sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Vens por aqui, José?

Entrámos no barco sem dizer palavra, sentámo-nos e pegaste nos remos.

Entendo tão bem o que me dizes com esse olhar… Estás cansado, não era este o caminho pensavas fazer. E no entanto, quando te disse que era por aqui não hesitaste e entraste comigo. Não sei porque tenho esta certeza, mas sei que o caminho certo é este.

O rio está calmo, mas a corrente obriga-nos a um esforço suplementar. Ajudo-te a pegar nos remos, avançamos devagar, mas vamos subindo o rio.

Nas margens há pessoas que nos acenam “vão ao contrário… a paisagem é mais bonita na foz”, acenamos também mas continuamos rio-acima, com calma.

Aproveitamos uma pequena baía e paramos para descansar. O teu olhar diz-me que continuas cansado, mas confiante. Acreditas em mim e eu sei que, contigo o barco está mais estável. Começamos a falar mas as “palavras estão gastas” e não nos falam das coisas importantes. Os teus olhos sim, dizem-me que devemos partir, está a fazer-se tarde, sinto-te inquieto. Achas que a viagem será mais difícil a partir daqui, remar contra a corrente não é fácil, mas eu sei, eu sinto que é lá em cima, perto da nascente que nos vamos encontrar. Acalmo-te com a minha certeza e entramos novamente em silêncio no barco.

Voltar ao ritmo é difícil, avisto na margem um grupo de crianças que brincam na água. Aproximam-se nadando e perguntam-nos porque vamos por ali, porque não subimos pela margem até à nascente como todos os outros. Olhas para mim, entendo tão bem o que me dizes com esse olhar… Inspiro-me nele e não desisto, sei que é este o caminho, não sei porquê, mas sinto que é por ali. Devolvo-te o sorriso e continuamos a remar.

Estamos quase a chegar, já oiço o burburinho da água que cai das pedras lá ao fundo. Os teus olhos estão cansados, mas acompanham-me nesta viagem. Cada vez que duvido de mim é neles que reencontro as certezas que tenho cá dentro.

Entendo tão bem o que me dizes com esse olhar… Não era este o caminho que pensavas fazer e, no entanto, aqui estás, ao meu lado, remando comigo contra a corrente. Estás cansado, mas confortas-me. Estamos quase a chegar!

Não era este o caminho que pensavas fazer mas entraste no barco, sentaste-te ao meu lado e remaste comigo… Pergunto-me porquê… Pergunto-me se o teria conseguido sem ti…

Procuro nas margens, mas já não avisto ninguém. Estamos quase a chegar e, aqui, estamos sozinhos. Agora que as certezas dançam no ar como borboletas coloridas num jardim florido, já posso confessar que houve alturas em que duvidei, que houve alturas em que foste tu que me mantiveste sentada, a remar. Os teus olhos respondem-me com as mesmas palavras, estivemos os dois no mesmo barco, construído de certezas e alimentado pela força dos olhares que trocámos.

Se eu te disse o caminho tu deste-me, sem dúvidas, a força para lá chegar. Foi nesse tabuleiro de compromissos, que jogámos as certezas e as inseguranças, sempre apoiados na confiança dos olhares que trocámos.

Liliana Lima 26/02/2009
(com um abraço ao 'outro' José que me desafiou a escrever este texto)




""Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: "vem por aqui!"

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali...


A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe


Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos...


Se ao que busco saber nenhum de vós responde

Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí...


Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.


Como, pois sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?...

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil! Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tectos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...


Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou...


Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

- Sei que não vou por aí!"

Cântico Negro de José Régio

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Como explicar o que sou, José?

Fervo a água para o chá e componho o tabuleiro com a torradeira, as ideias confundem-se no vapor que sai da chaleira...

-"Às vezes não sei explicar o que sou, o que faço... parece que me perco no meio das palavras e deixo cair os significados." disse eu espalhando manteiga numa torrada ainda fumegante.

