terça-feira, dezembro 22, 2009

Acreditas no Pai Natal, António?

Pego no pinheiro enrolado numa espécie de meia de rede, daquelas que antigamente as senhoras ousavam usar para provocar os cavalheiros, e tento a custo equilibrar-lhe o tronco entre duas pedras grandes que de ano para ano servem de apoio à tão esperada árvore de natal. Entre desequilíbrios e quedas dou um salto na memória e vejo os pinheiros da minha infância que, sem esforço aparente, apareciam prontos a decorar na sala de jantar, onde eu e a minha prima mergulhávamos nas caixas de enfeites e descobríamos as bolas decoradas, e ainda de vidro, que diminuíam de número à força das nossas tão delicadas mãos, as luzes em feitio de vela que se apagavam se alguma lâmpada se fundisse e até as faixas farfalhudas douradas e prateadas com que, literalmente, vestíamos o coitado do pinheiro...

De repente o meu pinheiro, este verdadeiro, com resina e folhas que se espalham e tudo o que a natureza nos dá, parece-me tão pequeno. Os enfeites e bolas, estas de plástico para sobreviverem aos assaltos anuais dos miúdos, olham-me tristes e desengraçados. Até as luzes, que piscam e mudam de cor, me parecem demasiadamente impessoais.

Quando eu tinha o tamanho dos meus filhos mais velhos, o Natal estava coberto de um manto mágico que nem a mais dura realidade conseguia romper ou corromper. Via a azáfama e correria na cozinha com os olhos de quem quer acreditar no Pai Natal mesmo quando me diziam que ele não existia, e tudo me parecia um bailado de movimentos alegres e criadores, de onde nasciam filhoses e leite-creme e embrulhos e aletria e bacalhau e embrulhos e mesas arranjadas com copos de pé e embrulhos...

Enrolo o alguidar com a massa das filhoses e deixo-a fintar ao lado do aquecedor. Com as mãos cheias de farinha vejo-me do lado de dentro do teatro, onde as luzes estão penduradas por cabos pretos e o cenário colorido está debotado e remendado. A minha avó à porta da cozinha, também com as mãos enfarinhadas, suspira cansada. A minha mãe na sala, arruma as lágrimas ao lado dos copos de pé enquanto arranja os presentes em volta da árvore. Os meus tios, atrasados para o jantar, batem à porta com olhos cansados da correria e do trânsito.

Ao fundo do palco, o meu avô sorri. Olha-me através dos tempos e das luzes e das árvores de muitos natais. Ao fundo do corredor grande e comprido da cozinha ao escritório, chama-me ao seu lado. Sou do tamanho dos meus filhos mais velhos e está na hora de lhe dar a prenda que a minha mãe comprou. Ele dá-me a mão e abre o embrulho de mais um lenço com um "F" bordado. Está tudo tão perfeito que nem as lágrimas, nem os suspiros, nem os cansaços se atrevem a interromper, apenas a mesas com os copos de pé e o leite-creme e os embrulhos ainda à volta da árvore.

Ao fundo do palco, o meu avô sorri e os seus olhos azuis iluminam o palco, dão cor ao cenário e alegram os focos.

Os meus filhos correm e brincam em volta do pinheiro que, aos poucos, se veste de festa. As filhoses estão prontas e luzidias no centro da mesa vestida, também, de Natal. Os embrulhos vão-se juntando longe da vista das crianças e na manhã de Natal aparecem, como que por magia, em volta da lareira. Afinal sempre me disseram que o Pai Natal não existe, apesar de o ter visto passar em frente da lua todas as vésperas de Natal!

Liliana





"Venho, torna-me velho esta lembrança!
D'um enterro d'anjinho, nobre e puro:
Infancia, era este o nome da criança
Que, hoje, dorme entre os bichos, lá no escuro...

Trez anjos, a Chymera, o Amor, a Esperança
Acompanharam-n'o ao jazigo obscuro,
E recebeu, segundo a velha usança,
A chave do caixão o meu Futuro.

Hoje, ambulante e abandonada Ermida,
Leva-me o fado, á bruta, aos empurrões,
Vá para a frente! Marcha! Á Vida! Á Vida!

Que hei-de fazer, Senhor! o qu'é que espera
Um bacharel formado em illuzões
Pela Universidade da Chymera?

"Ai de Mim! " de António Nobre, in 'Só'

domingo, dezembro 13, 2009

Perdoa-me Chico...

Perdoa-me, mas não quero ser igual a ti.

Não tenho nada contra ti, nem contra o teu aspecto, nem contra as tuas ideias, nem contra a tua atitude, nem mesmo contra a tua vontade que eu seja... igual a ti. Não tenho nada contra nada de ti.

Peço, simplesmente o direito a não te ser igual.

Sei que te parece impossível este caminho que trilho todos os dias debaixo do sol que, teimosamente se ergue dia após dia após dia. Sim, eu sei que te é duro ver-me correr deste lado da lua. Eu sei, e por isso te peço que não tentes compreender, não queiras explicar, não te preocupes em entender.

Acolhe-me simplesmente, nesta possibilidade de ser não igual a ti.

Dá-me a mão e senta-te comigo sem que a minha diferença te magoe. Chega-te a mim e deixa-me encostar a ti, aqui neste bocadinho de mundo onde tudo é vago e pouco concreto, aqui onde a luz não deixa ver as cores, nem as formas, nem os gostos, aqui onde todos podemos ser diferentes.

Acolhe simplesmente, esta possibilidade de ser não igual.

É aqui que te quero encontrar, neste lugar que procuro há mil anos sem nunca chegar a encontrar. Neste lugar onde eu continuo a acreditar que todos nos podemos cruzar, sem atropelos, nem pressões, nem feridas, nem mágoas. Neste lugar onde me sento descalça e te peço perdão ao mesmo tempo que te estendo a mão e te perdoo, por não seres igual a mim.

