terça-feira, outubro 31, 2006

"Todos os homens são maricas quando estão com gripe (pasodoble)" - António Lobo Antunes




Pachos na testa
terço na mão
uma botija
chá de limão
zaragatoas
vinho com mel
três aspirinas
creme na pele
grito de medo
chamo a mulher
ai Lurdes Lurdes que vou morrer!
mede-me a fibre
olha-me a goela
cala os miúdos
fecha a janela
não quero canja
nem a salada
ai Lurdes Lurdes não vales nada!
se tu sonhasses
como me sinto
já vejo a morte
nunca te minto
já vejo o inferno
chamas diabos
anjos estranhos
cornos e rabos
vejo os demónios
nas suas danças
tigres sem listras
bodes de trances
choros de coruja
risos de grilo
ai Lurdes Lurdes que foi aquilo?
não é chuva
no meu postigo
ai Lurdes Lurdes fica comigo!
não é vento
a cirandar
nem são as vozes
que vêm do mar
não é o pingo
de uma torneira
põe-me a santinha
à cabeceira
compõe-me a colcha
fala ao prior
pousa o Jesus
no cobertor
chama o doutor
passa a chamada
ai Lurdes Lurdes nem dás por nada
faz-me tisanes
e pão-de-ló
não te levantes
que fico só
aqui sózinho
a apodrecer
ai Lurdes Lurdes que vou morrer!


António Lobo Antunes
in Letrinhas de Cantigas



Agora digam lá, se conseguirem, que o homem não tem piada...

segunda-feira, outubro 30, 2006

A "Utopia" que Zeca nos ensinou...


Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
E teu a ti o deves
lança o teu
desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente

Este rio este rumo esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?


Utopia - José Afonso
in Como se fora seu filho - 1983

sexta-feira, outubro 27, 2006

Mãe vem ouvir - Almada Negreiros

Amor de mãe - Gerson Lima

Mãe!

Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue verdadeiro, encarnado!

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me ao teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero Ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

Almada Negreiros in A Invenção do dia claro

quarta-feira, outubro 25, 2006

Correio Azul - Sérgio Godinho


Manda-me uma carta em correio azul
p'ra afastar estas cinco nuvens negras
relembra-me as regras
do saber viver
repõe-me o sentido nos sentidos
olfactos
ouvidos
à vista
de tactos
do teu paladar

Manda-me uma carta em correio azul
p'ra afastar esses blues de pacotilha
renega e perfilha
respectivamente
a torpe indiferença
e o amor ardente
amor tão ardente
que dos erros meus
má fortuna se ausente

Erros meus, má fortuna, amor ardente
qual em nós mais frequente
qual em nós mais frequente
amor ardente
cada vez mais frequente

Manda-me uma carta em correio azul
que me deixe a face roburizada
promete-me a noite fatigada
de termos aberto o nosso nexo
ao sexo
da vida
porção destemida
da nossa emoção

Erros meus, má fortuna, amor ardente
qual em nós mais frequente
qual em nós mais frequente
amor ardente
cada vez mais frequente

Manda-me uma carta em correio azul
que branqueie o passado num momento
paixão, é no corpo o sentimento
que faz da razão montanha russa
aguça
o encanto
mas no entretanto
faz estragos mil

Erros meus, má fortuna, amor ardente
qual em nós mais frequente
qual em nós mais frequente
amor ardente
cada vez mais frequente

Manda-me uma carta em correio azul
para eu guardar no castanho dos armários
no meio de testemunhos vários
escritos por letras tão distantes
murmúrios amantes
que a vida me oferece
só por muito amar

Erros meus, má fortuna, amor ardente
qual em nós mais frequente
qual em nós mais frequente
amor ardente
cada vez mais frequente


Ségio Godinho in Domingo no Mundo (1997)

quinta-feira, outubro 19, 2006

Se cada dia cai - Pablo Neruda


*Moonshine, Jose Marquez

Se cada dia cai


Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.


Pablo Neruda
(Últimos Poemas)


segunda-feira, outubro 16, 2006

Mudam-se os tempos - José Mário Branco


A todos os que têm coragem para mudar:



"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Muda-se o ser, muda-se a confiança.
Todo o mundo é composto de mudança.
Tomando sempre novas qualidades.

Mas se todo o mundo é
composto de mudança
troquemos-lhe as voltas,
que inda o dia é uma criança.

Continuamente vemos novidades.
Diferentes em tudo da esperança
Do mal ficam as mágoas na lembrança.
E do bem, se algum houve, as saudades

Mas se todo o mundo é
composto de mudança
troquemos-lhe as voltas,
que inda o dia é uma criança.

0 tempo cobre o chão de verde manto
Que já coberto foi de neve fria
e em mim converte em choro e doce canto

Mas se todo o mundo é
composto de mudança
troquemos-lhe as voltas,
que inda o dia é uma criança.

