quinta-feira, maio 28, 2009

Vem ver a minha ilha, Luís...

A ilha que daqui avisto não se limita às margens que a delimitam. A ilha que daqui avisto não se coíbe em saltar as fronteiras da imaginação. A ilha que daqui avisto é autónoma do pensamento racional.

A ilha que daqui avisto não cabe nos adjectivos que possuo, não a consigo descrever com as palavras que apanho à beira mar enroladas nas conchas que, depois da tempestade, dão à costa em remoinhos de areia.

A ilha que daqui avisto não é sempre nítida, aproxima-se e desfoca-se conforme a lua, que gira no céu e ilumina a noite apesar de todas as nuvens, está mais, ou menos, tranquila.

Há dias em que a ilha que avisto me parece tão longe que a confundo com a de qualquer outro alguém que ao meu lado, por exemplo, brinca com as borboletas que voam sobre a estrada de tijolos amarelos.

Noites há, em que a ilha que avisto daqui, desta janela aberta sobre o mundo das metáforas em forma de arco-íris, apresenta-se-me inteira, iluminada por um foco estrelar que segue o caminho dos sonhos.

Nas manhãs seguintes a essas noites, que timidamente se levantam e ocultam as mágoas que a lua a seu costume aviva, chego à varanda e, por um segundo, podia jurar que estou verdadeiramente na minha ilha até que o olhar esvoaça sobre as águas em busca do voo de uma gaivota e se desengana e me mostra a ilha, que daqui avisto.

É nessa fracção de segundo que inspiro a maresia e sinto o vento fresco que entra pela porta e invade o quarto sem pedir licença. É nessa fracção de segundo, quando as ondas batem nas rochas e se desfazem em espuma branca e novamente em ondas que batem nas rochas... que me sinto inteira, e por momentos deixo de ter medo.

Mas há sempre o olhar que esvoaça em busca de uma gaivota percorrendo o horizonte e me devolve a ilha que daqui avisto...

Liliana Lima




"(...)

51 - Avistam os portugueses a Ilha dos Amores


Cortando vão as naus a larga via

Do mar ingente para a pátria amada,

Desejando prover-se de água fria,

Para a grande viagem prolongada,

Quando juntas, com súbita alegria,

Houveram vista da ilha namorada,

Rompendo pelo céu a mãe formosa

De Menónio, suave e deleitosa.



52 - Conduz Vênus a Ilha ao encontro dos navegantes


De longe a Ilha viram fresca e bela,

Que Vênus pelas ondas lha levava

(Bem como o vento leva branca vela)

Para onde a forte armada se enxergava;

Que, por que não passassem, sem que nela

Tomassem porto, como desejava,

Para onde as naus navegam a movia

A Acidália, que tudo enfim podia.

(...)"

in "Os Lusíadas" - Canto IX

de Luís Vaz de Camões

segunda-feira, maio 25, 2009

Como é o brilho dos teus olhos, Sérgio?


Todos os olhos têm um brilho único. Há brilhos que nos acendem uma luz e nos aquecem por dentro ao primeiro olhar. Brilhos há que se acendem apenas depois de vários olhares. A verdade é que sempre que uns olhos acendem o seu brilho para nós, os nossos sentem-se em casa e, sorrindo, emitem de volta um brilho que, em conjunto, ilumina os corações de quem nos olha.

Todos os olhos têm um brilho único. Desde o primeiro olhar que trocámos, senti que o teu brilho falava de paz, de tranquilidade, de aceitação. Os teus olhos sorriem contigo e brilham uma luz que me aconchega no colo enquanto me permite brilhar também. O brilho dos teus olhos está sempre comigo, acompanha-me e dá-me confiança, sorri-me e ensina-me a brilhar mais forte. É no brilho dos teus olhos que os meus se despem e, em paz, se entregam e se permitem ser inteiros no brilho que emitem.

