segunda-feira, dezembro 29, 2008

Dia 1 será o primeiro do resto das nossas vidas, Sérgio?

É no fim da festa, quando arrumamos a loiça e apanhamos os papeis de embrulho espalhados pelo chão que fazemos o apanhado do dia, pesamos as perdas e os ganhos e medimos, no barómetro dos sentimentos, onde ficámos no fim de tudo...

É no silêncio da casa vazia, ainda com os risos, as conversas e as correrias dos miúdos bem vivos na memória, que conseguimos olhar o copo (meio cheio? meio vazio?) e nele espelhar o que somos ali, naquele momento, no fim da festa...

É com o respirar profundo dos miúdos, que dormem alegres com as prendas, com os risos e as surpresas, que encontramos a paz interior para descobrir como nos demos à festa que acabou e o que ela nos deu em troca...

É nos sacos cheios papeis rasgados e caixas vazias, que espreitamos as expectativas e descobrimos quais as que encontraram eco e as que, sozinhas abandonaram a festa mesmo antes do fim...

É no fim da festa, quando desligamos as luzes coloridas que piscam no pinheiro, que sentimos o vazio da sala depois da agitação e procuramos o sentido de cada gesto, de cada palavra, e cada entrega em forma de olhar...

É no fim da festa, quando cansados nos deitamos finalmente, que percebemos que ao fundo do corredor se aproxima já outra festa. E as loiças voltarão para a mesa, as crianças voltarão e correr alegres com os brinquedos novos e toda a casa se tornará a encher de sorrisos, palavras e olhares cúmplices. E nós, novamente embrulhados em expectativas (umas com eco, outras sós) tornaremos a sorrir, até porque é só no fim da festa, quando arrumamos a loiça...

LL

"A principio é simples, anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vazia
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida"

“O primeiro dia do resto da tua vida” - Sérgio Godinho

sábado, dezembro 27, 2008

O Natal cheira a café, João?

Todos os dias, nas férias de Natal, ele vinha de mansinho, sorrateiro, pelo comprido corredor que separava a cozinha da minha avó do quarto onde eu, ensonada, rebolava ainda no quentinho dos lençóis.

Todos os dias, nas férias de Natal, ele entrava pelo quarto dentro, decidido, sem pedir licença e, saltitando, enchia a escura divisão com a sua alegria e boa disposição, como que a dizer "levanta-te dorminhoca".

Todos os dias, nas férias de Natal, eu ainda na cama, ronronava "só mais um bocadinho, está frio...", mas a sua agitação e energia acabavam por me contagiar.

Todos os dias, nas férias de Natal, seguindo o seu compasso, como que maquinalmente rodopiava pelo corredor fora, enquanto vestia o roupão, calçava as pantufas e, com as mãos arranjava os cabelos que, teimosamente, voltavam à posição inicial de eriçados e despenteados.

Todos os dias, nas férias de Natal, à porta da cozinha eu abrandava e, mesmo à entrada parava para observar os movimentos coordenados com que a minha avó a preparava a mesa do pequeno-almoço.

Todos os dias, nas férias de Natal, ele enroscava-se debaixo da mesa da cozinha, enquanto a minha avó, pontual, arranjava a mesa como se de um banquete se tratasse.

Todos os dias, nas férias do Natal, na mesa do pequeno-almoço, com a toalha que ela própria bordara, nada faltava, desde o pão ainda quente, à compota de ginja na tigela, ao leite já quente a fumegar em pequenas fumarolas nas canecas...

Todos os dias, nas férias de Natal, com a mesa do pequeno-almoço já posta, o café invadia a casa e, em completo desdém para com os outros aromas, numa dança de cheiros chamava os que, ensonados, não tivessem percebido que a hora de ir para mesa chegara.

Todos os dias, nas férias do Natal, eu sentada na mesa do pequeno-almoço e ele enrolado aos meus pés, com um festim de cheiros e sabores... são como um carimbo branco que marca subtilmente o papel de embrulho das recordações...

