terça-feira, abril 28, 2009

As palavras têm luas, Alexandre?

As palavras têm dias, são de Luas e têm vida própria... O poder de uma palavra depende muito mais do seu humor no momento em que é dita, do que do sentido literal com que foi utilizada. Quantos "nãos" são ditos que, na verdade, significam "claro que sim"?!

O teu "adeus" naquele dia de chuva, por entre as gaivotas que, alvoraçadas, rondavam o Tejo em vôos circulares... Podia jurar que me estavas a dizer "até logo" e, no entanto, os teus lábios secos e ríspidos "adeus", virando as costas e avançando sem hesitar. À noite, quando cheguei a casa, procurei-te nos lençóis ainda quentes, tinha certeza que te tinha entendido bem e, foi no meio dos livros, sorrindo, à espera do meu abraço entre os "desculpa" e os "fui tonto" que te reencontrei.

Mais tarde, depois dos teus muitos outros "adeus" a que se sucederam os sempre iguais "descupa", eu disse-te "sim"... Um "sim" com véu e vestido branco, um "sim" embrulhado num ramo de rosas cor de chá e folhas verdes... Fizeram a pergunta e eu, orgulhosa do meu "sim", disse-o sorrindo. Projectei a voz para que não se perdesse no jardim, mas no momento em que o disse de facto, senti que o sentido estava trocado. Como num filme mal dobrado, os meus lábios articularam o "sim" mas ao fundo ouvi um "isto vai correr mal"... Por isso, quando chegou o dia, não do teu mas do meu "adeus", foi esse "sim" trocado que tive de explicar.

As palavras têm vida própria... soubessemos nós respeitar as suas Luas!
Hoje tenho muito mais atenção aos seus humores. Oiço-as, mesmo antes de as dizer, na esperança de conseguir escolher a palavra certa que exprima a minha ideia. E, de cada vez que digo "sim", ou "não", ou mesmo "adeus", fico muito atenta à espera de lhe ouvir o eco e perceber se, é mesmo essa, a palavra que quero dizer.
Liliana Lima


"Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte."

"Há palavras que nos beijam" de Alexandre O’Neill
in 'No Reino da Dinamarca'

sábado, abril 25, 2009

É noite de Liberdade, Zeca?

É noite de liberdade! Digo-te eu com os olhos cheios de lua!

Sabias que hoje as estrelas dançam livres no céu?
Sabias que hoje os sonhos se libertam e se soltam das camas onde, sonhados, os donos se deitam?
Sabias que hoje as letras se apaixonam e, dançando, formam novas palavras livres?
Sabias que hoje a música se revolta e, fora das pautas, soa mais alto e mais forte?
Sabias que hoje os livros saltam das estantes e as histórias, livres, gritam pelas ruas?

Livremente confesso que, mesmo hoje, é difícil aceitar a diferença que, por ser livre, se afasta de mim...
Livremente confesso que, ainda hoje, me assusto ao perceber outros caminhos tão longe do meu...
Livremente confesso que, só hoje, percebi que para o meu conto ser livre, terá de aceitar outros finais que dele discordam...
É noite de liberdade! E este cravo é a prova que te liberto para que, também eu, seja livre de continuar a acreditar!


Liliana Lima


"Querida Joana:

Como sabes eu estou preso mas também não sou um homem mau. Viste como foi. Não sejas rabujenta e ajuda o Pedro. Se ele estiver birrento lembra-te que ainda é um bebé e tu mais crescida que ele. O que eu não gosto é que sejas egoísta porque é muito feio. Se algumas das tuas amigas querem tudo para elas deixa lá. Elas fazem mal mas tu não. Explica-lhes que não devem ser egoístas. Tem cuidado com os sugos e outras porcarias iguais porque podes ficar sem dentes. Depois, mesmo que os queiras ter já ninguém tos pode pôr. Ficas como os velhinhos. Alguns deles tinham a mania de comer goluseimas, gelados e caramelos. E também chocolates.

