sexta-feira, abril 29, 2011

O que esconde o nevoeiro?!


Aninho-me para que a frieza do dia não entre pela roupa e me enregele a pele. Sabes quantos barcos se perdem no nevoeiro, atraídos pelos cantos das sereias?!

Afago o meu rosto de mar aberto porque não consegui conter a lágrima que encheu o copo e o fez transbordar. E danço... danço comigo numa valsa lenta para acalmar o adamastor que se mostra, imponente, intransponível...

Canto a vozes comigo própria para afastar os fantasmas que me querem devolvem um reflexo turvo dum tempo que já passou e que não volta, mas teima em espreitar por trás da chaleira do serviço da avó.

Embalo-me, num ritmo certo, como quem adormece um bebé, adormecendo as dores, as ferias, as lágrimas e dizendo para fora "está tudo bem".

E assim se desenha o círculo que começa no nevoeiro e, por entre outros círculos, acaba inevitavelmente no tão pouco convincente como real "está tudo bem". Sabias que, voando em círculos perdemos a noção das coordenadas e se as sereias a cantar, podemos acabar perdidos num nevoeiro enganoso e frio onde não há espaço para mais que um.

Embalo-me e aninho-me para não sentir a solidão do cântico enganador das sereias-fantasma que me reflectem um tempo que não volta mas teima espreitar atrás da chaleira do serviço da avó....




Liliana

quarta-feira, abril 27, 2011

Espero...

Deixa que te liberte desta imensa solidão em que navego, para que se um dia voltares a navegar nas minhas marés o faças por desejo puro.

Deixa que te liberte desta sombra que me envolve nos dias maus e me consome por dentro e por fora, para que se num raio de sol vieres, o faças apenas porque me queres.

Deixa que te liberte deste remoinho que me empurra para para os confins da Terra, para se, enfim, me deres a mão o faças tão só pela saudade do meu toque.

Deixa que te liberte deste grito mudo que me sufoca, para que sempre que me cantes uma balada à janela seja por vontade de me beijar.

Deixa que não te liberte do que em mim é luz, é sorriso, é amor, para que lembres do que somos capazes.

Deixa que não me liberte de ti, para permanecer neste silêncio, esperando o nosso dia voltar.




Liliana

segunda-feira, abril 25, 2011

É noite de Liberdade Zeca?!?!?

Era assim em 2009, é assim hoje...


É noite de liberdade! Digo-te eu com os olhos cheios de lua!

Sabias que hoje as estrelas dançam livres no céu?
Sabias que hoje os sonhos se libertam e se soltam das camas onde, sonhados, os donos se deitam?
Sabias que hoje as letras se apaixonam e, dançando, formam novas palavras livres?
Sabias que hoje a música se revolta e, fora das pautas, soa mais alto e mais forte?
Sabias que hoje os livros saltam das estantes e as histórias, livres, gritam pelas ruas?

Livremente confesso que, mesmo hoje, é difícil aceitar a diferença que, por ser livre, se afasta de mim...
Livremente confesso que, ainda hoje, me assusto ao perceber outros caminhos tão longe do meu...
Livremente confesso que, só hoje, percebi que para o meu conto ser livre, terá de aceitar outros finais que dele discordam...
É noite de liberdade! E este cravo é a prova que te liberto para que, também eu, seja livre de continuar a acreditar!

Liliana em 25-04-2009


"Querida Joana:

Como sabes eu estou preso mas também não sou um homem mau. Viste como foi. Não sejas rabujenta e ajuda o Pedro. Se ele estiver birrento lembra-te que ainda é um bebé e tu mais crescida que ele. O que eu não gosto é que sejas egoísta porque é muito feio. Se algumas das tuas amigas querem tudo para elas deixa lá. Elas fazem mal mas tu não. Explica-lhes que não devem ser egoístas. Tem cuidado com os sugos e outras porcarias iguais porque podes ficar sem dentes. Depois, mesmo que os queiras ter já ninguém tos pode pôr. Ficas como os velhinhos. Alguns deles tinham a mania de comer goluseimas, gelados e caramelos. E também chocolates.

Eu lembro-me muito de ti e do Pedro. O Zé ainda não cortou as barbas? Diz à Lena que eu não gosto que ela seja desarrumada. Todos têm de ajudar a mãe e a Dina.