- "Isso é porque queres dizê-lo numa língua que não é tua. Procuras as palavras do mundo e renegas as tuas referências. Tentas descodificar as tuas metáforas, explicar as tuas idiossincrasias. Perdes tanto tempo a explicar as palavras que acabas por perder o significado. Passa-me a manteiga, se faz favor."

Passo-te a manteiga enquanto mastigo o que me queres dizer, preciso de tempo para digerir as palavras, sentir-lhes o significado e descodificar-lhes o sentido. No relógio da sala os ponteiros respeitam a minha hesitação e param por um momento.

- "Não sei se é bem isso, mas se calhar até tens razão... parto do princípio que sou complicada e isso leva-me a procurar, à priori, explicações para o que ainda não disse. Mas além disso, tenho sempre a sensação que não sei encontrar as palavras certas, que carreguem o simbolismo certo, exacto, daquilo que procuro fazer. É como se, só fazendo o consigo explicar..."

O chá está pronto, sirvo-te e misturo água fria na minha chávena. O vapor mistura-se com o cheiro das torradas e ambos dançam ao som do fado que toca na aparelhagem.

- "O que eu sei é que já te vi explicares varias vezes o que fazes e porque o fazes. Percebes o que quero dizer? Sempre que falas do que fizeste, do que tens programado, dos livros que sugeres... Repetes expressões, invocas referências, compões metáforas... É aí que estás tu, é nessa forma de expressão que te leio, que te encontro."

Mais uma vez as palavras chegam-me mas o seu significado está desfasado, como num filme dobrado em que o som não corresponde aos movimentos dos lábios, demoro a perceber o que me dizes. Passo-te o açúcar e com ele as minhas dúvidas que persistem apesar do vapor das tuas palavras.

- "Queres dizer que me explico melhor quando não me quero explicar?"

- "Quero dizer que és verdadeira quando não te procuras traduzir. Quando falas sem te preocupar com quem te está a ouvir..."

A aparelhagem esforça-se por me ajudar a entender o que dizes, aumenta o som e ouvem-se as palavras que rodopiam à minha volta pousando no chá que bebo e na torrada em que espalho geleia.

Quanto mais quero entender-te mais longe me sento. Desisto, escuso-me a responder para não prolongar a conversa. Desvio o olhar mas o fado que toca entra-me pela pele, obriga-me a ouvir-te e a entender as tuas palavras... "Canta da cabeça aos pés / Canta com aquilo que és / Só podes dar o que é teu"...


Liliana Lima 25-Fev-2009








"Não cantes alegrias a fingir
Se alguma dor existir
A roer dentro da toca
Deixa a tristeza sair


Pois só se aprende a sorrir
Com a verdade na boca
Quem canta uma alegria que não tem
Não conta nada a ninguém


Fala verdade a mentir
Cada alegria que inventas
Mata a verdade que tentas
Pois e tentar a fingir


Não cantes alegrias de encomenda
Que a vida não se remenda
Com morte que não morreu
Canta da cabeça aos pés
Canta com aquilo que és
Só podes dar o que é teu"



"Fado da tristeza" de José Mário Branco

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Vamos voar num balão, Leif?

Voamos num balão de ar quente que nos leva até onde o vento quiser. Vagueamos pelos céus, cheios de certezas, vontades concretas, a realidade é tão simples vista daqui...

Voamos num balão de ar quente que nos embala o sonho e o transforma em nuvens de algodão onde pousamos. Saltamos de mãos dadas como crianças, brincamos com os sonhos num mundo de verdades, corremos alegres agarrados à certeza de que é tudo tão claro visto daqui...

Voamos num balão de ar quente, abastecido pelas nossas vontades. Aqui tudo é possível. Estico a mão e puxo um arco-íris para colorir o céu e não são só os 'pássaros que voam através dele', eu voo com eles.