Todos os olhos têm um brilho único. Lembro-me que na primeira vez que vi os teus, foste tu que referiste o brilho dos meus. Quando, numa esplanada com cheiro a Tejo, em vez de cumprir as tarefas da agenda nos perdemos entre partilhas, sorrisos e algumas mágoas, reconheci nos teus olhos aquele brilho que nos aconchega e aquece nas noites frias de inverno. Desde aí, por muitos desencontros que se atravessem no nosso caminho, os nossos olhos sabem que estão sempre abertos para, mutuamente, se acolher.
Todos os olhos têm um brilho único. Os teus, naquela tarde ensolarada em que nos sentámos à mesa, falaram-me de aconchego, de tranquilidade, de ternura, de algo quente e familiar. No meio de um almoço que pedia uma conversa organizada e um pensamento estruturado, ouvia-os em amena cavaqueira com os meus. Despedi-me com um "até logo" de quem tem a certeza que se vai voltar a encontrar numa qualquer curva do caminho. Mais tarde, quando nos reencontrámos, reconheci de imediato o brilho que emites e soube que estava em casa.

Todos os olhos têm um brilho único. Não descobri o brilho dos teus nas primeiras vezes em que te vi, embora houvesse alguma coisa, um certo aroma, que me fazia intuir que os teus olhos ainda não se tinham aberto mas que, a seu tempo, o fariam. Quando nos reencontrámos nem foi preciso olhar para eles, o brilho que trazias foi suficiente para sentir que já nos tínhamos entendido. Acabou por ser em pleno lusco-fusco que os vi, por fim brilhar sem medos nem hesitações, entre risos e descobertas. Pode ser que me engane, mas além dos meus, os outros olhos que por lá brilhavam comigo e que também se juntaram à festa, retribuíram o teu brilho de forma tão clara, que também os teus se sentiram em casa.
Todos os olhos têm um brilho único. Alguns, por razões diversas, vêm-se obrigados a apagar o seu brilho e afastar o olhar. É na cumplicidade dos brilhos que nos permitimos partilhar e emitir que percebemos exactamente onde podemos brilhar em segurança.
Liliana Lima




"Com um brilhozinho nos olhos
e a saia rodada
escancaraste a porta do bar
trazias o cabelo aos ombros
passeando de cá para lá
como as ondas do mar.
Conheço tão bem esses olhos
e nunca me enganam,
o que é que aconteceu, diz lá
é que hoje fiz um amigo
e coisa mais preciosa
no mundo não há.


Com um brilhozinho nos olhos
metemos o carro
muito à frente, muito à frente dos bois
ou seja, fizemos promessas
trocamos retratos
trocamos projectos os dois
trocamos de roupa, trocamos de corpo,
trocamos de beijos, tão bom, é tão bom
e com um brilhozinho nos olhos
tocamos guitarra
p'lo menos a julgar pelo som


E que é que foi que ele disse?
Hoje soube-me a pouco.
passa aí mais um bocadinho
que estou quase a ficar louco
Hoje soube-me a tanto
portanto,
Hoje soube-me a pouco


Com um brilhozinho nos olhos
corremos os estores
pusemos a rádio no "on"
acendemos a já costumeira
velinha de igreja
pusemos no "off" o telefone
e olha, não dá p'ra contar
mas sei que tu sabes
daquilo que sabes que eu sei
e com um brilhozinho nos olhos
ficamos parados
depois do que não te contei


Com um brilhozinho nos olhos
dissemos, sei lá
o que nos passou pela tola
do estilo és o "number one"
dou-te vinte valores
és um treze no totobola
e às duas por três
bebemos um copo
fizemos o quatro e pintámos o sete
e com um brilhozinho nos olhos
ficamos imóveis
a dar uma de "tête a tête"


E que é que foi que ele disse?...


E com um brilhozinho nos olhos
tentamos saber
para lá do que muito se amou
quem éramos nós
quem queríamos ser
e quais as esperanças
que a vida roubou
e olhei-o de longe
e mirei-o de perto
que quem não vê caras
não vê corações
com um brilhozinho nos olhos
guardei um amigo
que é coisa que vale milhões.


E que é que foi que ele disse?..."


"Com um brilhosinho nos olhos"
letra e música de Sérgio Godinho (1981)

quarta-feira, maio 20, 2009

É neste caminho que vamos continuar, Jorge!

Estendo-te a mão. Convido-te a vires comigo, a acompanhares-me neste caminho onde sei que quero continuar. Dizem os outros que doem mais os embates nesta estrada. Deixo-os falar. Enquanto for possível acreditar, é neste caminho que vou continuar.

