segunda-feira, julho 31, 2006

A arte de ser feliz - Cecília Meireles


"Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.

Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim. "

Cecília Meireles

sexta-feira, julho 28, 2006

Silêncio! Que se cantou o fado...


Foi ontem no Castelo de Monsaraz o início da tournée de Mariza... e que início!
Para quem (como eu) não pôde lá estar a Antena 1 emitiu em directo o concerto numa noite que, segundo Armando Carvalheda, foi "perfeita não fosse o vento que teimou em aparecer" e, mesmo sem convite, se fez notar aqui e ali na transmissão.
Dos músicos "os meus amigos" como a fadista os apresenta, esperamos sempre o melhor e, comme d'habittude, foi com o melhor que nos brindaram. Do público ouvimos vozes afinadas e sempre solícitas às provocações da fadista. Do "alinhamento" cantado, todas as músicas poderiam ser realçadas, todos os poemas deveriam ser escolhidos e assinalados.
A Mariza, não sei se fruto do avançado da hora ou se por pura telepatia, aquela voz poderosíssima, quase irreal, teve o poder de me teletransportar para dentro das muralhas do Castelo de Monsaraz, pois se afirmar que consegui ver claramente a sua figura esguia ondulando pelo palco ao sabor dos ritmos cantados, não estarei de forma alguma a mentir...
Aqui ficam as letras de Fernando Pessoa, com as curvas que Mário Pacheco musicou mas só Mariza sabe entoar:
"Há uma musica do Povo,
Nem sei dizer se é um Fado –
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado…

Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser…
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver…

Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção…
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração…

Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido…
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!"
Fernando Pessoa
No fim do concerto, ficou a "saudade do futuro" de quem aguarda ansiosamente o lançamento em DVD do Concerto de dia 6 de Setembro de 2005, no Jardim da na Torre de Belém com a presença de Jaques Morelenbaum e a Sinfonieta de Lisboa e aquele gosto acre que o FADO nos deixa na boca.

quinta-feira, julho 27, 2006

A verdade - Almada Negreiros

"A Verdade

Eu tinha chegado tarde á escola. O mestre quiz, por força, saber porquê. E eu tive de dizer: Mestre! Quando sahi de casa tomei um carro para vir mais depressa mas, por infelicidade, deante do carro cahiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo.

O mestre zangou-se comigo: Não minta! Diga a verdade!

E eu tive de dizer: Mestre! Quando sahi de casa... minha mãe tinha um irmão no extrangeiro e, por infelicidade, morreu hontem de repente e nós ficámos de lucto carregado.

O mestre ainda se zangou mais comigo: Não minta! Diga a verdade!!

E eu tive de dizer: Mestre! Quando sahi de casa... estava a pensar no irmão de minha mãe que está no estrangeiro há tantos annos sem escrever. Ora isto ainda é peor do que se elle tivesse morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de lucto carregado ou não.

Então o mestre perdeu a cabeça comigo: Não minta, ouviu? Diga a verdade, já lh’o disse!

Fiquei muito tempo calado. De repente, não sei o que me passou pela cabeça que acreditei que o mestre queria effectivamente que lhe dissesse a verdade. E, creança como era, puz todo o pezo do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração á solta confessei a verdade: Mestre! Antes de chegar á Escola há uma casa que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida de côr-de-rosa! A boneca tinha a pele de cêra. Como as meninas! A boneca tinha olhos de vidro. Como as meninas! A boneca tinha tranças cahidas. Como as meninas! A boneca tinha dedos finos. Como as meninas! Mestre! A boneca tinha os dedos finos... "

Almada Negreiros

quarta-feira, julho 26, 2006

Há palavras que nos beijam - Alexandre O'Neill

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.


Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.


De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.


(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)


Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.