Eu lembro-me muito de ti e do Pedro. O Zé ainda não cortou as barbas? Diz à Lena que eu não gosto que ela seja desarrumada. Todos têm de ajudar a mãe e a Dina.

Muitos beijos do
Zeca Pai"
in "José Afonso Textos e Canções"

quinta-feira, abril 23, 2009

Diz-me então, quem sou eu, Lewis?


Suspirei fundo, com calma procurei a caixa de fósforos e acendi uma vela. Estava escuro e a luz da chama reflectiu no espelho e inundou o quarto de um amarelo baço e ondulante, que parecia jogar às escondidas entre formas e sombras, enchendo a toda a divisão de um estranho movimento.

Virei-me e dirigi-me à porta, ao meu lado eu avançava zangada por entre móveis e tapetes, lutando com os cortinados ao ritmo da chama que dançava em cima da cómoda, atrás de mim. Os meus movimentos na parede denunciavam um mau estar interior que eu própria desconhecia. Parei e observei com atenção a sombra que, claramente se revoltou com a minha curiosidade.
De pé em frente à porta, admirei-me com o que via de mim mesma projectado na parede. Avançada e esticava-me tentando alcançar a porta, recusava aceitar esta paragem a que me obrigava. Gesticulava sem sair do mesmo sítio. Estava notoriamente zangada e frustrada, imersa na escuridão que me inundava o quarto, a alma e o coração não me permitindo ver mais do que a vontade imediata de abrir a porta e sair.
Sentei-me na cama e fixei o olhar na vela e na sua chama ondulante, enquanto tentava perceber como sair, não do quarto, mas daquela sombra zangada e inquieta que me fitava da parede impaciente. Estava escuro, era um facto. E estava atrasada para o encontro que tanto ansiava, tinha o vestido do decote generoso e os sapatos menos cómodos mas mais elegantes, e estava ainda em casa, às escuras, sem encontrar a mala e as chaves do carro. Devia estar zangada e frustrada como aquela sombra que, já sem paciência gesticulava comigo. No entanto, havia algo em mim que me pedia para parar, parar e sair da espiral que me prendia a sombra e encobria o momento, tornando muito mais negro o cenário onde decorria a acção.
O filme projectado na escuridão da parede sou eu? Se sou não saio. Não me levanto nem me me animo. Fico aqui, escondida de mim mesma, à espera da luz que apagará as sombras e me devolverá a tranquilidade.

E fiquei. Sentada na cama, acorrentando a sombra aos meus pés para a ver bem. E foram precisos muitos dias, muitos dias e muitas noites em que a luz que usava para iluminar o quarto vinha de fora e apenas mudava de sítio a sombra que lutava ora com a cómoda, ora com os cortinados. Sentada na cama fui vendo como ela, ao ritmo do Sol e da Lua, me rodeava impaciente e inquieta.

Veio outro dia de escuridão, e mais uma vez o vestido e o decote, os sapatos e a ansiedade, e claro, a caixa de fósforos. Suspirei fundo e, antes mesmo de os acender, o espelho em cima da cómoda reflectiu uma luz, branca e límpida, que inundou o quarto numa aguarela de cores. Procurei-me na parede, mas encontrei-me na luz. Saí sem correr enquanto espreitava o filme que projectava no quarto as cores do meu arco-íris. Já na porta da rua, voltei atrás, agarrei-o e levei-o comigo.

Liliana Lima





"Então quem sou eu?
Digam-me isso primeiro,
e depois,
se eu gostar de ser essa pessoa,
eu subo;
senão,
fico cá em baixo
até ser outra pessoa qualquer."

in "Alice no país das maravilhas" de Lewis Carrol

terça-feira, abril 21, 2009

Vamos cantar, Sérgio?



