quinta-feira, janeiro 29, 2009

O que te diz o espelho, David?

Ele olhou-a de soslaio, lá do fundo do quarto, na parede em cima da cómoda. Ela saía do banho e vinha apenas com a toalha amarela com riscas azuis enrolada à cabeça, como um grande cacho de frutas que cantavam "o que é que a baiana tem...".

Ligou o radio em cima da cabeceira empoeirada e, ao ritmo de uma qualquer música da moda, balanceava o corpo enquanto tirava peças de roupa ao acaso de dentro da mala de viagem enchendo a cama num emaranhado de camisolas, soutiens, saias, blusas, cuecas e casacos, que escolhia, experimentava e novamente despia, num frenesim de feira em plena actividade.

Tinha saudades dela! Há quanto tempo não a tinha assim, só para ele, para seu deleite. Olhava para ela e lembrava os dias, anos, em que fora, de facto, o seu companheiro de quarto. Horas que passaram a olhar um para outro, olhos nos olhos, comungando da mais profunda cumplicidade.

Algo mudara durante a sua ausência, estava mais desinibida, já não tinha vergonha de o olhar assim, despida, antes parecia provocá-lo propositadamente com aquele desfile bamboleante em trajes menores.

Ah! Quanto tempo o deixara ali, sozinho. Há quanto tempo não via aquela toalha a cantar "o que é que a baiana tem..."! Há quanto tempo não sentia aquele nervosismo ritmado ao som da música, que parecia aumentar de volume cada vez que ela se aproximava e o olhava tão fixamente, quase através dele...

Havia, no entanto, uma certa amargura na sua expressão, uma mágoa que lhe entristecia o olhar como a névoa que paira sobre o Tejo nas manhãs de Outono. O seu corpo dançava "como sempre, como antes", mas os seus olhos denunciavam uma inquietação nova, que ele desconhecia. Havia nela algo de novo, já não era a rapariga que crescera com ele, era uma mulher decidida, desinibida, desiludida talvez, mas com vontade de viver, de se recriar. Lia-o no seu corpo, nos seus gestos.

O espelho olhou-a de soslaio, lá do fundo do quarto, na parede em cima da cómoda. Estava vestida e continuava a balancear-se ao som da música do rádio enquanto arrumava o caos de roupa em cima da cama. Não ia ficar. Viera de passagem, como o Sol que espreita por entre as nuvens num dia cinzento de inverno. O som do rádio distorcia-se por entre as interferências da sua saudade... Não ia ficar!

Olhou-a com todas as suas forças, tentando vislumbrar até na esquina ao pé da porta que quase não conseguia reflectir. Queria guardar o mais possível dela, marcar a sua imagem dentro de si para os dias repetidos de vazio.

Chegou o momento, a mala estava pronta, o casaco vestido, o cabelo penteado. Aproximou-se dele e olhou-o demoradamente, suspirou, tirou do bolso o baton, pintou os lábios e antes de sair deu-lhe um beijo vermelho vivo que o marcou bem no centro de todas as emoções.


Liliana 29/01/2009




"Só de espelhos o crânio mobilado

Um corpo de mulher posto no centro

Outro jogo de espelhos lá por dentro

O meu crânio no centro colocado"


(David Mourão Ferreira)

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Como é uma 'Pessoa' tranquila, Fernando?


Não, não me peças tranquilidade como quem pede um copo de água. Não nasci com o dom da calma.

Como gostava de ser uma rapariga tranquila! Procuro, vasculho a mala à procura da calma prometida num fraquinho de berlindes. Não encontro. Tento a todo o custo manter o controlo, paro de falar, inspiro, simulo uma calma falsa diminuindo drasticamente a velocidade dos meus gestos.

Sento-me no cadeirão de verga virado para a janela e procuro o azul do Tejo. O dia está cinzento, carregado, ao fundo avisto o arco-íris esbatido nas nuvens escuras. Mordo a língua com vontade de gritar e em vez disso repito baixinho, pausadamente:

Não me peças tranquilidade como quem pede um copo de água.
Olhas-me de raspão, procuro entender o que dizem os teus olhos mas foges-me. A sala estica-se e eu cada vez mais afastada de ti. Como gostava de ser uma rapariga tranquila!

