terça-feira, maio 31, 2011

Do nascer dos medos...

Sinto a tua falta como um peso que não consigo tirar e que carrego comigo para onde vou.
Estou só e chóro um choro ferido, assustado. Mãe!
A tua ausência fere-me e a dor percorre os meus dias e invade as noites onde, em vão, tento dormir.
Não tenho resposta, o medo avança e os meus gritos aumentam com o choro onde me perco e me reencontro. Mãe!
O silêncio perturba-me por não te saber, dói-me a distância que me aperta o peito e não me deixa respirar.
Dentro do berço, mundo que me prende e de onde não sei sair, continuo a chamar pela ajuda que não vem.
As saudades deixam-me imersa numa ansiedade que me prende numa rede de sofrimento.
Invadem-me sensações que desconheço, mas que me falam de perigo. Grito, chóro. Mãe!
Procuro-te, perco-te na agitação dos dias e perco-me no medo de não te reencontrar.
Esperneio dentro do berço que se abana, todos os medos me assaltam, estou só e não me sei defender.

Mas eu sei que existes, estás aí, mesmo quando não te vejo, mesmo quando não te tenho ao meu lado. E no entanto uma voz antiga, mais antiga que a vida, mais antiga que a morte, me diz que estou só, sempre só.
Cansada do choro ouço o enorme silêncio enquanto soluço, não me sei segura, preciso recomeçar a chorar.
Espero-te e desespero com medo de não te reencontrar, afinal nunca me senti em paz sozinha.
O meu choro recomeça e atravessa a sala e as paredes e o imenso mundo que desconheço. Mãe!!!

Finalmente estamos juntos, sinto-te, vejo-te, cheiro-te, abraço-te e deixo-me ser em ti.
Dois braços pegam-me e embalam-me perto do teu peito, soluço ainda. És tu! Sinto o teu coração bater e acalmo-me com ele. Mãe!

Mas os dias teimam em seguir-se às noites, sem tempo para me acalmar nesta espera que me deixa novamente pesada e ferida...
De novo no berço, pequeno pedaço de mundo que me envolve, procuro-te e não te encontro. Um remoinho de sensações que cheiram a perigo toma conta de mim enquanto o meu choro se torna mais alto, mais sofrido, mais angustiado. Mãe...

Liliana



Sou solidária?!

Sou solidária? Deveras? Assim, sem falsos escapes, ou verdadeiros embaraços?

Não falo da solidariedade geral que sentimos com o mundo e com todos os que sofrem e que nos faz participar numa recolha de recolha de alimentos ou verbas.

Não.

Falo de ser solidário para com quem está connosco, quem precisa que nos dêmos.
Falo de ser solidário no dia-a-dia quando os olhos de quem se senta ao nosso lado nos dizem para nos sentarmos frente-a-frente e nos darmos em palavras tantas vezes sofridas, tantas vezes suadas.

Falo de ser solidário assim, de forma a estar atentos e vermos que mão nos pede para nos darmos em sentimentos.
Falo de ser solidário, quando aquele que menos esperamos espera que nos consiguemos dar em apoio naquele passo em frente, ou quem sabe, para não dar aquele mesmo passo.

Falo de ser solidário nas horas que os medos dormem, mas em que vemos uma luz acesa que nos pede para nos darmos em valentia e afastar aquele fantasma.
Falo de "ser solidário, assim, para além da vida" e de tudo o que nos faz correr, e não deixarmos de nos dar porque "minha mãe não dorme enquanto eu não chegar...".

Falo em ser solidário antes de limitarmos a solidariedade a pacotes de leite e latas de atum, necessários, mas que não matam a fome de amor aos que nos estão próximos.
É que falo em ser solidário assim, de verdade connosco e com "tudo o que temos para nos dar".

Porque "cá dentro inquietação, inquietação" que cresce como um vazio que me enche sempre que não me dou.



Liliana

sexta-feira, maio 27, 2011

Dorme a cidade, Chico?

A cidade dorme. As janelas fecham-se como pálpebras cansadas depois de mais um dia de correria e burburinho. As casas, paradas e apagadas, respiram tranquilas na calma dum sono profundo.

Ela senta-se na varanda e acende um cigarro, deixou de fumar há mais de dez anos mas aquela noite pede algo que a reconforte e nada mais há para além dum copo mal cheio e dois cubos de gelo. O fumo sobe sem esforço no ar estanque da noite como quem vai até à lua e, lá em cima, vê toda a vida com a distância necessária para reconhecer os erros e os caminhos certos. Pudesse ela subir com ele...