A pergunta era simples além de óbvia, afinal perceber qual é o nosso timbre deve ser o primeiro passo de qualquer trabalho que se desenvolva à volta da voz e do canto. Ainda para mais para quem está, de facto, a considerar a possibilidade de integrar um grupo coral. Resumindo, era uma questão básica e que precisava de resposta.
No entanto, e apesar do meu sobejamente conhecido bom-feitio, confesso que, de quando em vez, me acontece sentir uma certa dificuldade em aceitar regras daquele tipo em que a resposta tem de ser "branco ou preto", "sim ou não". Tenho sempre vontade de responder um grande, redondo e bem audível "nim". Mas ali estava eu, à frente da maestrina que me olhava já de sobrolho franzido, enquanto atrás de mim, se arrumavam calmamente sopranos e tenores à esquerda, baixos e contraltos à direita, sem dificuldades nem dúvidas existenciais.
Gaguejei "contralto...", depois como quem se arrepende "soprano, acho que consigo chegar a soprano..." por fim já baixinho, quase sussurrando "mas talvez seja contralto...". Pensava nos dias de Sol em que a voz sai translúcida e os agudos me parecem tão perto, ali mesmo ao virar da esquina, em contraponto via os dias cinzentos em que os graves são naturais e pedem para os apanhar. Imaginava-me contrariada, obrigada a viver eternamente num dia de sol sem direito às minhas neblinas, ou amordaçada num horizonte permanentemente encoberto, sem sol nem estrelas. A decisão parecia-me impossível, redutora e sem espaço para a criatividade pessoal e individual.
Depois de muitas hesitações a maestrina decidiu "arrumar-me" no lado dos contraltos e encerrou o assunto para não atrasar mais o ensaio. Ainda desconfiada com a decisão, subi as escadas e assumi a minha posição no grupo, peguei nas partituras e integrei os exercícios de aquecimento. Cantei no ensaio, e nos outros que se seguiram, a questão foi-se diluindo na magia de deixar de ouvir a minha voz e aperceber-me parte de um todo muito mais abrangente que apenas se consegue coordenando ritmo, respiração, entoação e melodia.
Agora que me sinto já parte desta melodia conjunta, começa a ser-me possível descobrir o meu timbre dentro do timbre meu. Somos todas contraltos, mas umas têm uma caixa torácica mais larga, aguentam mais tempo as notas, outras conseguem subir de tom com maior facilidade, outras ainda têm uma voz mais limpa ou uma melhor dicção.
As nossas pequenas diferenças, as características que fazem de nós únicos e irrepetíveis, por muito pouco audíveis que sejam para quem está longe, hão-de ser sempre reconhecíveis para quem nos rodeia. Não é o meu timbre que me caracteriza, mas sim a forma como eu me integro nele, respeitando o tom, o ritmo, a entoação, mas cantando sempre com a minha voz, energia, postura, enfim, comigo mesma...
Liliana Lima




"Benvindos todos ao salão de festas
faz bem andar metido nestas andanças
se agora danças
logo pensas
e mais
fazes diferentes
dias que eram iguais
ora puxa o corpo pra cá
quero o eco aqui que é de lá
faz por mexer, mexe
faz por mexer, mexe
e faz com que (oxalá!)
amanhã seja o que não há

Que bem se canta na Sé
mas é só para quem é
um sentado, outro em pé
mas aqui quem canta
é quem quiser (olha quem!)
isto enquanto é um canto
está sentado o desdém

Benvindos todos ao salão de festas
desbravaremos de florestas
e mares
se vais pelos ares
logo pousas e penso
melhor irás entre o furor e o bom senso
ora puxa o corpo pr´aqui
quero o eco cá que é daí
faz por fazer
o que hoje queres para ti
e que amanhã seja o que não vi

Que bem se canta na Sé
mas é só para quem é
um sentado, outro de pé
mas aqui quem canta
é quem quiser (olha quem!)
isto enquanto é um canto
está sentado o desdém

Quem dera que a energia que trouxe pudesse
habitar um só dia que fosse
o calor da tua hospedaria"

"Salão de Festas" de Sérgio Godinho (1984)

domingo, abril 19, 2009

A vida é como os comboios, Fernando?