Estendo-te a mão. Para que me deixes entrar e te possa mostrar como é bonita a vida vista daqui. Será real? Perguntas sorrindo. Vivamos felizes com a certeza que tudo não passa de uma utopia. Desde que eu consiga acreditar, é este o caminho por onde vou continuar.

Estendo-te a mão. Conto-te com quantas cores se veste o arco-íris e como cantam no céu as estrelas em noites de lua cheia. Abro a janela e deixo-te espreitar o mundo visto do alto do meu castelo de areia. É por aqui, é sempre por aqui que eu vou continuar.

Estendo-te a mão. Puxo com força a escada para chegar a ti. Tens de a saber sonhar para poderes experimentar. Apanho uma borboleta que voa alegre e entrego-ta como prova da minha certeza. Olhas para mim, sorris, e deixas-me seguir nesta estrada onde, acredito, que vou continuar.

Estendes-me a mão e levas-me a passear. Navegamos no azul do rio e sorrimos às gaivotas que nos dizem adeus brincando com as nuvens. Acompanho-te, sorrindo, percorrendo o caminho por onde me queres levar. Mas à noite, volto sempre à minha estrada. À estrada por onde, sabemos, que irei continuar.

Liliana Lima


"Tira a mão do queixo, não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou, ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega aonde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém, não
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
E a liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar"

"A gente vai continuar" de Jorge Palma

sexta-feira, maio 15, 2009

Ouves o meu silêncio, José?

Aprendo o silêncio, aos poucos...
E a o s p o u c o s encontro-me tranquila
ouvindo a palavra que, somente em mim, ecoa.
Avanço. Tropeço numa paz reguila
que teima em me seduzir,
e muito d e v a g a r, aconchego-me nela,
embalada na música que, dentro de mim, voa.

Aprendo-me no silêncio. Nesta conversa pacata
de quem tem em si o mundo. E, descobrindo-o,
percebo-me, e m f i m, completa.
Liliana Lima




"Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?"

"No silêncio dos olhos" de José Saramago
in Os Poemas Possíveis

domingo, maio 10, 2009

O que te diz a intuição, Pepetela?



O telefone tremeu, em cima da mesa pequena da sala, acordando-me de um sono tão leve que nem me sabia encontrar no súbito gemido que avisava a chegada de uma mensagem. No escuro da sala brilhava ainda o pequeno écran, como uma estrela iluminando toda a mesa desarrumada entre garrafas e copos meio-cheios e meio-vazios. Um arrepio varreu-me o espírito, só podia ser ela... Um enjoo, uma pontada no estômago fez-me recuar antes de pegar no telefone. Só podia ser ela sim, mas que teria para me dizer a estas horas? Uma certeza imensa que, finalmente, estávamos em sintonia que, em fim, a ouviria dizer o que tanto esperara para lhe confessar, invadiu-me arrastando a má disposição. Peguei no telefone num gesto brusco e desbloqueei o teclado para, enfim, ler a mensagem que chegara.

Era dela, obviamente. Era ela que estaria ali, na minha frente, em palavras que ela própria escrevera, depois de eu ter ganho coragem, com a ajuda de uma boa garrafa de vinho, mas a verdade é que tinha ganho coragem para lhe dizer o que há tanto tempo ensaiava em frente ao espelho de manhã, no elevador quando saía de casa, dentro do carro a caminho do escritório, à frente do écran do computador enquanto fazia contas, ordenava pagamentos e programava aplicações, à mesa do almoço no meio das conversas dos colegas que não ouvia nem prestava atenção, de novo no carro de volta a casa e enfim no sofá da sala onde acabava sempre por adormecer ao som de um qualquer reality-show. A verdade é que não fosse a garrafa me ter oferecido a coragem para lhe dizer que a cada dia o meu pensamento é cada vez menos meu... que me foge e voa por tudo e por nada e me troca pelos seus olhos, pelo seu rosto redondo, pelo seu corpo... e que nada consigo fazer para o repreender e agarrar a mim... não fosse a garrafa, ou o vinho, ou a noite de lua brilhante e temperatura amena, e eu passaria mais um século abafado nesta incerteza.