O bebé trepa por mim sem se importar com os remoinhos que atravessam o meu corpo. Não tenho calor para lhe dar, não me peças colo, digo em silêncio. E a sala a alongar mais e mais enquanto afasto o bebé e os teus olhos e o teu silêncio e a ti encostado à porta com as mãos nos bolsos sem saberes o que fazer (de mim). Como gostava de ser uma rapariga tranquila!

Desvio o olhar para o rio e as listas de aguarela escorreram e tingiram as águas que se baloiçam, e se misturam num arco-íris líquido que beija a cidade. Procuro a tua mão, os teus olhos, estás longe, não me ouves lá ao fundo. Vejo a mala, levanto-me e procuro novamente os berlindes que prometem tranquilidade, estou tão perto... será que não me ouves? Como gostava de ser uma rapariga tranquila!

Olhas para mim sem expressão, sei que procuras acalmar-me com o teu silêncio. Tento chamar-te, contar-te o quanto preciso que me toques, que me abraces, que me dês a mão. E a sala a alongar, a aumentar a distância entre nós, quilómetros e quilómetros de água colorida que entra pela janela. Eu em silêncio a chamar-te e tu em silêncio para me acalmares.

O bebé corre entre os dois, divertido com os brinquedos espalhados pelo chão. Não te vejo e sinto-me sozinha. Como gostava de ser uma rapariga tranquila!

Liliana Lima 26-01-2009
("Pessoa à janela" - Dali)

"Ela ia, tranquila pastorinha,
Pela estrada da minha imperfeição.
Segui-a, como um gesto de perdão,
O seu rebanho, a saudade minha...

'Em longes terras hás de ser rainha'
Um dia lhe disseram, mas em vão...
Seu vulto perde-se na escuridão...
Só sua sombra ante meus pés caminha...

Deus te dê lírios em vez desta hora,
E em terras longe do que eu hoje sinto
Serás, rainha não, mas só pastora

Só sempre a mesma pastorinha a ir,
E eu serei teu regresso, esse indistinto
Abismo entre o meu sonho e o meu porvir... "

"Ela ia, tranquila pastorinha" - Fernando Pessoa

domingo, janeiro 25, 2009

Contas-me um segredo, Júlio?


Lembras-te daquela caixa metálica, muito velha e ferrugenta que a avó guardava na última prateleira da dispensa? Dei com ela nas arrumações das tralhas, estava atrás das conservas fora de prazo, do arroz com bicho e do garrafão de água já amarelada que, zelosamente, mantinha para o caso de uma catástrofe desabar sobre Lisboa. Quando a tirei tive uma vontade imensa de a abrir e finalmente descobrir os segredos que há tantos anos encerra... mas não o fiz, contive-me. Houve algo que me impediu de o fazer, um sentimento de traição parecia espreitar da tampa da velha caixa.


Decidi esperar por ti. Guardei-a, imaculada, tal e qual como quando a descobri, pronta para desvendar os mistérios que nos povoaram a imaginação infantil e que nos insprirarm nas tardes chuvosas de Inverno e nas noites quentes de Agosto. Tantas histórias inventámos, para justificar os segtredos fechados naquela caixinha azul, desde amores impossíveis, heranças escondidas a herdeiros secretos... Está tudo aqui, nesta caixa metálica muito velha e ferrugenta, agora no meu colo, tão frágil, tão simples, tão banal.


Decidi esperar por ti, afinal os segredos da caixa da avó acompanharam-nos a infância, fazem parte do nosso imaginário. Era-nos quase impossível pensar a avó sem nos lembrarmos da sua misteriosa caixa, escondida, inviolável e inacessível. E agora no meu colo, convidativa, provocadora, quase a dizer-me baixinho "abre-me... desvenda o mistério..."