"Ai, isto já não tem melhoras, já cheguei ao fim da linha..." disse uma velhota gorducha, de cara rosada, cabelo branco encaracolado e um sorriso do tamanho de toda a estação dos Correios. "Ah! Eu sei o que isso é!" respondeu outra, no fim da fila, de bengala castanha e costas ligeiramente curvadas, com o cabelo enrolado num caracol encarrapitado no alto da cabeça. A conversa continuou, entre as risotas das mais bem humoradas e os queixumes das mais amarguradas, durante todo o tempo em que eu, calada, esperava a minha vez para comprar um envelope.

"Isto agora já não é como antigamente, já ninguém tem paciência! No meu tempo dávamos valor às coisas, agora é tudo para ontem..." dizia a gorducha olhando de soslaio para mim, quando me viu de envelope de Correio Azul na mão. As outras confirmaram o facilitsmo dos novos tempos enquanto saí com a nítida sensação de ter passado pela quinta dimensão.

Espreitei pelo vidro para aquele "coro das velhas" enquanto me afastava devagar, ainda com os movimentos presos de tantas dores nas cruzes... Sentei-me numa esplanada enquanto preenchia uns quaisquer impressos e os fechava dentro do tão apressado envelope de correio azul. Ao fundo, um comboio avisava que ia partir e, no meio do burburinho da cidade, aquela frase ressoou na minha cabeça "cheguei ao fim da linha".

Sem me dar conta, aproximei-me da estação e fiquei a olhar para o corropio de quem sai dos comboios que chegam e de quem espera pelo próximo a partir. Os que partem iniciam a viagem ao mesmo tempo que finalizam o percurso que os levou até ali, por outro lado (ou não...), quem chega acaba o caminho enquanto dá início a um novo percurso.

Estamos sempre a chegar e preparamo-nos constantemente para partir... Somos mudança constante entre o partir para um sorriso, e o chegar de uma qualquer desilusão. Estamos em movimento contínuo entre o início de um gesto, e o desviar de um olhar.

Ali, no terminal dos comboios, percebi que também eu "cheguei ao fim da linha" ao mesmo tempo que me preparo para descobrir a estrada que dará início a uma nova viagem.

Liliana Lima


"No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada,
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada -
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...

No comboio descendente
Vinham todos à janela,
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela -
No comboio descendente
Da Cruz Quebrada a Palmela...

No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,
E outros nem sim nem não
No comboio descendente
De Palmela a Portimão..."

"Que grande reinação" de "Poemas para Lili"
Fernando Pessoa in Obras Completas

quinta-feira, abril 16, 2009

Vem ver o rio que corre na minha aldeia, Alberto

Descia a Avenida quando te vi, com ar alegre, sorrindo no teu fundo azul. Há tanto tempo que não vou ter contigo e, no entanto, quando te vi ao fundo da Avenida parecias chamar-me, alegre.

Cheguei ao cruzamento e decidi não virar, antes seguir em frente, não fugir de ti e, finalmente, encontrar-me contigo depois de tanto tempo. Os cruzamentos têm destas coisas, levam-nos a tomar as decisões que cómodamente vamos protelando no tempo. Naquele milésimo de segundo somos confrontados com a necessidade de decidir, "viro à direita ou sigo em frente", "faço marcha atrás ou viro à esquerda"... E eu decidi seguir na tua direcção.