LL Nov/2005


"Uma noite escrevi o teu nome
num café
a cafeteira adormece breve
mesmo ao pé

O mar que passa
pela vidraça
senta-se à mesa
cheira a café

Não me enjeites quando te escrevo
o que à memória me vem
contas contadas, contas da história
que a ninguém devo, a ninguém

Já não vejo razão para calar
as múrmures águas na areia
sobre a praia a maré cheia
enche toda antes de vazar

A noite dura para além da tarde
cerveja com levedura
vaga de espuma entre o meio dia
calma a garganta que arde

O tesouro no ventre do mar
não será para quem mareia
como é bom dormir, acordar
preguiçar em branca açoteia

O sentido que eu tive da vida
num café
o que foi certo para mim um dia
já não o é

O mar que passa
pela vidraça
senta-se à mesa
cheira a café

Cão vadio, cão sem raça
pela rua a vaguear
candeeiro de luz baça
café moído a exalar

À noite os casais devassam
os enigmas duma luz mansa
os sonhos idos de criança
como farrapos soltos que passam."


Cheiro a café – João Afonso Lima

terça-feira, dezembro 23, 2008

Como se escrevem votos de Natal, David?


Natal à beira-Rio


É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?


David Mourão-Ferreira, Obra Poética


************************************************

Não sei escrever votos de Natal.
Não sei fugir das frases que, de tão gastas pelos postais que se amontoam nesta época, já não sabem a nada...
Não sei onde encontrar a frase sentida, que leva alegria a quem a ler...
Não sei escrever votos de Natal.
Escrevo, mas quando leio diluo-me numa tinta branca, àspera, de palhaço pobre...
Escrevo, mas perco-me nos ramos de azevinho com cheiro a canela e as letras, mal desenhadas, perdem-se num borrão de palavras desconexas...
Não sei escrever votos de Natal.
E então, encomendo as palavras dos outros, dos que sabem da alegria, da magia, dos que encontram as palavras... mas depois fico a pensar se essas serão ou não as palavras certas e, sem resposta, não escrevo nada...
Por isso, perdoem-me, mas não sei escrever votos de Natal!

LL

domingo, dezembro 21, 2008

São precisos dois para dançar a Valsa, Chico...

(segundo de três ensaios para "Valsinha" de Chico Buarque)


Sinto-me esgotada… há uma sensação de cansaço profundo que me invade desde há dias (ou serão anos?!)... Não é cansaço físico, estou em plena forma, faço exercício todos os dias, alimento-me bem, durmo sete horas por dia, mas... sinto-me desanimada!

Trabalho no Ministério da Justiça, tenho um horário óptimo que me permite sair às 17:00 e fazer o que me apetece. Saio e vou ao Ginásio, faço yoga, pilates, alongamentos, sei lá, faço tudo o que há para fazer. Mas ultimamente sinto-me sem vontade… não sei o que se passa, ando assim há dias (ou serão anos?!)… Tinha outros planos para estes finais de tarde, pensava que ficaria a tomar conta dos filhos, mas eles nunca aconteceram...

O meu marido trabalha num banco, é gerente de balcão, e nunca chega a casa antes das 21:00, acabo sempre por jantar antes dele chegar. Quando casámos fazíamos tudo em conjunto, parecíamos umas lapas! Queríamos ter três filhos, casa de férias e fazer muitas viagens!

Costumo ir ao ginásio ao fim da tarde, adoro descer a Infante Santo e olhar o Tejo! Nos dias de Sol tem um azul cintilante, e nos dias de nevoeiro parece uma passagem para a “Quinta Dimensão” com um manto cinzento que flutua em cima das águas. Nestes dias nem tenho ido ao Ginásio, nem tenho visto o Tejo, ando desanimada, sem vontade de fazer nada…

O meu marido nunca chega cedo, por isso faço o jantar, arranjo-lhe o prato e vou para o sofá com um tabuleiro fazer zapping pelos canais do costume, à procura das séries do costume, sozinha comme d'habitude… Quando casámos íamos ao cinema todas as semanas!

Este cansaço imenso que me invade desde os últimos dias (ou serão anos?!) é que me está a atrapalhar a vida… Já nem ao Ginásio me apetece ir. Quando casei pensava ter três filhos, um é pouco, dois é piroso, três é o número certo! mas nunca aconteceu...

Sinto-me esgotada, não fisicamente, estou em boa forma. Mas não sei o que se passa, tenho andado triste, invade-me uma falta de ânimo a cada minuto (ou será a cada ano?!)…

Quando o meu marido chega, estou tão cansada que muitas vezes já adormeci. Ainda nem lhe consegui falar deste assunto, não tive tempo, ele tem uns horários horríveis… Quando casámos parecíamos duas lapas, fazíamos tudo juntos!

Quem sabe um destes dias lhe telefono e ele vem mais cedo para casa e janta comigo e vamos os dois ver o Tejo à noite espelhar as luzes da cidade… E se ligar hoje?!