Lembras-te daquela caixa metálica, muito velha e ferrugenta que a avó guardava na dispensa? Descobri-a, tive uma vontade enorme de a abrir, mas depois decidi esperar por ti.


Tive-a no meu colo horas, minutos, séculos, nem sei... Olhei-a, virei-a, lembrei as histórias que inventámos em torno do seu conteúdo. Esperei por ti. Mas não vieste a tempo...


Decidi devolvê-la à avó, afinal os seus segredos eram dela e assim devem ficar para sempre, sugestivos, misteriosos, desconhecidos... Só assim permanecerão na nossa memória com a magia das histórias inventadas, onde o importante vai muito além do desvendar da realidade.

Liliana Lima 09-11-2005



"Quando se conta a outrem um segredo este
desmaia: a palavra
torna-se pele
sem leão lá dentro.

Não é mais segredo e não o sendo
finge ser lembrança
de fabrico imperfeito:
um cliqueti no silêncio escancara

a dantes inamovível porta
e virada a página acha-se apenas
uma moeda
que não corre já. "


Do fim dos segredos - Júlio Pomar
(in "TRATAdoDITOeFEITO")

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Bora lá fugir à rotina Drummond?

- Peço-te por todos os santinhos... não inspires... Por favor, tem piedade! Não haverá nessa inconsequente saliência, nesse dois orifícios redondos, um pingo de decência?!?!

- Mau... assim não vais longe. Deixa-te lá de melodramas pá, já não te posso aturar! Que queres?
Eu não dou ordens aqui... fala com o gajo lá de cima. Não é a mim que tens de chatear, c'um caneco!
- Sabes que não é verdade... ele é um inconsciente... ele é um "Maria vai com as outras"!
Ele é que manda, ele é que manda... Tretas! Manda tudo e não manda nada! Sabemos bem disso. É um fraco! Não consegue resistir...
É a ti que eu peço. Por favor não inspires...
- Ó pá, és mesmo melga! Que gaita! Já te disse que eu só cumpro ordens, que queres?! Que faça greve? (como os outros?!) E depois, quem é que leva com aquelas porras dos esguichos de água do mar e o caraças, que atordoam um gajo todo e deixam um rasto que até queima? Ah, pois... agora já não te lamentas?!
Bem... Olha, fala com a maluca aqui de baixo, se ela se disponibilizar a inspirar eu até sou capaz de me contrair. Mas é só desta vez, que já não te posso ouvir!
- Obrigado pá, és um querido!
- Querido?! Que é lá isso?! Tem lá juízo, se não acaba já aqui a combinação...
- É pá desculpa... porreiraço, era isso que queria dizer, és um porreiraço!
*****
- Ó querida... ó princesa... ó lindinha... Olá! Isso mesmo, um sorrizo lindo p'ró vizinho aqui de baixo!
Ouviste a conversa, não foi? E então, fazes-me esse favorzinho, linda?
- Que dois chatos! Está bem, está bem, eu inspiro mas ficas-me a dever uma...
- Combinado! Tens uma boca linda, sabias?! Eh, eh...
Ups... Glup... cóf-cóf... Glup...
- Porra!!! Vocês estão doidos?! Ouve lá ó burra, quando é que já se viu inspirar um café?!?!
- Ó traqueia...desculpa... cóf-cóf... A culpa foi minha...
Desculpa lá o mau jeito, mas eu hoje já levei com quatro cafés em cima e não ia suportar o quinto! Ainda estou aqui todo contraído e cheio de dores por causa do último e aquele malandro lá de cima, que deve andar a dormir, não se controla pá!
É que é certinho, cada cheiro que que se aproxima... cada chávena que vê... pumba! Lá vai disto! E "quem se lixa é o mexilhão"! Irra!!!
Lembrei-me, de repente, duma coisa... será que o gajo pensa que é um cão?! É que, se bem me lembro, essa coisa dos reflexos condicionados não era com os homens...
- Enquanto te armas em estômago intelectual, vai-te preparando... café à vista...
- Bolas! Lá vou eu outra vez.
Ó narizinho, preciso de um favor teu... não inspires, não inspires por favor...