O silêncio perturbador duma cidade inteira de olhos fechados assalta-a como um fantasma teimoso que espreita por entre os carros estacionados e os passeios vazios. Nunca gostou do silêncio, cresceu no meio dele e da solidão e sabe que, para ela, trará sempre um presente amargo. Encolhe-se no cadeirão e procura a manta como um bebé que se aninha no colo da mãe. "Está tudo bem", diz baixinho para se convencer a si própria, enquanto o cigarro a reconforta pela última vez antes de se apagar na sua insignificância.

Olha para o quarto, ele dorme com a cidade, calmo e tranquilo, tão longe dos seus silêncios e das suas solidões e dos seus fantasmas e dos seus medos. Pode quase chegar-lhe com uma mão ou acordá-lo com uma palavra e, no entanto, um imenso mar de desconhecimento os separa. Que faz ela ali?!

Pega no copo e roda-o fazendo os gelos bater entre si e cantar um baixíssimo tilintar que ecoa pelas ruas da cidade. Assusta-se "vou acordar toda a gente", pensa. Mas apenas um suspiro mais fundo se ouve e até o rio se mantém imperturbável, espelho calmo da sua solidão.

Daquela varanda pode sentir todos os sonhos que são sonhados. Pega nos mais risonhos e experimenta-os, como quem veste um vestido na loja, procurando um pouco de calma. Alguns de tão justos não a deixam respirar, outros são tão grandes e abrangentes que lhe escorregam pelos ombros e acabam caídos no chão e amassados num monte. Não, os sonhos alheios nada lhe dizem. Tem de ser ela própria a descobrir o seu sonho calmo e alegre. Mas o medo do silêncio, os fantasmas teimosos que a vigiam... não tem coragem de fechar os olhos e deixar-se adormecer naquele embalo ondulante da cidade. Não ela, que nunca se achou capaz de deixar fechar as janelas como pálpebras cansadas dos dias que correm em horas sobressaltadas.

O céu ainda não confessa o nascer do sol e já o chilrear tímido dos pássaros o denuncia. Apenas uma pequena claridade ao fundo, no seu lado direito, atrás das casas adormecidas dá a perceber que, como sempre, o sol voltará a nascer nesta madrugada.

Enquanto as janelas, muito devagar, se começam a abrir, e a cidade se espreguiça e pensa em acordar, ela pousa o copo e, inspirando fundo, sente o silêncio e os fantasmas e o vazio e o medo desvanecer.

No cadeirão da varanda embrulhada na manta permite-se, por fim, fechar os olhos ao mesmo tempo que sol se levanta e a cidade acorda.



Liliana


"Dorme a cidade
Resta um coração
Misterioso
Faz uma canção
Soletra um verso
Lá na melodia
Singelamente
Dolorosamente
Doce a música
Silenciosa
Larga o meu peito
Solta-se no espaço
Faz-se certeza
Minha canção
Réstia de luz onde
Dorme o meu irmão"





"Minha canção" de Chico Buarque
(LP Saltimbancos de 1977 - adaptação dos Músicos de Bremen)

quinta-feira, maio 26, 2011

Avenida de todos os sentimentos

A avenida tanto descia como subia, conforme o seu estado de espírito.

Havia dias que descia a avenida com o reflexo das águas ao fundo brilhando nos olhos, e a vida lhe era tão macia como o rio que, na ondulação suave, lhe sorria e desejava bom dia. Tardes havia, porém, em que subia a avenida com o peso da angústia nos ombros e nem os acenos do rio, que se esforçava por caber no pequeno espelho retrovisor, lhe faziam aligeirar a carga e esperar pela bonança que sempre chega, depois das chuvas torrenciais que lhe enchiam os olhos.

Aquela avenida era assim como que uma carta aberta, uma folha em branco onde o seu simples passar descrevia a sua própria existência.

