quinta-feira, novembro 27, 2008

um sentido p'rá vida...

Não procures a "chave que abre a porta do castelo de Chuchurrumel"(1)

ela não te vai abrir o sentido da vida...

Levanta o tapete debaixo do qual guardas os tesouros de cada dia

é no pó que se espalha a cada suspiro que respira o sentido de tudo o que em ti vive.

"Ó lua faz-me uma trança
P'ra de dia desmanchar
Guarda-me a última dança
Quando o fio se acabar

Gosto de ver o teu rosto
Que a mil caminhos se presta
Para uma noite desgosto
Por uma noite de festa

Voltaria à tua terra
Por um mergulho de mar
Entre a cidade e a serra
Fica algures o meu lugar

Este mundo não tem porta
Nem uma chave escondida
Por trás de tudo o que importa
Vem um sentido p'rá vida

Se te fizeres ao caminho
Em horas de arrebol
P'ra fermentar o meu vinho
Traz-me um pedaço de sol

Vamos escrever uma história
Rever um filme a passar
Logo virá à memória
O que eu te queria dar

Será verdade ou mentira
Como um segredo roubado
Sou como a lua que gira
Hei-de dançar ao teu lado

Este mundo não tem porta
Nem uma chave escondida
Por trás de tudo o que importa
Vem um sentido p'rá vida"

"À porta do mundo" - João Afonso Lima

(cantado por Filipa Pais no CD - A porta do Mundo)

(1) O castelo de Chuchurrumel - Lenga-lenga tradicional

quarta-feira, novembro 26, 2008

Quantas vezes me deixo levar...

Quantas vezes, me deixo levar
e enganada me vejo
quem me dera estar segura
que tudo o que desejo
apenas no meu conto vai morar
(à minha querida Sofia)

"A cantar, a cantar é que te deixas levar

A cantar tantas vezes enganada te vi
Ai Lisboa, quem te dera estar segura
Que o teu canto é sem mistura
E nasce mesmo de ti

Lenço branco
Perdeste-te no cais
Pensaste "nunca mais"
Disseram-te "até quando"?
A cantar
Fizeram-te calar
A dor que, para dentro, ias chorando
Tanta vez
Quiseste desistir
E vimos-te partir
Sem norte
A cantar
Fizeram-te rimar
A sorte que te davam com má sorte

A cantar, a cantar é que te deixas levar
A cantar tantas vezes enganada te vi
Ai Lisboa, quem te dera estar segura
Que o teu canto é sem mistura
E nasce mesmo de ti

Tanta vez
Para te enganar a fome
Usaram o teu nome
Nas marchas da Avenida
A cantar
Puseram-te a marchar
Enquanto ias cantando distraída
A cantar
Deixaram-te sonhar
Enquanto foi sonhar à toa
A meu ver
Fizeram-te esquecer
A verdadeira marcha de Lisboa

A cantar, a cantar é que te deixas levar
A cantar tantas vezes enganada te vi
Ai Lisboa, quem te dera estar segura
Que o teu canto é sem mistura
E nasce mesmo de ti

A cantar, a cantar é que te deixas levar
A cantar tentas vezes enganada te vi
Ai Lisboa, quem te dera estar segura
Que o teu canto é sem mistura
E nasce mesmo de ti"

"A cantar" - José Mário Branco

(cantado pelo Camané no CD "Pelo dia Dentro")

terça-feira, novembro 25, 2008

Não me digas que não me compreendes...

Vi-te a trabalhar o dia inteiro
construir as cidades pr´ós outros
carregar pedras, desperdiçar
muita força p´ra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força p´ra pouco dinheiro
Que força é essa
que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer

Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Não me digas que não me compr´endes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr´endes

Que força é essa
que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer

Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo

'Que força é essa' - Sérgio Godinho

(Com José Mário Branco, no CD 'Irmão do meio' - 2003)

Que força é essa, amigo? Não me digas que não me compreendes...

quinta-feira, novembro 20, 2008

À minha avó... Parabéns!


Aristóteles, visita
da casa de minha avó,
não acharia esquisita
esta forma de estar só
esta maneira de ser
contra a maneira do tempo
esta maneira de ver
o que o tempo tem por dentro.
Aristóteles diria
entre dois goles de chá
que o melhor ainda será
deixar o tempo onde está
pô-lo de perto no tema e
de parte na poesia para manter
o poema dentro da ordem do dia.
Aristóteles, visita
da casa da minha avó,
não acharia esquisita
esta forma de estar só.
Ele sabia que o poeta

depois de tudo inventado
depois de tudo previsto
de tudo vistoriado
teria de fazer isto
para não continuar
com que já estava acabado
teria de ser presente
não futuro antecipado
não profeta não vidente
mas aço bem temperado
cachorro ferrando o dente
na canela do passado
adaga cravando a ponta
no coração do sentido
palavra osso furando
pele de cão perseguido.
Aristóteles, visita
da casa da minha avó,
não acharia esquisita
esta forma de estar só
esta maneira de riso
que é a mais original
forma de se ter juízo
e ser poeta actual.
Aristóteles, visita
da casa da minha avó,
também diria antes só
do que mal acompanhado
antes morto emparedado

em muro de pedra e cal
aonde não entre bicho
que não seja essencial
à evasão da palavra
deste silêncio mortal

Arte Peripoética
José Carlos Ary dos Santos
(in "Adereços, Endereços", 1965 )

quarta-feira, novembro 19, 2008

A vida não é dia sim, dia não...