Liliana Lima 25/01/2006
Faz o que eu digo, mas não faças o que eu faço... ;)

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"A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora - murmura a bunda - esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gémeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar
Esferas harmoniosas sobre o caos.


A bunda é a bunda
redunda."


A bunda, que engraçada - Carlos Drummond de Andrade
(Ilustração de Milton Dacosta)

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Estás aí Manuel?!


Estás aí?!



Pergunto eu baixinho com medo de acordar a lua e precipitar a resposta. Conheço bem o eco da minha voz no silêncio da noite. Abro as portas da varanda em par e repito a pergunta numa teimosia que serve apenas para manter viva a esperança da resposta...



Estás aí?!




Sussurro, articulo as palavras sem deixar sair o som, não quero assustar as estrelas. Sei da cumplicidade da noite e é nela que me envolvo enquanto a minha voz, em silêncio, percorre as ruas até chegar ao Tejo. As luzes reflectem-me nas águas que se agitam em pequenas ondulações e espalham a pergunta até à outra margem.



Estás aí?!... Estás aí?!...



Desde as esquinas apertadas de Alfama até às muralhas altas do Castelo, a brisa embala a minha voz e semeia nas pedras da calçada a pergunta feita em silêncio. O eco de uma árvore acorda as estrelas no escuro da noite e, cúmplices também, replicam em código Morse pelos céus...



Estás aí?!



Encosto-me na varanda banhada pelo luar e escuto a cidade que te chama comigo. Em todas as ruas os candeeiros esforçam-se por iluminar a esperança, e as árvores abanam os seus ramos enquanto perguntam às flores dos canteiros se sabem de ti.



A madrugada acalma o silêncio em que a cidade cantava encoberta pela noite e, aos poucos, as águas do Tejo pintam-se de azul em sinal de um novo dia que nasce.



Na varanda, espreguiço-me e acordo de um sonho agitado. Volto para dentro e, enquanto fecho as portas de vidro, avisto na outra margem uma gaivota que parece perguntar...



Estás aí?!



Liliana - Jan/2009



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"Há muito tempo


era uma vez


um homem que se perdeu


da sua amada


e vagueou


por entre as nuvens do céu.


Perguntou à mais pequenina


se a tinha visto ao passar


depois à nuvem mais carregada


nenhuma o podia ajudar.


E assim passou tanto tempo


tecendo mil planos


em fios de algodão


que se desvaneciam


em nuvens no seu coração.


Todas as nuvens


da sua rua


foram à sua janela


escureceu, adormeceu


ficou a sonhar com ela.


E o mau tempo passou


o sol despontou


numa festa de cor


de manhã todas as flores


sabiam de cor


onde estava o seu amor."


"Pelas Nuvens" de Manuel Paulo

(interpretado por Graça Reis, no álbum Assobio da Cobra)

sábado, janeiro 17, 2009

O que ouves no silêncio, Eugénio?

O que resta depois de ditas as palavras?
O que sobrevive ao olhar silencioso
que se esconde no chão
e se demora num eco mudo?

O que fica por dizer no fim dos segundos,
anos que se parecem, em rota de colisão
num imenso deserto surdo?

O silêncio.
Apenas e só o silêncio.
Em toda a sua vastidão
de lua nova e medo fecundo.

Mas também no silêncio,
e em silêncio
um lamento, uma ternura, um perdão.

Mas também no silêncio,
e em silêncio
um rol de porquês desamparados,
um turbilhão olhares fatigados.

Porque também no silêncio,
e em silêncio
se escondem as palavras não ditas,
cresce a energia dos desejos não confessados,
nascem as respostas às perguntas perdidas.

O que resta, então, depois de gastas as palavras?
Um mar de emoções, uma corrente de sentimentos
que, apesar de amordaçados e escondidos
se mostram vivos, reais e sentidos.

Liliana Lima - Maio/2005




"Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
ainda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas. "


O Silêncio - Eugénio de Andrade (in "Obscuro Domínio")

quinta-feira, janeiro 15, 2009

No dia em que 'eu olhei para ti', José Mário...