Paramos num castelo de areia e saímos do balão. Percorremos os muros e as ameias em busca da verdade, não a encontramos mas sabêmo-la escondida num sonho de algodão doce. O mundo é tão simples observado daqui!

Dás-me uma flor feita de sonhos impossíveis e as suas sementes espalham-se pelo céu que se transforma num enorme campo de girassóis de todas as cores. Escolhemos uma rosa e protegêmo-la para dar a um menino de 'cabelos cor de oiro' que mora num sonho ao nosso lado. A vida parece tão calma, vista daqui!

Subimos novamente no balão de ar quente que nos leva até onde o vento quiser. Com o coração cheio de certezas, puxamos a noite devagarinho e escolhemos as estrelas mais bonitas para iluminar os sonhos mais ambiciosos. Tudo é possível, olhado daqui!

Segredamos uma velha canção de embalar às estrelas que, contentes, a entoam e repetem num majestoso concerto sonhado. A música é tão límpida, ouvida daqui!

Voamos num balão de ar quente, que nos leva até ao Sol. Está na hora! Não temos dúvidas, nem hesitações. Acordamo-lo, guardamos as estrelas e pedimos à Lua que nos visite. As coisas são tão simples vistas daqui!

Voamos num balão de ar quente que, com o calor do dia, vai poisando devagar, devagar, sem sobressaltos até chegar ao chão. Deixa-nos no castelo, olhamos as ruas que acordam e o rio ao fundo, que ainda se espreguiça... A cidade é tão bonita, vista daqui!


Liliana Lima, 23-02-2009




"Ser feliz é maravilhoso

é como ter um balão dentro de ti

e o balão está cheio de ar quente

tu ficas leve e quase a voar.

Às vezes sentes-te feliz

juntamente com os outros.

Quando estiveste longe

e houve alguém que esteve à tua espera

ou quando uma pessoa diz um segredo

que só nós sabemos.

Quando sentado quieto junto de outra pessoa

compreendes como ambos são amigos.

És feliz

quando consegues finalmente fazer alguma coisa

que devias fazer mas não ousavas.

Às vezes podes ser feliz

quando estás só.


Quando a Primavera chega de repente

e tu navegas no primeiro barco à vela do ano

ou quando caem os primeiros flocos de neve do Inverno

e tocam docemente a tua cara molhada.

Quando começas a pensar em alguém

que gosta de ti

ou quando um amigo defende

o que tu disseste ou fizeste.

Mas ficarás mais feliz do que nunca

quando tornares feliz outra pessoa.

Quando visitares alguém que está sozinho

e tiveres tempo para ficar lá muito tempo

ou fizeres alguma coisa por alguém

que foi duramente magoado.

Então o balão sobe

redondo de alegria

e voa até tocar as mãos de Deus. "

'Ser Feliz' - Leif Kristiansson

(Tradução de Sophia de Mello Breyner)

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Que esconde o nevoeiro, Fernando?


Procuro-me no nevoeiro, ninguém me viu, ninguém me conhece, ninguém me dá a mão.
Visto-me de mil cores, arrisco, avanço, e recuo... não me encontro no meio da multidão.
Procuro-me pelas ruas dispersas da alma, procuro-me na minha solidão...
Onde estás quando preciso de ti por inteiro? Será que sentes que o meu coração chora, será que sabes que em silêncio te chama?
Porque persisto nesta busca em vão?
Procuro-me no nevoeiro que me cobre a alma. Procuro, vagueio, pergunto, anseio. Mas ninguém me viu, ninguém me conhece, ninguém me dá a mão.
Procuro-me por ruas dispersas e ao fundo vejo o Sol que se levanta. Visto-me de mil cores, avanço e recuo... perco a razão...
Procuro-me em silêncio no meio do nevoeiro, mas tudo é incerto, tudo é disperso, ninguém me conhece, ninguém me dá a mão.
Porque persisto nesta busca em vão?
Liliana Lima Nov/2008



"(...)

