na verdade, embora sentisse um peso estranho, ela própria se tinha esquecido de tudo com que se rodeara.

Ele, com os seus olhos de criança, viu-a e percebeu que, mesmo por baixo da maquilhagem e do barro e da torre e das barreiras, estava apenas uma menina assustada que tudo o que precisava era de alguém que lhe mostrasse como respirar e viver.

Passaram muitos sóis e muitas luas, as chuvas passaram a sol e eles foram-se conhecendo. A criança dos olhos dele foi acordando a menina dentro dela, foi-lhe dando confiança, ensinou-a a andar como a um bebé, deu-lhe a mão e mostrou-lhe um mundo leve, colorido, alegre e, aos poucos... quase sem se aperceber, ela foi limpando as tintas, partindo o barro, saindo da torre, tirando as botas... e aprendendo a viver!


Liliana

segunda-feira, junho 06, 2011

Párem!

Não quero deixar avançar o tempo.

Párem os relógios que me endoidecem com o tique-taque dos ponteiros!

Párem as horas que avançam sem pedir licença e me doem no peito como cintas que me apertam o coração!

Párem! Mandem calar os pássaros e as crianças que me lembram a alegria que não encontro neste monte de recortes, catálogo de onde devo escolher o caminho certo...

Párem! Não me peçam sorrisos que não consigo dar hoje, nem sei se amanhã.

Párem! Não me digam que os rios vão voltar a correr e as flores vão abanar nos campos com a dança do vento!

Párem! Deixem-me perceber onde estou, que mar é este que chorei, que forças me enviaram nesta barca...

Párem! Não virem as malditas ampulhetas, nem dêem corda aos relógios. Não toquem os sinos das igrejas nem anunciem as horas no rádio!

Párem! Não se afastem de mim para que não fique só, nem se aproximem muito que me assustam. Fiquem assim, à distância de uma mão, ao fundo de um olhar, porque eu não sei se consigo parar.


Liliana

domingo, junho 05, 2011

Até já!

Todo o meu corpo reage ao toque dos teus lábios. O contacto de tão leve, é quase inexistente e, no entanto, podia jurar que todos os poros da minha pele te sentem intensamente.

Invade-me uma tremura interna quando a tua mão na minha... no meu cabelo... no ombro... e vibra um sentir indizível de cada vez que os teus olhos se demoram nos meus ou o teu cheiro me chega, de mansinho, na brisa da noite.

A lua, companheira das minhas noites em branco, traz-te até mim neste delírio feito sonho, feito corpo, feito sonho, feito pele, feito sonho, feito lábios, feito sonho e respiração e bater dos corações que, por fim, se fundem e dançam uma música inaudita.

Ecoa no mais fundo de mim a tua voz que se entrega, nos quer, me chama e é chama nos nossos corpos feitos um que se solta na noite, à vista da Lua que ilumina o nosso amor.

Amanhece o dia e acalmam os corpos ao calor do sol que se levanta. Inquietam-se mais tarde, inevitavelmente, com a proximidade um do outro. Dás-me um beijo de raspão no correr das horas, e o meu corpo inteiro responde com um arrepio que me mergulha num intenso mar de sensações, memórias duma verdade presente e passado e saudades dum futuro sempre incerto.

Afastas-te com os ponteiros do relógio da torre enquanto o teu corpo se demora, se enrosca, se aninha e se deixa ficar no meu... Até já!


Liliana

quinta-feira, junho 02, 2011

Não me sei daqui

Não me sei daqui, nem mesmo daí...
Não me reconheço nas águas paradas deste lago que me rodeia
Não me sinto, assim, como me vês
Não te toco como pensas sentir-me
Não me aproximo... porque não sei onde estou

Perdi-me no meio deste caminho, desenhado a fogo nas muralhas do tempo, que fecho à chave no armário dos vestidos de carnaval
Perdi-me de mim ao tentar chegar a ti, e agora não me sei daqui, nem mesmo daí...

Encontrei a minha sombra caída numa noite de tempestade, em que as águas revoltas romperam as barreiras e inundaram o mundo, o meu mundo
Encontrei a minha pele num deserto estendida na areia, despida de mim, despida de vida, e tentei em vão perceber-me nela

Perdi um pouco de mim em cada esquina que dobrei, nas curvas do tempo que os relógios teimaram impor-me sem descanso
Há dias em que me encontro num olhar vagamente conhecido, numa voz familiar, mas nunca os consigo vestir, e acabam sem excepção fechados no armário dos disfarces

Não me sei daqui, nem mesmo daí...
Não me reconheço nem gosto da imagem que vejo no espelho das águas


Liliana