Nas noites escuras de lua nova o próprio rio mostrava a escuridão que escondia nas gavetas que tanto tentava fechar, espelho negro de toda uma cidade que apenas luzes fantasma conseguia desenhar nas águas turvas que a banhavam. Mas os fins-de-tarde abafados de verão, com aquela brisa fresca que a ondulação confessava, mostravam a sua profunda confiança nas papoilas que dão cor aos campos e no sol que as rega de luz. Nessas tardes que se atrasam e demoram nos relógios dos que passeiam, conseguia ver a vida com todo o seu potencial renovador, ciclos que se encaixam e se seguem como um cântico calmo, alegre mesmo, mas infindável, que se estende muito para além da atmosfera. O seu sorriso era verdadeiro e o rio, finalmente em paz, devolvia-lhe o voo das gaivotas em loucos bailados ao pôr-do-sol.

Aquela avenida estava-lhe nas entranhas do ser, corria-lhe no sangue, e assim a vida era mais ou menos pacífica, de acordo com a sua disposição. Carros, pessoas, crianças que brincavam ou choravam à mercê dos seus devaneios, tudo girava numa estranha envolvência que lhe pertencia, que comandava sem se aperceber. É que, mesmo sem saber, a avenida tanto descia como subia, conforme o seu estado de espírito.




Liliana



quarta-feira, maio 25, 2011

Olaias em flôr

Nos meus olhos o sol bate suave, tua mão macia que me percorre o rosto.

Na minha pele, de mansinho, a brisa corre... teu corpo junto ao meu numa respiração a par.

As olaias que invadem todo o quarto com o odor lilás das pequenas flores que caem... teu cheiro que me atrai, me puxa, me faz sentir-te ao meu lado.

Em cima da cama, o calor da tarde e os segundos dum sono muito leve que sopra recortes dum tempo nosso.

As cortinas que se ondulam leves, memórias que se elevam e se desfazem no ar como bolas de sabão que flutuam à minha volta e nos trazem até mim.

Os pássaros ao fim da tarde que me embalam o sonho e me deixam tranquila, nesta paz de te saber por perto ainda que tão longe.


Liliana

sexta-feira, maio 20, 2011

Será que me conheces?!

Dizes que me conheces. Que vês em mim? De verdade, como tens certeza que me reconheces para além da sombra que o sol, conforme a sua posição, vai projectando de mim no talhado mais ou menos irregular do solo?

Que sabes tu do caminho que esculpi até aqui chegar? Não somos nós frutos de um processo de integração de factores interiores e exteriores que nos vão moldando/e moldamos como quem dá forma o barro que gira nas mãos húmidas do artista?

O que conheces de mim não será apenas um instante, um fragmento do todo que vai desde o nascer ao pôr do sol?

É como se uma fotografia bastasse para me conheceres. E ainda assim, não te parece possível que parte da imagem seja, quase que manipulado por mim? A lente apanha apenas ao lado que dou a conhecer, a expressão que me permito mostrar...

Algum dia paraste para ver o que está para lá da maquilhagem que disfarça o cansaço dos dias e o desânimo das noites?

Dizes que me conheces... Sorrio.



Liliana

quarta-feira, maio 18, 2011

Agora está tudo bem...

Olha para mim, olhos nos olhos.
Sabes aquele ponto sensível a partir do qual deixas de sentir a dor e o medo? É este onde estou sentada, encalhada.

Olha para mim, olhos nos olhos.
Agora já estou do lado da fronteira onde pouco mais me pode atingir verdadeiramente. Estou segura, porque aqui os pântanos não estão encobertos nem disfarçados.

Olha para mim, olhos nos olhos.
Percebes que já posso sorrir de mim própria e da vida? Não há muito mais partidas que me possa pregar e as barreiras terão todas de ser ultrapassadas. Não há mais para onde fugir ou como fingir.

Olha para mim, olhos nos olhos.
Digo-te que, quando a vida nos tira o tapete, os pés enregelam no chão frio e qualquer brisa que passa mais não é que um sopro morno da terra que nos obriga a andar, a avançar.

Olha para mim, e acredita no que te digo.
Está tudo obrigatoriamente bem quando tudo começa a ficar mal, caso contrário como continuaríamos a viver?!


Liliana

terça-feira, maio 17, 2011

Vês-te ao espelho, Suzy?!

Sorri! Deixa agora as palavras saírem devagar num tom baixo. Mantém a cara alegre, e lembra-te, a desdita não se diz.

Endireita as costas e vai buscar aquela saia colorida e rodada que ondula com a brisa primaveril. Deixa-te envolver no perfume do costume e está o embrulho feito - podes sair!