LL 19-04-2006

(para não perder de vista a "banda sonora", aqui fica novamente)

"Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar
Então ela se fez bonita com há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços com há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhanca toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz"


Valsinha - Chico Buarque

quinta-feira, dezembro 18, 2008

Como se dança a Valsa, Chico?!

(primeiro de três ensaios para a "Valsinha" de Chico Buarque)



Não somos um casal diferente dos outros...

Estamos casados há 20 (serão 23?) anos. Conhecemo-nos no último ano do Liceu, ela era linda, alegre, cheia de vida! Casámos cheios de planos, três filhos, casa de férias, muitas viagens.

Não somos um casal diferente dos outros...

Acabámos os cursos já casados, eu Economia, ela Direito. Temos bons empregos, também trabalhámos para isso, a nossa situação económica é muito confortável.

Casámos cheios de planos…

Trabalho num banco, sou Gerente de Balcão, os meus horários são um bocado exigentes. Ela trabalha no Ministério da Justiça, tem horário flexível e um montão de férias.

Era linda, alegre, cheia de vida!

Chego a casa muito tarde e normalmente janto sozinho, ela vai ao ginásio e fica cheia de fome, deixa-me o prato com o jantar servido e acaba por se deitar e adormecer.

Não somos um casal diferente dos outros…

Acabámos por nunca ter filhos, primeiro os cursos, depois os empregos, depois os novos empregos e acabou por não acontecer, não foi uma opção… simplesmente não aconteceu.

Conhecemo-nos no último ano do liceu, ela era linda!

Hoje temos uma situação económica muito confortável. Costumamos tirar duas semanas de férias juntos em Janeiro, vamos sempre para o Brasil.

Ela tem um montão de dias de férias…

Casámos cheios de planos, ela era alegre, linda e cheia de vida!

Chego a casa muito tarde, ela deixa-me o prato com o jantar servido e acaba por adormecer. Os meus horários são um bocado exigentes…

Não somos um casal diferente dos outros… Casámos cheios de planos...

Estamos casados há 20 (ou serão 23?) anos. Ela era linda, alegre… cheia de planos!

Não somos um casal diferente dos outros… Chego a casa muito tarde… Ela era linda, alegre…

Se sair agora, será que ainda vou a tempo de não jantar sozinho?!


LL - 23-03-2006














"Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar
Então ela se fez bonita com há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços com há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhanca toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz"

Valsinha - Chico Buarque

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Rodopiou, Mário...

Voou, rodopiou no ar, fez uma pirueta e poisou de mansinho aos meus pés...

Baixei-me para lhe pegar - O que és?! O que queres comigo? Afinal não foi um acaso que te trouxe até mim. Não. Voaste, rodopiaste, fizeste uma pirueta no ar e, por fim... poisaste nos meus pés. O que és? Um papel?! Que queres de mim afinal?!

Baixei-me para lhe pegar, para matar a curiosidade que me enchia ao olhar aquele pedaço de papel amarelado que Me escolhera para se dar. Mas as costas discordaram do gesto e, num pequeno estalido, fizeram sentir a sua opinião...

Ai! As cruzes... que raio! Deixem-me baixar mais um bocadinho... A curiosidade a roer-me - O que és tu?! Que queres comigo? E as costas a obrigar um movimento brusco, contrário à minha vontade... a endireitar-me, a esticar-me.... Ai! As cruzes... que raio!

E nesse instante uma leve brisa a soprar e o papel amarelado poisado aos meus pés a ensaiar um novo voo... Não! Espera! És meu... escolheste-me a Mim para te dar... Eu já te apanho, é só curvar-me um bocadinho e... Ai! As cruzes...

E a brisa novamente, a soprar, a embalar o voo rodopiante do Meu pedaço de papel amarelado.

Enquanto acompanhei a sua fuga ao sabor do vento... ainda consegui ler "Lotaria do Natal"...

LL - 29-Março-2006


"Volteiam dentro de mim,
Em rodopio, em novelos,
Milagres, uivos, castelos,
Forcas de luz, pesadelos,
Altas torres de marfim.

Ascendem hélices, rastros...
Mais longe coam-me sois;
Há promontórios, faróis,
Upam-se estátuas de heróis,
Ondeiam lanças e mastros.

Zebram-se armadas de cor,
Singram cortejos de luz,
Ruem-se braços de cruz,
E um espelho reproduz,
Em treva, todo o esplendor...