Um dia olhei para ti
e com espanto, surpresa e pesar
não descobri no teu olhar
a força de vida que conheci
e, em tempos, usei para amparar
as lágrimas que, sozinha, verti.
Um dia olhei para ti, olhei...
mas o teu olhar me traiu
e, como garrafas sem fundo vertendo
as imagens que neles busquei,
nos teus olhos parados fui lendo
as mágoas que em ti projectei.
Perdi-te, no dia em que te olhei
e com um tal manto de mágoas te cobri,
que até do reencontro te culpei.
Acho que só agora entendi
que nessa culpa fui eu que me perdi.

LL Abril-2005 / Janeiro-2009



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"Quando o avião aqui chegou
quando o mês de Maio começou
eu olhei para ti
então entendi
foi um sonho mau que já passou
foi um mau bocado que acabou

Tinha esta viola numa mão
uma flor vermelha n'outra mão
tinha um grande amor
marcado pela dor
e quando a fronteira me abraçou
foi esta bagagem que encontrou


Eu vim de longe
de muito longe
o que eu andei p'ra'qui chegar

Eu vou p'ra longe
p'ra muito longe
onde nos vamos encontrar
com o que temos p'ra nos dar

E então olhei à minha volta
vi tanta esperança andar à solta
que não exitei
e os hinos cantei
foram feitos do meu coração
feitos de alegria e de paixão


Quando a nossa festa s'estragou
e o mês de Novembro se vingou
eu olhei p'ra ti
e então entendi
foi um sonho lindo que acabou
houve aqui alguém que se enganou


Tinha esta viola numa mão
coisas começadas noutra mão
tinha um grande amor
marcado pela dor
e quando a espingarda se virou
foi p'ra esta força que apontou"



Eu vim de longe - José Mário Branco

domingo, janeiro 11, 2009

Sonho de uma tarde de verão...

Esta noite sonhei com um monte alentejano, pintalgado por ovelhas e cabras com uma casa branca no alto...

Sonhei que estava numa sala ampla com uma lareira, iluminada por um radioso Sol em tons quentes, que respirava imaginação. Um pouco por todo lado, grandes almofadas coloridas estavam povoadas por gente alegre, com vontade de viver e muito espírito criativo. Eu levitava pelo meio de grupos que, mais ou menos organizadamente, vasculhavam nos seus passados, espreitavam os seus sentimentos e, despreocupadamente plagiavam os seus autores preferidos... enfim, penso que inventavam histórias!

Lá fora, num terraço magnífico com vista para um céu estrelado que só o Alentejo nos desvenda, outros (ou os mesmos, não sei bem) grupos de gente bonita abriam, sem pudor, a janela aos seus corpos, deixando-os contar histórias que nem os próprios se lembravam que traziam consigo.

Lembro-me de um pôr-do-sol imenso que, ao contrário de escurecer, encheu de luz todos os personagens dessa tarde. Entre cheiros, sabores, sons e texturas, a brisa quente da terra e o lusco-fusco do fim de tarde deram à luz novos contos partilhados na tranquilidade de uma comunhão serena com o mais íntimo de cada um.

Antes de acordar, peguei cuidadosamente em cada palavra, movimento, sorriso, sentimento, vibração, olhar, partilha, descoberta, gesto, brilho, reflexo... e, com muito cuidado, embrulhei-os num lenço que trazia no cabelo. Aquele era o fruto de um sonho partilhado por quantos os que lá estavam e, por isso, todos fizeram o mesmo. Protegemos e embrulhámos o sonho de cada um e antes de nos virmos embora, temendo que a partida de alguma forma o sufocasse, no alto do monte, largámos amarras e deixámos voar o "pássaro da alma" como se fosse o "último dia das nossas vidas"...


LL Julho/2008

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"Sonhei que estava um dia em Portugal

À toa num Carnaval em Lisboa

Meu sonho voa além da poesia

E encontra o poeta em Pessoa


A língua míngua e a língua Lusitana

Acende a chama e a palavra luzia

Na via pública e em forma música

Lúzia das lusíadas, lúzia!"