Aproximei-me devagar, tentando não deixar a expectativa do reencontro alterar a tranquilidade que me sugerias. As nuvens deixavam o sol espreitar aqui e ali, realçando o teu azul em pequenos reflexos prateados. Sim, é verdade que há muito tempo te evito. Mas é também verdade que, embora ausente, fui-te acompanhando dia-a-dia, de longe, sem intrometer a minha presença. Do alto da Avenida, mantive-me a par dos teus estados de espírto. Da janela do carro, segui atentamente as tuas disposições.

Hoje, em pleno cruzamento, e depois de te ter visto sorrir, decidi seguir a intuição e continuar em frente, até ti. Parei o carro e passeei contigo, como sempre, como antes. Lado a lado, apesar do vento que soprava frio do mar. Conversámos tranquilamente, o Sol espreitava pelas núvens e as tuas àguas refletiam a luz em pequenas ilhas prateadas. As gaivotas, tranquilas também, pareciam mostrar-me que, por muito longe que esteja, tenho-te sempre ao meu lado. E tu, em pequenas ondulações, ora refletindo a minha imagem, ora brilhando com o sol, disseste que, do fundo da Avenida também estiveste presente.

Despedi-me com a tranquilidade de um "até já" e subi a Avenida espreitando-te pelo retrovisor.

Liliana Lima




"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele. "

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos" (Poema XX)

segunda-feira, abril 13, 2009

Ajuda-me a desembrulhar-me, Fernando...

Escrever é uma coisa que me acontece, de repente, como se em mim existisse um gesto que não me pertence e que, quase sem querer, assim como que por acaso, escreve...
Às vezes calha que as ideias se juntam e a um canto pedem para ser escritas. Outras vezes é como que uma necessidade, uma vontade que pesa, uma angústia que se queixa, que não me deixa esquecer as palavras que querem ser sentidas...
Escrever torna-se, assim, uma forma de sentir o mundo que me rodeia, filtrado por palavras, por letras, por riscos e rabiscos no papel.
Quando escrevo é como se dançasse uma valsa com os sentimentos, que rodam e giram em volta das minhas ideias. Nem sempre consigo escrever o que sinto. Às vezes escrevo mesmo antes de sentir, antes de ter, de facto, vivido. Outras vezes demoro muito tempo até que as ideias se juntem às palavras que me permitem escrever o que, há tanto tempo senti.
Então escrever acontece-me como uma espécie de catarse de vidas e pensamentos que já me tinha esquecido e, através do papel, revivo, sem mágoas, sem dores, sem alegrias, como um rio que atravesso a nado, devagar, e nele, a vida acontece, escrita.
Procuro, nestes breves momentos em que aconteço, desembrulhar-me. Despindo as letras e as ideias a que me encosto, para desencaixotar as verdadeiras emoções. Escavando nos sentidos, para chegar ao seu verdadeiro pulsar.
Assim, mesmo quando caio numa palavra mais brusca, sei que me levantarei noutra mais terna. Acerto e erro, magoo-me e animo-me, e avanço.
Escrever é uma coisa que me acontece, e quando escrevo procuro o caminho certo que me leve não ao outro, mas a mim.

Liliana Lima


"Deste modo ou daquele modo.
Conforme calha ou não calha.
Podendo às vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer,
Como se escrever não fosse uma cousa feita de gestos,
Como se escrever fosse uma cousa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fora.

Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à ideia
E não precisar dum corredor
Do pensamento para as palavras.
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.

Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.

E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.

Ainda assim, sou alguém.
Sou o Descobridor da Natureza.
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo ele-próprio.

Isto sinto e isto escrevo
Perfeitamente sabedor e sem que não veja
Que são cinco horas do amanhecer
E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça
Por cima do muro do horizonte,
Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos
Agarrando o cimo do muro
Do horizonte cheio de montes baixos."

Alberto Caeiro in "Guardador de Rebanhos"(XLVI)

segunda-feira, abril 06, 2009

Danças comigo, Sérgio?

