sexta-feira, agosto 11, 2006

De todos os cantos do mundo - Sophia (até Setembro)




De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Sophia Mello Breyner Andresen



Que as curvas das palavras de verão vos inspirem grandes e gratos dias de férias!

Até Setembro...

quinta-feira, agosto 10, 2006

Espalhem a notícia - Sérgio Godinho

“Espalhem a noticia
do mistério da delicia
desse ventre
Espalhem a noticia
do que é quente e se parece
com o que é firme e com o que é vago
esse ventre que eu afago
que eu bebia de um só trago
se pudesse

Divulguem o encanto
o ventre de que canto
que hoje toco
a pele onde à tardinha desemboco
tao cansado
esse ventre vagabundo
que foi rente e foi fecundo
que eu bebia até ao fundo
saciado

Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher

A terra tremeu ontem
nao mais do que anteontem
pressenti-o
O ventre de que falo como um rio
Transbordou
e o tremor que anunciava
era fogo e era lava
era a terra que abalava
no que sou

Depois de entre os escombros
ergueram-se dois ombros
num murmurio
e o sol, como é costume, foi um augurio
de bonanca
saos e salvos, felizmente
e como o riso vem ao ventre
assim veio de repente
uma crianca

Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher

Falei-vos desse ventre
quem quiser que acrescente
da sua lavra
que a bom entendedor meia palavra
basta, é só
adivinhar o que ha mais
os segredos dos locais
que no fundo sao iguais
em todos nós

Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo do mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher”

Espalhem a notícia – Sérgio Godinho


(VICENTE DO REGO MONTEIRO-Mulher com Galinhas)

quarta-feira, agosto 09, 2006

Segredo - Miguel Torga


"Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar... "


Miguel Torga, in Diário VIII

segunda-feira, agosto 07, 2006

Mulher, casa e gato - Herberto Helder



"Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça
da casa, uma luz violenta.
Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.
A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia
pensa-a, enquanto
o gato imagina a elevada casa.
Eternamente a mulher da mão passa a mão
pelo gato abstracto,
e a casa e o homem que eu vou ser
são minuto a minuto mais concretos.

A pedra cai na cabeça do gato e o peixe
gira e pára no sorriso
da mulher da luz. Dentro da casa,
o movimento obscuro destas coisas que não encontrampalavras.
Eu próprio caio na mulher, o gato
adormece na palavra, e a mulher toma

a palavra do gato no regaço.
Eu olho, e a mulher é a palavra.

Palavra abstracta que arrefeceu no gato
e agora aquece na carne
concreta da mulher.
A luz ilumina a pedra que está
na cabeça da casa, e o peixe corre cheio
de originalidade por dentro da palavra.
Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante.
Se toco (e é apaixonante)
a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra.
Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.
Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher
com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.
A mulher da palavra. A Palavra.

Deito-me e amo a mulher. E amo
o amor na mulher. E na palavra, o amor.
Amo com o amor do amor,
não só a palavra, mas
cada coisa que invade cada coisa

que invade a palavra.
E penso que sou total no minuto
em que a mulher eternamente
passa a mão da mulher no gato
dentro da casa.
No mundo tão concreto. "

In ‘As Musas Cegas IV’
Herberto Helder

sexta-feira, agosto 04, 2006

É preciso avisar... - Joaõ Apolinário



“É preciso avisar toda a gente
dar notícias informar prevenir
que por cada flor estrangulada
há milhões de sementes a florir.

É preciso avisar toda a gente
segredar a palavra e a senha
engrossando a verdade corrente
duma força que nada detenha.

É preciso avisar toda a gente
que há fogo no meio da floresta
e que os mortos apontam em frent
o caminho da esperança que resta.

É preciso avisar toda a gente
transmitindo este morse de dores.
É preciso imperioso e urgente
mais flores mais flores mais flores “

João Apolinário
É preciso avisar...

quinta-feira, agosto 03, 2006

O que for, há-de ser - Dulce Pontes

E o que teve ser ser... foi!
As viagens fazem-se de varias maneiras. Isto toda a gente sabe e, é mesmo um lugar comum dizer que, a música tem o poder de nos levar a viajar por “mares nunca antes navegados“.

A verdade é que uma das minhas formas preferidas de viajar é pelo som, não só através do som da música, mas da musicalidade das palavras cantadas ou ditas (como é cada vez mais raro termos o previlégio de ouvir textos, poéticos ou não, bem ditos fico-me, normalmente, pelas entoadas).

Ontem recordei os caminhos de terra calcorreados há tanto tempo (terá passado realmente assim tanto tempo?! ou será um mero artifício subconsciente de nos afastar dos espinhos e empurrar a caminho do horizonte?) e percebi que a estrada que tanto procurei em mapas e constelações, somos nós que fazemos, tijolo amarelo por tijolo amarelo à força de avançar e de acreditar... porque o caminho, esse, é sempre em frente jamais volta atrás.


"Ai seja o que for
que o amor me traga,
sei que é Primavera neste Inverno;
Ver que o olhar
é de pequenas rugas e de flores,
tão terno...
Sonhar seu beijo na fronte,
a luz no horizonte,
como o primeiro raio de sol.
Sentir por dentro da calma
a paz e a alma dos que não estão sós.


Linda ciranda
ciranda linda,
gira que gira e torna a girar;
Quando eu morrer
oh ciranda linda, deixa um luzeiro
para que o possa ver!


E sempre à volta a girar,
sempre em volta, no ar
de alma solta a te amar.
Para sempre girar,
sempre em volta no ar,
meu amor, meu amor,
o que for, há-de ser!"

O que for, há-de ser
Dulce Pontes

quarta-feira, agosto 02, 2006

Esperando - Chico Buarque


"Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa
E a gente vai ficando pra trás
Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento
Desde o ano passado
Para o mês que vem

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro espera o carnival
E a sorte grande no bilhete pela federal
Todo mês
Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando aumento
Para o mês que vem
Esperando a festa
Esperando a sorte
E a mulher de Pedro
Está esperando um filho
Pra esperar também

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de sperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro está esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo
Espera alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar
Mas pra que sonhar
Se dá o desespero de esperar demais
Pedro pedreiro quer voltar atrás
Quer ser pedreiro pobre e nada mais
Sem ficar esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando aumento para o mês que vem
Esperando um filho pra esperar também
Esperando a festa
Esperando a sorte
Esperando a morte
Esperando o norte
Esperando o dia de esperar ninguém
Esperando enfim nada mais além
Da esperança aflita, bendita, infinita
Do apito do trem

Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem
Que já vem, que já vem, que já vem (etc.)"


Pedro Pedreiro
Chico Buarque/1965