Ninguém sabe que coisa quere.

Ninguém conhece que alma tem,

Nem o que é mal nem o que é bem.

(Que ânsia distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro…


É a Hora!"


"Nevoeiro" de Fernando Pessoa (in Mensagem)

terça-feira, fevereiro 17, 2009

A quem deste o primeiro beijo, Alexandre?


Ela era uma rapariga bem comportada, vestia-se de acordo com os gostos da mãe, pacata, boa aluna, nunca dizia asneiras nem faltava ao respeito aos mais velhos. Vinha de um Colégio de renome e só trazia boas referências. Ela era a "rapariga nova" na Escola.
A Escola era uma vulgaríssima Escola Secundária, feita de Blocos pré-fabricados, num bairro periférico de Lisboa, com médias baixas e taxa de abandono escolar alta.

Ele tinha olhos azuis e cabelos loiros encaracolados. Estava um ano atrasado, tinha más notas e um monte de amigos que o acompanhavam para todo o lado formando uma espécie de bando de gaivotas saltitantes à sua volta. Ele era "o rapaz mais popular" da Escola.

Ele costumava passar os intervalos no Bar, namoriscando as varias raparigas que esvoaçavam alegres ou implicando com os que, para seu grande espanto, não faziam parte dos satélites da sua órbita.

Ela passava os intervalos mais ou menos sozinha, vagueando pelos espaços livres, tentando ao máximo passar despercebida num mundo que não entendia e ao qual sentia não pertencer.

Naquele dia ela foi ao Bar comprar a senha do almoço, ele estava à porta com as suas gaivotas, satélites irrequietos em movimentos elípticos em volta dele. Ela conhecia-o, era impossível não saber quem ele era, todos o conheciam. Ele nunca tinha dado conta da existência dela.

O "rapaz mais popular" descobria a "rapariga nova" da escola e queria-a para a sua colecção de troféus.

Naquele dia, quando ela entrou no entrar no Bar, com o seu ar tímido e gestos cautelosos, ele decidiu que a queria beijar. Agarraram-na e levaram-na até ele, dizendo-lhe que como "rapariga nova" da escola tinha de ser submetida a uma espécie de ritual de iniciação e, quer quisesse ou não, ele ia dar-lhe um beijo.

Chegada ao pé dele, resolveu soltar-se dos satélites, arrumar a timidez na mochila pesada que trazia às costas e mostrar-lhe que quem daria um beijo seria ela a ele. Não era uma gaivota do seu bando e não seria agarrada por uns parvos que daria, o que afinal era mesmo o seu primeiro beijo. Soltou-se das mãos que a agarravam, inspirou e, olhando bem fundo aqueles olhos azuis espantados, deu-lhe um beijo, virou-lhe as costas e saiu apressadamente do Bar, tentando não perder a compostura.

Nos dias seguintes tentou ser ainda mais transparente, não ir ao Bar, não almoçar na cantina e evitar ao máximo as gaivotas e os satélites que esvoaçavam um pouco por toda a escola. Não passou muito tempo até que os caracóis loiros viessem ter com ela. Como se escondido, como se clandestino chegou-se a ela e abriu aqueles olhos azuis claros agora interrogativos, quase suplicantes.

Ela era uma rapariga bem comportada, aprendia a viver num mundo ao qual sabia não pertencer; ele tinha más notas e um monte de amigos tontos que o seguiam como um bando de gaivotas. Ela deixou de ser a "rapariga nova" e ele continuou a de ser o "rapaz mais popular" da escola (até as gaivotas encontrarem novo sol) e tudo voltou ao normal na Escola secundária de um bairro periférico de Lisboa...

O namoro teve a duração de um beijo, mas acompanharam-na para sempre aqueles olhos azuis claros numa moldura de caracóis dourados. E, ainda que hoje já não brilhem, para ela estarão sempre guardados no seu álbum de recordações.