Cristais retinem de medo,
Precipitam-se estilhaços,
Chovem garras, manchas, laços...
Planos, quebras e espaços
Vertiginam em segredo.

Luas de oiro se embebedam,
Rainhas desfolham lirios;
Contorcionam-se círios,
Enclavinham-se delírios.
Listas de som enveredam...

Virgulam-se aspas em vozes,
Letras de fogo e punhais;
Há missas e bacanais,
Execuções capitais,
Regressos, apoteoses.

Silvam madeixas ondeantes,
Pungem lábios esmagados,
Há corpos emaranhados,
Seios mordidos, golfados,
Sexos mortos de anseantes...

(Há incenso de esponsais,
Há mãos brancas e sagradas,
Há velhas cartas rasgadas,
Há pobres coisas guardadas –
Um lenço, fitas, dedais...)

Há elmos, troféus, mortalhas,
Emanações fugidias,
Referências, nostalgias,
Ruínas de melodias,
Vertigens, erros e falhas.

Há vislumbres de não-ser,
Rangem, de vago, neblinas;
Fulcram-se poços e minas,
Meandros, paúes, ravinas
Que não ouso percorrer...

Há vácuos, há bolhas de ar,
Perfumes de longes ilhas,
Amarras, lemes e quilhas –
Tantas, tantas maravilhas
Que se não podem sonhar!... "

Rodopio - Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'

domingo, dezembro 14, 2008

Quem foi Luís...?

"Lembras-me uma marcha de Lisboa
Num desfile singular,
Quem disse
Que há horas e momentos p'ra se amar

Lembras-me uma enchente de maré
Com uma calma matinal
Quem foi
Quem disse
Que o mar dos olhos também sabe a sal

As memórias são
Como livros escondidos no pó
As lembranças são
Os sorrisos que queremos rever, devagar

Queria viver tudo numa noite
Sem perder a procurar
O tempo, ou o espaço
Que é indiferente p'ra poder sonhar

As memórias são
Como livros escondidos no pó
As lembranças são
Os sorrisos que queremos rever, devagar

Quem foi que provocou vontades
E atiçou as tempestades
E amarrou o barco ao cais

Quem foi, que matou o desejo
E arrancou o lábio ao beijo
E amainou os vendavais

As memórias são
Como livros escondidos no pó
As lembranças são
Os sorrisos que queremos rever, devagar
Devagar"

Memórias de um beijo – Luís Represas
(in "Terra firme" Trovante 1987)


Quem foi que deu às estrelas a luz dos teus olhos e as deixou brincar com o meu olhar?
Quem foi que ofereceu aos céus a força do meu abraço e o deixou embalar o luar?
Quem foi que contou ao vento o que sinto e o deixou gritar ao mar?

Quem foi que deu às estrelas a luz dos teus olhos e as deixou brincar com o meu olhar?
Quem abriu as portas aos rios e à corrente para o coração inundar?
Quem mergulhou ao fundo do mar e trouxe o azul que embala o meu sonhar?

Quem foi que deu às estrelas a luz dos teus olhos e as deixou brincar com o meu olhar?
Quem baralhou a bússola que nos fez perder norte do mundo?
Quem disse que a verdade é um poço sem fundo?

Quem foi que deu às estrelas a luz dos teus olhos e as deixou brincar com o meu olhar?
Quem disse que o arco-íris não existe? Que o homem não pode voar?
Quem sonhou um caminho novo, com pedras de mil cores, para nos encontrar?

Quem foi que deu às estrelas a luz dos teus olhos e as deixou brincar com o meu olhar?

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Atrás das "chuvas" de Fausto...

A enxurrada começara há já cerca duas horas, aos poucos a rua tornara-se o leito de um rio e a força das águas levara consigo os carros, os caixotes, os papeis e o lixo até esta se tornar límpida e transparente.

As primeiras fotografias passaram quase despercebidas no meio da corrente, mas rapidamente se multiplicaram e a sua presença impôs-se no meio daquele estranho espectáculo.

Fotos antigas, descoradas... Fotos de um bebé (uma menina, seria?!), um bebé banal, com o rabito ao léu em cima de uma almofada no estúdio do fotógrafo; a comer papa ao colo de uma senhora (a mãe?!); a brincar com bonecas (sim, era uma menina!); a primeira comunhão com um vestido de cerimónia branco; no parque infantil a andar de baloiço; num aniversário com os pais e um bolo com 5 velas (seriam os pais?); de bibe num grande pátio escolar com outras crianças... Fotos banais de uma criança banal.