Aproveita o sol que ajuda os falsos sorrisos a manterem-se ao de leve. Olha o rio e inspira-te neste momento tranquilo. Será
isto a calma? Esta máscara que elegantemente seguro, combinada com a permanente inquietação que me cobre a cara como a base da pintura? Ou esta é a calma que imprimo no espelho onde me olho com força até deixar que seja ela (a imagem do lado de lá) a avançar comigo atrás, como sombra ou reflexo?

Subo a calçada com a confiança, que não tenho, marcada em cada passo. Aprendi a andar em cima da passarele, aqui ao menos não há público.

As montras gritam as imagens que mostram uma mulher triste, inquieta, só. Mas a minha ilusão mantém-se firme, tranquila e bem-disposta.

Por vezes chego mesmo a esquecer-me de qual sou eu e quem é "ela". Seria tão mais simples ser assim, só imagem, reflexo dum sentimento, sugestão duma forma de ser. Leveza.


Liliana





Do Livro "Espelho" de Suzy Lee
(Editora Gatafunho


segunda-feira, maio 16, 2011

Da força dos sonhos...

Onde nasce o desejo que se infiltra nas horas dos dias e se multiplica nos minutos das noites?
Onde mora a vontade que nos nos faz querer parar os ponteiros, desligar os relógios e apagar as agendas?
De que se alimentam os sonhos que nos fazem levantar e sonhar acordados?

Como reconhecer um desejo que se conjugue com a nossa vontade e consiga gerir relógios e agendas para, em paz, se darem o tempo necessário para se conhecerem, e se perceberem um no outro?

E quando, nem horas nem noites nem agendas, dão espaço ao sonho? Como o deixar voar e sobreviver nas cidades onde os carros não param e os sinais, toda a noite ligados, lembram as luzes natalícias?
Como resistir a um silêncio negro que encobre a luz da promessa dum sorriso, sem a mancha dum abandono?
Como não desistir da vontade no meio duma luta desleal entre as 12 horas em que os relógios giram duas vezes por dia?
Onde ir buscar a força para continuar a desejar o que ontem se perdeu no meio duma agenda sobrecarregada, sem mágoas nem desilusões?
Como fazer nascer o desejo a vontade e os sonhos quando tudo seca e a água dos olhos já não é suficiente para regar as flores que nos rodeiam, neste jardim imaginado onde andamos descalços?

Onde nascem os desejos, que por muito que lhes falte o ar, sol não brilhe, nem sejam regados, permanecem quietos e silenciosamente persistentes?

Onde mora a vontade que nos faz correr atrás dos sonhos, mesmo que impossíveis?

Liliana

sábado, maio 14, 2011

Das teias que nos ligam...

Há uma linha invisível que nos liga uns aos outros. Teias que se tecem como quem borda colchas com feitios e caminhos que cruzam por entre nós. As teias tecem-se por mim e por ti e, na verdade, há um inteiro universo de feitios e ligações que desconhecia(ço).

Há pouco senti uma linha que nem via por entre as outras chamar-me, puxar-me, mostrar-me que existia. Olhei para trás, espantada, vi uma porta, uma ligação que abriste de imediato. Sorri e olhei em volta, espantada com a teia que nos unia.

Desde esse dia, tenho mais atenção. Aos pequenos gestos, às palavras e aos abraços, sempre os abraços que também tu, mesmo de longe me foste dando. Sem fazer grande força ou alarido, bordaste uma manta entre nós que ficou com o teu calor, longe de perguntas ou juízos, apenas o calor de um abraço, que me deste agora quando me mostraste as linhas com nos coseste.

Mantas há que vejo e que bordo eu própria e, quantas vezes, em desespero de causa puxo e abano, chamando a atenção. Mas há portas que se fecham, outras que não abrem o suficiente, não por falta de vontade, por incapacidade, penso eu.

Na verdade, quando o medo aparece, perco muito tempo a bordar caminhos impossíveis quando, olhara eu em volta e veria a tua rede, a tua manta, a tua porta, que nunca pensei estarem tão ligadas a mim. É que há um conjunto de linhas invisíveis que, afinal, se cruzam entre nós...


Liliana


segunda-feira, maio 09, 2011

Lê-me e deixa-me ler-te...

Tu, que me lês. Estás sentado? Quero fazer-te uma pergunta.