Geme o restolho, triste e solitário
a embalar a noite escura e fria
e a perder-se no olhar da ventania
que canta ao tom do velho campanário


Geme o restolho, preso de saudade
esquecido, enlouquecido, dominado
escondido entre as sombras do montado
sem forças e sem cor e sem vontade


Geme o restolho, a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda


Mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar para aprender a viver
e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim, dia não
é feita em cada entrega alucinada
p'ra receber daquilo que aumenta o coração


Mafalda Veiga - Restolho

(no CD Pássaros do Sul - 1987)

segunda-feira, novembro 17, 2008

Não se deve falar demasiado...

Falamos, falamos, falamos... tantas vezes só para nos ouvirmos falar, para validarmos os nossos pensamentos, as nossas decisões, as nossas opções.

Mas há coisas sobre as quais não se deve falar muito, como os sonhos... antes devemos protegê-los, alimentá-los e mantê-los. Não em segredo, fechados do mundo... Partilhados com quem entenda a língua dos sonhos, mas resguardados dos cépticos, dos calculistas e dos não-crentes (não poucas vezes representados por nós mesmos)...

“Não se deve falar demasiado... A vida espreita-nos sempre...
Toda a hora é materna para os sonhos, mas é preciso não o saber...
Quando falo demais começo a separar-me de mim própria e a ouvir-me falar.
Isso faz com que me compadeça de mim própria e sinta demasiadamente o coração.
Tenho então uma vontade lacrimosa de o ter nos braços para o embalar como a um filho...”
Fernando Pessoa in O Marinheiro

domingo, novembro 16, 2008

E se...

"E se for escorregar
pelo sol até o tombar
E se o mar se escorrer
pelo céu até se afundar
E se a luz romper a noite
e um boi voar
Se a lua for onde eu morar
daqui quero saltar
E se for num momento
para o tempo
eu vou incendiar:
irei ao coração de cada um atear
E se o amor anda a pôr
o mundo de pernas para o ar
E se alguém fora prender
toda a dor só para brincar
E se o céu cair e da Terra
chover granizo doce
E se eu beber as estrelas
e as trincar
E se as flores se pôem a cantar
E se os anjos vierem dançar
É aqui - eu já sei que estou viva-
este é o meu lugar
vou ficar"

Miguel Farias

(cantado pela Filipa Pais em "A porta do mundo")

E se a voz me faltar? E se falar alto demais? E se me esqueço do texto? E se não gostarem de mim? E se for o centro das atenções? E se chover? E se o vento não estiver de feição? E se eu não tiver razão? E se eu tiver razão? E se correr mal? E se correr bem? E se me envolver demais? E se não me conseguir envolver? E se estiver frio? E se estiver calor? E se for a opção errada? E se for a opção certa?

E se pensar menos

E se sentir mais

E se avançar mais

E se ousar mais

e se...

(talvez) viver mais?!

sexta-feira, novembro 14, 2008

Mudemos de assunto, sim?!

"Andas aí a partir corações
como quem parte um baralho de cartas
cartas de amor
escrevi-te eu tantas
às tantas, aos poucos
eu fui percebendo
às tantas eu lá fui tacteando
às cegas eu lá fui conseguindo
às cegas eu lá fui abrindo os olhos
E nos teus olhos como espelhos partidos
quis inventar uma outra narrativa
até que um ai me chegou aos ouvidos
e era só eu a vogar à deriva
e um animal sempre foge do fogo
e mal eu gritei: fogo!
mal eu gritei: água!
que morro de sede
achei-me encostado à parede
gritando: Livrai-me da sede!
e o mar inteiro entrou na minha casa
E nos teus olhos inundados do mar
eu naveguei contra minha vontade
mas deixa lá, que este barco a viajar
há-de chegar à gare da sua cidade
e ao desembarque a terra será mais firme
há quem afirme
há quem assegure
que é depois da vida
que a gente encontra a paz prometida
por mim marquei-lhe encontro na vida
marquei-lhe encontro ao fim da tempestade
Da tempestade, o que se teve em comum
é aquilo que nos separa depois
e os barcos passam a ser um e um
onde uma vez quiseram quase ser dois
e a tempestade deixa o mar encrespado
por isso cuidado
mesmo muito cuidado
que é frágil o pano
que tece as velas do desengano
que nos empurra em novo oceano
frágil e resistente ao mesmo tempo
Mas isto é um canto
e não um lamento
já disse o que sinto
agora façamos o ponto
e mudemos de assunto
sim?"