No meio das fotografias as águas, agora mais lentas, traziam cadernos pautados de capa preta, com exercícios de escrita numa letra insegura, outros quadriculados onde a tabuada começava, lentamente, a diluir tornando-se num enorme borrão ilegível.

Apareceu depois, uma boneca já gasta com o cabelo eriçado, uma saia colegial de tecido escocês plissada, um vestido juvenil de cerimónia fora de moda, uma almofada de peluche vermelho em forma de coração, que ficou presa no portão das garagens do último prédio da rua, com a palavra “Amo-te” bordada em letras amarelas, velhas caixas de bombons com grandes laços já esgaçados, brincos, anéis e mais fotografias que, com a corrente, foram lentamente descendo a rua num desfile bizarro de objectos desconexos.

Ao fundo da rua, uma mulher de cabelo branco preso em caracol com um gancho azul turquesa, olhos meigos e profundos e a sabedoria que apenas o passar dos anos oferece; recolhia calmamente as memórias que desaguavam no pequeno largo que ligava à avenida principal. Fazia-o de uma forma terna, quase maternal, sem se preocupar com as roupas molhadas que se lhe colavam ao corpo. Recolhia memórias para depois as guardar no seu colo, protegendo-as da força das águas.

Aos poucos retirou todas as lembranças que a água trouxera e, depois de confirmar que não restava mais nenhuma, embrulhou delicadamente os objectos na saia e subiu a rua, lutando contra a força das águas que teimavam em empurra-la para trás.

Chegada à porta da nascente, subiu as escadas e entrou na casa de onde saíram as lembranças.

Num canto da sala Madalena soluçava ainda, estremecendo o corpo enrolado sobre os joelhos no chão frio de tijoleira vermelha, que lhe conferia um ar frágil e infantil, como se de uma pequena criança se tratasse.

A mãe chegou-se a ela, fez-lhe uma festa a cabeça e, com muito cuidado, retirou uma por uma todas as lembranças boas, desde a primeira fotografia da menina ainda bebé. Em seguida retirou as más, as tristes e amargas. Colocou-as todas seguidas por ordem cronológica e mostrou-lhe que umas não existiriam sem as outras sussurrando-lhe levemente ao ouvido “sabes Madalena? atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão de vir (*)...”

Lá fora, as águas deixaram de correr e a rua voltava, pouco a pouco, à normalidade.



LL - Novembro de 2006











(*)
Atrás dos tempos – Fausto Bordalo Dias

“Eu pego na minha viola
E canto assim
Esta vida
A correr
Eu sei que é pouco e não consola
Nem cozido à portuguesa há sequer
Quem canta sempre se levanta
Calados é que podemos cair
Com o vinho molha-se a garganta
Se a lua nova está para subir
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir

Eu sei de histórias verdadeirasUmas belas
Outras tristes de assombrar
Do marinheiro morto em terra
Em luta por melhor vida no mar
Da velha criada despedida
Que enlouqueceu e se pôs a cantar
E do trapeiro da avenida
Mal dormido se pôs a ouvir
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir

Sei de vitórias e derrotas
Nesta luta que se há-de vencer
Se quem trabalha não esgosta
No seu salário sempre a descer
Olha a polícia
Olha o talher
Olha o preço da vida a subir
Mas quem mal faz
Por mal espere
Se o tirano fez a festa
P'ra fugir
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir

Mas esse tempo que há-de vir
Não se espera como a noite
Espera o dia
Nasce da força que transpira
De braços e pernas em harmonia
Já basta tanta desgraça
Que a gente tem no peito
A cair
Não é do povo
Nem da raça
Mas do modo como vês o porvir
Que atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir “

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Passamos pelas coisas de Andrade...

"Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:

se alguém chama por nós não respondemos,

se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,

vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade - As mãos e os frutos


Passamos uns pelos outros, sem nos tocarmos, quase sem nos olharmos.
Passamos uns pelos outros sem nos darmos, sem nos sentirmos.

Se um de nós, em sentido contrário nos chama... passamos sem ouvir, estranhos a um comportamento que desconhecido. Se um de nós, em contramão nos ama... passamos sem sentir, críticos a um comportamento desinibido.

Passamos uns pelos outros correndo, e vamos viviendo sem sabor, envelhecendo, apodrecendo, ficando gastos...

Porque deixámos de sentir? Porque deixámos de responder? Porque deixámos de viver?

