
quinta-feira, janeiro 29, 2009
O que te diz o espelho, David?

segunda-feira, janeiro 26, 2009
Como é uma 'Pessoa' tranquila, Fernando?
"Ela ia, tranquila pastorinha,
domingo, janeiro 25, 2009
Contas-me um segredo, Júlio?
Lembras-te daquela caixa metálica, muito velha e ferrugenta que a avó guardava na última prateleira da dispensa? Dei com ela nas arrumações das tralhas, estava atrás das conservas fora de prazo, do arroz com bicho e do garrafão de água já amarelada que, zelosamente, mantinha para o caso de uma catástrofe desabar sobre Lisboa. Quando a tirei tive uma vontade imensa de a abrir e finalmente descobrir os segredos que há tantos anos encerra... mas não o fiz, contive-me. Houve algo que me impediu de o fazer, um sentimento de traição parecia espreitar da tampa da velha caixa.
Decidi esperar por ti. Guardei-a, imaculada, tal e qual como quando a descobri, pronta para desvendar os mistérios que nos povoaram a imaginação infantil e que nos insprirarm nas tardes chuvosas de Inverno e nas noites quentes de Agosto. Tantas histórias inventámos, para justificar os segtredos fechados naquela caixinha azul, desde amores impossíveis, heranças escondidas a herdeiros secretos... Está tudo aqui, nesta caixa metálica muito velha e ferrugenta, agora no meu colo, tão frágil, tão simples, tão banal.
Decidi esperar por ti, afinal os segredos da caixa da avó acompanharam-nos a infância, fazem parte do nosso imaginário. Era-nos quase impossível pensar a avó sem nos lembrarmos da sua misteriosa caixa, escondida, inviolável e inacessível. E agora no meu colo, convidativa, provocadora, quase a dizer-me baixinho "abre-me... desvenda o mistério..."
Lembras-te daquela caixa metálica, muito velha e ferrugenta que a avó guardava na dispensa? Descobri-a, tive uma vontade enorme de a abrir, mas depois decidi esperar por ti.
Tive-a no meu colo horas, minutos, séculos, nem sei... Olhei-a, virei-a, lembrei as histórias que inventámos em torno do seu conteúdo. Esperei por ti. Mas não vieste a tempo...
Decidi devolvê-la à avó, afinal os seus segredos eram dela e assim devem ficar para sempre, sugestivos, misteriosos, desconhecidos... Só assim permanecerão na nossa memória com a magia das histórias inventadas, onde o importante vai muito além do desvendar da realidade.
Liliana Lima 09-11-2005
%2B031.jpg)
desmaia: a palavra
torna-se pele
sem leão lá dentro.
Não é mais segredo e não o sendo
finge ser lembrança
de fabrico imperfeito:
um cliqueti no silêncio escancara
a dantes inamovível porta
e virada a página acha-se apenas
uma moeda
que não corre já. "
(in "TRATAdoDITOeFEITO")
quarta-feira, janeiro 21, 2009
Bora lá fugir à rotina Drummond?
- Peço-te por todos os santinhos... não inspires...
Por favor, tem piedade! Não haverá nessa inconsequente saliência, nesse dois orifícios redondos, um pingo de decência?!?!- Ó querida... ó princesa... ó lindinha... Olá! Isso mesmo, um sorrizo lindo p'ró vizinho aqui de baixo!

"A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora - murmura a bunda - esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.
A bunda são duas luas gémeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.
A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.
Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda
redunda."
segunda-feira, janeiro 19, 2009
Estás aí Manuel?!
*********************************************************
"Há muito tempo
era uma vez
um homem que se perdeu
da sua amada
e vagueou
por entre as nuvens do céu.
Perguntou à mais pequenina
se a tinha visto ao passar
depois à nuvem mais carregada
nenhuma o podia ajudar.
E assim passou tanto tempo
tecendo mil planos
em fios de algodão
que se desvaneciam
em nuvens no seu coração.
Todas as nuvens
da sua rua
foram à sua janela
escureceu, adormeceu
ficou a sonhar com ela.
E o mau tempo passou
o sol despontou
numa festa de cor
de manhã todas as flores
sabiam de cor
onde estava o seu amor."
sábado, janeiro 17, 2009
O que ouves no silêncio, Eugénio?

"Quando a ternura
quinta-feira, janeiro 15, 2009
No dia em que 'eu olhei para ti', José Mário...
Um dia olhei para ti, olhei...