Voltei a pousar o telefone. Já não estava certo de nada, passei tempo demais atrás desta cortina, a sofrer sozinho com as garrafas como companheiras para acreditar, assim de repente num milagre... O que seria de mim sem a incerteza de me saber perto do seu coração? Quem seria eu sem a indecisão de entender o que me parecia que os seus olhos diziam? Onde ficaria eu sem o que eu achava que o seu corpo insinuava? E se ela dissesse apenas que era tudo imaginação? Que eu tinha entendido mal os sinais... que me enganara na interpretação dos gestos... Como entender, afinal as mulheres? Será que elas próprias sabem o que querem? Ou viverão num eterno limbo entre o que nós homens entendemos e o que elas querem dizer? Será que eu queria, de facto, entender o que ela queria? Teria capacidade para engolir e manter-me de pé, se acaso estivesse enganado?

Na verdade a dúvida doí quase tanto como a rejeição... ou seria o medo que me roía dentro do peito e fazia voltar o enjoo ao estômago? Era isso, o medo... era o medo que me bloqueava os gestos e me prendia a vontade de tirar o véu e por fim ver a realidade límpida, sem enganos, sem dúvidas... Fechei os olhos e respirei fundo, procurei a certeza do seu sorriso na despedida, da sua mão demorada na minha quando fugi para a segurança de nova garrafa. Fechei os olhos e revi os seus cabelos à luz parda da lua, e a tranquilidade dos seus olhos enquanto lhe dizia das dores do meu coração. Podia jurar que ela corada não de surpresa mas de cumplicidade. Podia jurar que os seus olhos nos meus validando os sentimentos que lhe contava. Podia jurar... E agora era tão fácil confirmar, bastava pegar no telefone e lê-la nas palavras que escrevera depois de eu ter fugido para a segurança de mais uma garrafa... Podia enfim saber a verdade da minha intuição, ou não... E o medo que aumentava, e entrava pela janela sem pedir licença enquanto invadia todo o espaço.

Lancei a mão à mesa pequena da sala desarrumada entre garrafas e copos, e agarrei um como bóia salva-vidas. Bebi, procurando a certeza anterior mas o copo, meio-vazio, não foi suficiente e não encontrei outro meio-cheio que me preenchesse. Levantei-me e, seguido pelo medo, abri nova garrafa que me prometia confiança, tranquilidade e força suficiente para ler a mensagem.

Algumas horas depois e mais uns tantos copos, acordei, agora com a luz do sol que dançava no céu do meio-dia. Procurei o telefone ainda com a memória dos medos e das incertezas que me assombraram a noite. Na caixa de mensagens recebidas lá estava uma não lida. Era dela. Suspirei e, com o medo a espreitar na janela da sala, decidi apagar sem ler. Preferi a ilusão do que poderia ter sido se... do que arriscar viver as consequências do que podia ter acontecido.

Liliana Lima









"(...) Agora a intuição, negada com ferros por medo da desilusão seguinte, se transformou em certeza. Suspeitara de alguma revelação inusitada quando percebi ser ela ao telefone. Apenas não queria acreditar. Sofri demasiados desapontamentos na vida para crer à primeira num milagre. A intuição afinal era verdadeira.

(...)As mulheres são consideradas as intuitivas, mas muitas vezes os homens também adivinham, fingem é que não."
"O Planalto e a Estepe" de Pepetela

quarta-feira, maio 06, 2009

Um tempo e uma palavra, Anderson...


Procuro o sentido do que me digo numa redoma onde guardo as memórias frágeis de séculos passados. A corrente que embala os dias de hoje vem de muito longe... na nascente, encontro uma melodia familiar, ainda longínqua, mas com um leve sabor a casa, a resguardo.

Agarro a melodia que teima esfumar-se em recortes de manhãs pautadas pelo som de tempos idos. Deixo-me envolver e abraço o sentido melódico, o agora assim me pede e eu, obediente, sigo as suas instruções. Rodopio na corrente onde piso sempre as mesmas pedras para não cair, estão gastas à força de tanto as usar. E ainda uma certa palavra cantada numa melodia familiar e repetida, em pequenos círculos que se alargam nas águas...