Voltemos atrás! Tenhamos a coragem de estrecemer, de viver, de sentir, de chamar, de pedir e de amar!

"É urgente um barco no mar..."

LL 30-03-2008

terça-feira, dezembro 09, 2008

"A verdade" segundo Almada Negreiros...

Estavam dois homens, aparentemente amigos, sentados numa mesa de café. Daqueles cafés lisboetas com história de Tertúlias Literárias que, se escutarmos com atenção ao fundo, atrás do barulho da máquina que mói o café, das vozes que entram e saem, das chávenas que se arrumam no balcão, podemos ainda sentir o som das palavras, a força da poesia, a verdade das convicções.


Estavam então dois homens, aparentemente amigos, sentados na segunda mesa, à esquerda quando se entra, com dois cafés já bebidos, uma água das pedras quase cheia e um cálice que tanto podia ser de vinho do Porto como de ginjinha meio vazio. A um canto da mesa, amontoados e sem qualquer ordem aparente, cinco ou seis livros de autores e géneros tão diferentes que podiam ter sido escolhidos ao acaso numa qualquer livraria da moda.


O homem mais velho, alto, magro, com um farto bigode e roupa algo fora de moda, parecia enervado e, rompeu o silêncio energicamente:


-Mas afinal, explique-me lá o que fez com os meus livros?! Diga-me homem! Não espera, com certeza, que depois de lhe confiar a minha colecção das obras de Fernando Pessoa, aceite este monte livros mal amanhados que, além de não serem meus, nada têm em comum com os que lhe emprestei... Vamos homem, explique-se!

O outro homem, mais novo, atarracado e gordinho, com uns óculos quadrados e um certo ar de cientista louco, respondeu ponderada e calmamente, como se alheio ao nervosismo do outro:

-Já lhe disse, a minha filha que tem três anos, encontrou os seus livros na minha mesa-de-cabeceira e, além de os riscar por completo, arrancou quase metade das folhas a cada um. Não se pode culpar uma criança por um erro inocente, mas como o tenho em grande consideração e sei que os seus livros eram peças quase únicas, resolvi repor o mesmo número de livros que me emprestou.

-Mas... estes livros não são nem parecidos com os meus... Não, desculpe mas não acredito em nada do que disse. Por favor, diga-me a verdade!

O homem do bigode estava notoriamente zangado e a sua postura confirmava-o, virava-se de um lado para o outro sem se conseguir aquietar. Por outro lado, o homem dos óculos quadrados mantinha a calma e acabou por responder:

-Pede-me a verdade, assim o farei. A minha mulher encontrou os seus livros em cima da minha mesa-de-cabeceira, como é muito arrumada e não suporta coisas fora dos sítios, ficou desnorteada com a situação e, ao pegar nos livros para os arrumar numa qualquer prateleira, entornou o copo de água que, infelizmente também estava, desarrumado, na mesa-de-cabeceira... ora os livros ficaram completamente encharcados. Como o tenho em grande estima e sei que os seus livros eram peças quase únicas, embora totalmente inocente do acontecido, decidi repor o mesmo número de livros que me emprestou.

O homem do farto bigode, cada vez mais exaltado levantou a voz e disse:

-Eu quero saber exactamente o que aconteceu com os livros que lhe confiei. Diga-me a verdade!

Mantendo o aparente alheamento, o homem com ar de cientista louco respondeu suspirando:

-A verdade, diz? Pois bem, então a verdade é que lhe pedi os livros emprestados para cair nas sua boas graças. Fiquei comovido por me ter emprestado exemplares raros das obras de Fernando Pessoa, mas nunca os cheguei sequer a ler. Na verdade, e infelizmente, a minha filha que tem três anos e a minha mulher que é muito arrumada...


LL 12-Abril-2006

"Eu tinha chegado à escola. O mestre quiz por força, saber porquê. E eu tive de dizer: Mestre! quando sahi de casatomei um carro para vir mais depressa mas, por infelicidade, deante do carro cahiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo.

O mestre zangou-se comigo: Não minta! diga a verdade!

E eu tive de dizer: Mestre! quando sahi de casa... a minha mãe tinha um irmão no extrangeiro e, por infelicidade, morreu hontem de repente e nós ficámos de luto carregado.

O mestre ainda se zangou mais comigo: Não minta! diga a verdade!!

E eu tive de dizer: Mestre!quando sahi de casa... estava a pensar no irmão de minha mãe que está no extrangeiro ha tantos annos sem escrever. Ora isso é peor do que se elle tivesse morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de lucto carregado ou não.

