Liliana
"Dou-te um nome de água
para que cresças no silêncio.
Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.
Invento do meu nada
esta pergunta
(Nesta hora, aqui.)
Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.
Silêncio e sol - verdade,
respiração apenas.
Amor, sei que vives
num breve país.Estou vivo e escrevo sol"
"Teu corpo principia" de António Ramos Rosa
in "Matéria de Amor"
segunda-feira, fevereiro 28, 2011
Ajuda-me a abrir o armário, António...
sexta-feira, fevereiro 25, 2011
Sou feita de várias palavras, António...

quinta-feira, fevereiro 24, 2011
Estou perdida na areia, João...
Deito-me na areia molhada, húmida ainda, de um mar aparentemente tão afastado que chego a duvidar se algum dia aqui chegou. Deito-me na areia e fixo o sol, também ele deitado no mar, deixando-se embalar. Deito-me para não me perder, para não avançar por onde me posso magoar. E deito-me na areia para descansar dum voo que acabou de começar.
Fecho os olhos para ouvir melhor o mar, que se afasta, que me foge por entre as lembranças que vejo marcadas na areia. Fecho os olhos, perdida, cheia de medo de me afogar numa onda que eu própria(?) criei e que não vejo à praia chegar.
Deixo-me levar pelo vento, pelo mar, pela areia e voo, num voar interno. Já não me perco. Já não tenho medo. Já não vejo a maré alta. Voo dentro mim e vou para onde quiser. Voo sem me levantar, voo de olhos fechados, voo a sonhar, perdida na areia...
Liliana

"Anoiteceu
no meu olhar de feiticeira,
de estrela do mar, de céu, de lua cheia,
de garça perdida na areia.
Anoiteceu no meu olhar,
perdi as penas, não posso voar,
deixei filhos e ninhos,
cuidados, carinhos, no mar...
Só sei voar dentro de mim
neste sonho de abraçar
o céu sem fim, o mar, a terra inteira!
E trago o mar dentro de mim,
com o céu vivo a sonhar e vou sonhar até ao fim,
até não mais acordar...
E então, voltarei a cruzar este céu e este mar,
voarei, voarei sem parar á volta da terra inteira!
Ninhos faria de lua cheia e depois,
dormiria na areia..."
"Graça Perdida" de João Mendonça
Interpretado por Dulce Pontes
quarta-feira, fevereiro 23, 2011
Sabes o que me espera, Zeca?
De não saber qual a linha certa do horizonte para que me hei-de dirigir, enfolo as velas e sopro um vento sem norte, à deriva no meu mar.
De não saber de que cor se tinge o sol nos dias de guerra, que nascem já mortos pela madrugada, procurei sem parar as imagens floridas duma primavera por chegar.
De não saber fugir às sombras que me perseguem, pedi ao relógio que as horas corressem, mas vi-me, sem a sua ajuda, sózinha à espera da calma na maresia.
De não saber o que me espera, decidi largar o balão e voar bem alto, planar pelas nuvens, espreitar as cidades e, lá bem de cima descobri que não há uma só meta e, para qualquer uma delas, não há apenas uma estrada certa...

"De não saber o que me espera
Tirei à sorte a minha guerra
Recolhi sombras onde vira
Luzes de orvalho ao meio-dia
Vítima de só haver vaga
Entre uma mó e uma espada
Mas que maneira bicuda
De ir à guerra sem ajuda
Viemos pelo sol nascente
Vingámos a madrugada
Mas não encontramos nada
Sol e água sol e água
De linhas tortas havia
Um pouco de maresia
Mas quem vencer esta meta
Que diga se a linha é recta"
in "Fura Fura", 1978
segunda-feira, fevereiro 21, 2011
De quem é este coração, Fernando?!

"Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
Minha alma não tem alma.
Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
Não tenho ser nem lei.
Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
Coração de ninguém."
"Sonho. Não sei quem sou" de Fernando Pessoa
in "Cancioneiro"
domingo, fevereiro 20, 2011
Leva-me ao teatro, Harold...

"Mas a verdade verdadeira é que, na arte do teatro, não há nunca uma verdade única que possamos encontrar. Há muitas. Estas verdades desafiam-se mutuamente, fogem, reflectem-se, ignoram-se, espicaçam-se, são insensíveis umas às outras. Às vezes pensamos que temos a verdade de um momento na mão, e depois ela escapa-se-nos por entre os dedos e desaparece."
Harold Pinter
"Discurso de Aceitação do Prémio Nobel"
sábado, fevereiro 19, 2011
Como chegar ao longe, Robert?

sexta-feira, fevereiro 18, 2011
Não chores Cecília...
Não te envolvas.
Não fales.
Não te mostres.
Não olhes.
Não penses.
Não perguntes.
Não magoes.
Não desejes.

"Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos.
Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caido."
Cecília Meireles (Elegia 1933-1937, 1)
in Antologia Poética
quinta-feira, fevereiro 17, 2011
Arrisco Pablo?!
Acedo? ----- Decido...
Aceito?! --- Arrisco!
Permito? -- Avanço...
Autorizo? -- Ouso!
Talvêz só ouse aceitar. Quem sabe, às vezes, decido aceder... Normalmente avanço, permitindo. E, quando arrisco, quase sempre autorizo...
Liliana

segunda-feira, fevereiro 14, 2011
O que há no fundo do poço, Etty?
Há dias em que tapo, cuidadosamente, a entrada escura com um manto de flores que apanho nos campos confiantes e férteis.
Dias há em que o vento se rebela e num sopro forte, ondula os campos e espalha as flores desordenadas pelo chão frio de uma casa desarrumada.
Nesses dias, em que não encontro o arco com que me pinto e salpico a vida, sinto uma força imensa que me chama para esse buraco escuro onde me sinto cair, Alice num mundo desencantado.
Sei da luz com que, por vezes, ilumino as noites e até da serenidade com que, de tempos a tempos, consigo viver, mas oiço apenas o vento a soprar...
Sei dos cânticos e das danças e das palavras que em mim moram, mas vejo apenas o vazio, o silêncio e a solidão...
Quem dera... Quem dera saltar por cima dos medos e no fundo do poço encontrar, apenas o meu reflexo num espelho de distorcer, como os das Feiras, dar a volta e perceber o truque, entender as razões e rir comigo própria... Quem dera... Quem dera descer e encontrar o fio-condutor que me faz falta para equilibrar a bússola e descobrir o caminho de volta... a mim.
Há em mim um poço tão fundo, tão escuro, que não me atrevo a desenterrar o que lá está com medo da dor que me pode secar.
Seria esse o segredo para todas as perguntas?...
Liliana
"Dentro de mim há um poço muito fundo. E lá dentro está Deus. Às vezes consigo lá chegar. Mas acontece mais frequentemente haver pedras e cascalho no poço, e aí Deus está soterrado. Então é preciso desenterrá-lo."
(Etty Hillesum in Diário - 26/8/1941).
domingo, fevereiro 13, 2011
Viste hoje o mar a transbordar, Fausto?!
"Meu amor adeus
Tem cuidado
Se a dor é um espinho
Que espeta sozinho
Do outro lado
Meu bem desvairado
Tão aflito
Se a dor é um dó
Que desfaz o nó
E desata um grito
Um mau olhado
Um mal pecado
E a saudade é uma espera
É uma aflição
Se é Primavera
É um fim de Outono
Um tempo morno
É quase Verão
Em pleno Inverno
É um abandono
Porque não me vês
Maresia
Se a dor é um ciúme
Que espalha um perfume
Que me agonia
Vem me ver amor
De mansinho
Se a dor é um mar
Louco a transbordar
Noutro caminho
Quase a espraiar
Quase a afundar
E a saudade é uma espera
É uma aflição
Se é Primavera
É um fim de Outono
Um tempo morno
É quase Verão
Em pleno Inverno
É um abandono"
"Porque não me vês" de Fausto
in Por este rio acima
sábado, fevereiro 12, 2011
Não sei se devia...
Não sei se devia olhar para o espelho emoldurado a azul escuro, na parede do fundo em cima do móvel.
Não sei se devia... Não sei se devia provar o bolo, lamber o dedo com a cobertura de chocolate e as pepitas coloridas.
Não se devia espreitar pela fechadura da porta mais pequena que dá para o jardim, onde o as horas fogem do coelho.
Não sei se devia...