Que lês, quando escrevo S-O-L-I-D-Ã-O? Em que pensas, quando no meio dum texto meu (se é que lhes posso chamar isso) encontras a palavra S-I-L-Ê-N-C-I-O? Que sentes quando escrevo que tenho M-E-D-O?

Sentado, na tua cadeira, olhas o ecrã e, através dele, uma parte de mim junta-se a ti. Porque sou assim, TRANSPARENTE (ou, se calhar, nem tanto)...

Na verdade, o que lês é filtrado pelas tuas ideossincrasias que, por vingança egoísta, tudo gerem à tua imagem e semelhança.

É assim contigo e é assim comigo. Somos todos vítimas de alguma maneira, das nossas redes internas de pensamento, julgamento e compreensão.

Por isso, entre nós haverá sempre este vazio irónico, que nos afasta aumentando a palavra V-A-Z-I-O que, inevitavelmente traz consigo a solidão e o silêncio que, a mim metem medo e, quem sabe, a ti são invisíveis ou até necessários.

Estou aqui sentada, enquanto te leio. Pergunto-me, o que serão para ti as palavras que escreves.

E no entanto, quando os dois juntos, mesmo sem palavras, tenho a certeza de que o vazio não amedronta e é no silêncio que, de facto, nos lemos...

Por que será que há dias que demoram anos a passar?!



Liliana

Paroles...

Palavras, que voam e chocam umas nas outras como trovões
Palavras que se vestem e nos acompanham por toda uma vida
Palavras que se sussurram no silêncio da noite
Palavras que nos elevam, sublimam e fazem acreditar
Palavras mortas, ecos de antigos significados que já não fazem sentido
Palavras que se sentem, mas sem serem ditas
Palavras que dão vida aos sonhos e fazem brilhar os olhos
Palavras de mar, salgadas e vivas
Palavras da Lua, com fases distintas
Palavras que deixam rasto, um fio de pó que estende no ar durante dias e dias sem nos deixar respirar
Palavras que se cantam e rodopiam ao sabor da música
Palavras que enrolam umas nas outras como num abraço e, todas juntas compoem, por fim, uma história



...



Liliana





quinta-feira, maio 05, 2011

A guardiã das portas dos sonhos

- Sabes? Perguntou ela com o olhar tão longínquo quanto o infinito. Hoje, por mais que me esforce estou cinzenta, e não consigo mudar de cor.

- Mas isso é péssimo! Interrompeu ele largando o azul matinal, tão rapidamente que o pincel caiu criando um minúsculo buraco de céu no chão. Como vais fazer agora? Tens a certeza? Tentaste tudo? Acho precisas é dum banho de mar e isso volta tudo ao lugar! Tomaste o pequeno-almoço? Já olhaste para o Sol que está radioso? Então e se te concentrares e pensares nas coisas que mais gostas...

Visivelmente em pânico ele não parava de a bombardear com perguntas e sugestões e remédios para o mal dela. Ela, cada vez mais triste e sem ânimo sentara-se no chão de ombros caídos e suspirava a cada pausa dele.

- Não te sentes! Levanta-te que isto é grave! O que vais fazer agora? Não podes pintar o Arco-Íris de cinzento! Já pensaste nas consequências? Imagina, não, nem quero imaginar, é mau demais sequer para pensar! Ele perdera a paciência e aumentara o tom de voz com ar reprovador que ela, simplesmente, ignorava. És a Guardiã das portas dos sonhos! Como é que alguém vai conseguir sonhar com o Arco-Íris cinzento?!?!

- Não sei... não consigo... tentei tudo...

- Bem, não podes continuar assim, isso é certo! Não desta cor, não nessa tristeza... Ela olhou para ele como quem entende a gravidade da situação, mas está tão fraco que não consegue reagir e, novamente, suspirava. Olha para mim, vamos sair daqui, vamos ver o mar, sentir a brisa levemente salgada na cara, correr na areia, brincar com as ondas!

Decidido, agarrou-a pelo braço e praticamente arrastou-a atrás de si. Sabia que ela estava frágil mas a situação não permitia perdas de tempo. De alguma forma, tinha de a ajudar a resolver o problema, o mundo não podia ficar sem portas para os sonhos.

Pegou no pincel azul matinal que deixara cair e trocou-o por um castanho claro-areia, rapidamente desenhou uma duna na parede e os dois entraram na praia.