Muitos beijos do
Zeca Pai"


in "José Afonso Textos e Canções"

domingo, abril 24, 2011

Estás aqui?


Não sei explicar como cheguei aqui...
Olho para trás e não conheço o caminho, procuro no mapa mas estou sem pontos de referência.

Ah! Mas estou! E sinto que não há volta a dar... não há como voltar atrás, apenas o horizonte me chama.
Tenho de seguir, avançar. Ainda que nem sempre perceba onde acabei de chegar...

Não consigo perceber porque estás aqui...
Não vejo os nossos passos marcados na areia, nem me lembro dum passado em conjunto.

Sei que estás! Isso eu sei. Dás-me a mão e enquanto estamos juntos abraças-me. Mas nem sempre Lua segue a rota dos nossos desejos.

Espero-te. Espero-te sempre, mesmo sem saber como cheguei nem perceber porque estás aqui.
Perco-me às vezes na areia da praia. Foges-me mil vezes por entre as ondas do mar.

Mas ao fim do dia, quando o sol beija o mar e a lua espreita no céu... sem explicações ou entendimentos, estamos aqui.

Liliana



sábado, abril 23, 2011

Como é a casa onde vives?

Vivo numa casa assombrada com vista para o vazio. Um nevoeiro contínuo trespassa as paredes que monto e desmonto como peças de lego procurando, incessantemente, a divisão perfeita, a disposição ideal. Prevendo o amanhã mudo o telhado, ora arejado, ora resistente e impermeável. Jogando com os ontens, tento projectar hojes tranquilos e sem sobressaltos. Abro a porta à ternura, fecho a gaveta à dor, varro a desilusão e escancaro o amor.


Vivo numa casa assombrada com vista para o vazio que corre sobre uma pista que desconheço mas que, à força, quero entender para melhor sobreviver. Altero daqui para que amanhã não caia, construo dali porque o futuro se mostra risonho, avanço agora que não me mete medo e fujo depois porque o amanhã é incerto.

Vivo numa casa...

Vivo?

Sobrevivo numa casa assombrada com vista para o vazio.

E tu?



Liliana

quinta-feira, abril 21, 2011

Porque não me lês?...



Falo, digo, repito, grito... Escrevo. Sinto, sinto muito (talvez demais), tenho a pele fina, entra-me pelos poros a realidade como uma tatuagem marcada a ferro e fogo da qual não posso fugir.
Porque não me lês?


Escrevo... Falo, digo, repito, grito. Talvez não tenha jeito para o discurso directo, sim eu sou mais de metáforas e figuras de estilo. Dou voltas, digo sem dizer, não sei ser directa. Mas explico tudo a quem tiver disposto a ouvir.
Porque não me lês?


Repito, grito, falo, digo. E fico perdida entre as minhas palavras que esvoaçam à minha roda, sentada à beira-rio onde, sozinha, escrevo...
Porque não me lês?


Liliana


quarta-feira, abril 20, 2011

Procura a ponta do novelo...

Pego no novelo espalhado pelo corredor e enrolo o fio de novo na bola colorida nas minhas mãos, arco-íris fiado em mil sonhos.


Com cuidado vou puxando o fio enquanto enrolo memórias do que foi e do que podia ter sido e ainda do que significou.


Nunca soube fazer malha nem crochet nem liga... mas sempre gostei de novelos, coloridos e grossos. Uso-os como marcas, como fios-condutores, como pontes, como ligações entre pessoas e momentos e lembranças e sonhos.


Pego no novelo espalhado pelo corredor e penso no que pode ainda vir a ser, quantas cores, quantos arco-íris por sonhar, por explorar. Procuro a ponta do fio colorido e faço um novo novelo mais pequeno. Neste guardo as lembranças do que foi, no grande o original, guardo tudo o que pode vir a ser...


Liliana


domingo, abril 17, 2011

Lua passageira...

A lua brilhava com aquela luz velada que tudo deixa mais bonito, mais elegante, mais sensual. Há noites assim, com o poder de envolver a realidade numa névoa de magia.