quinta-feira, fevereiro 10, 2011
Imagina Tom...
Sim tu.
Imagina comigo que a cidade não nos volta as costas nas noites de lua nova.
Imagina... faz este exercício comigo e tenta visualizar as mãos que se dão, corpo e alma num abraço que se partilha.
Vamos, imagina.
Imagina que é possível.
Imagina que o amor pode, de facto, voar como balões coloridos enchendo o céu num jardim primaveril.
Imagina, que tu, que eu, nos podemos dar, sem medos nem assombros nem pudores do outro que passa ao nosso lado, porque o outro - eu, tu - também se dá, em verdade.
Agora imagina, que à nossa volta outros que também sabem imaginar.
E então imagina...
Sim, tu.
Imagina a força que teremos ao permitirmo-nos sonhar...
"Imagina
Imagina
Hoje à noite
A gente se peder
Imagina
Imagina
Hoje à noite
A lua se apagar
Quem já viu a lua cris
Quando a lua começa a murchar
Lua cris
É preciso gritar e correr, socorrer o luar
Meu amor
Abre a porta pra noite passar
E olha o sol
Da manhã
Olha a chuva
Olha a chuva, olha o sol, olha o dia a lançar
Serpentinas
Serpentinas pelo céu
Sete fitas
Coloridas
Sete vias
Sete vidas
Avenidas
Pra qualquer lugar
Imagina
Imagina
Sabe que o menino que passar debaixo do arco-íris vira moça, vira
A menina que cruzar de volta o arco-íris rapidinho vira volta a ser rapaz
A menina que passou no arco era o
Menino que passou no arco
E vai virar menina
Imagina
Imagina
Imagina
Imagina
Imagina
Hoje à noite
A gente se perder
Imagina
Imagina
Hoje à noite
A lua se apagar"
domingo, fevereiro 06, 2011
Agarra o arco-íris comigo, David...

"In this little town
cars they don't slow down
The lonely people here
They throw lonely stares
Into their lonely hearts
I watch the traffic lights
I drift on Christmas nights
I wanna set it straight
I wanna make it right
But girl you're so far away
Oh, hold still for a moment and I'll find you
I'm so close, I'm just a small step behind you girl
And I could hold you if you just stood still
I jaywalk through this town
I drop leaves on the ground
But lonely people here
Just gaze their eyes on air
And miss the autumn roar
I roam through traffic lights
I fade through Christmas nights
I wanna set it straight
I wanna make it right
But man you're so far away
Oh, I'll hold still for a moment so you'll find me
You're so close, I can feel you all around me boy
I know you're somewhere out there
Oh, hold still for a moment and I'll find you
You're so close, I can feel you all around me
And I could hold you if you just stood still
Oh, I'll hold still for a moment so you'll find me
I'm so close, I'm just a small step behind you
I know you're somewhere out there"
quinta-feira, fevereiro 03, 2011
Vem navegar no silêncio do meu rio, Alberto...
Com "O Tejo é o mais belo rio" de Alberto Caeiro como pano de fundo.
terça-feira, fevereiro 01, 2011
Onde, José?
Com "Eu vim de longe" de José Mário Branco
como pano de fundo