Danças comigo? Assim, sem mais nada, sem nós nem amarras, danças comigo só por dançar? Ouve a música, esquece que os nossos corpos são corpos e que, juntos, já navegaram num oceano de sensações, num turbilhão de ondas e remoinhos... Esquece a tua mão na minha e os meus lábios nos teus quando o Sol brilhava forte e aquecia os corações... Esquece os adeus e as desilusões quando, por fim, a noite nos abandonou e arrefeceu as paixões... Será que é possível, dançar, como amigos só?

Danças comigo? Será que podemos? Será que conseguimos passar por cima das dores e dos desamores, dos medos e dos tantos papeis, das trocas e confidências? E, por fim, dançar só por dançar, como amigos só?

Chega-te a mim, e quebra as barreiras que nos afastam e abafam a música. Chega-te a mim, mas apaga o corpo que não os queremos visíveis. Ouve a música e segue o compasso, acerta os teus pés com os meus e salta as fronteiras da inibição. Pisemos a pista e deixemo-nos guiar pelos nossos sapatos, quais sapatilhas vermelhas que não param de dançar... Pisemos a pista e esqueçamos acordos, amores e ódios. Dancemos, se for possível, como amigos só...

Danças comigo?
Liliana Lima




"Isto é como tudo
não há-de ser nada
a minha namorada
é tudo que eu queira
mas vive para lá da fronteira

Separam-nos cordas
separam-nos credos
e creio que medos
e creio que leis
nos colam à pele papéis

Tratados, acordos
são pântanos, lodos

Pisemos a pista
é bom que se insista
dancemos no mundo

Eu só queria dançar
contigo sem corpo visível
dançar como amigo
se fosse possível
dois pares de sapatos
levantando o pó
dançar como amigo só

Por ódio passado
(que seja maldito)
amor favorito
não tem importância
se for é de circunstância

Separam-nos crimes
separam-nos cores
a noite é de horrores
quem disse que é lindo
o sol-posto de um dia findo

Sozinho adormeço
E em teu corpo apareço

Pisemos a pista
é bom que se insista
dancemos no mundo

Eu só queria dançar contigo
sem corpo visível
dançar como amigo
se fosse possível
dois pares de sapatos
levantando o pó
dançar como amigo só

Em passos tão simples
trocar endereços
num mundo de acessos
ar onde sufocas
lugar de supostas trocas

Separam-nos facas
separam-nos fatwas
pai-nossos e datas
e excomunhões
acondicionando paixões

Acenda-se a tua luz
na minha rua

Pisemos a pista
é bom que se insista
dancemos no mundo

Eu só queria dançar contigo
sem corpo visível
dançar como amigo
se fosse possível
dois pares de sapatos
levantando o pó
dançar como amigo só"

"Dancemos no mundo" de Sérgio Godinho

quarta-feira, abril 01, 2009

Tens a certeza, José?


Apareceu ao fundo da rua, com um sorriso enorme de criança que acabou de ganhar um chocolate. "Aqui estou eu!", disse ele feliz. E estava mesmo... A imagem era, no mínimo, surreal. Vinha a pé pelo meio da estrada, trazia com ele duas malas de pele castanha já gastas, tão cheias que uma quase se abria e outra trazia de fora uma manga de camisa branca com riscas azuis, um malote verde à tira-colo, uma mochila grande às costas, daquelas de campismo com a tenda enrolada por baixo e uma caçarola pendurada nos fechos de cima, uma mala de transportar animais com um gato, que a medo espreitava pela rede, e um periquito ao ombro.
"Aqui estás tu, com tudo o que és..." pensei eu. Tudo o que, ao longo da vida, foste recolhendo e apanhando, o que te foi marcando, o que não conseguiste soltar, o que te pesa nos ombros à noite quando, às voltas na cama, não consegues dormir, o que te arrependes e o que tens saudades.