"Sonhei que estava um dia em portugal" de Morais Moreira

(Cantado pela Cristina Branco em Ulisses)

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Onde está o corrimão da vida, David?

Sustos em vão

Que nos sonhos flutuam

E sem sabermos a razão

Subimos a escada

E vemos a vida

Descer em corrida pelo corrimão



Sustos em vão que o Sol ilumina

Deixando o coração a secar na ruína

Procuramos a fuga numa escada em espiral

Até nos vermos de volta ao ponto inicial...



LL 14/12/2006


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"É uma escada em caracol
E que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
Mas nunca passa do chão.

Os degraus, quanto mais altos,
Mais estragados estão,
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
O lastro do coração.
Sobe-se numa corrida.
Corre-se p'rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
A escada sem corrimão."
('Escada sem corrimão' de David Mourão-Ferreira)
(Cantada por Camané no CD Esta Coisa da Alma)

quarta-feira, janeiro 07, 2009

Quem tens do lado de lá do arco-íris, Dorothy?


Um dia, numa conversa telefónica, ele disse "Se me procurares, no lado de lá do arco-íris, já não me encontrarás." e desligou.

O mundo caiu aos pés dela como um castelo cartas que se desfaz com um sopro. Seria possível que ele lhe tivesse dito aquilo? Chorou, pousou o telefone e chorou. Saiu para a rua e, no carro, chorou. Parou o carro à beira da estrada com o Tejo ao fundo, e chorou como já há muito tempo não lhe acontecia.

Porque chorava assim? Seria pelo facto de estar tudo acabado? Mas afinal não estava já tudo acabado muito antes daquela conversa? Ele não tinha já pegado no saco e saído da casa dela? Não tinham já dito todas as palavras que se dizem quando, no ar, ecoa o "adeus"? E não o tinham feito até mais do que uma vez?

Na verdade, ela ficara pendurada naquela repentina despedida e avançara olhando para o lado, enquanto fechava o tempo numa caixinha dourada e a escondia no seu coração. Ela sabia que ele já lá não estava, mas enquanto tentava varrer as dores e apanhar os cacos, fechava os olhos ao vazio que enchia a casa. Ele partira há muito tempo sim, e ela podia até fingir que não, mas no fundo sabia-o porque sentia a sua falta como uma bússola que perde o norte.
Mas não era bem isso que a fazia chorar.

Não, o que a fazia chorar era aquela frase ao telefone, "Se me procurares, no lado de lá do arco-íris, já não me encontrarás." Se assim era, então ele nunca lá tinha estado realmente. Era isso que a fazia chorar, a consciência de que afinal, depois de tudo (ou de nada, já não sabia bem), ele nunca estivera verdadeiramente ao seu lado.

Na verdade ela não chorava por ele, nem pela falta que ele lhe fazia, mas por ela própria, pelo vazio que sentia ao olhar o espelho e ver que estivera sempre sozinha.
Afinal, quem se encontra no "lado de lá do arco-íris" não mais deixa de se ter, está lá e fica lá para o que der vier. Para o encontro, para o desencontro, para o silêncio, para a festa, para o afastamento, porque no "lado de lá do arco-íris" não há abandono, há cumplicidade.
Ligou o carro, desligou os quatro piscas, limpou a cara, inspirou fundo e arrancou.
Passados alguns dias voltaram a encontrar-se, falaram de questões burocráticas por assim dizer, não falaram sequer, não se cruzaram sequer, foi um encontro inócuo e bem esterilizado. Despediram-se como dois estranhos e ao entrar no carro, de novo com o Tejo à sua frente, pareceu-lhe ouvir as estrelas dizer "Se me procurares, no lado de lá do arco-íris, já não me encontrarás." Fez força e agarrou uma lágrima que teimava em sair, ligou o carro e arrancou, no rádio tocava uma música de um filme antigo - "...birds fly over the rainbow / why then, oh why can't I?..."