Liliana


"Te perdôo
Por fazeres mil perguntas
Que em vidas que andam juntas
Ninguém faz
Te perdôo
Por pedires perdão
Por me amares demais

Te perdôo
Te perdôo por ligares
Pra todos os lugares
De onde eu vim
Te perdôo
Por ergueres a mão
Por bateres em mim

Te perdôo
Quando anseio pelo instante de sair
E rodar exuberante
E me perder de ti
Te perdôo
Por quereres me ver
Aprendendo a mentir (te mentir, te mentir)

Te perdôo
Por contares minhas horas
Nas minhas demoras por aí
Te perdôo
Te perdôo porque choras
Quando eu choro de rir
Te perdôo
Por te trair"
"Mil perdões" de Chico Buarque

sexta-feira, dezembro 11, 2009

Vem ver a neve no meu jardim, Al Berto...

Ontem nevou no meu jardim.
Nevou uma neve feita de folhas secas que cobriram o chão e os carros e os escorregas e os jardins, sem deixar nada do lado de fora do manto amarelo escuro.

Ontem nevou no meu jardim.
Até o coreto se vestiu de folhas para dançar ao ritmo do vento que abanou os ramos que soltaram as folhas que voaram até ao lago que enfeitou os peixes.

Ontem nevou no meu jardim.
E as crianças divertiram-se saltitando entre os montes amarelos que um pouco por todo o lado se construíram e desmoronarem num frenesim de risos e saltos.

Ontem nevou no meu jardim.
Das janelas vi chegar a noite que acalmou o vento e deixou assentar as folhas-flocos de neve bordando um tapete amarelo sob a paz das janelas apagadas.

Ontem nevou no meu jardim.
Uma neve que não faz bonecos mas que alegrou a criançada e acordou uma memória nostálgica, e talvez apenas sonhada, de outros invernos com paisagens diferentes e natais enfeitados de um branco que, na verdade, nunca nevou nos meus muitos jardins.

Ontem nevou no meu jardim e a neve amarela pernoitou comigo num sonho de inverno, guardado pelos olhos meigos da lua.

Liliana



"pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes"

"Pernoitas em Mim " de Al Berto,
in 'Rumor dos Fogos'

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Vamos falar de amor, Pedro?!

- Estraguei tudo! Perdi a oportunidade... Pronto, acabou-se! Sou tão ridícula...

Disse-me ela desolada enquanto se derramava no sofá como uma manta estendida ao sol sobre o chão de relva ondulado. Tentei argumentar, "ridículos somos todos, lembras-te do Fernando Pessoa?!", "não há oportunidades perdidas", "vê as coisas como caminhos onde só vamos aprendendo onde pôr os pés conforme avançamos"... Tentei argumentar mas ela nadava em círculos dentro de si, fazendo pouco caso das interferências externas ao seu pensamento.

- Não, estraguei tudo! Essa é que essa. Oportunidades como esta são mínimas e eu faço sempre figuras tristes... Parece que me fecho numa caixa e só deixo de fora um outro personagem que não sou eu... Engasgo-me, digo disparates e sou tudo menos eu própria...

Derramada sobre o sofá remoía as cenas, recuando a película da memória vezes sem conta, arrependendo-se de cada palavra dita e de cada sorriso não dado. Era claro para ela que não havia nada a fazer, o comboio partira e a oportunidade tinha sido desperdiçada pela sua incapacidade de reagir de forma não ridícula... Nadava em círculos nas águas viciadas do rio das suas expectativas.

Como o sol que acorda manhã após manhã convidando a lua a mudar de quarto, assim as oportunidades se seguem, mais ou menos ritmadas, mais ou menos de acordo com os nossos desejos e, de forma mais ou menos inesperada, surpreendem-nos ao virar a esquina de uma qualquer hesitação.

Numa monótona tarde de chuva, entrou num repente pela sala, atirou-se para o sofá como manta estendida ao sol e descreveu-me as suas desventuras... a forma desastrada como o seu corpo se comportara, a quantidade de vezes em que gaguejara no meio duma frase banal, a cor exagerada com que as suas bochechas respondiam aos olhos que com os dela pareciam conversar, a consciência da sua figura ridícula que a invadira desde o primeiro minuto...

- Estraguei tudo! Desta é que foi!

Não tentei argumentar... Antes ouvi-a atenta e dei-lhe o colo que me pedia. Derramada sobre o sofá, nadava em círculos dentro de si, enquanto eu, sentada na margem das águas, sorria para dentro na certeza de que o sol, amanhã, se tornará a levantar convidando a lua a mudar de quarto...

Liliana Lima




"Ó vizinho, ora bom dia
como vai a saudinha?
eu não sei falar de amor...

Ó vizinho e este tempo?
a chuva dá pouco alento...
e eu não sei falar de amor...

Ó vizinho e o carteiro?
que se engana no correio...
e eu não sei falar de amor...

E soubesse eu artifícios
de falar sem o dizer
não ia ser tão difícil
revelar-te o meu querer...

A timidez ata-me a pedras
e afunda-me no rio
quanto mais o amor medra
mais se afoga o desvario...

E retrai-se o atrevimento
a pequenas bolhas de ar
e o querer deste meu corpo
vai sempre parar ao mar

Ó vizinho e a novela?
será que ele ficou com ela?
e eu não sei falar de amor...

Ó vizinho e o respeito?
não se leva nada a peito...
e eu não sei falar de amor...

Ó vizinho então Adeus
vou cuidar de sonhos meus
que eu não sei falar de amor..."

"Não sei falar de amor" de Pedro da Silva Martins
(dos Deolinda)