Ele avançava devagar, cansado do peso e da viagem. Era fim de tarde e o Sol, que brilhava baixinho, alongava-lhe a sombra da bagagem que chegava muito antes dele. Tentei dizer-lhe que largasse algum peso, estranhou a sugestão como se viesse de mãos a abanar e não tivesse nada para largar.

Entrou em casa com dificuldade, lutando com as malas de pele e a mochila que lhe dificultavam a entrada. No meio daquela luta, o periquito esvoaçava assustado e o gato, cuja mala acabou por se abriu ao bater na porta, fugiu assanhado e eu acabei a correr pela estrada fora para o apanhar.

Quando voltei com o gato nos braços ele já estava instalado, sentado no sofá grande à frente da televisão, com o comando na mão e o mesmo sorriso alegre de criança. Espalhados um pouco por toda a sala, peças de roupa, bugigangas e papeis soltos saídos de uma das malas castanhas, dificultavam-me os movimentos. Por muito que tentasse não consegui chegar-me a ele, muito menos sentar-me ao seu lado. O sofá estava completamente ocupado pelas bagagens que trouxera, e eu estava a mais naquela fotografia.

Abri a janela ao periquito e soltei o gato, tentei encaixar as malas, o malote e a mochila na dispensa, mas as tralhas pareciam ter vontade própria e não deixavam a porta fechar. Cheguei-me a ele devagar e perguntei o porquê de tanto passado a invadir um momento que devia ser só nosso, feito de futuro e esperança. "Eu estou aqui tal como sou, nada mais e nada menos" disse ele, e olhou-me com o sobrolho franzido, como se eu falasse chinês. "Tens a certeza?" perguntei de mansinho, quase em surdina. Afastei-me e percebi que ele não sabia o peso que trazia às costas. Tudo aquilo vinha com ele há tanto tempo que ele já nem se apercebia do que o acompanhava.

Peguei-lhe na mão e chamei o gato que saltitava em cima da cama, atrás do periquito. Depois levei-o até à dispensa onde as tralhas lutavam contra a porta. Pelo chão do corredor, desordenadamente, espalharam-se roupas usadas, papeis amachucados e fotos antigas. Pasmado, encostado à parede, ele olhava aquele desfile do seu passado, enquanto os bons e os maus momentos, as dores e a alegrias invadiam um espaço tão grande que não me deixavam sequer chegar-lhe. Quanto mais tentava mais longe me encontrava, um mar de antigas memórias separava-nos empurrando-me para longe, longe dele.
Saí para lhe dar espaço, para não me sentir uma estranha numa vida da qual, afinal eu não fizera parte. Saí mas voltei, mais tarde, depois dos ponteiros do relógio me confidenciarem que era o momento certo. Entrei devagar, receosa do gato, do periquito que esvoaçava, dos papeis, das malas e malotes... Entrei mas não vi os bichos, nem as tralhas, nem as malas. Na sala, no sofá grande à frente da televisão, sozinho, estava ele. Olhou-me demoradamente e tentei entender no seu olhar o que se seguiria.
Nunca mais vi as malas, o malote ou a mochila de campismo. Na verdade, não tenho a certeza que o gato tenha ido verdadeiramente embora, às vezes parece-me ouvi-lo miar, e podia jurar que no outro dia vi um periquito a tentar entrar pela janela do quarto. Poderei eu recrimina-lo por isso? Afinal, quem não guarda consigo imagens ou mesmo marcas do caminho que atravessou...
Liliana Lima



"Eu não tenho a certeza
De gritar ou de esconder
Sempre que o amor vier
Brilhante natureza
Fecundando matagais assim
Vira vento, vira lume contra mim

(...)

Aqui estou eu
Com o que sou
Com o que é meu
Tal como estou
É neste chão
Que eu assento os pés
E é por seres quem és
Que eu assim me dou"

"Eu não tenho a certeza" de José Mário Branco
(escrito de cabeça com a memória da voz do Jorge Lomba no "Inda a Noite" há uns anitos atrás...)