Liliana Lima 17/02/2009
(*Para o Luís que, por fazer parte daquele mundo, se deixou envenenar
até fechar para sempre os olhos azuis claros numa moldura de caracóis dourados...)


"Congresso de gaivotas neste céu

Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.

Querela de aves, pios, escarcéu.

Ainda palpitante voa um beijo.


Donde teria vindo! (Não é meu...)

De algum quarto perdido no desejo?

De algum jovem amor que recebeu

Mandado de captura ou de despejo?


É uma ave estranha: colorida,

Vai batendo como a própria vida,

Um coração vermelho pelo ar.


E é a força sem fim de duas bocas,

De duas bocas que se juntam, loucas!

De inveja as gaivotas a gritar..."


Alexandre O'Neill (O Beijo in 'No Reino da Dinamarca')

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Também sonhas acordado, Pablo?!


Naquela manhã ela saiu confiante, o céu estava limpo de um azul claro alegre. Tinha acordado cedo, ou melhor cedíssimo. Demorara a arranjar-se, vestiu-se e despiu-se várias vezes, vários conjuntos, até que optou não pelo mais novo, não pelo mais elegante... apenas pelo que gostava mais, o que a fazia sentir-se mais ela. O mais importante de tudo, afinal, tinham sido mesmo os sapatos, vermelhos. Toda a indumentária andara à volta deles, as combinações de cores, se saia, se calças... tudo girara em torno dos sapatos vermelhos. E agora já estava, já tinha saído, o dia sorria-lhe e ela estava confiante!


Os dias anteriores tinham sido decisivos para aquela atitude. Sair àquela hora, naquela manhã, com aqueles sapatos, não eram coincidências ao acaso, era algo estudado, pensado, reflectido e sentido.


Há três ou quatro semanas tinha-se encontrado com um antigo colega de escola, foi uma surpresa de outro colega comum. E que surpresa! Já não se viam há quê?! 15 anos?! Sim, por aí, no mínimo 15 anos. "Estás na mesma! Conhecia-te à légua!" As perguntas da praxe, onde andas, que tens feito, estás casada, tens filhos?... As respostas parecidas, os percursos mais ou menos previsíveis. Até que ele fez uma pergunta, tão inocente, tão banal... "Que fazes na vida?" e a resposta ainda mais banal... "Sou contabilista". A cara dele reflectiu o seu espanto, a sua surpresa e a sua estranheza... "Contabilista? Tu? O que te aconteceu?! Perdeste-te no caminho?!" A conversa continuou, desviada para os filhos, os maridos, as mulheres, e as lembranças dos três adolescentes a viver as primeiras descobertas da vida.


Depois do almoço, os "Temos de combinar mais vezes" seguiram-se e todos prometeram combinar um novo almoço com as famílias respectivas mas, claro, nenhum cumpriu a promessa... as canseiras da vida não o permitiram.


No entanto, a cara de espanto dele não lhe saía do pensamento. Aquela pergunta ecoava na cabeça dela noite e dia como um relógio de igreja que pontualmente toca de 15 em 15 minutos e à hora certa acerta as batidas com o número de horas que anuncia. "Perdeste-te no caminho?!" Respondia sozinha, fazia diálogos inteiros de si para si, entoando varias desculpas. Desculpas não! Razões! Razões válidas para opções válidas que fizera na vida. Primeiro o casamento, depois os filhos, depois ainda o casamento e sempre os filhos... Será que se perdera?! No meio de tantas razões válidas, ter-se-ia perdido?!


As noites ficaram cada vez mais brancas e as questões cada dia mais negras. De repente parecia que o mundo se tinha virado de pernas para o ar e ela, fazendo o pino, procurava a sua essência, o que a fazia sorrir por dentro, encher-se de energia e vontade de viver de novo, com cambalhotas se tal fosse necessário, mas viver completa e intensamente. Mas sempre as razões tão válidas, tão importantes, tão prementes, que a faziam voltar ao eixo e andar direita, sem curvas ou pinos.