****************************************************************************
"Quando o avião aqui chegouquando o mês de Maio começou
eu olhei para ti
então entendi
foi um sonho mau que já passou
foi um mau bocado que acabou
Tinha esta viola numa mão
uma flor vermelha n'outra mão
tinha um grande amor
marcado pela dor
e quando a fronteira me abraçou
foi esta bagagem que encontrou
Eu vim de longe
de muito longe
o que eu andei p'ra'qui chegar
Eu vou p'ra longe
p'ra muito longe
onde nos vamos encontrar
com o que temos p'ra nos dar
E então olhei à minha volta
vi tanta esperança andar à solta
que não exitei
e os hinos cantei
foram feitos do meu coração
feitos de alegria e de paixão
Quando a nossa festa s'estragou
e o mês de Novembro se vingou
eu olhei p'ra ti
e então entendi
foi um sonho lindo que acabou
houve aqui alguém que se enganou
Tinha esta viola numa mão
coisas começadas noutra mão
tinha um grande amor
marcado pela dor
e quando a espingarda se virou
foi p'ra esta força que apontou"
Eu vim de longe - José Mário Branco
domingo, janeiro 11, 2009
Sonho de uma tarde de verão...
**********************************************************************
"Sonhei que estava um dia em Portugal
À toa num Carnaval em Lisboa
Meu sonho voa além da poesia
E encontra o poeta em Pessoa
A língua míngua e a língua Lusitana
Acende a chama e a palavra luzia
Na via pública e em forma música
Lúzia das lusíadas, lúzia!"
"Sonhei que estava um dia em portugal" de Morais Moreira
(Cantado pela Cristina Branco em Ulisses)
sexta-feira, janeiro 09, 2009
Onde está o corrimão da vida, David?
Que nos sonhos flutuam
E sem sabermos a razão
Subimos a escada
E vemos a vida
Descer em corrida pelo corrimão
Deixando o coração a secar na ruína
Procuramos a fuga numa escada em espiral
Até nos vermos de volta ao ponto inicial...
LL 14/12/2006

******************************************************
E que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
Mas nunca passa do chão.
Os degraus, quanto mais altos,
Mais estragados estão,
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
O lastro do coração.
quarta-feira, janeiro 07, 2009
Quem tens do lado de lá do arco-íris, Dorothy?
Mas não era bem isso que a fazia chorar.
Na verdade ela não chorava por ele, nem pela falta que ele lhe fazia, mas por ela própria, pelo vazio que sentia ao olhar o espelho e ver que estivera sempre sozinha.
LL Jan/2009

domingo, janeiro 04, 2009
Sou o que sou, Gloria?!
Guardamos histórias das pessoas que passam pelas nossas vidas, como fotografias que espelham o que mais nos marcou, no filme da memória. Com passar do tempo, essas personagens que fomos criando, fundem-se com as lembranças que ficam e tornam-se na verdadeira pessoa, a "nossa" pessoa. E essa versão pode estar incompleta (estará sempre, com toda a certeza), pode até às vezes fugir à verdade, mas é baseada na convivência que tivemos, no que se partilhámos, nas palavras que trocámos, nas ideias que focámos, nos pequenos gestos, nos momentos em conjunto. E na verdade o que fica na memória, depois da areia que corre na ampulheta, acaba por ser, pelo menos para nós, o mais verdadeiro espelho daquela pessoa.
Da história do Tóni só sei flashes, pequenos episódios contados por ele, mas o "meu" Tóni tem muitas histórias para contar. Todos os fins-de-ano me lembro dele e este não foi excepção. Lembro-me porque foi o primeiro Iemanjá que conheci (o primeiro e o único, para dizer a verdade) e todos os anos, na noite da passagem do ano, vestido de branco, ia até à praia para saudar a "rainha das águas" com um banho de mar.
Era cabeleireiro no Brasil, antes de atravessar "tanto mar" e desembarcar em Lisboa. Ainda o continuou a ser por cá durante uns tempos, lembro-me de me ter cortado o cabelo num cabeleireiro num Centro Comercial muito ranhoso, ali para os lados do Jardim Constantino, eu queria ter caracóis mas os cabelos teimavam em permanecer escorridos como esparguete; "Seu cabelo precisa de uma permanente tipo carapinha, durante uns dias fica horrível, mas depois sim, vai ficar linda!" Não cheguei a experimentar, ele deixou o cabeleireiro e eu decidi aceitar o destino e, com ele, os cabelos escorridos.
Era um homem pouco bonito, baixo, com cabelo encaracolado (mesmo sem permanentes), mas tinha uns olhos lindos, muito expressivos, com um quê de mágoa bem lá fundo. Era meigo e carinhoso, tinha aquele à vontade dos povos do "lado de baixo do Equador" que lhes permite expressar-se com o corpo sem qualquer tipo de segundas intenções, porque um abraço ou uma mão que se agarra à nossa são, tantas vezes, nada mais que isso mesmo. Lidava connosco como se fizéssemos parte da família dele, nunca percebi bem se fomos nós que o adoptámos ou se foi ele nos adoptou, mas a verdade é que até o mais conservador da família o acabou por aceitar, bem talvez isso seja dizer demais, fiquemo-nos pelo verbo tolerar.
Apesar de pouco bonito como homem, o Tóni era uma mulher bastante interessante e, uma das coisas que mais me marcou nele (para mim será sempre ele) foi o espectáculo que tantas vezes vi no extinto Bar "Praça das Flores" em que, ao som do "I am what I am", ele entrava em palco vestido de mulher e, aos poucos se desmaquilhava, despia, voltava a vestir e acabava de fato e gravata.
Esta capacidade de ser verdadeiramente fiel a si mesmo e, sem receios, o mostrar ao mundo era a melhor qualidade do "meu" Tóni! Todos os fins-de-ano me lembro dele e penso como seria eu no fim do seu espectáculo onde, ao som do "I am what I am" eu entrasse vestida com a minha "pele" do dia-a-dia...
(*) Tanto Mar - Chico Buarque
(**) Não existe pecado ao sul do equador - Chico Buarque
LL Jan/2009
***************************************************************
I am my own special creation
So come take a look
Give me the hook
Or the ovation
It's my world
That I want to have a little pride
My world
And it's not a place I have to hide in
Life's not worth a dam
Till I can say I am what I am
I am what I am
I don't want praise I don't want pity
I bang my own drum
Some think it's noise I think it's pretty
And so what if I love each sparkle and each bangle
Why not see things from a different angle
Your life is a shame
Till you can shout out I am what I am
I am what I am
And what I am needs no excuses
I deal my own deck
Sometimes the aces sometimes the deuces
It's one life and there's no return and no deposit
One life so it's time to open up your closet
Life's not worth a dam till you can shout out
I am what I am
I am what I am
And what I am needs no excuses
I deal my own deck sometimes the aces sometimes the deuces
It's one life and there's no return and no deposit
One life so it's time to open up your closet
Life's not worth a dam till you can shout out
I am what I am
I am I am I am good
I am I am I am strong
I am I am I am worthy
I am I am I belong
I am I am I am useful
I am I am I am true
I am I am somebody
I am as good as you
Yes I am"
sexta-feira, janeiro 02, 2009
O que perfuma a tua vida, José Eduardo?!