Então o mestre perdeu a cabeça comigo: Não minta, ouviu? diga a verdade, já lh'o disse!

Fiquei muito tempo calado, de repente, não sei o que me passou pela cabeça que acreditei que o mestre queria effectivamente que lhe dissesse a verdade. E, creança como eu era, puz todo o pezo do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração á solta confessei a verdade: Mestre! antes de chegar á Escola ha uma casa que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida côr-de-rosa! A boneca tinha pelle de céra. Como as meninas! A boneca tinha olhos de vidro. Como as meninas! A boneca tinha tranças cahidas. Como as meninas! A boneca tinha dedos finos. Como as meninas! Mestre! A boneca tinha dedos finos..."


A Verdade - Almada Negreiros in A Invenção do Dia Claro

(versão original)

sábado, dezembro 06, 2008

A janela de Cecília Meireles...




Houve um tempo em que a minha janela dava para o céu, era tão alta, tão alta que não tive tempo de crescer para nela me abeirar e descobrir o que escondia para além das nuvens de Inverno que me diziam de manhã "vamos chover", ou dos nevoeiros Outonais que a empalideciam como a um espelho de casa-de-banho depois de um duche que, ao invés de nos reflectir o corpo nu embirra num sombrio, cinzento e macilento esgar que nada transpõe, ou da luz clara, límpida e forte que me acordava nas manhãs de Verão.

Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma floresta de prédios, telhados sem telhas bonitas como as que daqui avisto, apenas cinzentos, cobertos de antenas desarrumadas como se bailarinos de dança moderna, daquelas em que cada um se move devagarinho sincronizado com o seu par num palco que se assemelha a um arranjo de entulho, delicadamente embalado pela brisa marinha. Janelas e janelas sem fim, com roupa que parecia também cinzenta, poluída, numa monotonia quebrada aqui e ali por uma ou outra floreira que, timidamente tentava sobreviver no meio do betão.

Houve um tempo em que a minha janela dava para um mosaico de quintais, alguns bonitos e arranjados com flores, vasos, banquinhos e churrasqueira para os almoços de domingo, em que filhos e netos se iam multiplicando e enchendo todo o mosaico numa azáfama de sons, cheiros e cores. Outros carrancudos, moribundos e sem graça, como os seus donos, senhores de roupão cinzento e senhoras de avental branco imaculado que a eles se abeiravam apenas às segundas de manhã, para a limpeza semanal (longe da azáfama dos almoços de domingo).

Houve um tempo, ainda, em que a minha janela se abria em par para o Tejo e dele sugava a claridade e a vivacidade suficientes para dar cor aos muitos e muitos carros que dela contabilizava enquanto os via passar, num constante frenesim de carreirinho de formigas incansáveis e imparáveis na sua lufa-lufa diária.

Hoje, quando abro a janela, às vezes encontro o canto de um galo tropeçando na buzina de um carro mais apressado. Às vezes, no Verão, quase que me invadem os troncos cobertos de folhas que teimam em atravessar a rua e entrar janela dentro. Outras vezes, no Inverno, os mesmo troncos já despidos fitam-me como que num lamurio de frio, que o cacarejar de outra galinha se apressa a abafar...

LL 16-11-2005


quinta-feira, dezembro 04, 2008

Adeus, Eugénio...

Um entre tantos casamentos falhados. Uma entre tantas divisões de bens, (e os males?! quem fica com os males?) o carro fica para ele, os electrodomésticos com ela, a aparelhagem leva-a ele, os pratos e os tachos abalam com ela.

Tudo se divide, tudo se quantifica, se pesa, se mede... Até que fica apenas o vazio de uma casa assombrada.

Meto a chave à porta e ao girar o canhão da fechadura acordo os sorrisos, as palavras, os amores e os desamores que ali viveram. Sobressaltada volto atrás e afasto-me da porta com a chave na mão.

Que se passa, estás bem?

Sim. Não, não é nada, deixa lá, abre tu a porta.

Dou-lhe a chave e ao estendê-la vejo as memórias dos escassos anos em conjunto projectadas no pequeno buraco da fechadura.

Ele pega na chave, abre a porta num só gesto e entra sem ouvir as gargalhadas ao calor da lareira do primeiro inverno; sem ver os lanches de domingo na mesa pequena da sala; sem se dar conta da cama que geme no quarto do fundo ou dos soluços abafados no canto da cozinha.