Aqueles dias foram decisivos para, naquela manhã, estar a sair de casa assim, com os seus sapatos vermelhos, a sua camisola preferida e as calças de ganga de que tanto gostava. Foi durante aqueles dias, entre o tal almoço com o colega de escola e aquela manhã, que se encontrou. Não foi fácil a descoberta, tivera de procurar muito, levantar muita poeira, sacudir as razões, beliscar as certezas, questionar as opções. Mas encontrara-se, dentro de um baú velho, cheio de recortes e recordações.


Depois de se ter encontrado, nada tornou a ser como antes. É claro que sempre os filhos, é claro que ainda o marido e o emprego, e a família. Estava tudo lá, mas ela tinha mudado (ou talvez não), ela tinha tomado consciência de si, do seu sonho, da sua essência.


Naquela manhã saiu confiante, o céu estava limpo de um azul claro alegre e ela sabia exactamente por onde seguir. Não fazia a mínima ideia de onde ia chegar, ou como seria o caminho, ou quando chegaria ao fim. Mas naquela manhã, com a roupa que a fazia sentir-se mais ela e os sapatos vermelhos, ela tinha a certeza absoluta, sem sombra de dúvida, que o caminho era aquele e foi aí, nessa esquina, que ela virou, o dia sorria-lhe e ela estava feliz!



Liliana Lima 13/02/2009

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"Morre lentamente quem não viaja,
Quem não lê, quem não ouve música,
Quem destrói o seu amor próprio,
Quem não se deixa ajudar

Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajecto, quem não muda as marcas no supermercado, não arrisca vestir uma cor nova, não conversa com quem não conhece. Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o “preto no branco” e os “pontos nos is” a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos. Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos. Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projecto antes de iniciá-lo, não tentando um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o simples acto de respirar. Estejamos vivos, então!"



Pablo Neruda

terça-feira, fevereiro 10, 2009

O que te diz a conchinha, Celly?

Trouxe-te uma concha da praia, sabias? Não, claro que não. Nunca ta cheguei a dar... Apanhei-a nas férias à beira-mar, meia enterrada na areia. Pensei que estava partida, como a maioria, mas estava tão bonita, tão perfeita... Como nós (naquela altura parecíamos tão perfeitos um para o outro...) meio enterrados na areia das emoções, inundados pelas ondas de um amor impossível.
Guardei-a no saco, ao lado dos cremes e da toalha. Limpei-a, lavei-a e embrulhei-a para ta dar no reencontro. Andou sempre comigo durante as férias, era como se guardasse um pouco de nós. Separava-nos um mar imenso, mas a maré trouxera-me um pouco de ti e, eu guardava-te junto a mim.
Assim que voltei, procurei-a, tirei-a do saco, limpei-a mais uma vez, pensei como ta iria dar, o que te iria dizer, como explicar que ela era tão bonita, tão perfeita... como nós (naquela altura parecíamos tão perfeitos um para o outro...) mas quando olhei para ela o encanto perdera-se, o brilho do mar já lá não estava... não dei importância pensei que era impressão minha, estava com pressa, tinha saudades, queria ver-te, falar-te, estar contigo...
Trouxe-te uma concha da praia, sabias? Limpei-a, lavei-a e guardei-a para te dar no reencontro. Mas tu não apareceste, o reencontro não existiu e a concha passou a ser só mais uma concha, meia gasta à força das ondas... como nós (gastos da força das ondas que não nos deixaram atracar na margem).
Agora, sempre que vou à praia, trago a mais bonita concha que encontrar, limpo-a e lavo-a. Guardo-a comigo até as férias acabarem e, ao voltar, prendo-a num colar que trago nos dias alegres de Verão.
Pode ser que me engane, mas acho que um dia vou-te encontrar, numa praia com uma concha na mão, que de tão bonita, tão perfeita, sem saberes bem porquê, te faz pensar em nós...
Liliana Lima 10/02/2009







"(...)