Sérgio Godinho
(cantado pelo Sérgio e o Palma no Irmão do Meio)

Às vezes precisamos de mudar de assunto, alterar o registo, criar uma nova narrativa, virar o bico ao prego...

O problema é quando, depois de o fazermos, chegamos à conclusão que "isto está tudo ligado" como dizia o outro (que neste caso até é o mesmo...) e por muitas mudanças que façamos, a nossa história joga-se sempre no mesmo campo. Por muito esforço de mudança o mais que se altera são paisagens, porque o que realmente importa joga-se dentro de nós, da nossa essência e essa, se não muda com cantigas... (E ainda bem, diria eu!)

O que é importante então? Ter a capacidade de "inventar uma outra narrativa" sem perdermos aquilo que nos define, o fio condutor que faz de nós pessoas únicas e irrepetíveis e fazê-lo com amor, carinho e muita coragem!

quinta-feira, novembro 13, 2008

Ele há dias...

"Há dias
Em que não cabes na pele
Com que andas
Parece comprada em segunda mão
Um pouco curta nas mangas
Há dias
Em que cada passo é mais um
Castigo de Deus
Parece
Que os sapatos que vês
Enfiados nos pés
Nem sequer são os teus
À noite voltas a casa
Ao porto seguro
E p'ra sarar mais esta corrida
Vais lamber a ferida
Para o canto mais escuro
Já vi
Há dias em que tu
não cabes em ti
Arranca
Da cara desse torpor
Que te perde e te seduz
A espada como a um Matador
Com o gesto maior
Do seu peito Andaluz
Avança
Com a raiva que sentes
Quando rangem os dentes
Ao peso da cruz
Enfim,
Há dias em que eu
Também estou assim
Parece que pagamos os
Pecados deste mundo
Amarrados aos remos de um
Barco que está no fundo."
João Monge
(cantado pelos Ala dos Namorados)
Há dias em que precisava de um colo daqueles que nos parecem dizer que por mais borradas que fizermos estarão sempre lá para nos acolher.
Há dias em que gostava de não ser mais do que o me é esperado ser.
Há dias em que preferia ter mais confiança em mim e ser eu própria sem ter de pedir licença.
Há dias em que gostava que as vidas não fossem complicadas e os sentimentos pudessem ser genuínos.
Porque há dias em que sinto uma enorme necessidade de falar de forma genuína, sem medos, sem amarras, sem máscaras, nem julgamentos.
E há alguns dias em que tento, outros em que até consigo, outros em que nada parece funcionar...
Enfim, nada de novo a leste do paraíso...

quarta-feira, novembro 12, 2008

A invenção do Amor

"Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor



Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana



Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado



Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo



Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo


É preciso encontrá-los antes que seja tarde

Antes que o exemplo frutifique

Antes que a invenção do amor se processe em cadeia

(...)"

Daniel Filipe
Editorial Presença



Precisamos (re)inventar o amor, como quem inventa um novo sentido para uma palavra tantas vezes pronunciada, como quem descobre uma nova cor no arco-íris do céu, como quem se apercebe dum novo ritmo na canção já gasta, como quem se permite um novo olhar para o espelho que, de repente, nos devolve um piscar de olhos...

terça-feira, novembro 11, 2008

Lisboa não é a cidade perfeita

Porque, por muitas voltas que demos, por muitos caminhos que encontremos e percorramos, ainda que, por vezes, nos percamos... voltamos sempre a casa. Voltamos sempre à nossa casa...

E quando voltamos, entramos devagar, olhamos em volta e reconhecemo-nos em cada canto desarrumado, em cada esquina esbatida, em cada ruga esquecida, em cada mágoa sentida, em cada sorriso deixado ao acaso em cima de uma prateleira...

Entramos devagar para nos reconhecermos, para sentirmos que estamos em nossa casa, aconchegamo-nos e sorrimos, aqui somos sempre bem-vindos!

Voltei à casa das letras que me levam pela mão, me fazem sonhar, me embalam, mas que não cabem noutro lugar senão aqui, na casa da curva das minhas letras...

Por agora, deixo aqui um poema cantado pelos Deolinda, em que no outro dia tropecei e que desde aí não mais me largou, porque tantas vezes me apetece "um dia juntar-me a ela"...

"Ainda bem
que o tempo passou
e o amor que acabou
não saiu ...
Ainda bem
que há um fado qualquer
que diz tudo o que vida
não diz ...
Ainda bem
que Lisboa não é
a cidade perfeita
para nós ...
Ainda bem
que há um beco qualquer
que dá eco
a quem nunca tem voz...
Ainda agora vi a louca
sozinha a cantar
do alto daquela janela ...
Há noites em que a saudade
me deixa a pensar
um dia juntar-me a ela,
um dia cantar como ela ...
Ainda bem
que eu nunca fui capaz
de encontrar a viela
a seguir ...
Ainda bem
que o Tejo é lilás
e os peixes não param
de rir...
Ainda bem
que o teu corpo não quer
embarcar na tormenta
do meu ...
Ainda bem ...
Se o destino quiser
esta trágica história
sou eu."
Pedro da Silva Martins