E afora este mudar-se cada dia.
Outra mudança faz de mor espanto.
Que não se muda já como sola

Mas se todo o mundo é
composto de mudança
troquemos-lhe as voltas,
que inda o dia é uma criança"

MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES
Soneto: Luis de Camões / Adaptação: José Mário Branco

quarta-feira, outubro 11, 2006

Lisboa que Amanhece - Sérgio Godinho

Já vos aconteceu querer adormecer e ter à volta da cabeça uma série de dúvidas, questões, medos e inseguranças que, por mais que nos esforcemos por diluir no lusco-fusco de Lisboa, teimam em não desaparecer? Que fazer quando a meio da noite Lisboa nos sussurra ou ouvidp, de mansinho, perguntas que nos tiram o sono e alteram a imagem do outro lado do espelho?!

Ás vezes é assim, às vezes pergunto-me se estarei a cumprir o papel que me está reservado com a força de quem sabe que temos de nos superar todos os dias, em todas as situações...

Mas é assim mesmo, depois o dia nasce e já tudo volta a ser “tudo aquilo que parece, na Lisboa que amanhece”...




"Cansados vão os corpos para casa
dos ritmos imitados de outra dança
a noite finge ser
ainda uma criança
de olhos na lua
com a sua
cegueira da razão e do desejo

A noite é cega e as sombras de Lisboa
são da cidade branca a escura face
Lisboa é mãe solteira
amou como se fosse
a mais indefesa
princesa
que as trevas algum dia coroaram

Não sei se dura sempre esse teu beijo
ou apenas o que resta desta noite
o vento enfim parou
já mal o vejo
por sobre o Tejo
e já tudo pode ser tudo aquilo que parece
na Lisboa que amanhece

O Tejo que reflecte o dia à solta
à noite é prisioneiro dos olhares
ao cais dos miradouros
vão chegando dos bares
os navegantes
amantes
das teias que o amor e o fumo tecem

E o Necas que julgou que era cantora
que as dádivas da noite são eternas
mal chega a madrugada
tem que rapar as pernas
para que o dia não traia
Dietrichs que não foram nem Marlenes

Não sei se dura sempre esse teu beijo
ou apenas o que resta desta noite
o vento enfim parou
já mal o vejo
por sobre o Tejo
e já tudo pode ser tudo aquilo que parece
na Lisboa que amanhece

Em sonhos, é sabido, não se more
aliás essa é a única vantagem
de, após o vão trabalho
o povo ir de viagem
ao sono fundo
fecundo
em glórias e terrores e ventures

E ai de quem acorda estremunhado
espreitando pela fresta a ver se é dia
a esse as ansiedades
ditam sentenças friamente ao ouvido
ruído
que a noite, a seu costume, transfigure

Não sei se dura sempre esse teu beijo
ou apenas o que resta desta noite
o vento enfim parou
já mal o vejo
por sobre o Tejo
e já tudo pode ser tudo aquilo que parece
na Lisboa que amanhece"


Lisboa que Amanhece – Sérgio Godinho

sexta-feira, outubro 06, 2006

Embalar os sonhos - Pessoa versus Almada Negreiros

Maternidade - Almada Negreiros

“Não se deve falar demasiado... A vida espreita-nos sempre... Toda a hora é materna para os sonhos, mas é preciso não o saber... Quando falo demais começo a separar-me de mim própria e a ouvir-me falar. Isso faz com que me compadeça de mim própria e sinta demasiadamente o coração. Tenho então uma vontade lacrimosa de o ter nos braços para o embalar como a um filho...”

Fernando Pessoa – O Marinheiro

terça-feira, outubro 03, 2006

A pedra Filosofal - António Gedeão

Natal em Outubro?!

Cheguei ontem a casa, com pressa (como de costume), sem lugar para estacionar (como de costume), com um tempo muito inglório e sem chapéu (como de costume). Nada de novo, portanto, a leste do paraíso.

No entanto um escadote apoiado no poste mesmo em frente à janela da sala de jantar e um amontoado de cabos no chão, fizeram-me erguer o olhar aos céus... em pleno início do mês de Outubro, dia 2 para ser mais precisa, as luzes de Natal estão já montadas por todo Campo de Ourique...

A novidade, a leste ou a oeste, já não é grande, todos os anos as luzes são montadas logo após o regresso às aulas. Mas a desilusão, a sensação de perder o Outuno, as folhas que despem as árvores ao sabor do vento, as castanhas que caem nos seus ouriços direitinhas para o tabuleiro do forno, a água para o chá que chama na cozinha, as bolas e os scones que pedem geleia de marmelo ainda quente... sinto que me escapam por entre os dedos como areia que foge pelo vidro estalado do cone de uma velha ampulheta.

Será que o ano está cada vez mais pequeno ou fomos nós, que na ânsia de não perder a última moda de Paris, deixámos de ter tempo de o ver passar? E ao deixar de o olhar, não deixámos também de o conhecer, de partilhar a cumplicidade que só quem se dá ao trabalho de acarinhar e acompanhar dia a dia, ano a ano, tem o privilégio de gozar?!

Mas abem que mais? Só quem tem tempo para estes pequenos/grandes momentos, tem o poder e a capacidade de sonhar...




PEDRA FILOSOFAL


Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.


In Movimento Perpétuo – António Gedeão