- Olha como mar está lindo! Tal e qual como tu gostas com ondas nem muito grandes, nem muito pequenas, que dão para saltar mas também para nadar sem sobressaltos! Vamos tomar um banho?

Ela já se sentara novamente, agora na areia molhada, o seu cinzento era cada vez mais claro, como se uma enorme maré de tristeza a invadisse e ela, impotente, ficava cada vez mais fraca e menos capaz de sonhar com ele o mar, as ondas, a praia...

Desanimado e sem saber já o que fazer, andava em voltas repetindo para si mesmo - Não pintes o Arco-Íris de cinzento... Não pintes o Arco-Íris de cinzento...

Lembrou-se então de procurar conchas, búzios, pedras coloridas que lhe oferecia com todo o carinho, desenhou gaivotas no ar e até um barco de velas brancas ao fundo do horizonte. Mas nada a animava ou lhe devolvia a cor e a força de que precisava, como Guardiã das portas dos sonhos, para pintar o Arco-Íris pelo mundo.

O sol, cansado também, encostou-se ao mar para descansar. A tarde estava a acabar e não tardaria a lua, curiosa, apareceria no céu dum azul cada vez mais escuro.

- Tentei tudo! Já não sei que fazer fazer para te ajudar...

- Eu sei. Disse ela olhando para ele com o mar nos olhos. Fizeste o que podias, não te culpes.

- Tens frio? Perguntou ele. Estás a tremer!

- Não, acho que estou só nervosa, não sei como vai ser uma noite inteira sem sonhos, nem sei ainda quais foram as consequências deste dia cinzento...

Sem a deixar acabar o que dizia, num impulso sincero, chegou-se a ela e, em silêncio, abraçou-a carinhosamente.

Ficaram assim muito tempo. Sem dizer palavra, apenas a sentir o calor um do outro naquela que já era uma noite escura de lua nova.

Não se deram conta de adormecer, a última coisa que ambos recordavam era do abraço quente e do bater dos corações em sintonia. Mas a verdade, é que quando abriram os olhos o sol já brilhava e o céu começava, aos poucos, a pintar-se de azul matinal.

Levantaram-se os dois desajeitadamente, sacudiram a areia das roupas e quando ele olhou para ela sorriu o maior sorriso que ela alguma vez tinha visto.

- Estás linda! Colorida, alegre, sorridente... E sem a deixar responder, agarrou-a pelo braço e praticamente arrastou-a atrás de si. Agora vamos que se faz tarde e mundo precisa de ti!


Liliana



(Dedicado a uma Princesa especial)

Como toca a orquestra do tempo, Franz?!

Abro porta da rua que dá para a grande entrada oval com varias portas para salas e quartos e um corredor. Um pouco por toda a parte bocados de vida espalhados pelo chão, atirados para cima dos baús, pendurados no bengaleiro ou encavalitados nas estantes.

Pedaços de dias, horas, meses inteiros, momentos alegres rasgados, lágrimas que escorrem das paredes forradas a papel fora de moda. Toda a assoalhada coberta dum passado que teima em levitar, em invadir, em fazer-se lembrar. Uma grande entrada oval com varias portas para o absurdo possível dos dias que se passam.

Um sofá virado ao contrário que conta a história de um assalto espreita pela porta da sala. Roupas que se espalham pelo corredor sem ordem nem lógica. Uma casa de bonecas com mobílias em miniatura que se perderam no tempo, balança no tecto. Uma cozinha desarrumada sem cozinhados nem vida. Uma menina sentada num canto que se embala, cantando. Muitas casas, muitos dias, muitas histórias recortadas.

Abro a porta da rua que dá para a grande entrada com portas para as salas e o corredor que vai dar à cozinha. Casacos atirados para cima dos baús, espalhados pelo chão um monte de legos e carrinhos e brinquedos por onde tropeço. Canetas e lápis e papeis com desenhos encavalitados nas prateleiras espreitam quem entra.

Todo um absurdo que se transforma à medida que o tempo recua e avança "como bola colorida por entre as mãos de uma criança".

Liliana



"As forças do homem não são concebidas como uma orquestra. No homem é necessário que todos os instrumentos toquem constantemente com toda a sua força. Não foram destinados a ouvidos humanos e não dispõem da duração de uma noite de concerto durante a qual cada instrumento pode esperar para se fazer valer."


Franz Kafka, in "Meditações"