Um pouco a medo avanço pela entrada nua e oiço o vazio da casa. Foi tudo pesado, medido, quantificado, falta apenas dividir o pouco que ficou esquecido,

Leva tu este cesto...

Aproveita aquela manta...

Tropeço num riso e choco com um murmúrio,

Este sorriso, levas tu...?!


LL 30-11-2005


"Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,

e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio.

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,

gastámos as mãos à força de as apertarmos,

gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;

era como se todas as coisas fossem minhas:

quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.

E eu acreditava.

Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,

era no tempo em que o teu corpo era um aquário,

era no tempo em que os meus olhos

eram realmente peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.

É pouco mas é verdade,

uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor,

já não se passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certezade que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.

Dentro de ti

não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus."




Adeus - Eugénio de Andrade

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Uma Avenida para Mariza...

Desço a avenida e o som dos ferros dos andaimes a bater uns nos outros atordoa-me os sentidos e leva-me a uma insegurança que julgava perdida para o dia de hoje.

Desço a avenida e com o pingar das primeiras gotas de chuva nos vidros das montras, vejo-me reflectida em mil pedaços, em mil lágrimas.

Desço a avenida e todos os barulhos da cidade se distanciam à minha passagem, tornando-se apenas num burburinho de fundo. Como se o respirar da cidade sussurrasse aos meus ouvidos e nele se diluíssem, os carros que passam por cima das poças, os choros das crianças que entram nas escolas, os comboios que avisam que vão partir, o sem número de pessoas que avançam em passo apressado.

Desço a avenida com o sussurrar da cidade nos ouvidos, e no poço dos sentidos descubro o uivar do vento nas janelas de madeira da velha casa de Moimenta, e agarro-me a ele como se um bote salva-vidas se tratasse e perco-me nas ondas do mar que em mim se baloiça.

Desço a avenida e com ela navego na lembrança do soalho que estala aos passos do meu avô, e com ela relembro o desembrulhar dos rebuçados de geleia na cozinha grande e fria que dava para o quintal.

Mas não o quintal com a videira, não os rebuçados reluzentes e pegajosos, não o soalho aos passos do avô…

Desço-me pela avenida e vejo escorrer, com a água da chuva, os mil reflexos que de mim deslizam e desaguam no Tejo…


LL 14-12-2006


"Ando na berma
Tropeço na confusão
Desço a avenida
E toda a cidade estende-me a mão
Sigo na rua, a pé, e a gente passa
Apressada, falando, o rio defronte
Voam gaivotas no horizonte
Só o teu amor é tão real
Só o teu amor…

São montras, ruas
E o trânsito
Não pára ao sinal
São mil pessoas
Atravessando na vida real
Os desenganos, emigrantes, ciganos
Um dia normal,
Como a brisa que sopra do rio
Ao fim da tarde
Em Lisboa afinal

Só o teu amor é tão real
Só o teu amor…

Gente que passa
A quem se rouba o sossego
Gente que engrossa
As filas do desemprego,
São vendedores, polícias, bancas, jornais
Como os barcos que passam tão perto
Tão cheios
Partindo do cais

Só o teu amor é tão real
Só o teu amor…"

Montras – Rui Pedro Campos

terça-feira, dezembro 02, 2008

Lisboa para Eugénio

(Com um grande abraço à Vanda...)

Lisboa, sabes que eu sei que a solidão em ti contagia, propaga-se e estende-se até ao rio descalça e leve como erva daninha…
Lisboa, sabes que eu sei porque te desço os degraus e te conheço as mágoas esculpidas nas rugas finas que apenas o luar ilumina.
Sabes Lisboa? Eu sei também que o vento súbito que vem do castelo e se espalha pelas sete colinas é um suspiro de saudade.
E eu sei que tu sabes Lisboa, que suspiro contigo…

LL 19-Abril-2006




"Alguém diz com lentidão:
«Lisboa, sabes...»
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.

Eu sei. E tu, sabias?"


Eugénio de Andrade (Coração do Dia)

Porquê, não sei ainda...

"A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
P'ra ficar pelo caminho

Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda"

Inquietação - José Mário Branco
(cantado no CD "Ser Solidário")

Bem aventurados os que não conhecem esta sensação que, como uma sombra nos segue, nos espera ao virar da esquina, nos surpreende quando olhamos o espelho e nos embala nas noites em branco...

Esta inquietação de saber que, a cada flor que desponta, a cada alvorada que nasce, há sempre alguma coisa que não percebemos, que não compreendemos e que não sabemos como resolver...