Nas mãos molhadas descubro sílabas que se juntam e formam uma palavra, de ontem, que afinal é também a de hoje. Uma memória vaga em forma de cadela dá-me uma lambidela e segue correndo sem olhar para trás. Um gira-discos espera que lhe baixe a agulha e, num volume acima do normal, solta palavras familiares que dançam na memória de outros séculos. Ontem e hoje ligados pelos círculos que se alargam nas águas ao som abafado do disco antigo.
Procuro o sentido do que me digo nesta redoma onde protejo as memórias frágeis de séculos passados. E sempre a melodia familiar e repetida, em pequenos círculos que se alargam nas águas e me devolvem a certeza dos meus passos. Como uma bússola, a palavra, sempre a mesma palavra, que ao fundo oiço cantada, e me orienta desde ontem, por hoje dentro e ainda amanhã.
Liliana Lima





"In the morning when you rise,
Do you open up your eyes, see what I see?
Do you see the same things ev'ry day?
Do you think of a way to start the day
Getting things in proportion?
Spread the news and help the world go 'round.

Have you heard of a time that will help us get it together again?
Have you heard of the word that will stop us going wrong?
Well, the time is near and the word you'll hear
When you get things in perspective.
Spread the news and help the word go round.

There's a time and the time is now and it's right for me,
It's right for me, and the time is now.
There's a word and the word is love and it's right for me,
It's right for me, and the word is love.

Have you heard of a time that will help get it together again?
Have you heard of the word that will stop us going wrong?
Well, the time is near and the word you'll hear
When you get things in perspective.
Spread the news and help the word go round.

There's a time and the time is now and it's right for me,
It's right for me, and the time is now.
There's a word and the word is love and it's right for me,
It's right for me, and the word is love.
There's a time and the time is now and it's right for me,
It's right for me, and the time is now.
There's a word and the word is love and it's right for me,
It's right for me, and the word is love."

"A Time and a Word" de Jon Anderson
cantado pelos Yes

domingo, maio 03, 2009

Temos todo o tempo do mundo, Drummod...

Saímos da auto-estrada enquanto o Sol, calmamente, avança a caminho do horizonte. Os campos estão amarelos com tufos de azul que fazem lembrar o Tejo. Ao fundo o céu ganha uma cor incerta que se esbate numa aguarela, rosa, amarelo, lilás. O bebé dorme, numa respiração lenta e profunda. O carro segue o caminho, alheio às palavras que, lentas também, vão ganhando formas no calor que dança sobre o asfalto.

Vivo a duas velocidades. Uma que segue com o carro, atenta ao caminho, ao bebé que dorme, aos outros carros que por nós se cruzam, às refeições, às paragens e às horas que, aqui, passam rápidas, certas, sempre pontuais. Outra, que brinca às escondidas com a Lua enquanto o Sol se esforça ainda por brilhar, que espera pelas estrelas para descobrir a Ursa Maior e que finge não saber ler as horas porque, aqui, o tempo é lento e baralha os ponteiros que rodam ao ritmo das ideias.

Enquanto o carro avança por entre campos e campos que aos poucos se tornam pardos, como os gatos nos telhados das cidades, o meu tempo passa do ponteiro dos minutos para o ponteiro das horas. As palavras movem-se mais lentamente e as ideias não temem demorar tempo a saltar entre uma e outra. Este é o tempo em que consigo perceber o mundo, normalmente tão saltitante e escorregadio que me perco, ou deixo perder, para não me perder realmente nele. Este é o tempo em que me envolvo nas palavras e abraço as ideias, em que descodifico os sinais e leio as mensagens que não tive tempo para entender.
Durante muito tempo evitei olhar este tempo em que tudo gira devagar. Durante muito tempo envergonhei-me do tempo que demoro até ter tempo para me ouvir. É aqui, no intervalo do tempo que corre entre o ponteiro das horas, que me encontro e me permito parar. É aqui que as palavras se encaixam em frases e ideias, em mensagens e recados que o mundo me envia e que, por falta de tempo, faço esperar. Só aqui, consigo descodificar e assimilar o tempo e o que com ele veio.
O bebé dorme. O carro segue o caminho e eu tenho todo o tempo do mundo!
Liliana Lima

"Qualquer tempo é tempo.
A hora mesma da morte
é hora de nascer.

Nenhum tempo é tempo
bastante para a ciência
de ver, rever.

Tempo, contratempo
anulam-se, mas o sonho
resta, de viver."
"Qualquer tempo" de Carlos Drummond de Andrade
in 'A Falta que Ama'