Naquela noite o luar encontrou o silêncio interno que permite a fusão entre a luz e a magia da lua com as palavras e sentimentos dos homens.


Um pouco por todos os campos, palavras espalhadas como estrelas cadentes fizeram poesia como quem faz amor. No mar, entre ondas e marés, ecoaram os cânticos mágicos das sereias e as histórias partiram em mil barcas de encantar, para todos os cantos do mundo.


Nas cidades adormecidas e afastadas da lua e das suas fases e da magia e das palavras e da poesia e do amor, a noite parecia apenas mais uma entre tantas, onde a lua, vaidosa, se mostrava cheia.


As barcas encantadas chegaram à costa, como noivas de mil véus sonhados, por sobre a águas calmas, espelhos iluminados pelo luar. As palavras e os sonhos e o amor voaram embrulhados em contos suspirados a cada janela aberta, a cada porta encostada... Aos poucos, acompanhando o nascer do Sol, acordaram os desejos, as lembranças, as saudades e despertaram o amor. Em cada rua, em cada esquina, em cada jardim, um sorriso nascia, um toque floria, um beijo desabrochava.


Há noites assim, com o poder de reacender no Sol uma névoa de magia...


Liliana

quinta-feira, abril 14, 2011

Canção de embalar...

Acordo de um sonho pesado e olho em volta. Nada me sorri. A inquietação permanece. O tremor interno não desvanece. Os medos espreitam pelo caminho ainda aberto entre a realidade e o sonho.


Sento-me na cama e respiro fundo, procurando a calma da cidade adormecida. Estou sozinha. Ainda e sempre só.


Olho-te dormindo e oiço o respirar infantil do quarto ao lado. Todos tranquilamente envolvidos num manto de sonhos calmos e mornos.


Levanto-me e abro as portas da varanda para espreitar a Lua, minha confidente. Não a encontro, no meio dos prédios e das árvores, a única coisa que a noite me oferece é um pequeno quadrado de céu, vagamente estrelado... Estou sozinha. Ainda e sempre só.


Uma brisa mais fria percorre-me o corpo e volto para dentro com um tremor interno que me leva de volta à inquietação do sonho. Os medos aproximam-se, aproveitando as sombras, e eu caio num remoinho de lembranças que não sei se vivi e perco-me nas marés vivas dum pânico tão familiar como a noção de mim própria.


Estou sozinha, e não consigo pedir ajuda. Grito, mas as palavras ecoam no silêncio da casa. Ainda e sempre só.


Respiro fundo trazendo-me ao colo de volta à realidade. Procuro os miúdos como último refúgio duma paz que me parece tão longe. Aconchego-lhes os lençóis para me sentir segura. Beijo-lhes a cara quente para não me sentir só. Canto-lhes uma canção de embalar para não me perder de novo.

Liliana


"The heart asks pleasur first" - Michael Nyman

terça-feira, abril 12, 2011

A vida das histórias...

Sei a vida diferente das histórias. Sei os amigos vagamente parecidos com fadas madrinhas ou duendes mágicos. Sei do rio corre para as terras por trás do arco-íris.

Sei isso.

Sei que a vida diferente das histórias. Sei os inimigos parecidos com monstros ou fantasmas que nos parecem sempre mais fortes. Sei das dores que paralisam como um raio que nos acerta em cheio. Sei das feridas que não fecham, nem com pensos, nem com remédios. Sei da força mágica de um abraço. Sei da beleza dum dia de Primavera. Sei do poder duma mão que se entrelaça noutra.
Sei isso.

Sei as ilusões que se desmoronam como castelos de cartas. Sei as certezas que caem por terra com um simples sopro. Sei dos dias que planeamos perfeitos e correm "apenas" diferentes das histórias... e, no entanto, tão importantes na vida.

Liliana

segunda-feira, abril 11, 2011

Só posso dar o que é meu...

Eu tenho de ser EU...

Entender-me como personagem principal desta peça, quantas vezes desinteressante, que vivo todos os dias... e perceber-me, também eu co-responsável pelo guião. Pensar que se quero flores em vez de pedras, basta-me semear bolbos e regar os vazos.

Mas tenho medo... medo de ser EU. Medo de não saber o que é ser eu própria, escolher as sementes erradas, plantar fora da época e não recolher frutos.