A conchinha caiu n'água

mergulhei para buscar

mas o amor que estava dentro

escapuliu, ficou no mar


e os peixinhos que passavam

então levaram o nosso amor

e agora o mart

em mais peixinhos a nadar."


Celly Campelo

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Vem sentar-te ao meu lado, Ricardo...

Escuta... senta-te ao meu lado e vê somente o passar das águas. Não tenhas pressa. Tenho tanto para dizer...

Sente como a brisa embala os ponteiros que nos fazem correr e apazigua a corrente que nos torna inquietos. Atreve-te, tira os sapatos que não param de dançar, molha os pés na água morna e deixa-te levar pelo calor do sol.

Digo-te devagar "sente como a água nos convida a parar" mas olhas através de mim, não vês os reflexos na água, não ouves a brisa, procuras sem cessar o caminho para a outra margem.

Escuta... senta-te ao meu lado, trago tanto para contar... Se ao menos me ouvisses. Não chegamos à outra margem sem entender a canção do vento, só ele sabe quando chegou o tempo certo para avançar.

"Há um tempo certo para chegar à outra margem"... repetes em círculos, como num remoinho. Não me ouves. Sentas-te mas procuras nas palavras os caminhos certos que são os errados. Molhas os pés, mas não deixas que a água te aqueça.

Escuta... senta-te ao meu lado e vê somente o passar das águas. Ouve o que digo, sem pressa, d e v a g a r . . .

Sente o calor do sol e deixa-te aquecer. O meu tempo sabe parar. Deixa-me conduzir-te pela canção do vento. Não tenhas pressa, não queiras fugir.

Escuta... nesta margem, o tempo convida a parar. Atreve-te, tira os sapatos e molha os pés nas águas mornas da minha margem. Sentes como a brisa embala os ponteiros que nos fazem correr e apazigua a corrente que nos torna inquietos?

Já chegaste. Não procures por mim, estou aqui, sou a água que te molha, a brisa que canta, o sol que te aquece. Trago tanto para contar... Enrola-te, aconchega-te, encontra o teu colo em ti.

Agora, escuta... ouve-te... olha-te... e sente-te... Trazes tanto para te contar!...


Liliana Lima 06/02/2009


"Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.

Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos

Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.

(Enlacemos as mãos.)



Depois pensemos, crianças adultas, que a vida

Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,

Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,

Mais longe que os deuses.


Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.

Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.

Mais vale saber passar silenciosamente

E sem desassossegos grandes.



Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,

Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,

Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,

E sempre iria ter ao mar.


Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,

Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,

Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro

Ouvindo correr o rio e vendo-o.



Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as

No colo, e que o seu perfume suavize o momento —

Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,

Pagãos inocentes da decadência.



Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois

Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,

Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos

Nem fomos mais do que crianças.


E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,

Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.

Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,

Pagã triste e com flores no regaço. "


Ricardo Reis - "Vem sentar-te comigo, Lídia"

12/06/1914

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Afinal o que são as memórias, Luís?


Deixa-te estar assim, não digas nada, não te mexas na foto da minha memória... Deixa-te estar com esse sorriso, com esse carinho na mão, com esse calor nas minhas recordações...

Não te apresses, não te expliques, não te descomponhas. Quero-te assim no meu álbum das lembranças. Com esse movimento vagaroso das tardes de verão, com os olhos nos meus ainda sem mágoas nem despedidas.

Deixa-te estar assim com esse sorriso, com esse carinho que me aquece as recordações.

Que importa se depois o adeus e depois o ainda e depois novamente o adeus. Que importa se depois os olhos já longe fugindo dos meus. Que importa se depois as mágoas, as frustrações e o abandono.