Fernando nasceu numa adeia do interior numa casa típica onde, devido à proximidade com os animais, que estavam nas lojas do rés-do-chão, tudo cheirava a eles. Não guardou consigo qualquer recordação de infância que não tivesse impregnada daquele cheiro das cabras e dos dois porcos que, nos primeiros anos da sua vida, moraram com ele.
Aos seis anos, e até ao fim do liceu, foi para o Seminário de Gouveia estudar. Quando lá chegou não foi a grandeza dos dormitórios ou a limpeza dos balneários que o espantaram, foi o cheiro daquele edifício, todos os armários, gavetas, roupeiros, arcas e até mesmo debaixo de cada colchão (e eram muitos os colchões num seminário com mais de 150 meninos...) em todo o lado havia saquinhos de Alfazema. Era apanhada ali mesmo, nos campos do Seminário, depois de seca era guardada em saquinhos de linho atados com um laços de varias cores. Aqueles botões de Alfazema enchiam o ambiente, entravam nas paredes e perfumavam o edifício de tal forma que, quando ia a casa de visita, às perguntas normais da mãe (a comida é boa? tratam-te bem?) Fernando respondia sempre com o bem que cheiravam os quartos, as salas, os corredores e até os campos.
Mais tarde optou por continuar a estudar, queria ser advogado. Para isso, e como orçamento familiar não permitia suportar sonhos desse calibre, arranjou um emprego como padeiro em Coimbra. De noite fazia o pão e de dia estudava. Toda a sua vivência nesta cidade se resumia a estes dois lugares, a Padaria e a Universidade. O seu ofício, aprendeu-o com facilidade e, rapidamente, passou de aprendiz a Mestre Padeiro. O cheiro do fermento misturado com o aroma do forno a lenha entranharam-se nele de tal forma que se convenceu que onde quer que fosse todos sabiam que era Padeiro somente pelo seu cheiro.
Finalmente acabou o curso e, para grande orgulho da sua família, lá se estabeleceu como Advogado no Cartório Notarial de Moimenta da Beira. O seu gabinete ficava no fundo do edifício, mesmo ao lado do arquivo e o cheiro a pó e papel velho infiltrou-se nas roupas , na carne e até nos ossos de Fernando, até que todos o passaram a conhecer como "Rato de Biblioteca", nome que, nos dias em que estava bem disposto até ele usava para se referir a si mesmo.
Na verdade, depois da reforma Fernando não ficou muito mais tempo para descobrir novos cheiros, foi como um botão de flor arrancado, que aos poucos deixa cair todas as pétalas até murchar por completo. Quando as suas sobrinhas foram limpar a casa e guardar os seus pertences, encontraram em todos os móveis, gavetas, roupeiros, arcas e até mesmo debaixo do colchão saquinhos de linho, com laços de varias cores cheios Alfazema, plantada ali mesmo no jardim pelo seu tio Fernando.
LL Nov/2005