Eu tenho de ser EU...

Seguir o meu caminho de acordo com as minhas escolhas livres, opções cautelosamente pesadas na balança do coração, que é onde se joga toda a tensão dramática do texto.

Por isso um dia decidi que regaria todos os vazos, os meus e os teus (que me lês), os de todos que se cruzam comigo e ainda alguns abandonados, vazos de ninguém.

Esta é a base, o palco, onde assento os pés e espalho palavras que, a todo o custo, revisto de sonhos e polvilho de esperança, enquanto sonho nas flores que nascerão por aí.

Mas às vezes é difícil... ser EU. E acreditar que o um mundo pode ser um pouco mais colorido, sabendo que eu sou a tal co-responsável pelo guião...

Liliana



"Fado da Tristeza"

de Manuela de Freitas e José Mário Branco

domingo, abril 10, 2011

Perdi-me na guerra Sérgio...

Perdi-me no meio da areia que cai de um lado para o outro da ampulheta que controla o meu tempo.
Perdi a noção da minha pela na beira-mar, dissolvo-me neste vai-vem de água salgada que chove dos meus olhos.
Perdi a minha voz de tanto procurar o meu canto por entre os ventos que correm os mares e as montanha geladas.
Perdi o choro à força de tanto gritar num silêncio que me afoga e me oprime.
Perdi-me no meio do espelho onde procurava a criança que fui, ou que nunca cheguei a ser realmente, mas que imagino podia ter sido...
Perdi-me entre as palavras que começam a repetir-se em pequenos círculos que se espalham em ondulações que ecoam a toda a volta.
Perdi-te por entre os meus medos e fantasmas e sonhos e humores e tempos e expectativas e estradas e sentidos e guerros e lençóis onde não me encontro.

Liliana



Fotos de Fogo


(de Sérgio Godinho)

quinta-feira, abril 07, 2011

Queres um rebuçado, Luís?

Guardo numa caixa antiga de rebuçados o tempo que nos sorri e nos estende a mão.

Guardo numa caixa antiga de rebuçados o tempo que nos faz dizer tantas coisas por entre os silêncios que deixamos, com tempo, correr.

Guardo numa caixa antiga de rebuçados o tempo em que nos damos e que, com tempo, nos entregamos.

Guardo numa caixa antiga de rebuçados o tempo que faz parar o tempo em que, de novo, nos encontramos e nos olhamos.

Guardo numa caixa antiga de rebuçados o tempo que não partilhamos mas em que, estando longe, nos tocamos.


Guardo...

Guardo o tempo, para que um dia tenhamos tempo para sermos, com a urgência de quem não tempo a perder e com a tranquilidade de quem tem todo o tempo que cabe numa caixa antiga rebuçados...


Liliana


"Do coco faço uma batida


Da areia faço a minha cama


Gosto de me dar à vida


Sempre que o sol me chama


(...)


Fica mais quente o verão


Quando te tenho ao meu lado


Dou-te um doce


Em troca de um beijo salgado"


Luís Pedro Fonseca


(cantado por Lena d’Água in Terra Prometida, 1986)

quarta-feira, abril 06, 2011

Sentes?!

Sentes que o meu centro se desequilibra à menor aragem?

Sentes que o meu olhar se alaga à mais ténue aproximação de frieza?

Sentes que me desmonto ao primeiro encosto?

Sentes que, quando me assusto, sou como um porco-espinho que se enrola sobre si mesmo para não o magoarem?

Sentes que, às vezes, há uma linha de silêncio que me distancia do mundo e me deixa a flutuar num limbo assombrado?

Sentes que nem sempre entendo o teu sentir e isso me deixa com a sensação de não ter chão onde me apoiar?


E sentes que, quando nos sintonizamos, tudo se torna fácil?

E sentes que, quando nos tocamos, num segundo desaparece a inquietação?

E sentes que, quando nos olhamos, o silêncio deixa de ser uma barreira para ser um mundo inteiro onde conseguimos comunicar, sonhar e amar...




Liliana

domingo, abril 03, 2011

Espera tempo, não corras....

Espera... disse-lhe ele enquanto ela o deixava de ver. Sentada, com os pés entrerrados na areia, ela esperou.