LL Jan/2009


Com o "Somewhere over the Rainbow" de EH Harburg no ouvido, num post antigo aqui na curva das letras.

domingo, janeiro 04, 2009

Sou o que sou, Gloria?!

Guardamos histórias das pessoas que passam pelas nossas vidas, como fotografias que espelham o que mais nos marcou, no filme da memória. Com passar do tempo, essas personagens que fomos criando, fundem-se com as lembranças que ficam e tornam-se na verdadeira pessoa, a "nossa" pessoa. E essa versão pode estar incompleta (estará sempre, com toda a certeza), pode até às vezes fugir à verdade, mas é baseada na convivência que tivemos, no que se partilhámos, nas palavras que trocámos, nas ideias que focámos, nos pequenos gestos, nos momentos em conjunto. E na verdade o que fica na memória, depois da areia que corre na ampulheta, acaba por ser, pelo menos para nós, o mais verdadeiro espelho daquela pessoa.

Da história do Tóni só sei flashes, pequenos episódios contados por ele, mas o "meu" Tóni tem muitas histórias para contar. Todos os fins-de-ano me lembro dele e este não foi excepção. Lembro-me porque foi o primeiro Iemanjá que conheci (o primeiro e o único, para dizer a verdade) e todos os anos, na noite da passagem do ano, vestido de branco, ia até à praia para saudar a "rainha das águas" com um banho de mar.

Era cabeleireiro no Brasil, antes de atravessar "tanto mar" e desembarcar em Lisboa. Ainda o continuou a ser por cá durante uns tempos, lembro-me de me ter cortado o cabelo num cabeleireiro num Centro Comercial muito ranhoso, ali para os lados do Jardim Constantino, eu queria ter caracóis mas os cabelos teimavam em permanecer escorridos como esparguete; "Seu cabelo precisa de uma permanente tipo carapinha, durante uns dias fica horrível, mas depois sim, vai ficar linda!" Não cheguei a experimentar, ele deixou o cabeleireiro e eu decidi aceitar o destino e, com ele, os cabelos escorridos.

Era um homem pouco bonito, baixo, com cabelo encaracolado (mesmo sem permanentes), mas tinha uns olhos lindos, muito expressivos, com um quê de mágoa bem lá fundo. Era meigo e carinhoso, tinha aquele à vontade dos povos do "lado de baixo do Equador" que lhes permite expressar-se com o corpo sem qualquer tipo de segundas intenções, porque um abraço ou uma mão que se agarra à nossa são, tantas vezes, nada mais que isso mesmo. Lidava connosco como se fizéssemos parte da família dele, nunca percebi bem se fomos nós que o adoptámos ou se foi ele nos adoptou, mas a verdade é que até o mais conservador da família o acabou por aceitar, bem talvez isso seja dizer demais, fiquemo-nos pelo verbo tolerar.

Apesar de pouco bonito como homem, o Tóni era uma mulher bastante interessante e, uma das coisas que mais me marcou nele (para mim será sempre ele) foi o espectáculo que tantas vezes vi no extinto Bar "Praça das Flores" em que, ao som do "I am what I am", ele entrava em palco vestido de mulher e, aos poucos se desmaquilhava, despia, voltava a vestir e acabava de fato e gravata.

Esta capacidade de ser verdadeiramente fiel a si mesmo e, sem receios, o mostrar ao mundo era a melhor qualidade do "meu" Tóni! Todos os fins-de-ano me lembro dele e penso como seria eu no fim do seu espectáculo onde, ao som do "I am what I am" eu entrasse vestida com a minha "pele" do dia-a-dia...