Deixa-te estar, não te mexas, quero-te assim nas minhas lembranças. Não digas nada, que eu oiço ainda as palavras que me aqueceram o corpo. Não faças nada que eu danço ainda a valsa dos sonhos impossíveis.
Deixa-te estar, assim com o Tejo como cenário e um jardim como refúgio. Não te mexas, não digas nada. Sempre achei que na cantiga (*) as memórias eram como índios escondidos no bosque... é lá que te quero, no bosque da minha imaginação escondido dos silêncios.
Deixa-te com esse sorriso... É assim que te quero lembrar, meigo, carinhoso, o "cavaleiro andante" (**) do meu mundo de aventuras.
Procuro a fórmula mágica que me ensinou um velho saltimbanco, digo as cantilenas mal ensaiadas e manipulo a memória deixando apenas as palavras, os fins de tarde, o calor do sol, os olhares cúmplices, os caminhos partilhados. Pego no resto e guardo num saco que fecho com fio de lã colorido. Subo ao cimo da montanha mais alta e, num dia de vento solto as lágrimas abafadas no saco. Solto-te no ar como um balão que voa mais alto e mais alto até que se perde no azul do céu. Deixo-te ir, aceito os adeus e os silêncios e as pequenas frustrações e as mágoas...
Volto ao jardim e ao Tejo num dia de verão e, por momentos, retiro-te do álbum onde te guardo junto ao coração.

Liliana Lima 04-02-2009


Com "Memórias de um beijo" (*) de Luís Represas no ouvido (aqui num post antigo).
(**) Referêcia a "Cavaleiro Andante" do Rui Veloso

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

De que cor são os teus olhos, Jobim?


Saio de casa atrasada, qual coelho da Alice correndo atrás dos ponteiros irrequietos do relógio. O dia está triste, o sol espreita mas não consegue derreter o muro de nuvens espalhadas pelo céu.

Desço a avenida, com um sapato calçado e outro ainda na mão, saltitando ao pé coxinho até o calçar. Ao fundo o Tejo acompanha a minha correria, em pequenas ondulações que o despenteiam e agitam. Paro para o cumprimentar.

As nuvens abafam a luz e cor das águas mergulha indecisa, entre o cinza e o azul. Esqueço-me dos ponteiros que giram ao som dos carros e olho demoradamente as águas procurando a cor azul dos olhos do meu avô. Alternam-se o cinzento e o azul das águas com o passar da brisa e da corrente que as faz dançar.

Todos diziam que os teus olhos eram cinzentos, mas são azuis. São azuis da cor das manhãs de primavera! São azuis da cor do cheiro do verão e do mar! São azuis da cor dos sonhos impossíveis!

Sabes? Tenho saudades do azul dos teus olhos, por muito que todos digam que eram cinzentos, para mim eram azuis, de um azul vivo, alegre.

Seria o azul dos teus olhos somente para mim? Gostava de pensar que o guardavas só para mim, escondido entre o cinzento que mostravas ao resto do mundo!

E, no entanto, aqui estão eles, alternando entre o cinzento e o azul, como as águas do Tejo que dançam com a brisa e a corrente... Mostra-me o azul do teus olhos só meu!
Não tenho pressa, posso esperar...

Esperemos os dois pela hora certa, enquanto os carros de um lado para outro atrás dos ponteiros irrequietos como o coelho da Alice...
Tenho tempo. Para ti, para o teu azul meu, azul dos teus olhos.

Fico aqui, sentada à beira-rio, esperando que o sol me devolva o azul do Tejo dos meus olhos do meu avô.

Liliana Lima 02/Fev/2009

"Esse teu olhar
Quando encontra o meu
Fala de umas coisas que eu não posso acreditar...
Doce é sonhar, é pensar que você,
Gosta de mim, como eu de você...
Mas a ilusão,
Quando se desfaz,
Dói no coração de quem sonhou,
Sonhou demais...
Ah, se eu pudesse entender,
O que dizem os seus olhos."
Tom Jobim