Esperou como esperara tantas outras vezes por tantos outros "espera", uns diferentes, outros parecidos, mas no final quase todos iguais, apenas uma eterna espera...

Enfiando os pés com força na areia ela levantou-se e foi buscá-lo. E ele veio, com calma, andando pela areia molhada como quem sempre estivera ali, pronto para avançar. Ao fim do dia, com o Sol a mergulhar no horizonte, ele fez-lhe uma festa e disse novamente: Espera...

Decidida a confiar que o Sol sempre se levanta depois da Lua se deitar, ela enroscou-se na toalha e esperou.

Fez castelos de areia, desenhou letras à beira-mar, mergulhou, e quando o céu se corou dum laranja rosado, aguentou o mais que pôde até que começou a ficar inquieta. Viria? Saberia o caminho de volta? Quereria voltar?

Um enorme remoinho de perguntas misturado com as lembranças de outros finais-de-tarde fizeram-na partir num sobressalto.

Mais uma vez não conseguira desligar-se do seu tempo interno que corria tão mais depressa que o dos outros.

Ele voltara, sempre, com a mesma tranquilidade com a mesma calma. Mas o tempo dela que corria, voava, palpitava dentro dela com tanta urgência...

Aos poucos ela foi esperando mais um pouco, mais um pouco e ainda um pouco mais... Mas sempre que o Sol, beijando o mar, corava o céu, apertava-se-lhe um nó no peito enquanto que o tempo, o seu, o interno, corria, voava, palpitava e ela esperava que ele não perdesse o caminho de volta...

Liliana

sexta-feira, abril 01, 2011

Tens saudades do teu avô, Zeca?

Hoje fui ter contigo ao jardim. Procurei-te em todas as moradas, mas as ruas pareciam-me todas iguais, árvores altas, placas com nomes e datas que não me diziam nada e ao fundo uma parede grande de gavetas onde não te encontrei.

Sentei-me num banco cansada com as simetrias e pensei que te perdera. Agora não sabia onde estavas, agora que já te foste embora nem a tua gaveta consigo encontrar, no meio da desorganização da minha vida.

Sentei-me triste e com saudades dum tempo ido em que nos vejo a sorrir com o Tejo ao fundo. Levantei os olhos e lá estava ele, espelhando um sol quase de verão num dia de primavera.

Levantei-me e desci a calçada até ao rio que sorriu ao ver-me chegar. Sempre tive uma ligação pessoal com o Tejo, afinal conheço-o desde bebé e ele viu-me crescer à janela, cantando todas as canções desde a Gabriela ao Festival da Canção...

Cumprimentei-o e sentei-me nas escadas, perto da água. Aquela brisa fresca na cara e os pedacinhos de ouro a brilhar por entre a ondulação e num instante... tu, na cozinha ao lanche a contar-me as aventuras da juventude... no campismo a tocar cavaquinho e a cantar o fado de Coimbra... na Parede a jantar no topo duma mesa enorme... na cozinha ao lanche a fazermos torradas no aquecedor...

Estive ali um bocado, com o Tejo e contigo e comigo e com as saudades que têm o condão de emoldurar o passado num quadro pintado a cores amenas e alegres. Olhei para trás enquanto me levantava, o jardim com as árvores altas e as gavetas e as placas acenaram-me lá do alto e num instante... tu deixaste de ali estar.

Despedi-me do Tejo com um até já e tive a certeza dos teus olhos por entre os pedacinhos de ouro na ondulação.

Liliana





"Nem sempre os dias são dias passados


A ver os restos dum porto de abrigo


Quando era pequenino era soldado


Os cartuchos punha-os dentro do umbigo



Às vezes faço de conta que acredito


Nas cantilenas que ouvi do meu avô


Andava Deus menino com um apito


Já o meu avô me aceitava como eu sou



A história não se sente ultrapassada


Por muito menos meu avô era ganhão


A história tem uma gémea malcriada


Só elas são as passageiras do vagão



Era portanto descabida tanta importância


Por muito menos meu avô fazia estrilho


Quando era pequenino era ordenança


Os cartuchos punha-os dentro do umbigo"


José Afonso "Nem sempre os dias são dias passados"