(*) Tanto Mar - Chico Buarque

(**) Não existe pecado ao sul do equador - Chico Buarque

LL Jan/2009

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"I am what I am
I am my own special creation
So come take a look
Give me the hook
Or the ovation
It's my world
That I want to have a little pride
My world
And it's not a place I have to hide in
Life's not worth a dam
Till I can say I am what I am

I am what I am
I don't want praise I don't want pity
I bang my own drum
Some think it's noise I think it's pretty
And so what if I love each sparkle and each bangle
Why not see things from a different angle
Your life is a shame
Till you can shout out I am what I am


I am what I am
And what I am needs no excuses
I deal my own deck
Sometimes the aces sometimes the deuces
It's one life and there's no return and no deposit
One life so it's time to open up your closet
Life's not worth a dam till you can shout out
I am what I am

I am what I am
And what I am needs no excuses
I deal my own deck sometimes the aces sometimes the deuces
It's one life and there's no return and no deposit
One life so it's time to open up your closet
Life's not worth a dam till you can shout out
I am what I am

I am I am I am good
I am I am I am strong
I am I am I am worthy
I am I am I belong
I am I am I am useful
I am I am I am true
I am I am somebody
I am as good as you

Yes I am"

sexta-feira, janeiro 02, 2009

O que perfuma a tua vida, José Eduardo?!

"Certas palavras são como as especiarias, devem ser usadas com parcimónia. Por exemplo, esplendor, solte essa palavra numa única página e ela perfumará todo o romance. Mas use-a sem discernimento e então transformar-se-à em ruído."

José Eduardo Agualusa
"Um estranho em Goa"
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Fernando nasceu numa adeia do interior numa casa típica onde, devido à proximidade com os animais, que estavam nas lojas do rés-do-chão, tudo cheirava a eles. Não guardou consigo qualquer recordação de infância que não tivesse impregnada daquele cheiro das cabras e dos dois porcos que, nos primeiros anos da sua vida, moraram com ele.

Aos seis anos, e até ao fim do liceu, foi para o Seminário de Gouveia estudar. Quando lá chegou não foi a grandeza dos dormitórios ou a limpeza dos balneários que o espantaram, foi o cheiro daquele edifício, todos os armários, gavetas, roupeiros, arcas e até mesmo debaixo de cada colchão (e eram muitos os colchões num seminário com mais de 150 meninos...) em todo o lado havia saquinhos de Alfazema. Era apanhada ali mesmo, nos campos do Seminário, depois de seca era guardada em saquinhos de linho atados com um laços de varias cores. Aqueles botões de Alfazema enchiam o ambiente, entravam nas paredes e perfumavam o edifício de tal forma que, quando ia a casa de visita, às perguntas normais da mãe (a comida é boa? tratam-te bem?) Fernando respondia sempre com o bem que cheiravam os quartos, as salas, os corredores e até os campos.

Mais tarde optou por continuar a estudar, queria ser advogado. Para isso, e como orçamento familiar não permitia suportar sonhos desse calibre, arranjou um emprego como padeiro em Coimbra. De noite fazia o pão e de dia estudava. Toda a sua vivência nesta cidade se resumia a estes dois lugares, a Padaria e a Universidade. O seu ofício, aprendeu-o com facilidade e, rapidamente, passou de aprendiz a Mestre Padeiro. O cheiro do fermento misturado com o aroma do forno a lenha entranharam-se nele de tal forma que se convenceu que onde quer que fosse todos sabiam que era Padeiro somente pelo seu cheiro.

Finalmente acabou o curso e, para grande orgulho da sua família, lá se estabeleceu como Advogado no Cartório Notarial de Moimenta da Beira. O seu gabinete ficava no fundo do edifício, mesmo ao lado do arquivo e o cheiro a pó e papel velho infiltrou-se nas roupas , na carne e até nos ossos de Fernando, até que todos o passaram a conhecer como "Rato de Biblioteca", nome que, nos dias em que estava bem disposto até ele usava para se referir a si mesmo.

Na verdade, depois da reforma Fernando não ficou muito mais tempo para descobrir novos cheiros, foi como um botão de flor arrancado, que aos poucos deixa cair todas as pétalas até murchar por completo. Quando as suas sobrinhas foram limpar a casa e guardar os seus pertences, encontraram em todos os móveis, gavetas, roupeiros, arcas e até mesmo debaixo do colchão saquinhos de linho, com laços de varias cores cheios Alfazema, plantada ali mesmo no jardim pelo seu tio Fernando.



LL Nov/2005